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Deu o Que Falar

1 em Autoestima/ Deu o Que Falar no dia 17.07.2018

As amigas de Chiara (ou por quê é tão nocivo comentar o peso dos outros?)

A blogueira de moda Chiara Ferragni comemorou no último fim de semana sua despedida de solteira com suas madrinhas em Ibiza e postou uma foto com as amigas felizes no Instagram. Até aí, tudo normal, não fosse uma colunista do maior jornal italiano escrever uma nota um tanto quanto infeliz onde, no título, falava: ““Chiara Ferragni, o seu cabelo rosa e as suas amigas ‘sósias’ (redondas e felizes)”.

Ah, só para ilustrar, essas foram as amigas chamadas de gordas:

chiara-ferragni-despedida

Eu juro que queria entender o que essa colunista considera magra. Se bem que é melhor nem saber, né?

Chiara tratou logo de responder em suas redes, dizendo: “Este artigo de um famoso jornal italiano disse que as minhas amigas estavam felizes na minha despedida de solteira, mesmo não sendo magras e estando em forma. Acho nojento passar essa mensagem, ainda mais quando tantas garotas estão lutando para ter mais confiança e identidade corporal. Nunca me senti perfeita em minha vida, mas sempre fui confiante comigo mesma. Isso foi porque cresci com uma mãe que sempre me disse que eu poderia ter de tudo na vida e que se eu lutasse por isso, isso me tornaria super especial. As mulheres têm dificuldade em lidar com a beleza por muitas razões. Como um exemplo para tantas mulheres, sempre tento compartilhar mensagens que dizem que elas têm que ser confiantes. É por isso que estou chocada ao ler essa mensagem errada que foi compartilhada em um importante jornal.”

Logo após esse post, a colunista alterou a frase onde dizia “gordas” por “atléticas”. Com certeza tal colunista estava afim de gerar muitos cliques através da polêmica, mas independente de seu objetivo principal ao publicar tal matéria, fico pensando: onde estamos chegando? Comentar o corpo alheio é um problema independente do peso na balança, mas que mensagem é passada para todas as mulheres quando pessoas totalmente dentro de todos os padrões de beleza são atacadas e têm seu corpo julgado? 


Legenda traduzida, do insta de uma das meninas que estavam lá: Foi muito difícil para mim postar essa imagem. Eu não encolhi minha barriga para tirar essa foto, então você pode ver minha barriga (cheia de massas deliciosas que estou comendo nessas últimas semanas aqui na Europa). Mas hoje, o maior jornal da Italia publicou um artigo sobre a despedida da Chiara chamando suas amigas de gordas. Na verdade, todo o objetivo do artigo me pareceu comentar sobre nossos corpos, quem ganhou ou perdeu, a forma das nossas bundas, etc. Normalmente, minha resposta para haters e pessoas que fazem body shamming é ignorá-las ou ser fofa, já que eu geralmente descubro que essas pessoas estão sofrendo algo e esse é o motivo delas se tornarem más. Mas o fato de que foi uma jornalista profissional escrevendo para um jornal famoso é absolutamente inaceitável. Eu estou tão chateada, não pela gente, pois nós estamos tão felizes e confiantes, mas pela mensagem que passa para todas as mulheres. Deveria ser ilegal! O valor de uma mulher deveria ir além do seu peso! Não que importe, porque você não deveria falar nada sobre o corpo de ninguém, mas o que é mais bizarro é que todas as meninas nessa viagem são magras. Eu não tenho ideia que tipo de padrão é esse que tentaram encaixar. Como a única pessoa nesse grupo que poderia ser remotamente chamada de curvy, eu sinto uma responsabilidade extra para lembrar todo mundo que magreza não é sinônimo de felicidade. Corpos vêm em diferentes formas e tamanhos. Eu fico grata que o meu é saudável e me leva a tantas aventuras maravilhosas! Meninas, por favor lembrem que confiança é a coisa mais sexy. Vocês são todas lindas e amadas!

Isso vindo da mídia, da maneira que veio, ataca não só a elas, mas também a quem não está nem perto disso e se sente ainda mais excluída. “Se elas são gordas, o que eu sou então?” Essa foi uma das frases que eu mais li enquanto acompanhava a polêmica. E não pensem vocês que é um questionamento inocente, ele alimenta o sentimento de nunca ser suficiente e estimula a pressão estética. 

É por isso que falar sobre a quebra desses padrões é importante. Falar de autoestima é importante, conscientizar as pessoas de que seus corpos podem ser lindos da maneira que for. Para que ninguém mais possa se sentir escravizado a cumprir uma tal exigência impossível e, principalmente, para desincentivarmos a patrulha (e consequentemente os comentários) do corpo alheio.

Como o texto da Ana Luiza bem abordou ontem, a gordofobia pode não ser algo que atinge a todas as pessoas, mas a pressão estética, a pressão de atender a um ideal esperado, não escapa a ninguém. E a raiz dessa pressão tem viés altamente gordofóbico, e isso fica claro nesse caso da matéria que chamou as convidadas da despedida de solteira da Chiara de gordas. Enquanto o corpo alheio continuar a ser comentado e julgado, continuaremos presas na roda que alimenta a insatisfação geral, que faz com que mulheres de todos os tipos físicos sejam prejudicadas ao buscar um único ideal.

E que todo mundo possa curtir uma festa na piscina em que onde o que é assunto seja apenas o motivo da festa, e não os nossos corpos.

0 em Comportamento/ Deu o Que Falar no dia 06.07.2018

Não podemos deixar passar…mesmo!

Se em algum momento você não teve tempo de acessar a internet por esses dias para entender melhor o caso Cocielo, vou explicar rapidinho: o Youtuber Julio Cocielo fez um tweet onde dizia que o jogador da França Mbappé corria tanto que poderia fazer um arrastão. Um post extremamente racista que é explicado perfeitamente por outro Youtuber, Spartakus Santiago:

A internet não só não o perdoou como foi em cima das marcas que o patrocinam, cobrando uma resposta delas sobre endossar influenciadores com esse discurso. As respostas vieram em formas de ações praticamente imediatas: retiraram vídeos do ar, negaram futuras parcerias, retiraram verba e tudo mais. Acho que nunca tinha visto um caso recente de polêmica envolvendo influenciadores onde a casa caiu tão rapidamente. Que bom, afinal, como a gente já sabe, racismo é crime.

Mas este fato, sem dúvidas é só a ponta do iceberg, já que a mesma internet que não perdoa, encontrou outros tweets antigos do Youtuber com o mesmo contexto e ofensas até piores. Aqui no Futi somos à favor que o passado de declarações duvidosas fique no passado. Muitas de nós mudamos e evoluímos ao longo do tempo e coisas que dizíamos antes muitas vezes não fazem mais sentido nenhum com a forma que pensamos hoje. Quem nunca olhou para trás e ficou com vergonha do que já falou? Porém, isso não pode se aplicar neste caso, ainda mais quando sabemos que, desde a polêmica, mais de 50 mil tweets feitos pelo youtuber e que poderiam ser problemáticos foram apagados. Alguns foram printados, e dá para perceber claramente que estamos falando de uma pessoa que não mudou nadinha de uns anos pra cá:

polemica-cocielo

50 MIL TWEETS PROBLEMÁTICOS. Pensa no tanto de coisa horrível que ele vem dizendo há tanto tempo? E onde queremos chegar é: até esta declaração se sobressair em meio às outras, estava todo mundo achando tudo bem. Porque precisou chegar num momento em que ele ofendeu um jogador da seleção francesa para que notassem um comportamento que ele já tinha antes, porém ainda não tinha sido direcionado a alguém famoso. E o agravante é que esse é um influenciador que conta com milhões de seguidores e um público alvo majoritamente de adolescentes. Todos recebendo esse tipo de conteúdo em suas redes sociais. 

Por isso que acreditamos, sim, no poder do discurso e no poder que cada uma de nós temos como seguidoras, o poder de avaliar bem o que essas pessoas que escolhemos para nos influenciar dizem. Deixando o fator sucesso de lado e deixando o fato “quero saber quem é essa pessoa que todos falam e seguem”, o quê este influenciador pode agregar para mim? Está sempre nas nossas mãos o poder de eleger e derrubar quem agrega e quem não acrescenta. 

Reavalie seu feed, que é a sua seleção pessoal de influências, use seu poder de seguidor para incentivar projetos e pessoas que tenham um discurso coerente, que tragam algum benefício para você, que façam piadas que não precisam esbarrar em ofensas a nenhum grupo de pessoas, que inclua em vez de excluir. 

Já parou para pensar se em vez dessas pessoas que são capazes de dizer absurdos, fossem as pessoas que de fato geram conteúdo interessante e com discurso bacana que tivessem a mesma projeção? Quantos outros influenciadores que merecem um destaque infinitamente maior perdem para pessoas com discursos que só contribuem para o preconceito?

Ser famoso hoje é muito mais fácil que antigamente, mas ao mesmo tempo, está nas nossas mãos definir quem será ou não famoso hoje em dia. Nós temos esse poder. Você tem esse poder. Então escolha bem, avalie, pondere. Todo mundo sai ganhando com isso. Menos quem não merece ;)

Update: Depois desse post, Cocielo chegou a fazer um vídeo assumindo responsabilidade por tudo que falou, e de fato, espero que ele tenha aprendido algo nesse episódio. Ver essa mensagem chegando para seus milhões de seguidores é importante, mesmo assim, chegamos em um ponto que não dá mais para ignorar e passar pano como se nada tivesse acontecido.

1 em Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ feminismo/ Juliana Ali/ Reflexões no dia 23.04.2018

O mundo é muito maior que o seu mundo

A foto era de uma influenciadora bem famosa, de short e biquini, o short aberto. Na legenda, a moça explicava que não dava pra fechar o short porque ela tinha comido demais e a barriga estava inchada. A foto contradizia a legenda, era bem óbvio que a barriga não estava nem um pouco inchada. O short largo, cabia outra dela lá dentro quase. Choveram críticas, com toda a razão e direito.

Mas não é esse meu ponto. Algumas pessoas – ás vezes sem mesmo a intenção de defender, ás vezes bem com esta intenção – disseram coisas como “Ah, não tô nem aí. Nem sei direito quem é essa influenciadora”, “Passei batido, não me afeta”, “Vocês se importam demais com essas coisas, ela é só uma tonta, nem pensou direito no que falou, quem nunca?”.

Esse sim, é meu ponto. Esse argumento “não me afeta, então não é um problema” é extremamente perigoso. Leviano. EGOÍSTA. Pequeno. A foto da tal influenciadora também não me afetou em absolutamente nada. Eu, pessoalmente, não conheço muita coisa sobre ela a não ser o nome. Não sei nem que apito toca. Não tenho muito interesse em saber também – nada pessoal. E a foto? Bem, tenho 41 anos, não sou público alvo dessas pessoas, não me relaciono com o conteúdo delas, e uma barriga lisinha dançando em um short largo nada me diz. Beleza pra mim é outra coisa. E magreza não é qualidade que me toque, na verdade. Dou valor a outras paradas. Mas então, foda-se isso? Deixa pra lá? De jeito nenhum.

Veja, nunca passei fome. A fome não me afeta. Isso não significa que a fome não exista. Ela é uma realidade para uma parte importante da população brasileira. Também sou branca. Nunca sofri racismo. Por acaso isso quer dizer que o racismo não existe, só porque ele não ME afeta? Esse é justamente o argumento que muitos homens usam para dizer que feminismo é mimimi (a pior palavra já inventada no planeta). Porque pimenta no dos outros, né amigas.

Nunca passei fome, mas a fome me revolta e ME DIZ RESPEITO. O mesmo vale para o racismo, a LGBTfobia e outras questões problemáticas desse mundo. Uma delas, aliás, a gordofobia, os transtornos alimentares, o bullying e a distorção da auto imagem que as adolescentes estão fazendo de si mesmas. Pois são estes últimos que a tal influenciadora está incentivando com a foto da “barriga inchada”. O público dela é jovem, muito jovem. O que queremos para o nosso futuro? Como queremos que as crianças e adolescentes se sintam? Queremos que valorizem o que? Eu não quero que minha filha – nem nenhuma outra menina – priorize ser magra, bela e, caso não seja, sofra enormemente.

PRIVILEGIOS

“Privilégio é acreditar que algo não é um problema apenas por não ser um problema pessoal seu.” É um grande PRIVILÉGIO não ser afetada pelo racismo, ou pela miséria extrema, ou pela gordofobia. Há que se reconhecer isto e perceber que, para centenas de milhares de pessoas, esses problemas são capazes de destroçar vidas. Eu não serei parte do problema. Vou me revoltar. Vou apontar. Vou participar. Porque enquanto não fizermos isso, pensarmos fora do nosso mundo pessoal, tão pequeno, as chances do MUNDO REAL, do mundo grande, melhorar são muito, muito pequenas.