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2 em Autoestima/ Comportamento/ crônicas no dia 03.11.2017

O dia do motorista nota 4.97

Eu jurava que não era uma pessoa que reparava na nota dos motoristas de Uber. Claro que se for uma nota muito baixa, talvez isso me faça desistir da viagem. Nesse dia a nota que apareceu me chamou a atenção por outro motivo: 4.97.

Nunca tinha aparecido para mim um motorista com nota tão alta. A maioria fica oscilando entre 4,7 e 4,8. Enquanto o carro não chegava, fiquei imaginando o que Joney tinha para receber uma média tão alta. Será que ele era daqueles tipos super simpáticos? Bom de papo? Será que ele oferecia água com e sem gás, Coca e Mate para quem quiser escolher? Chocolate Lindt?

Entrei no carro e finalmente conheci Joney. Aquelas figuras que sabem arrumar conversa até com quem não sabe falar ainda. Eu bem admiro esse tipo de gente, afinal, se tem algo que eu tenho dificuldade na vida, é puxar assunto com desconhecidos ou pessoas que não tenho tanta intimidade assim. Para Joney isso não parecia em um problema ou um empecilho para estabelecer uma comunicação. Acabamos engatilhando uma conversa, em uma viagem bem agradável.

O motivo do 4.97 chegou apenas no final. Quando estava quase saindo, ele pegou seu celular, abriu o aplicativo do Uber e falou: “adorei nossa conversa, você é muito legal, olha aqui, to te dando 5 estrelas”. Ele nem precisaria ter feito isso para garantir suas 5 estrelas, mas esse percurso está na minha cabeça por dias porque foi muito Black Mirror.

Por um lado admirei a motivação de Joney para garantir suas 5 estrelas. Ele precisa de uma nota alta para ter um diferencial no aplicativo, para não ter gente desistindo de pegar seu carro. Não tive dúvidas que ele sabe pegar deixas nas conversas para continuar com outros assuntos, além de ser simpático e um tanto quanto carismático, além de bom motorista, claro. Ter mostrado a nota que ele me deu foi a cereja do bolo de uma estratégia muito bem bolada.

Mas isso me fez pensar sobre a minha nota. Parcos 4.74. Não sei se motoristas cancelam viagens com passageiros que têm nota abaixo disso da mesma forma que o Uber corta quem tem nota abaixo de 4,7, mas não é das melhoras notas. Poxa, eu costumo entrar no carro, dar bom dia/boa tarde/boa noite, agradeço a corrida no final, sou educada mas não costumo puxar conversa. O que to fazendo de errado? O que será que pensam de mim quando eu chamo um carro pelo aplicativo? Será que, assim como Joney, eu deveria estar me esforçando para aumentar minha nota? Será que eu deveria ser mais simpática? Será que eu deveria arrumar assunto(sendo que isso não é natural para mim?)? Será que se existisse um sistema de notas como no 1o. episódio da 3a. temporada de Black Mirror, eu também seria uma pessoa com nota mais ou menos?

Sou totalmente a favor de ser sempre nossa melhor versão, trabalhar nossos pontos fracos e superar nossas dificuldades, mas defendo isso para que a gente se sinta melhor conosco.  Mudar para agradar os outros ou passar uma impressão de alguém que você não é na maior parte do tempo? Não, obrigada. Prefiro continuar sendo educada e mais fechada e deixar a popularidade para o Joney.

1 em Autoestima/ Convidadas/ Saúde no dia 31.10.2017

Outubro Rosa: Juliana Kozlowski

Meu nome é Juliana, tenho 25 anos e em maio de 2017 recebi o diagnóstico de câncer de mama. Assustou saber que tão nova, eu estaria vivendo essa doença sem ter nenhum histórico familiar. Fui pega de surpresa depois de ficar 3 meses correndo atrás do diagnóstico.

Tudo começou quando eu estava deitada vendo televisão e senti a parte inferior da mama esquerda levemente endurecida. Procurei a ginecologista para ela fazer o exame do toque. Em seguida, ela pediu uma ressonância para me deixar mais tranquila, mas o exame não detectou nada alarmante. Relaxei e 1 mês e meio depois.. Boom! O seio ficou endurecido e foi quando eu fui atrás de um mastologista. Fiz mais duas ultras, uma ressonância e a biópsia, que foi a única capaz de revelar o diagnóstico precisamente.

Por ser muito jovem foi bem difícil mudar minha vida agitada, de noitadas e estudos para uma vida de consultórios e exames médicos. Mas procurei buscar o lado bom disso tudo, ver em cada coisa um motivo para agradecer. Em um país em que a população está em leitos médicos em corredores de hospital, eu tinha que agradecer por ter acesso a uma boa rede de saúde.

Inúmeras coisas passam pela sua cabeça tal como a possibilidade de concretizar ou não os seus sonhos. Além disso, a preocupação com a aparência – aquele medo de ficar careca e como lidar com essa nova aparência. Como eu iria lidar com a minha nova imagem, será que eu ia me aceitar ou não? Eu sempre alisei o cabelo e há dois anos resolvi me aceitar e passar pela transição capilar. Finalmente estava com os cachos desenvolvidos, quando por ironia do destino, depois que eu sinceramente os aceitei, eles foram embora.

FOTO: @juliaassisfotografia

É engraçado porque eu sempre tive cabelos longos e nunca imaginaria que iria gostar tanto de ficar careca. Parece que a vida te vira do avesso e você descobre que fica melhor assim.

Mal eu sabia que o câncer estava prestes a me dar uma baita lição. Mudou a lente com que eu via o mundo e me enxergava, você de fato começa a ver a beleza de dentro de você, perceber o quão supérfluo seu cabelo pode ser, quando você tem um sorriso que mostra alma, que ostenta vida. Isso tudo aconteceu porque perdendo os cabelos, eu que tinha medo da cara redondinha, do braço mais gordinho, percebi que nada disso importava. A minha saúde e a minha felicidade não dependiam desse padrão que eu mesma me impus por décadas.

Às vezes, a gente só precisa mudar a forma que se vê, deixar de lado aquele olhar severo com a nossa aparência, aquela busca desenfreada pela perfeição e pelo tal padrão social. Antes do câncer, eu lutava muito pra aceitar meu sobrepeso, minhas dificuldades com a balança. Vivia em guerra e não gostava de algumas partes do meu corpo. A gente olha tanto pra fora, revistas, novelas e instagrams, que esquece de olhar pra dentro, de enxergar nosso real valor e as nossas inúmeras qualidades. Insistimos em olhar aquela espinha, aquela gordurinha localizada ou qualquer outro defeito. Hoje, eu consigo enxergar a Juliana incrível que eu sempre tive dentro de mim: amiga, determinada, sincera, espontânea e engraçada. Os que me rodeavam tentavam sempre me mostrar esse meu lado, mas acho que eu ainda não estava pronta para vê-lo. Agora não só me apoderei de tudo isso, como consigo me reconhecer assim.

Foto: @juliaassisfotografia

A doença nos faz agradecer por cada imperfeição, por cada membro do nosso corpo e mais do que tudo isso, por estar viva mais um dia.

O cabelo caiu mas a auto estima subiu depois que você percebe o seu lugar no mundo, troca o olhar crítico e rígido por olhos de carinho, ternura e compreensão. Hoje eu vejo a vida com outros olhos, com muito mais cores e amores. Valorizo cada pequena conquista, cada passo dado e cada sonho a se realizar.

Outubro deixou de ser um mês qualquer pra mim, passei a ter uma obrigação quase que moral de espalhar amor, lembrar às amigas e leitoras de não só se tocarem, fazerem seus exames, mas também a tentar passar um pouco o caminho do melhor amor: o próprio. Amem-se, toquem-se e sejam felizes! Não tem maquiagem mais bonita do que o sorriso sincero de quem tem o melhor amor do mundo: o próprio!

9 em Autoestima/ Destaque/ Saúde no dia 30.10.2017

Outubro Rosa: Erika Galhardi

Abril de 2017. Mês normal, nada de especial. Apenas mês dos meus exames anuais. OK. Tudo agendado e lá vou eu.

Há quase 10 anos faço meus exames de imagem com a mesma médica (uma boa dica que dou à vocês, fica mais fácil de acompanhar os laudos). Viramos amigas pessoais, claro. Como podia ser diferente? Falo pelos cotovelos. 

Fui chamada. Coloquei aquele roupão horrível. Todas nós, mulheres, nos esbarrando na saleta de espera. Uma é chamada para a mamografia, outra para o ultrassom. Ninguém se fala. Chato isso, né? Afinal são exames de rotina, todas nós temos que fazer. E porque não fazê-lo parecer mais prazeiroso?

Entrei. Fiz os meus. A auxiliar fala “temos que repetir a mamografia”. Eu super ok, afinal minha médica é minha amiga, só pediu para repetir porque sei lá, ela me adora. Hahaha!

Acabei. E vem ela “apareceu um nódulo que não aparecia nos outros exames. Vamos fazer uma ressonância”. Ok? Claro que não, pirei na hora. Fiz mil perguntas mas ela me acalmou.

Ressonância marcada. Ela quis me acompanhar. Nem desconfiei, afinal somos amigas.

Acabou o exame e ela me pede pra esperar um pouquinho lá fora enquanto agradecia a equipe. Estava relaxada, mexendo no celular, e a observo, de canto de olho se aproximar. Parei e acompanhei cada passo dela em minha direção. Acho que foram uns 15 segundos mas pra mim foi uma câmera lenta sem fim. Entendi. Comecei a chorar. Ela me deu muito carinho mas tinha que ter o último exame a fazer: biópsia.

Fiz na certeza que daria maligno. Falta de fé? Não. Me preparando para o que viria pela frente.

E deu. Meu chão abriu. Minha barriga doía. Gritei, soquei a parede, andei em círculos por “horas” e só falava “ estou com câncer de mama, não acredito. Não tenho histórico, me cuido pra caramba…”Mas em nenhum momento questionei por quê, nenhum.

Respirei fundo, avisei à família. E foi aqui que tudo mudou dentro de mim. Senti uma força gigantesca, afinal eu tinha que dar apoio aos que iriam me apoiar. Não me julguem, sou assim. 

Cirurgia marcada, com 2 opções de data: 8/5 ou 15/5. Escolhi 8/5 e não foi à toa. Era meu aniversário, 49 anos. O médico insistiu para que eu fizesse dia 15 mas eu estava firme. Deus me deu uma nova chance de viver. Dia 8 renascerei!

A cirurgia foi um sucesso. Fiz o esvaziamento das mamas, coloquei próteses, não tive comprometimento dos gânglios e nem perdi meus bicos do seio. Fazer quimio ou rádio estavam praticamente fora de cogitação. Maravilha? Sensacional.

Depois de 15 dias chego para o meu médico e peço uma notícia boa. Recebo uma boa e um ruim. A boa? A cirurgia foi efetiva, deu tudo certo. A ruim, precisaria fazer quimio. Não acreditei, claro que não. Eu fazer quimio? Não.

Lembro-me de dizer “posso chorar?”. E foi assim. Foi a 2a e última vez que chorei. Respirei o mais fundo que eu consegui e falei “vamos lá”.

E começou aí a nova Erika. Olhei para mim mesma diante do espelho, e me disse “você não vai cair. Algo Deus quer de você”. Sou muito religiosa, mulher de fé, cantora católica… 

Começou a quimio. Dia difícil. Tudo novo. Medo de todas as reações que eu poderia vir a ter. Não tive. Oi? Isso é normal? Não sei mas nada tive. 

O cabelo começou a cair. Acho que essa parte, para a mulher, é a pior. Claro que significa a cura, mas não é fácil. E caiu muito. Mais uma decisão: raspar. Era muito mais doloroso ver meu travesseiro cheio de cabelo, o chão, o box. Para que adiar um sofrimento? Raspei. Me senti melhor.

Vamos aos lenços, então. Porque peruca eu já tinha certeza que não usaria. Lenços lindos comprados, não me adaptei. Incomodava, escorregava, sentia calor. Desisti.

Qual a opção? Assumir a carequice. E, para minha surpresa maior, fiquei linda! Nunca imaginaria isso. Aliás, acho que quase nenhuma mulher se imagina linda careca.

Então veio a ideia: que tal eu fazer stories do meu dia-a-dia? Que tal mostrar para as pessoas que podemos estar carecas, em tratamento de quimioterapia e não perder a vaidade, o bom humor, a esperança? E assim fiz. Comecei a virar a câmera do celular para mim e a fazer os vídeos. Nada elaborado, não. Só eu mesma.

Os dias foram passando, os vídeos aumentando e as respostas das seguidoras também. Vi que o retorno era positivo, muito positivo. Conversar com pessoas que me davam força e segurar as mãos de quem passou ou está passando o mesmo que eu me deu forças.

A quimo não me derrubou. Sou uma exceção? Não sei. Minha vida praticamente não mudou nada, apenas ficou mais lenta. Continuei malhando, fazendo massagem, cantando. Apenas sinto um cansaço muito grande, em poucos dias, e só.

A superação é pessoal, claro. Cada um tem o seu tempo, a sua hora de respirar e dar a volta por cima. Cada um tem sua hora de dizer “é isso que eu tenho e vou aprender a lidar com isso”. Foi o que fiz. Tenho outra opção no momento? Posso fugir do tratamento? Não. E qual a melhor maneira de passar por isso? Tirando o melhor de mim, fazendo com que meus dias sejam os mais normais possíveis. Afinal, é uma fase e toda fase passa. Isso mesmo, toda fase passa, tem princípio, meio e fim. Meu fim será dia 27/11, a última quimio.

Qual a lição que posso passar para vocês com tudo isso? Que só nós podemos dar direção às nossas vidas, que as coisas podem ser difícies, quase impossíveis aos nossos olhos, mas Deus nos impulsiona. Ele nos faz capaz. NUNCA DESISTAM. Somos vencedoras.

E que nesse mês do Outubro Rosa todas nós tenhamos a consciência de fazer o auto-exame e continuar fazendo exames de forma rotineira. Nem precisa ser em Outubro, temos o resto todo do ano pra isso! O câncer de mama tem cura, ainda mais sendo descoberto à tempo.

Eu sou Erika Galhardi, tive câncer de mama esse ano e estou CURADA.