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autoestima profissional

3 em Autoestima/ Patrocinador no dia 27.07.2018

Uma semana especial que me fez rever minha autoestima profissional

Preciso confessar uma coisinha para vocês. Ao contrário da Jô, nunca tive grandes problemas com autoaceitação corporal. Claro que já me senti inadequada em diversos ambientes, já entrei e saí de dietas e tenho uma questão com meus peitos que até hoje descubro que tem coisa que ainda está mal resolvida, mas nada disso me fez adoecer para conseguir me encaixar em um padrão.

Em contrapartida, tenho questões de autoestima que vão muito além da aparência, e em vários momentos minha maior questão se encontra no ramo profissional. Por inseguranças que eu ainda não entendi, nunca me achei boa no que fazia, tampouco achava que o meu trabalho era digno de grandes feitos. Em entrevistas de emprego eu sempre fui o poço da insegurança, apresentava meu portfolio como se estivesse apresentando um trabalho mal feito para o professor, morrendo de vergonha.

Inclusive, um dos motivos para criarmos o Futi foi justamente arrumar uma outra forma de apresentar o nosso trabalho para as marcas. Nossa ideia era que o blog nos ajudasse a conseguirmos trabalhos dentro da indústria da moda, e conseguimos. Entramos na área e trabalhei por anos fazendo produção de conteúdo para marcas, mas o Futi sempre permaneceu firme, forte e o trabalho principal. Mesmo assim demorou para eu falar com todas as letras o que eu era. Eu sempre dava outros nomes para o trabalho, antes de falar que eu era blogueira. Toda vez que falava essa palavra, vinha à tona na minha cabeça todas as críticas e deboches que já ouvi (detalhe: nenhum direcionado à mim) nesses 8 anos de blogueiragem. Ainda levava na minha cabeça a imagem da mulher desocupada, fútil (é até irônico perceber que eu pensei no nome do blog como uma ironia às críticas e mesmo assim me deixei afetar) e que não precisava trabalhar – e praticamente esquecia que nós duas temos uma empresa real, com cash flow, impostos mil a pagar e varias pendências para entregar.

Em 2016, me mudei de país e virei mãe/dona de casa em tempo integral. É engraçado pensar que o blog me salvou nessa época, porque me manteve ativa profissionalmente e com objetivos além das tarefas domesticas. Mas ainda assim me pegava falando que “eu tinha um blog” ao invés de dizer a tal palavra “blogueira” toda vez que me perguntavam o que eu fazia.

Daí veio o #paposobreautoestima e tudo mudou. Foram eventos, pool parties, piqueniques, matérias em veículos que juraram para a gente que nunca sairíamos, envolvimento cada vez maior com as leitoras, milhões de responsabilidades que nunca tivemos e nossa carreira de blogueira praticamente alçando níveis nunca imaginados por nós quando criamos o Futi lá em 2010. Mesmo assim, toda vez que ia falar de cada conquista que tivemos, parecia que tinha algo dentro de mim que me incentivava a não falar muito sobre meu trabalho. Uma voz chamada insegurança me fazia crer que era melhor eu ser humilde e não ficar me gabando das minhas conquistas. Imagina só, foi recentemente que me peguei surpresa de saber que amigas minhas queriam ir para os eventos que eu fazia porque de fato elas gostavam do meu trabalho, e não porque elas estavam ali apenas para me prestigiar! Já deu pra ver que existia um problema de autoestima profissional ali, né?

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Essa semana que passou, algo mudou de verdade na minha autoestima no que tange a percepção da minha carreira. Foram 4 dias de trabalho intenso com a Bio Extratus e eu jurava que o motivo da mudança era a viagem em si. Foi significativa por ter sido a primeira pós maternidade, a primeira que eu senti que larguei tudo para me dedicar exclusivamente ao trabalho, a primeira que me fez ficar dividida, porém realizada.

Mas não foi só isso. Ali, em meio às mais de 12 horas de trabalho por dia, pude ver com meus próprios olhos algo que a Joana já me falava há séculos, mas que eu, com a minha nuvem de insegurança profissional, não conseguia entender. Mesmo sabendo no quanto a equipe de Bio Extratus acredita na gente (afinal, já são 4 anos trabalhando juntos, né, se isso não é acreditar…) foi só ali, olhando nos olhos de cada pessoa que participou da maratona e convivendo com elas que eu consegui alcançar do tamanho da nossa importância. Do quanto o tom do nosso trabalho com o papo sobre autoestima é importante pra marca. Ficou claro o quanto a empresa acha fundamental que levemos a nossa mensagem pra mais longe e o como era importante que contássemos sobre nossos aprendizados para todas as pessoas envolvidas na campanha #amesuanatureza.

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E de repente me vi ali, logo eu, que sempre me senti desconfortável em frente às câmeras, estava topando tudo. Inclusive topei fazer uma campanha – SOZINHA. Gravando, tirando foto, praticamente me sentindo em um episódio de Bio Extratus’s Next Top Model e, para minha surpresa, estando completamente à vontade naquele ambiente. Em nenhum momento me peguei em hábitos que eu tinha há alguns anos, isso é, achando erros, me sentindo inferior, com as orelhas fervendo de tanta vergonha e querendo simplesmente sumir e desistir de tudo. Eu não sei se consigo passar nesse parágrafo o tamanho da minha surpresa com essa versão minha que eu nem sabia que existia, mas só posso assegurar que foi grande. 

Só sei que voltei com uma autoconfiança que eu nem sabia que existia, completa como me senti no último piquenique em Nova York ou até mesmo no bate papo que fiz com a Nina Gabriella e a Fabi Saba por lá. Aos poucos consigo ver que valorizar o que eu faço não tem nada a ver com não ser humilde. Eu posso, sim, falar em voz alta sobre as lindas mensagens que recebemos ou sobre o quanto percebo como nosso trabalho faz diferença na vida de várias pessoas. Sai dali mais confiante que nunca de que a Bio Extratus confia em mim tanto quanto eu confio neles e me fez ver a real importância de ser embaixadora de uma marca como essa.

A semana que passou mexeu ainda mais na minha autoestima, foi um marco que me ajudou a deixar ainda mais claro tudo que o #papo tem feito por mim. Ao abrir tantas inseguranças para vocês nesse post só me resta dizer que cuidar da minha autoestima profissional tem sido muito importante para me deixar mais autoconfiante. Para todas foram muitas fotos, vídeos e conteúdos que vocês verão ao longo do semestre, para mim foi muito mais do que isso, consegui enxergar em mim um valor que estava um pouco perdido.

1 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento no dia 14.03.2018

Papo sobre mulheres: a eterna sensação de fraude e a síndrome do impostor no universo feminino

Se algumas dessas frases ou sentimentos já passaram pela sua cabeça, temos muito mais em comum do que você pode imaginar: “Um dia todos vão descobrir que não sou isso tudo que pensam que eu sou…”, “O que que eu estou fazendo aqui no meio dessa gente tão inteligente! Eu não sei nada.”, “Sinceramente, não sei como cheguei até aqui, foi pura sorte!”, “Dessa vez vão me desmascarar, tô perdida!” e “Eu sou uma fraude!!!”

Durante anos esses pensamentos em conjunto com emoções de medo, insegurança e ansiedade pairavam na minha cabeça cada vez que eu conquistava algo como um novo emprego, uma promoção ou algo que me destacasse. Aliado à uma baixa estima que invadia outras áreas da minha vida, esses pensamentos estavam enraizados na minha vida profissional. Comecei a trabalhar muito cedo, e sempre atribuía meu sucesso a sorte (como passar para uma faculdade de direito federal) ou à minha simpatia. Por ser uma pessoa extrovertida, sempre me relacionei bem com as pessoas e acreditava que não era minha competência e minha inteligência que me fez crescer de uma secretária à me tornar gerente de RH de uma grande multinacional, mas sim a minha capacidade de agradar e me relacionar com as pessoas. Quando eu olhava para trás ou lia meu currículo, revisitando minhas conquistas, racionalmente conseguia vê-las, mas no meu coração sempre achava que não era boa o suficiente e que a qualquer momento todos ao meu redor descobririam isso.

Em 2013, fiz uma formação em coaching para acrescentar em minha liderança e foi quando descobri nessa profissão um chamado, um propósito. Então quando eu decidi tocar minha carreira de coach, aí mesmo que a porca apertou. Porque todos os meus medos de julgamento, de não aceitação e principalmente o medo do sucesso se escancararam. Sim, minhas caras, muito maior que o medo de fracassar, o medo de ser bem sucedida era o que mais me paralisava. Porque quanto mais bem sucedida eu era, maior a inadequação e essa sensação de fraude se estabelecia, maior a pressão de ter que dar certo, e também maior o medo de ser “descoberta”. Então já que eu não queria isso tudo, o que fazia? Me sabotava, protelava. Começava a adiar projetos, a buscar parcerias erradas, a gastar dinheiro de maneira equivocada, ou seja, fazia de tudo para dar errado.

Como coach de carreira, estavam ali na minha frente, em muitas sessões, clientes que me relatavam o que vivenciavam, e era exatamente como eu me sentia também. Clientes incríveis, cheias de potencial, com um histórico impecável, batalhadoras, mas que não se achavam o bastante, se achavam verdadeiras fraudes e não merecedoras de suas conquistas. E foi a partir dai, em tentar entender o que acontecia com elas (e de tabela comigo) que descobri o nome desse conjunto de pensamentos e emoções que faziam as minhas clientes e eu, se sabotarem profissionalmente: a Síndrome do Impostor.

ilustra: Jenny Chang

ilustra: Jenny Chang

Em 1970, as pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes apresentaram o termo “fenômeno impostor” para descrever o comportamento que observaram em alguns de seus alunos. Parecia que, apesar de suas melhores notas e conquistas, eles se recusaram a tomar posse de seu sucesso. E essa tendência não se limitava aos estudantes de pós-graduação. Muitas pessoas se sentem como fraudes – como não são dignas de seu sucesso, não importa quantos troféus, certificados ou elogios tenham recebido. Eles diminuem o significado de suas realizações e os atribui à sorte ou a outras forças fora de seu controle, em vez de seu próprio esforço, dedicação e inteligência. Para pessoas com síndrome de impostor, seu maior medo é que as pessoas logo descobrirão que são fraudes e não são tão habilidosas, inteligentes ou competentes quanto a sua própria realização.

Muitas pessoas famosas já confessaram sofrer dessa síndrome, e de acordo com a escritora Valerie Young, ela é muito mais comum em mulheres, por alguns motivos que vai desde o julgamento das mulheres em uma sociedade machista, aos estereótipos psicológicos e emocionais que marcam nosso gênero. A atriz Kate Winslet já confessou que às vezes acordava pela manhã antes de sair para uma filmagem e achava que não conseguiria, que era uma fraude. Assim como Natalie Portman, Emma Watson, Jody Foster, Lady GagaLupita Nyongo disse que depois que ganhou o Oscar, isso deixou as coisas ainda piores do que eram antes. E essa lista se estende à profissionais incríveis em todas as áreas, não só artistas. Sheryl Sandberg, COO do Facebook, relatou em seu livro que toda vez que era chamada em sala de aula, tinha certeza de que estava prestes a se envergonhar. Toda vez que fazia um teste, tinha certeza de que tinha ido mal. E toda vez que não se envergonhava – ou mesmo se superava – ela acreditava que tinha enganado a todos novamente. Que um dia, em breve, a verdade viria à tona.

Na medida em que eu ia pesquisando sobre o assunto, me identificava com cada relato e ia ficando claro que eu realmente sofria dessa síndrome e que muitas das minhas clientes também. Mas beleza, e agora? O que fazer com isso?  Entender qual era o “monstro” por trás de todos esses sentimentos foi importante para entender como vencê-lo. E foram nesses mesmos relatos que encontrei a força para me superar. Pois essas mulheres eram maravilhosas e haviam feito coisas incríveis, apesar da síndrome. Elas não se deixaram paralisar. Eu deveria atacar então a fonte de onde brotava tanta insegurança que se revelava através de um perfeccionismo sufocante: minha autoestima. Foi um mergulho muito profundo e bem dolorido em resgatar eventos no qual eu ainda não havia me perdoado, e que eram gatilhos para me sentir insuficiente. Foi necessário também perdoar pessoas que, intencionalmente ou não, contribuíram para instalar no meu intimo a minha desvalorização.

De acordo com Valerie Young, essa Síndrome nunca vai embora e confesso que por enquanto, acredito nela. Escrever esse textoàa convite da Joana foi um desafio. “Será que vão gostar? Será que está bom o suficiente? E se não gostarem? Quem sou eu no meio de tantas mulheres muito mais inteligentes para falar sobre isso? E se descobrirem que, na verdade, eu não sei é nada? Agora sim vão descobrir que sou uma fraude” foram pensamentos que permearam minha cabeça antes, durante e depois de enfrentar esse desafio. Eu chamo esses pensamentos de “trituradores”, pois eles são capazes mesmo de acabar com sonhos e o amor próprio. Mas sabe o que mudou, na Bel de antes e na de agora? Que assim como as mulheres incríveis que eu citei nesse texto, eu agi, eu escrevi, apesar de todos os pensamentos. Eu superei minha auto sabotagem. E nesse caminho, me tratei com muito respeito e compaixão. Não neguei os pensamentos, mas o rebatia em cada frase, cada parágrafo escrito. 

Pode ser que eu carregue essa síndrome comigo pro resto da minha vida, mas a medida que me supero, eu calo essa voz interna. E na medida em que eu a calo, eu dou voz a coisas muito mais lindas e poderosas que habitam em mim. Pois eu mereço isso. E assim como eu, você também. Se convença disso, mesmo que no inicio soe como uma mentira. Mergulhe fundo no seu autoconhecimento, busque apoio se necessário, mas não desista dos seus sonhos por causa dessa sensação de fraude.

Nesse mês das Mulheres, peço para que se liberte dessa crença que você não é o suficiente. Seja um agente de superação, por você e por todas as mulheres que te cercam. Pois como disse Marianne Williamson “Nosso maior medo não é o de sermos incapazes. Nosso maior medo é descobrir que somos muito mais poderosos do que pensamos…Quanto mais livres formos, mais livres tornamos aqueles que nos cercam”.

12 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento/ Destaque no dia 12.03.2018

Papo sobre mulheres: Representatividade feminina e o poder de se reconhecer em outra mulher!

Para quem não me conhece, sou Carolina Burgo, publicitária e empresária de moda e me senti muito honrada de ser convidada para escrever uma coluna especial aqui no Futi. Obrigada, Jo e Carla! <3

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No texto de hoje vou falar sobre a importância da representatividade feminina no ambiente de trabalho. O texto é longo e dolorido, um desabafo enorme, mas eu queria retratar algumas situações que vivi com detalhes, porque sei que muitas mulheres vão se identificar com alguns sentimentos.

Minha jornada para processar tudo que escrevi aqui e tirar alguma coisa boa das inúmeras frustrações foi tão longa quanto o próprio texto.

Meu primeiro exemplo de liderança feminina foi a minha mãe. Não tive figura masculina dentro de casa, portanto meu referencial de força e trabalho veio inteiramente da conduta feminina. Minha mãe era o grande exemplo da casa, era quem administrava não só a vida doméstica como seu próprio negócio.

As inúmeras dificuldades da vida engrossaram sua casca e como líder ela sempre foi muito exigente, trabalhadora, justa, ética, nem sempre delicada, mas disposta a tirar o melhor de cada pessoa e a primeira a dar o exemplo de compromisso com o trabalho. Para mamãe, quando você diz que “não pode ou não consegue” fazer algo, você está automaticamente se fechando para o aprendizado. Nada é impossível de ser feito ou melhorado.” 

Na adolescência comecei a ser sua parceira de trabalho, ajudando no que podia, e muito da minha conduta profissional hoje, eu devo aos anos de trabalho com mamãe.

Eis algumas coisas que aprendi com o exemplo de conduta dela:

  1. Valorize seu trabalho, seu tempo. Todo trabalho tem um valor e você tem que saber colocar preço no seu. Taí uma coisa que muitas meninas não são ensinadas, mas mamãe, desde sempre, fez questão de me ensinar que eu não deveria trabalhar de graça para ninguém que estivesse ganhando dinheiro à custa do meu trabalho.
  1. Seu trabalho não é um favor para o seu chefe, é uma troca e, do mesmo jeito que você valoriza seu salário, seu chefe tem que te valorizar, afinal, quem faz a empresa dele funcionar é você, mas trabalhar bem não é mais do que sua obrigação. :)
  1. Questione. É importante questionarmos e debatermos o porquê das coisas, das regras, das condutas, das hierarquias, das decisões, sejam elas de nossos pares no trabalho, professores, chefes, não importa. Pessoas não são deuses inquestionáveis e quando a gente questiona a gente entende, muda, transforma.
  1. Ninguém é superior a você só porque te paga por um serviço que você fornece. Mais uma vez: é um troca. Essa ideia de que o chefe pode fazer o que quiser com o funcionário é meio escravocrata, né? Então trate a todos como iguais e exija o mesmo. Respeite o trabalho, respeite a pessoa do chefe, mas mantenha-se no mesmo nível de tratamento independente de hierarquias. (Com o tempo eu aprendi que nem todo cargo é mérito.)
  1. Essa é possivelmente a lição mais valiosa e foi pautada num ditado que eu escutei muito minha mãe falar: “Quem cala, consente.” JAMAIS fique calada diante de injustiças, não deixe de reivindicar seus direitos, não jogue pra baixo do tapete algo que está te incomodando, não coloque panos quentes naquilo que te fere, não comprometa sua ética, honestidade e valores, não sorria com diplomacia quando você não quer sorrir. Nem mesmo chefes, devem te subjugar a situações, condutas, ideias que vão contra seus princípios.

Contudo eu jamais imaginei que todo esse aprendizado, todos os valores recebidos através do exemplo de liderança que tive, serviriam muito pouco para crescer na minha vida profissional adulta.

Me formei em publicidade e propaganda e resolvi que queria ser diretora de arte e depois diretora de criação. Consegui um estágio logo no primeiro período e de lá pra cá todos os meus chefes diretos foram homens.

Sim, tive chefes homens muito queridos, para os quais trabalhei feliz, que amo e são meus amigos até hoje (mas conto nos dedos essas pessoas) e trabalhei com muitas mulheres incríveis ao longo desses anos todos, mas nunca fui diretamente chefiada por uma mulher, porque a área criativa das agências é domínio masculino. Mudei de agência algumas vezes e em nenhuma delas eu encontrei uma diretora de criação na qual eu pudesse me espelhar, que me fizesse sentir representada e, principalmente, que me fizesse ver que era possível eu chegar lá também. Tive que encontrar essas representações em amigas de trabalho e me apoiei nelas na esperança de mudar um universo cuja participação feminina tem pouquíssima força.

Durante muito tempo eu não questionei o machismo estrutural das agências de publicidade como um reflexo claro da nossa sociedade e simplesmente parecia natural só ter chefes homens na criação. Essa visão mudou quando o feminismo entrou na minha vida, mas esse é outro longo papo.

Diante da percepção de realidade que eu tinha no momento, fui colocar em prática os ensinamentos de mamãe.

Nunca trabalhei de graça. Nem estágio. Sempre tentei negociar bons salários (tive sucesso em alguns) e via amigas minhas sofrendo pra colocar um preço no próprio trabalho, porque autoestima e valorização profissional são coisas que as mulheres não são ensinadas a ter, já que nossa criação e validação social é sempre pautada na beleza. Para minha surpresa, muitos dos meus colegas homens ganhavam mais que eu para desempenhar a mesma função.

Depois eu comecei a trabalhar incansavelmente. 19 horas por dia. Com febre. Doente. Tomando remédio pra estresse. Tendo vertigens em frente ao computador. Tudo isso pra contrariar a ideia de que mulher não aguenta trabalho pesado. Era questão de honra, eu ia aguentar, nem que isso custasse minha saúde. E custou.

Fiz o meu trabalho, fiz trabalho dos outros, fiz trabalho de muitos. Elevei à máxima potência o ensinamento de que nada é impossível e sempre podemos melhorar. Aí percebi que muitos dos homens à minha volta tinham trabalhos bem medianos, outros sequer faziam o próprio trabalho e que eu, como mulher sentia que precisava me provar mais do que todos, se quisesse algum tipo de reconhecimento. Ainda assim nunca fui realmente promovida.

Trabalhei numa agência que atendia uma marca feminina, então vi uma porta se abrindo para mim. Era o meu território de conforto e a vaga de direção de criação precisava de alguém. Essa poderia ser a minha chance, mas colocaram mais um homem pra ser meu chefe. Ele ganhou o cargo, um salário duas vezes maior que o meu, mas eu que fazia o trabalho dele.

Pensei: deve ser muito difícil mesmo ser diretora de criação. Com certeza eu ainda não estou preparada para o cargo. Talvez eu precise de mais anos de experiência, ficar mais velha, aprender mais coisas, entender de todas as áreas da agência, fazer algum curso de gerenciamento de equipes. Cheguei à conclusão que meu esforço ainda não tinha sido o suficiente, que eu não era excelente e era isso que faltava.

Então aprendi a escrever roteiros, a planejar campanhas, a entender minimamente um plano de mídia, a absorver tudo que eu podia.

Mudei de agência, mais uma que atendia uma conta exclusivamente feminina e pensei que talvez ali sim, eu poderia mostrar todo meu potencial e ser reconhecida.

[Percebam que um padrão se repete: a necessidade de reconhecimento. E isso era indício de que, apesar de me achar competente, minha autoestima já estava minada e a minha relação como trabalho já não era mais saudável.]

Todas as minhas colegas eram mulheres, cheias de força produtiva e criativa e trabalhávamos numa sinergia que eu jamais senti na vida. Parecia o céu!

Mas vou deixar vocês pensarem por 2 minutos sobre a chefia da agência.

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100% masculina.

Todos os chefes eram homens. Pessoas que sequer sabiam a diferença entre um condicionador e um finalizador, mas que estavam ali gerindo uma equipe de mulheres que não se sentiam representadas nem ouvidas por eles, criando para um público que eles não faziam a menor ideia dos seus anseios e lutas, porque nós éramos o público, eram os nossos anseios que não encontravam voz ali.

Eu não posso nem colocar em palavras o vazio que eu senti. A falta de conexão com tudo aquilo que eu estava fazendo e pior, sem saber por que eu estava fazendo, pra quê, pra quem.

É muito natural que, na falta de lideranças femininas dentro dos ambientes de trabalho, as mulheres se sintam desamparadas e expostas a algumas condutas masculinas que acabam nos ferindo. Em todas as agências que passei ouvi ideias machistas, piadinhas de mal gosto, um “ela tá de tpm”, observei abusos, mas em algum momento parei de sorrir e fingir que estava tudo bem e coloquei em prática o ensinamento do “nunca ficar calada diante de qualquer coisa que você ache injusta e lutar sempre” . Bati de frente, briguei, questionei chefias,  discursos e cargos com homens despreparados. Adivinhem só?

Uns tempos depois fui demitida sem maiores explicações, por um chefe muito mais novo que eu, mais inexperiente em diversas áreas, mas que estava num patamar de hierarquia profissional ao qual eu entendi que não teria acesso, porque eu simplesmente era uma mulher “muito difícil de engolir”. Eu não fazia o jogo da diplomacia. Eu não sorria todos os dias, da minha boca, afinal, não saíam só flores e arco-íris.

Eu queria mudar as coisas, mas fui solenemente calada.

O que invalidou minha incansável jornada? Quando foi que eu deixei de ser competente? Quantas coisas eu teria que silenciar para conseguir crescer? Quantos remédios eu teria que tomar para suportar competir num mercado onde não existe representatividade feminina nas lideranças? Quanto de mim eu teria que doar a mais, antes de me perder?

Além do mercado não estar preparado para dar oportunidades iguais às mulheres, muitos homens também não estão preparados para lidar com mulheres “não domesticadas”. O meu comportamento dito “agressivo”, bossy, impetuoso, “conflitante”, é tudo aquilo que os homens qualificam – em outros homens – como enérgico, afirmativo, decidido, questionador, PAU NA MESA. (E como eu odeio essa expressão!) Aquilo que minhas amigas mais admiravam em mim, toda a determinação, força e energia pra fazer as coisas darem certo para todas nós era, afinal, um grande desconforto para o ego masculino.

Eu, que achava que era forte e aguentava tudo, desabei feito um frágil castelo de cartas. Por muitos anos eu me culpei por não ter chegado na bendita direção de criação. Todos os lugares que trabalhei tive o reconhecimento das mulheres, fiz amigas pra vida inteira, conquistei e devolvi admiração e ali estava eu, no maior sentimento de desamparo do mundo.

Digerir uma demissão sabendo que você é competente é foda. (Desculpem o palavrão). Sua autoestima vai lá no chão, você se sente o pior ser humano. Chorei muito, não de tristeza, mas de revolta e cansaço. De lutar tanto pra ser reconhecida e não atingir a meta que coloquei pra mim mesma 14 anos atrás. Nesses anos todos eu apenas acumulei trabalho e noites em claro, tudo em troca do reconhecimento de um mercado que não está preparado para lidar com mulheres.

Nesses 14 anos de agência eu observei alguns tipos de liderança masculina: os inexperientes, os incompetentes, os abusivos, os egocêntricos, os grosseiros, os despreparados, os imaturos, os egoístas. Tudo que nenhuma mulher poderia ser eles foram e chegaram lá, e eu achava que eram essas pessoas que supostamente deveriam reconhecer o meu valor.

Porque eu queria ser validada por homens que nem eu mesma admirava? Não fazia sentido.

Minha mãe, sempre ela, recolheu meus caquinhos e me levantou. “Minha filha, você não perdeu nada. Eles perderam uma profissional dedicada e você não precisa de um chefe reconhecendo o seu valor, olha quanta gente admira teu trabalho, Carolina!”

Na maioria das profissões as mulheres tem dificuldade em crescer nas carreiras e nossos horizontes são limitados por questões de gênero mesmo. O mercado não quer saber das nossas demandas. Da nossa boca, só querem flores, batom vermelho e nada mais.

Por esse motivo é que ano após ano vem crescendo o número de novos empreendimentos liderados por mulheres, mais precisamente 34% dos novos negócios dos últimos 14 anos são administrados por mulheres, porque diante da falta de perspectivas profissionais que abracem nossas vidas e anseios, que respeitem nossas vontades, cada dia mais somos forçadas a abandonar carreiras para tentar algo novo, onde tenhamos espaço e autonomia para trabalhar bem e ser feliz.

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Hoje não me culpo mais pelo cargo não alcançado e vejo que todos os sacrifícios que fiz me tornaram uma profissional mais completa, mais eficiente. Entrei para a estatística de jovens empreendedoras que encontraram no negócio próprio uma forma mais significativa de viver.

Dedico 70% do meu tempo à Prosa, minha marca de roupas com foco em estamparia afetiva, onde tudo que eu crio tem um componente emocional especial pra mim e 30% do meu tempo eu faço alguns freelas.

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Só trabalho com mulheres e faço roupas para mulheres. Uso a minha energia a entender o que poderia fazer uma mulher se sentir bem consigo mesma, ainda que seja na frente do espelho. Crio para que mais mulheres se sintam confortáveis, especiais, confiantes e seguras de si, porque isso não pode ser um privilégio exclusivamente masculino.

Meus dias não são só flores. Meu trabalho continua sendo árduo, duro, desafiador, com dias de choro e desespero, mas eu sei que hoje eu consigo também inspirar outras mulheres a seguir em frente. Sei que muitas se sentem representadas pelo meu trabalho ou pelas minhas escassas palavras e cada vez mais entendo que todas nós temos o papel de alimentar essa corrente de representação feminina, força e apoio, porque quando uma de nós cai, uma de nós ajuda a levantar. Quando uma mulher representa, todas sabem que podem chegar lá.