Browsing Category

Sem categoria

1 em Sem categoria no dia 11.06.2018

Por que a altura é uma questão nos relacionamentos?

Eu já falei aqui no Futi sobre questões de altura e a minha perspectiva, que é, sim, bastante confiante, especialmente por ter sido algo do que sempre me orgulhei e nunca considerei um problema. 

Porém, li esses dias uma frase que me despertou algo que eu nunca tinha pensado antes. A frase diz: “Homens altos não são mais comuns que mulheres altas. Homens tem a permissão para ser altos”. Foi quando me ocorreu que muitas vezes os comportamentos quase agressivos que vejo em relação à altura vindo das pessoas, giram em torno dessa crença. Muito do “Ah, você é muito alta, não precisa usar salto”, vem daí! De fato eu não preciso, mas às vezes, eu quero. E o meu querer vem sempre antes da opinião alheia.

A questão da diferença da altura entre casais é um dos padrões estabelecidos com um base tão sólida que parece quase natural e inerente das pessoas. A mulher tem que ser mais baixa que o homem. Porque criaram a ideia de que a mulher mais baixa é delicada, indefesa e necessita de proteção. As princesas são pequenas e delicadas. As guerreiras são altas, fortes. Agora me diga, se em 2018, isso faz algum sentido?

07a9af93d18650b049ec5d317fbec476

A pergunta que eu mais escuto relacionada à minha altura não é quanto eu meço. Me perguntam sempre: “Seu namorado é mais alto que você?” ou ainda, uma versão mais indelicada: “Mas você ACHA homens mais altos que você?”, como se fosse uma condição ou, caso não existisse nenhum homem mais alto que eu, estaria condenada a viver sozinha, pobre de mim.

Muitas pessoas me abordam e comentam que não usam salto pois vão ficar mais altas que seus parceiros. Ou até mesmo me contam que estão se interessando por caras mais baixos, e que isso gera certo desconforto. Ou ainda, aquele comentário inocente “Prefiro homens altos”. Pode ser o seu gosto? Sem dúvidas. Mas quanto do seu gosto foi influenciado pelo que foi imposto?

Porque a altura, ou a diferença dela, precisa ser uma questão que causa desconforto ou até mesmo um impeditivo para se relacionar, quando sabemos que um relacionamento se faz de outros valores muito mais importantes? E sim, é claro que a atração física conta, mas se você já curtiu o cara, ou ele gostou de você, faz sentido se limitar por alguns centímetros? Se você se sente linda e poderosa de salto alto, porque você vai deixar de usar mesmo que fique mais alta que o seu parceiro? É apenas um salto!

Claro que eu já me deparei com situações em que os caras diziam que não se aproximavam porque eram mais baixos. Que reclamaram por eu estar mais alta de salto do que eles. Mas eu sempre fiz questão de priorizar me sentir bem e sempre deixei claro que essa diferença de altura não me incomodava, e que não deveria incomodar a eles também. Não pensem que o incômodo com a minha altura e minha condição de estar confortável na minha própria pele se restringia apenas aos caras mais baixos do que eu. Também existiram os mais altos do que eu que se incomodavam por eu ficar da altura deles, ou por chamar a mesma atenção que eles, o que só prova meu ponto de que são padrões que confortam apenas os homens, oprimindo mais uma vez as mulheres com uma condição que não se muda, já que ninguém pode crescer ou encolher de acordo com a própria vontade.

 Gosto de acreditar que são situações de seleção natural. Quem é confiante de si, se aproxima sem levar isso em consideração. Quem não se garante, reclama. Então servia para eu saber logo no começo com que tipo de pessoa eu estava escolhendo me relacionar e se valia à pena ou não.

E com isso, pude me sentir cada vez mais dona de mim, das minhas vontades e a minha confiança crescia à medida que, a cada pessoa insegura que eu afastava, se aproximavam pessoas que valorizavam isso. Pessoas que me incentivavam a usar meus saltos, ou mesmo a apenas ser mais alta, pois viam isso como uma qualidade e percebiam o quanto eu me sinto à vontade e confiante sendo assim, ao ponto de me pedirem para usar salto ou se sentirem orgulhosos quando notavam nossa diferença de altura. Afinal de contas, precisa ser muito bom para poder andar ao lado de um “mulherão” e isso é digno de orgulho!

5 em Sem categoria no dia 05.06.2018

A mãe que não está sozinha

Estar em um lugar com seu filho ao mesmo tempo que você está rodeada de gente sem filhos, é um verdadeiro desafio. Socializar com uma criança que precisa de supervisão constante em um lugar pequeno e ambiente controlado é fácil, só que ninguém te prepara para o desafio que é estar em um lugar onde a diversão dos adultos não é a mesma que a das crianças.

A primeira vez que isso aconteceu comigo, eu tive vários sentimentos. De início fiquei feliz de vê-lo brincando com outras crianças, com outros brinquedos, se divertindo. Só que não demorou muito para eu querer voltar para a mesa, sentar e comer alguma coisa sem precisar ficar naquele ambiente onde a música da Galinha Pintadinha quase estourava meus tímpanos. E tirá-lo dali para irmos juntos para a mesa se tornou uma tarefa impossível, afinal, que criança em sã consciência iria querer sair da brincadeira para sentar numa mesa cheia de adultos, não é mesmo?

Resumindo: para ele, a noite foi maravilhosa. Para mim, foi um saco. Nunca imaginei que queria tanto socializar até entender que essa opção não existia.

A segunda vez foi até um pouco mais fácil, mas não menos maçante. Estava em um aniversário do amigo do meu marido, em um ambiente enorme e com muitos outros atrativos que não a mesa dos adultos. O lugar, inclusive, foi escolhido com cuidado pensando nos amigos com crianças. O único negócio é que foi pensado por alguém sem filhos que não imaginava que nessas situações existe esse isolamento natural de um dos pais, que fica com o cargo de correr atrás da criança. Nessa situação seria eu, afinal, queria que meu marido aproveitasse o aniversário do amigo dele.

Eu estava preparada para isso, e achei que o fato de não conhecer muito bem os outros convidados me faria sentir menos sozinha, mas não foi isso que aconteceu. Como únicos pais de crianças dessa faixa etária na mesa, não demorou muito para eu me ver ali, no meio da área onde a criançada brincava, parada perto do Arthur e tomando cuidado para ele não jogar as pedrinhas do chão para o alto e atingir outras pessoas e separando eventuais brigas por compartilhamento de brinquedos. Olhava para outras mesas e literalmente invejava cada pessoa que estava na sua roda de amigos, conversando despreocupada sobre qualquer amenidade, comendo e bebendo à vontade. Ao redor, outras mães com as mesmas caras de que preferiam estar em qualquer outro lugar do mundo do que ali.

Eu jurava que não seria a mãe que evitava certos programas, eu jurava que estava sabendo equilibrar muito bem meus mundos, eu jurava que estava tirando tudo de letra. Mas toda vez que tenho um programa desses eu entendo toda mulher que diz que se afastou de amigos sem filhos. Eu entendo a amiga que prefere mal sair de casa só para evitar a função de não ter vida social em um lugar cheio de vida social. Porque para a maior parte das mães esse tipo de programa é difícil, entediante e solitário, e para os amigos é preciso ter uma dose extra de empatia para perceber que a amiga sozinha ali no parquinho do restaurante pode fazer um bom uso da sua companhia, por mais que o lugar não seja tão confortável quanto a mesa da galera.

mae-que-nao-esta-sozinha

Lembro de uma frase em um post da Ju Ali que me impactou. Ela dizia que se sentia amada quando seus amigos brincavam com seus filhos. Eu também, mas digo mais, me sinto muito amada quando vejo alguém disposta a pegar na minha mão nessa caminhada tantas vezes solitária chamada maternidade. Então, fiz esse texto para você, amiga sem filhos (poderia ser amigo sem filhos para o marido também, mas vou focar no feminino por esse blog ter 98% do público feminino).

Se você estiver em um lugar e notar uma amiga com filhos sozinha cuidando das crianças enquanto todo mundo está conversando, bebendo e comendo, vai lá. Leva algo para comer, para beber, mas principalmente, leva um papo qualquer, só para tirá-la por alguns minutos da função, distrair a cabeça. Você pode ter certeza que essa vai ser a melhor coisa que você irá fazer por sua amiga.

2 em Comportamento/ Convidadas/ maternidade/ Sem categoria no dia 31.05.2018

Sobre ser mãe, ser mulher e ser tudo o que você quiser.

Durante os anos de prática que tenho em atendimento de puérperas, uma das frases mais frequentes que escuto se assemelha a frase citada pela Carla na campanha Como se amar mais, feita pela Unimed-Rio: Porque ninguém me falou sobre isso antes? Eu não sabia que ser mãe era assim.

Costumo usar como um método de avaliação psicológica uma técnica de desenho. Peço para que as puérperas desenhem uma mulher e uma mãe e me contem uma história sobre cada uma delas. Dentro desse contexto, é muito comum que esses papéis apareçam completamente diferentes. A mulher é vista como alguém com independência financeira, uma mulher que viaja, solteira e, principalmente, sem filhos. Em pleno turbilhão do puerpério, o ideal de mulher daquela pessoa é algo totalmente oposto do que ela vivencia naquele momento. Quando peço para me contarem uma história da mãe, elas logo dizem: “essa sou eu” e choram. E me contam o quanto a maternidade é difícil, o quanto o bebê demanda, o quanto estão cansadas. Me falam sobre o sentimento de culpa e sobre a falta de autonomia para exercer inclusive as funções básicas, como comer e fazer xixi.

E eu me questiono: quando foi que ser mãe se tornou algo tão distante daquilo que temos como o ideal da figura feminina na sociedade atual? Quando é que uma mãe deixa de ser e se sentir mulher para se tornar única e exclusivamente mãe? Isso é mesmo necessário? O que podemos fazer para mudar essa realidade?

Acontece que a maternidade causa muitos sentimentos ambivalentes desde o momento em que fazemos o teste e lá aparecem os dois risquinhos. Uma mistura de alegria com medo, ansiedade, a ficha demora a cair, demoramos para acreditar. É real, e agora? Qual é o próximo passo? E esses sentimentos ambivalentes independem de ser ou não uma gestação planejada e desejada.

E ai você pode estar se perguntando: Tá bom, Adriana, mas e o que isso tem a ver com o (f)utilidades ou com o #paposobreautoestima ? E eu respondo: TUDO!

Se a gente engravida na adolescência: não é um bom momento, pois atrapalha os estudos; aos 20 e poucos: logo agora que acabou de terminar a faculdade? Aos 30: poxa, mas você acabou de ser promovida no trabalho! Quando bate os 35: já está passando da hora, hein? Aos 40: você não vai ter disposição e tempo o suficiente para ver seu filho crescer. Aí você decide não engravidar e a sociedade te diz que você tem defeito, como é possível uma mulher que não quer ser mãe? “Mãe é instinto, maternidade é inata e não-existe-nada-no-mundo-igual-amor-de-mãe”.

A Joana e a Carla sempre debatem aqui com a gente sobre padrões ideais. Quando as puérperas me contam a história de uma mulher, elas me falam desses padrões. Elas me contam daquilo que a sociedade espera dela enquanto mulher. E elas me contam que não conseguiram atingir nenhum deles antes da maternidade chegar.

Falamos bastante aqui no futi sobre os aspectos de emagrecimento de “quando eu for magra, vou cortar o cabelo” ou fazer x, y, z. Com o planejamento da maternidade não é diferente: “antes de ser mãe quero casar; antes de ser mãe quero viajar; antes de ser mãe quero terminar a faculdade, me estabelecer financeiramente, (adicione aqui a sua condição). E a gente nunca consegue cumprir todas as metas quando a maternidade acontece.

E é aí que muitas vezes os sentimentos de culpa, impotência e inadequação tomam conta. Muitas vezes temos a sensação de que não estamos sendo 100% em nenhum dos papéis que ocupamos: mulher, profissional, esposa, filha, mãe… Você não se reconhece mais na mulher que vinha sendo até então e essa nova mulher não cabe mais nos planos que você havia feito antes.

No relacionamento, vocês não são mais “só um casal”, agora vocês “são uma família”, que se desfaz e se refaz com a chegada de um filho, que é cheia de vulnerabilidade e necessidades de cuidados. É necessário que os papéis se movimentem para encontrar um novo lugar o qual possam se sentir como parte de algo maior. E assim, a instabilidade e a impermanência são desafiadoras quando esses papéis já estão sólidos e definidos ao longo do tempo.

E aí, no meio desse turbilhão de não saber quem sou e qual o meu lugar no mundo, com frequência ouvimos de gerações passadas que “eu dava conta de tudo”, que as mães de hoje são “cheias de frescura”. Porém, a sociedade mudou, os papéis que hoje a mulher ocupa são outros, o acesso à informação é diferente e não temos mais o conceito de criar nossos filhos em tribos, em grupos, rodeadas por uma rede de suporte sólida e presente. Maternar se tornou, em geral, um ato solitário, com pouco ou nenhum apoio e vida social limitada. Para muitas de nós, há a possibilidade de grupos de apoios virtuais ou presenciais, que acabam sendo tudo que temos, sempre em contextos exclusivos para mães com os bebês. Mas e a vida além do bebê?

Acontece que a maternidade e o amor materno não são processos instintivos e inatos da mulher. Esse é um padrão que nos foi imposto em meados do século 19 (vejam bem, dois séculos atrás), com o patriarcado e a entrada medicina higienista, que depositou na mulher a responsabilidade pelos cuidados com o filho, tirando essa responsabilidade do estado, sacralizando a figura materna e tirando a sua autonomia social. Por outro lado, muitos autores da Psicologia Obstétrica e Perinatal nos dizem que a maternidade, assim como qualquer outra função, é uma construção social. Você não nasce sabendo ser profissional, você não nasce sabendo ser esposa, você não nasce sabendo ser mulher e você não nasce sabendo ser mãe.

Ao mesmo tempo que a maternidade é um processo de nascimento, é também um período de morte e de luto. Algumas coisas em nós morrem, para renascerem em outro lugar. Ali morreu tudo que você era até então e as coisas não serão mais como antes. Mas renascemos. Somos recém-nascidas para uma nova vida cheia de possibilidades de novos futuros, de novos papéis, de novos contextos. É um momento de realinhar o que fomos, o que somos, o que não conseguimos e o que ainda queremos ser. O nascimento de um filho é um convite para renascer para si mesma.

É uma transformação de identidade e pode ser vivida como um grande processo de empoderamento. O cuidado com o bebê é projetivo: quando cuidamos de um filho, também cuidamos de nós, da nossa nova identidade, das novas possibilidades que esse caminho nos apresenta. E isso também dói, pois o quanto de amor, cuidado e carinho que você dedica para si? É extremamente difícil cuidar de um filho quando não cuidamos primeiro de nós, das nossas dores, da nossa criança interior que vem à tona quando estamos com o bebê no colo. Encontramos em nós defeitos e qualidades que imaginávamos terem sido perdidos há tempos e com isso, podemos nos dar a opção de quebrar padrões, nos damos o direito de questionar a qualidade das relações familiares que estão em nossa volta e que tínhamos como corretas até então.

E isso tudo gera medo e insegurança, que fazem parte do processo, e está tudo bem. Você não é melhor ou pior por precisar (ou não) de ajuda. Você não é melhor ou pior por, em alguns momentos, se arrepender ou se perguntar o que é que você fez da vida. O importante é reconhecer os seus limites e saber que você pode até cair, mas você consegue levantar. E, quando não tiver forças o suficiente e por algum motivo não conseguir, estenda a mão e peça ajuda. Não precisa ter medo do tombo: vamos errar. Várias vezes. Não conseguimos ser perfeitas o tempo inteiro, mas temos o poder de nos transformar e de tentar de novo amanhã.

Precisamos aprender a respeitar as diferenças. As maternidades são muitas, as possibilidades são infinitas. Não existe uma única forma de ser mãe, de ser mulher. Qual é a sua?