Browsing Tag

autoconhecimento

6 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Relacionamento no dia 24.05.2018

Pra mim, nem amor segura relacionamento!

Essa semana a Carla questionou aqui a crença comumente repetida de que filho segura casamento. De tudo que eu já vi nesses 31 anos de experiências errantes, tanto minhas, como à minha volta, só tenho cada dia mais certeza de que: tanto filho quanto amor não seguram casamento, namoro longo ou noivados vitalícios. Talvez o sonho da família seja motivo para muita gente tentar, mas pra mim não define sozinho quem vai conseguir.

Complicado assumir publicamente que o amor sozinho não segura um relacionamento, mas vou tentar me fazer entender… O amor pra mim é tudo, mas a felicidade precisa andar de mãos dadas com ele em boa parte do tempo. Se amor for peso, tristeza, concessão e ausência, não haverá quantidade dele que seja suficiente. Se houver amor  mas não houver parceria, dificilmente os momentos felizes irão se sobrepor aos tristes.

O amor é ponto de partida, gasolina, força, motor de arranque, importantíssimo, base de tudo, mas não é o suficiente sozinho. É imprescindível ter amor, mas sozinho ele não faz muito mais do que nos fazer ficar. Pra mim não existe uma palavra que sozinha seja a solução de relacionamentos longos, mas conheço 4 que juntas fazem toda a diferença do mundo: vontade de dar certo. Só que nessa solução tem uma pegadinha que muita gente não percebe. Essa vontade precisa ser vivida de ambas as partes, quando só uma parte faz força por dois, o desgaste é quase inevitável, independente do desfecho ser positivo ou não.

casal

ilustração: @agathesorlet 

Se não houver parceria, fica difícil ter vontade. Pra mim, muitos fins têm muito mais a ver com falta de vontade de dar certo do que falta de amor. Alguns anos e histórias depois vejo claramente quantas vezes a falta de vontade se sobrepôs à falta de amor nos meus relacionamentos, dos mais longos aos mais curtos.

Já vi muito amor sem vontade ruir – eu fui só mais um desses – mas também já vi muito casal com vontade construir amor sólido e cheio de parceria. Pessoalmente, brinco que paixão a gente não constrói, a gente só sente. Já o amor, esse eu vejo ser construído das maneiras mais lindas e diferentes todos os dias. Em forma de famílias, escolhas, sonhos ou caminhos inusitados, nunca de forma idealizada, mas muitas vezes de forma admirável.

Eu namorei 6 anos e abrir mão do sonho de casar, construir uma família e viver com ele até ficar velhinha doeu mais do que ver o fim de nós dois e o fim de uma vontade que a sociedade plantou em mim e eu, buscando viver conforme as regras do jogo, plantei junto, reguei e colhi sozinha o que tinha ali, não o que sonhei pra mim. O amor não faltou, ele se transformou, e acho que isso só aconteceu porque durante nossa trajetória faltou vontade de dar certo, de realizar e fazer acontecer. Sentimento não faltou, mas comprometimento e parceria sim. Nunca acreditei que o amor acabou, mas no meio do caminho ele deixou de ser prioridade. Hoje eu agradeço e fico aliviada, poucas coisas são mais relevantes pra mim do que o privilégio de conhecer pessoas estando mais madura, me conhecendo mais, estando mais inteira sem estar procurando metades.

O autoconhecimento é a chave de muitas portas e durante esse processo eu me dei conta que toda dor que eu senti e todo sono que perdi não era sobre nós dois, mas sim sobre o fim. Parte de mim sentia dor por ter fracassado na arte de casar e ter filhos antes dos 30, parte de mim estava frustrada por ter dedicado tantos anos da minha vida a algo que “não deu certo”, mas logo percebi que tudo isso havia sido o maior aprendizado pra mim. Deu certo sim, muito certo, aprendi muito e encerrei um ciclo na hora certa. Depois dali iríamos nos ferir até alguém criar coragem de sair, ainda bem que eu fiz isso logo que percebi.

Minha análise pode ser auto referente para alguns, mas quanto mais gente eu conheço, mais história eu ouço e mais amadurecimentos acompanho, me pego sem dúvidas sobre toda a amostragem que me cerca: muitos fins ainda têm amor, muitas tentativas ainda têm amor, mas poucos são os que tem vontade de dar certo por amor, seja amor pelo outro ou amor próprio. 

Muitos tentam achar vontade no sonho da família idealizada, mas isso é uma ilusão construída para criarmos uma persona cada dia mais bonita para os outros. Muitos tem medo do julgamento e tentam fazer dar certo da boca pra fora, sem buscar forças internas para encontrar essa vontade, mas poucos são os que se conectam consigo para se conhecer e lutar por si mesmo, por vontade de ser feliz com aquela outra pessoa. As vezes a vontade é uma chance, as vezes nem mais ela salva, porque se o amor não for reconstruído também não haverá vontade que sozinha dê certo.

Meus pais são casados há mais de 30 anos, ao certo eles tiveram muitas fases ruins e outras boas, mas uma coisa fica muito clara pra mim: muito mais do que amor, eles têm uma parceria muito forte. Talvez eles tenham ficado juntos porque tinham filhos em algum momento, talvez eles tenham se descuidado um do outro em alguma fase, mas no fim do dia eles se escolhem antes de escolherem qualquer outra coisa no mundo. Isso pra mim é vontade de dar certo, vejo claramente que eles são a maior preocupação um do outro.
A meu ver a grande questão é: saber a hora certa. Ou de abraçar essa vontade com unhas e dentes para tentar de coração aberto por amor. Ou saber a hora de desistir, porque talvez ali nunca vai haver vontade que vá ser suficiente para conseguir…

Se o egoísmo for maior do que a vontade de ser feliz com a outra pessoa, não haverá amor que seja o suficiente. 

4 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Saúde no dia 08.05.2018

Seja seu auto suporte

Quando nascemos dependemos integralmente dos cuidados do outro. É o outro que vai ler (nem sempre corretamente) as minhas necessidades e tentar (ou não) atende-las. Nosso cérebro possui a capacidade de se transformar durante toda a vida, é o que chamamos de plasticidade neuronal, mas definitivamente os primeiros anos, justamente esses nos quais somos 100% dependentes, são o período crítico do desenvolvimento neurológico. O crescimento visível da nossa cabeça não é a toa: nosso cérebro está realmente crescendo. Em massa, em matérias, em estruturas.

Ele vai crescendo se adaptando ao meio. Vamos compreendendo o mundo, entendendo o que devemos fazer para sobreviver, que é o grande impulso de todas as espécies: sobreviver para reproduzir. E o que vamos aprendendo? Que dependemos do outro. E esse outro é livre, separado da gente, independente. Por que, então, esse outro nos atura e cuida de nós?

Porque nos ama.

Passamos, então, a desenvolver estratégias para sermos amados, aceitos e cuidados. É como se, percebendo que dependemos do cuidado alheio, instalássemos um software “convencer o outro de que eu tenho valor e fazê-lo cuidar de mim”. Existe um vídeo que mostra uma pesquisa realizada para investigar a reação dos bebês quando a mãe para de interagir amorosamente e só fica com uma “cara de paisagem”.

Já tão pequenos eles sentem o medo de não serem apreciados. Já é possível ver o funcionamento do software do qual falei acima.

Acontece, porém, que nós não dependemos dos cuidados alheios para sempre. Claro que, por sermos animais gregários, sempre vamos precisar de vínculos, de afetos, de relações. Mas a aprovação incondicional, a nutrição da sensação de valor próprio, o alimento da auto estima, o suprimento das próprias necessidades, tudo isso, ao longo da vida, vai passando a ser responsabilidade NOSSA, e de mais ninguém.

Nós precisamos migrar da necessidade de ter um outro nos dizendo de que precisamos a cada momento para a necessidade de identificar nossas próprias sensações e sentimentos para descobrir qual é a nossa necessidade genuína. Precisamos desenvolver recursos para não mais aguardar passivamente que o outro nos dê o que desejamos dele, e sim mobilizar nossas energias na direção de obter por nós mesmos aquilo que desejamos. Obviamente não estou dizendo que isso é fácil, só estou expondo a direção na qual é saudável que caminhemos.

É a partir do momento em que acolhemos nossos sentimentos, que acolhemos nossa carência, que aceitamos nossa condição humana de desamparo e nos damos conta de que podemos, sim, contar com a ajuda de outras pessoas para superar momentos difíceis, mas que nossa maior responsabilidade nessa vida é aprender a dar conta de cuidar de nós mesmos, que começamos a caminhar para uma vida mais autêntica. Para uma vida com angústia, sim, mas com a angústia necessária, inerente à existência, da qual não se pode fugir, e não a angústia infrutífera e sofrida que nos toma quando nos sentimos como bebês impotentes que não podem fazer nada além de sofrer enquanto esperam que alguém perceba e atenda suas necessidades.

Precisamos atualizar nosso cérebro com softwares mais modernos, que aproveitem toda a capacidade do nosso organismo maduro. Migrar do hétero suporte para o auto suporte. E o primeiro passo para começar a caminhada nessa direção é aceitar que É UM PROCESSO. A pressa e a cobrança para transformar seu cérebro de um dia pro outro são o caminho mais rápido para NÃO CONSEGUIR transformá-lo. É necessário aprender a acolher suas angústias para dar um passo de cada vez.

3 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 27.04.2018

Quando o discurso da aceitação não é sólido ele incomoda…

Recentemente essa frase apareceu demais pra gente, seja em postagens do grupo, mandando por direct no insta e até mesmo em grupos dê whatsapp. A imagem em questão foi essa:

amor-proprio

Depois de tanto tempo falando sobre autoestima e seus desdobramentos, sei que quando o discurso da aceitação não é sólido ele incomoda, mas precisamos tomar cuidado pra não combater uma opressão com outra.

Pra mim a gente começa com o comum equivoco: não é porque uma pessoa posta sobre a importância do amor próprio ou da aceitação que essa pessoa consegue viver isso verdadeiramente, ainda mais em todos os segmentos da sua vida. Essa expectativa é sobre-humana. O discurso do amor próprio é muito além de frases feitas que viralizam nas redes sociais.

“A verdadeira beleza vem de dentro”, disse a menina que passa 5 dos 7 dias da semana lutando para se encaixar no padrão opressor. “O brilho interno ilumina a alma” escreve na legenda aquela que fala todo dia do sofrimento que é manter a dieta e da tentação que é comer o que ama, disseminando diariamente um comer sem paz. A que malha para pagar o jantar e se manter no corpo aceito socialmente fala em aceitar o corpo como ele é. A que faz todos os pontos de preenchimento no rosto fala em auto aceitação. A que faz massagem modeladora todo dia fala que todas temos celulites e devemos lidar isso. Tem muita hiprocrisia no discurso do amor próprio ou da aceitação nas redes sociais, entendo isso.

No entanto, precisamos entender que muita gente está interessado em receber a mensagem de forma mais superficial – talvez devido ao estágio de desconstrução em que se encontra ou ao seu universo de privilégio. Não adianta querermos doutrinar todo mundo, quem estiver procurando se olhar cada dia com mais amor, mais verdade e acolhimento vai estranhar mensagens desconexas.

Só que por mais que nós sejamos parte MUITO interessada de que a internet não saia se apropriando do discurso do amor próprio de forma leviana, não podemos sair de um extremo para outro. Sair de um padrão de opressão pra outro e, logo, nos tornando verdadeiras juízas do amor próprio alheio, não mesmo.

Acredito que o problema não está em um ou dois procedimentos estéticos, em um silicone isolado ou uma cirurgia de um nariz que incomodava a uma garota na sociedade em que ela cresceu. O incomodo vem do fato de que muitas influenciadoras são verdadeiras transformações de antes e depois, onde o antes era aprisionado e o depois liberto. Gente que se disse feliz mudando tudo em si em busca de atender a demanda do mercado de trabalho delas e da sua audiência. Não é coincidência que a turma que busca estar perfeita 24 horas por dia tenha muito mais like, seguidor e comentário, por mais que isso aos poucos esteja mudando. Muita gente quer ver essas mudanças e acreditar que é possível atingir o padrão de beleza. E precisamos respeitar essa busca por pertencer.

Não creio que demonizar quem deseja fazer um procedimento estético é o verdadeiro caminho, acredito pessoalmente que o feminismo não seja sobre sair de uma prisão ou padrão pra entrar em outro. Não há nada demais em querer mudar algo que te causou dor na sociedade na qual você foi criada, a questão é que precisamos jogar luz nas questões anteriores à isso: Essa mudança trará conforto ou virá na semana seguinte uma nova demanda em nome da perfeição? Essa mudança é pra atender uma questão sua ou das pessoas que te cercam? Não podemos sair atacando todas as mulheres que desejam atender a esse padrão de beleza super cruel e opressor, mas podemos – todas juntas – buscar nos questionar se precisamos mesmo fazer todas essas mudanças, nos tornando cada dia mais iguais a todos e menos parecidas conosco. 

No caso das influenciadoras acho que o mais importante é: não viu coesão? não gostou? acha o discurso de aceitação midiatico pra atender a modinha? Pula fora, deixa de seguir, manda um DM explicando o porquê você vê incoerência no discurso, mas não ache que jogar pedra vai solucionar, porque não vai. As pessoas não vão deixar de se transformar por isso, elas só vão parar de contar e no fim vamos voltar pro antigo argumento fake de que “acordei assim”. O que vai acabar causando a mesma frustração de inadequação de quem se compara. O que só me leva a crer que o problema segue na comparação.

Precisamos durante a verdadeira busca do amor próprio, desenvolver AUTOESTIMA na sua essência, para que tenhamos mais segurança de sermos quem somos, pra que NÃO PRECISEMOS MAIS de tantas crenças que limitam e aprisionam.

Esse exagero pela busca da beleza nos faz perder muito tempo com coisas superficiais e nos ensina que está tudo bem viver sofrendo pra atender ao que nos ensinaram que era certo pra uma mulher, e se libertar disso é um processo de tomada de consciência. Criar novas leis e proibições em nome de quem se ama verdadeiramente, ou não, só separa mais ainda as mulheres. A consciência vai ser a verdadeira forma de abandonar essas muletas em direção a um caminhar sozinha com menos dependência de tantos procedimentos.

Eu abri mão de dietas sofredoras em nome de um comer em paz, eu abri mão de massagens modeladoras e aparelhos para o corpo quando consegui aplicar um olhar genuinamente amoroso pra ele, eu consigo sair sem maquiagem ou postar stories com a acne em seu estágio mais critico e me orgulho muito de não superlativizar isso mais, mas está tudo bem eu gostar de usar a maquiagem pra também cobrir as marcas quando estou afim ou me sinto mais vulnerável. Está tudo em paz por eu usar a maquiagem pra brincar com minhas versões versáteis e me sentir mais bonita dentro desse padrão que me cerca. Eu escolhi viver em paz com um corpo nem sempre socialmente aceito, e cada dia que passa isso se torna mais sobre mim e menos sobre o outro. Se quiserem achar que o meu preenchimento de olheira ou minha micropigmentação invalidam meu discurso, tudo bem. É só o julgamento do outro.

Seguirei aqui todos os dias escrevendo sobre autoestima, autoconhecimento e um novo olhar sobre mim, cada dia com mais amor e cada dia com mais conquistas. Cada foto de biquini, lingerie ou barriga de fora foi um ato revolucionário da minha nova liberdade de falar desse amor que venho desenvolvendo por mim, mas eu não sou perfeita, ninguém é. Eu não sou. Elas não são. Se tirar minha cara de cansada for agressivo pra quem me segue, sinto muito, vou seguir fazendo isso, mas sem aprisionar ninguém em novas regras. Autoestima, amor próprio e aceitação é muito mais do que isso.

Estou aqui concordando que precisamos abrir os olhos para influenciadoras que mudam tudo, dizem que desenvolveram autoestima ao se transformar em outra pessoa e no fim ainda falam na importância da aceitação. Só não podemos sair julgando e aprisionando ao nos revoltar com essas mensagens desconexas. Todo mundo está no seu processo de desconstrução, algumas pessoas ainda vão levar um tempo pra entender que desenvolver estima verdadeira por si mesma não tem tanto a ver com mudar a aparência.

Acredito que buscar a beleza não pode ser um processo de sofrimento diário, se é, ele precisa ser reavaliado. No mais, precisamos olhar com empatia até para o que discordamos.