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2 em Autoestima/ Comportamento/ Convidadas/ Juliana Ali no dia 06.10.2017

Pertencer – a quem?

Todo ano na escola do Teodoro, acontecem as muito aguardadas “Olimpíadas”, sempre no segundo semestre. Teodoro é meu filho mais velho, nove anos. As Olimpíadas consistem basicamente de duas semanas de jogos envolvendo todos os alunos, do primeiro ano ao ensino médio, divididos em quatro grandes grupos. No final, eles fazem um evento para distribuir as medalhas de ouro, prata, bronze e… sei lá do que é a medalha de quem ficou em último lugar. Nesse evento, os pais são convidados.

Semana passada fui ver Teodoro receber sua medalha (bronze, desta vez, para certa decepção do mesmo, “deboas, filho, o importante é participar, etc clichês motivacionais etc.”). Os alunos e professores se reúnem na quadra, que fica absolutamente lotada de crianças/adolescentes para a tão solene cerimônia, e os pais sentam-se na arquibancada.

Sentei. O professor de educação física fala e fala e fala no microfone. Sem quase me dar conta, suas palavras pararam de entrar aqui. Sumiram. Fiquei observando aquelas criaturas na quadra. De 5 a 18 anos, todas juntas, sentadas no chão, esperando suas medalhas. Os alunos. Tinha de tudo. Alto, baixo, gordo, gordíssimo, magro, magérrimo, preto, branco, cabelo liso, cabelo cacheado, menina de cabelo curto, menino de cabelo comprido, olho arregalado, olho puxado. Todos diferentes, mas todos igualmente suados, bochechas vermelhas do último jogo que acabara de ocorrer, e todos jovens. Muito jovens.

ilustra: @bodiljane

Levei um susto. O que eu estava fazendo na arquibancada? Não é possível que eu seja MÃE dessa gente. Eu sou um deles. Me lembrei de ser um deles como se ainda fosse 1992. Lembro do cheiro da quadra da minha escola. Do professor de educação física que me chamava de “Alimies”, como se meu sobrenome (Juliana Ali Mies) fosse todo grudado, uma palavra só. Lembro da vergonha de ser a mais vermelha de todas depois do jogo. Lembro da sensação de inadequação por nunca acertar a porra do saque de vôlei. Aliás, de nunca acertar nada em esporte nenhum. Teo, deboas, a medalha da mamãe era sempre a de “sei lá do que é a medalha de quem ficou em último lugar”.

Lembro da sensação de inadequação. Ah, meu amor, aqueles alunos, todos diferentes uns dos outros, são todos iguais, por dentro (os adolescentes, pelo menos): nenhum deles se sente lindo. Nenhum deles se sente o máximo. Até os que parecem se sentir, não é mesmo? E, olhando para eles, em 2017, na verdade são todos lindos.

Vi beleza em todos. Nos cabelos que brilham (cabelo de criança brilha sempre, já reparou?). Nos dentinhos brancos que nasceram outro dia mesmo, muitos deles com aparelho, que de alguma maneira ornam maravilhosamente com aqueles sorrisos hormonalmente confusos. Nos corpos algumas vezes já maduros, meninas com cintura fina, bunda grande, peito grande. E nos corpos ainda absolutamente infantis, retinhos, fininhos, das amigas da mesma idade. Todas lindas.

Todas desesperadas para pertencer, para serem iguais. Para serem do jeito certo que tem que ser para serem aceitas. Vi gordinhas ajeitando a camiseta para esconder a barriga, e vi magrinhas fazendo exatamente o mesmo, escondendo a barriga que só elas acham que tem. Todas lindas para mim.

Eu era assim também. Sempre estava barriguda demais, cacheada demais, sem peito demais, feia demais, sem saber jogar vôlei demais, vermelha demais.

O boy não vai me querer, porque eu não sou como a menina mais bonita da escola (loira, lisa, magra, alta, padrão e joga vôlei muito bem, claro), porque tá tudo errado comigo.

Aí voltei. Ah não gente, a vida é longa. Aconteceu coisa pra cacete. É 2017. Não tenho 15 anos MESMO. Me senti repentinamente distante demais das meninas, deu vontade de pegar todas no colo. Não tenho vergonha de mim. Tenho orgulho.

Mas sabe o que mais percebi esse dia, na arquibancada, voltando a assumir meu lugar, o de adulta? Que não foi aos 20 e nem mesmo aos 30 anos que saí da adolescência. Dessa vontade de pertencer. Não. Não é assim tão fácil. Essa vontade de ser como a menina mais bonita da escola – que hoje em dia pode ser substituída pela celebridade fitness do instagram, ou pela blogueira rica e magra, quem sabe? – segue perseguindo as mulheres por anos e anos pós adolescência. E, algumas, seguem assim a vida toda. Esse desejo incontrolável de ser IGUAL. Alisa cabelo, bota peito, tira peito, passa fome, bota boca, sofre na academia, gasta o que não tem com make, com roupa, com creme, com roupa, com bolsa, ufa. Precisa de TANTO, será?

Ou será que o melhor seria sair de uma vez dessa adolescência invejosa (a inveja que habita em mim saúda a inveja que habita em você, mana, porque inveja não é palavrão, mora em nós, bora conviver, e a gratidão é o antídoto) e aceitar que somos adultas, lindas nas nossas diferenças, lindas no nosso não-pertencimento?

E, talvez, assim, FINALMENTE, pertencer a nós mesmas. Ganhar a medalha de ouro da liberdade. 

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ crônicas/ Destaque no dia 28.09.2017

Te perdi porém me reencontrei

Quando tudo começou, eu te botei em um pedestal. Tudo culpa da minha admiração platônica que vinha de anos. Por muito tempo te acompanhei à distância, vendo tudo que era publicado em seu nome. Até que um belo dia uma amiga em comum nos apresentou e quando eu me vi, já estávamos batendo um papo aqui, outro ali. E o que eu só imaginava nos meus melhores sonhos aconteceu: eu conquistei sua atenção.

Te achava incrível, tinha a impressão que ser vista ao seu lado era símbolo de status e de respeito. Ser elogiada por você massageava meu ego e eu me sentia a pessoa mais incrível do mundo. Ter o seu aval era importante, te ter me endossando também. Até que eu descobri que eu podia te perder.

Não queria aceitar de primeira. Na verdade, quando meu cérebro registrou que seu histórico de relacionamentos nunca foi dos mais estáveis, eu tentei ignorar. Imagina, eu seria a pessoa que mudaria isso. Aliás, eu ERA a pessoa que te entendia tanto que me tornaria imprescindível.

ilustra: melody hansen

Só que aí eu fui mudando, tentando me adaptar à sua instabilidade para ver se eu me mantinha estável na sua vida. Começou com uma mudança de opinião aqui – imagina, eu já estava inclinada a achar isso mesmo – depois com um afastamento ali – claro que não, essa pessoa que eu me afastei já estava me dando bode à um tempo – e quando vi, estava presa em uma órbita que só funcionava se eu girasse em torno de você.

Ao contrário do que se imagina, não foi algo difícil de fazer. Não foi cansativo, não foi dolorido. Não sei se minha personalidade que era volúvel ou se os créditos devem ir todos à sua capacidade de seduzir quem você quer que te endeuse. Eu sabia que seu histórico era justamente esse, lembra? Eu só escolhia ignorar. Inclusive, a galáxia que você criou para desempenhar o papel de Sol não tinha apenas eu de planeta. Pelo menos mais umas 3 pessoas envolvidas por todo seu carisma e lábia estavam ali, girando ao seu redor. Foi aí que eu me desencantei.

Um belo dia me olhei no espelho e perguntei quem era aquela pessoa me olhando, que se afastou de pessoas tão legais sem motivos aparentes? Quem era aquela pessoa que mudou a forma de se vestir porque não queria ser alvo de chacota? Quem era aquela pessoa que se fechou porque achava que para agradar era melhor não emitir muitas opiniões? Quem era aquela??

Cheguei à conclusão que para não te perder, eu acabei perdendo a mim mesma. E quer saber? Hoje, 2 anos depois de tudo, vejo que ter te perdido, justamente o que eu tinha mais medo, foi essencial para eu me reencontrar (não que você mereça um ‘obrigado’ por alguma coisa).

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Carla Paredes

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.
2 em Destaque no dia 21.09.2017

Você consegue olhar as pessoas de uma forma diferente?

Como designer tenho a consciência de que rótulos facilitam a compreensão e ajudam na comunicação, mas tirando sua função importante em objetos e produtos, acho que eles são um problema em vários momentos. Separar pessoas em categorias é uma forma muito complicada e separatista de ver o mundo. Nós não somos produtos de supermercado, mas ao mesmo tempo saber quais nichos falam sobre você é reconfortante, conversar com quem passa pela mesma coisa pode mudar sua vida. Caso você cruze com quem tem outras opiniões, a troca ainda pode engrandecer. Ficamos mais inteligentes quando nos permitirmos conversar sem muros com pessoas que pensam diferente. A diferença ensina, acrescenta! 

O único problema é que muitas vezes o tal muro não cede de nenhum dos lados. E é por isso que eu queria falar sobre empatia. Ela pode ser a “palavra do momento”, mas ela não é só isso, afinal ela pode realmente transformar a forma de lidarmos uns com os outros, por mais que seja difícil aplica-la em todos os cantinhos da sua vida!

ilustra: erica dal maso

 

Quando me coloco no lugar do outro posso imaginar o quanto o preconceito pode doer, o quanto aquela doença pode ser assustadora ou quanto a dificuldade dele pode ser um fardo, ainda que – aparentemente – pra mim não seria. Quando eu pratico a empatia eu consigo pensar que o que é fácil pra mim, pode não ser pra outra pessoa e aprendo a respeitar.

Aplicar empatia também é um processo bacana de enxergar o indivíduo como único. Quase automaticamente eu paro de pensar que o “certo” é ser como eu ou você e busco entender que cada um vai ter o seu próprio lado certo.

A verdade é que esse juízo de valor que a sociedade enfia na nossa cabeça está velho e distorcido.  Se tornar uma mulher bonita não é mudar tudo em si para atender a todos os padrões de beleza, não tem certo e errado. O importante é descobrir o que te representa, o que te faz se sentir você e pode fazer sua luz brilhar de dentro pra fora. A verdadeira beleza implica em se sentir confortável sendo você mesma.

A verdade é que fomos ensinados a fazer juízo de valor de tudo. As coisas são boas ou ruins, certas ou erradas e na pratica, para desconstruirmos nossas crenças precisamos abrir mão dessas generalizações que nos são impostas.

Quando você analisa as entrelinhas começa a diminuir o julgamento que faz do outro, consequentemente começa a ter menos medo do julgamento que farão de você.

Na teoria, empatia até pode parecer fácil, na pratica até pode ser difícil, mas se você começa a aplicar um novo olhar sobre você e sobre as outras pessoas à sua volta, as coisas naturalmente começam a ir para um novo lugar.

Concentrada no meu processo eu me permito enxergar o que eu antes não via em mim com um olhar mais amoroso e acolhedor. Esse novo olhar transforma minha relação comigo, com o outro e com o mundo.

Por isso o #paposobreautoestima não é sobre corpos, cabelos ou imagem, é sobre esse novo olhar. É sobre ser uma versão de si que julga menos, a si mesma e a outra. E dessa forma, vamos também exercitando a empatia.

Obrigada por nos ensinarem tanto nesse processo, eu e Carla agradecemos muito a aprendizagem coletiva!