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Deu o Que Falar

3 em Autoestima/ Destaque/ Deu o Que Falar no dia 12.02.2018

A discussão sobre os peitos da Bruna Marquezine não poderia ter vindo em uma hora melhor

Estava aqui acompanhando meu Carnaval à distância e resolvi dar uma desabafada de leve aqui com vocês. Na verdade, só queria que alguém me dissesse que discussão que se criou em cima dos peitos da Bruna Marquezine é mentira {nota para quem (felizmente) não acompanhou: segundo a galera que acha que a internet é lugar para falar tudo que ninguém falaria frente a frente à pessoa criticada, eles estão caídos, piores do que de pessoas com 60 anos ou de mães que já amamentaram 6 filhos. Ah sim, e é um absurdo o fato dela ser rica e poder pagar silicone e estar desfilando com esse tipo de peito por aí.}

Os peitos da discórdia são esses, foto vinda diretamente do instagram da atriz @brumarquezine:

bruna-marquezine

O mais engraçado é que ao ver esse top, eu só lembrei das fantasias da Rihanna no Carnaval de Barbados. Caídos? Onde? Jura que teve gente que parou suas festas (ou seu descanso) para reparar nisso??? Mas não é sobre isso que eu queria falar.

Sei lá se esse texto está saindo cuspido desse jeito porque peitos são assuntos sensíveis para mim, provavelmente Bruna Marquezine não está nem aí para a discussão que seus seios desencadearam, mas eu sei o estrago, a frustração e a sensação de inadequação que gera ao ver alguém como ela ser alvo desse tipo de ataque. Não vamos cair nessa.

Eu sei que essa história de padrão é cruel, nós falamos disso e lemos sobre isso quase todos os dias. Só que olhem como a crueldade atinge níveis estratosféricos ao vermos que até mesmo uma mulher jovem, magra, famosa e dentro de todos os padrões possíveis tem partes do seu corpo avaliado, debatido e julgado. Pior ainda, julgado majoritariamente por outras mulheres. É triste em diversas maneiras.

É triste comparar um peito que está sendo chamado de feio com o peito de uma mãe. Vou repetir que o peito da Bruna Marquezine pode ser descrito de diversas maneiras, feio não é uma delas. Só que vou comentar sobre um dos comentários mais repetidos por aí: “nem uma mãe que alimenta X filhos tem um peito assim”. Não me assustaria se um dia saísse uma pesquisa que comprovasse a relação entre a falta de vontade de amamentar com o medo dos seios ficarem flácidos e feios. Nem acho que esse é O motivo, mas que é um dos motivos, tenho certeza.

É triste porque, na defesa dos peitos naturais e caídos, o que eu mais vi foi gente diminuindo as mulheres que optaram por silicone. “Tudo peito falso, siliconado, de plástico, duro”. Pera lá. Lembram do último post sobre não se ver livre de uma prisão e entrar em outra? Isso também tem a ver. As mulheres podem querer ter peitos “”””perfeitos”””” (com muitas aspas porque, apesar de ter silicone, eu não acho que peito de silicone é melhor ou mais perfeito do que um peito natural), mas elas não PRECISAM.

Aliás, falando em silicone, é triste porque tenho certeza que se ela botasse silicone receberia uma enxurrada de críticas, seria taxada de superficial e seu amor próprio seria posto em xeque. Porque nada nunca está suficiente bom, porque o padrão é mutável justamente para que a satisfação nunca chegue e a gente sempre ache que ainda não está perto da perfeição (e que perfeição seria essa, não é mesmo?).

Só que não vou ser pessimista, ainda estamos no meio do Carnaval. Acho engraçado – irônico demais, inclusive – que esse embate virtual esteja acontecendo justamente no Carnaval em que todas as minhas amigas e conhecidas estão todas unidas em um grande bloco de mulheres livres, leves, soltas e com os mais diferentes tipos de corpos, curtindo bloquinhos de maiôs, bodies, biquinis, pastiês e se cobrindo mais com glitter, paetês, maquiagens elaboradas e adornos de cabeça do que de roupa propriamente dita. Desconstruir o padrão de perfeição é fundamental, então, acho que no fim das contas, o timing dessa discussão foi perfeito.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ maternidade no dia 05.02.2018

A gravidez de Kylie Jenner e uma lição de maturidade na maternidade

Sabem como eu fiquei sabendo que a Kylie Jenner finalmente apareceu para dar fim ao mistério do seu sumiço de meses e revelar que, de fato, ela estava grávida? Por causa de um comentário que uma leitora fez no meu insta, lembrando de um texto que eu fiz há alguns meses sobre os boatos que estavam surgindo em torno da Kylie.

Eu não vejo o reality das Kardashians, eu não sigo a vida da família, mas claro, as vezes me deparo com alguma matéria que sai sobre o clã e clico, porque não sou imune à elas. Apesar de não ser fã, elas me fascinam pela habilidade de conseguirem transformar a vida de tanta gente (afinal, estamos falando de pelo menos 8 pessoas – e com certeza estou esquecendo alguém e ignorando as crianças) em um espetáculo midiático.

Nesses meses de Kylie desaparecida das redes sociais, eu fiquei curiosa. Não quis acreditar nas teorias da conspiração de que ela poderia ser a barriga de aluguel de Kim e fiquei bem incomodada com todas as suposições que ela deveria estar odiando o corpo, a gravidez, como vocês leram no outro post. Afinal, só por esse motivo ela poderia estar mantendo distância da mídia, não?

kylie-jenner

 

Só vamos lembrar que a mesma mídia que ela preferiu se manter distante foi a responsável pelas capas mais crueis que eu já vi com uma grávida. “Pesadelo das grávidas – Kim engordou 20 quilos (e ainda faltam mais 4 meses para parir”, “Kim ignora hábitos saudáveis e come bolo, sorvete e massa”, “Largada aos 90 quilos – Devastada pelo pé na bunda que levou de Kanye, Kim acha conforto na comida”. E isso porque eu só estou falando das capas de revista e deixando de lado a quantidade blogs de fofocas e comentários recebidos nas redes sociais.

Ou seja, acho que realmente existiam motivos mais graves para ela ter decidido manter distância da mídia do que estar odiando seu corpo ou sua gravidez, não é mesmo?

Quando finalmente vi o vídeo que ela fez, acho que eu fiquei tão feliz quanto as fãs que mais acompanham a vida de Kylie. A maturidade de ter decidido fugir dos holofotes apesar da família que ela faz parte me deixou impressionada, mas a forma delicada que ela anunciou sua filha ao mundo, não deixando espaço para questionamentos sobre ódio a qualquer coisa e focando apenas no amor, me deixou emocionada de verdade.

Provavelmente ter visto a experiência de suas irmãs e o constante julgamento que elas estavam expostas a ajudou a tomar tal decisão, mas nem sempre podemos esperar esse tipo de consciência de alguém, ainda mais de uma mulher que mal saiu da adolescência. Mais difícil ainda esperar isso de uma pessoa que passou a maior parte de sua existência dividindo cada respiro que dava.

Mas maternidade é isso. É deixar as estruturas balançarem e respeitar-se acima de tudo, afinal, mãe feliz é criança feliz também. Pelo jeito Kylie parece ter entendido isso bem mais cedo que muita gente, inclusive eu. 

 

0 em Autoestima/ Deu o Que Falar/ Juliana Ali/ Relacionamento no dia 22.01.2018

A normalização do “date ruim” (e por que isso não pode acontecer)

Onze anos. Escola. Um menino quase desconhecido da mesma idade rouba um beijo na quadra de educação física. Susto. Ela nunca tinha beijado na boca.

Dezesseis anos. Virgem. Primeiro namorado quer transar. Ela também, mas ainda não, vamos esperar mais um pouquinho, pra ter certeza. Ele passa semanas e semanas insistindo. Muito. É chato. Fica climão. Ele fica bravinho, ela toda meiguinha, dizendo pera só mais um pouquinho, com cuidado pra não chatear o boy. Até que decide que vamos lá.

Dezenove anos, segundo boy da vida, mais velho, já quer transar logo de cara, no primeiro dia. “Não, não, pera, vamos sair mais algumas vezes, não é assim, tô na dúvida, nem sei se é assim que as coisas funcion… Será que é assim que as coisas funcionam???”. E ela transa mesmo sem estar a fim. Ele insistiu muito, fez cara de preguiça na hora que ela disse não. Ela não quer parecer uma tonta, vai ver que é assim que as coisas funcionam.

Vinte e quatro anos, já mais experiente, vai transar com um cara super bacana, lindo. Tudo indo bem até que ele pega a garota pela cabeça e empurra na direção da sua virilha, sinal claro e direto e obrigatório para “quero sexo oral, agora”. Que saco, se ela quisesse fazer ela faria, mas enfim, tá bom vai. E ela faz.

rindo de nervoso (e raiva)

rindo de nervoso (e raiva)

Algo similar ás situações acima já aconteceu com você? Aposto que, com algumas variações, já deve ter acontecido com a maioria das mulheres. Tudo o que falei foram casos reais que aconteceram comigo, na minha vida.

Por que estou contando essas coisas? Porque semana passada aconteceu algo que tem sido tratado de forma muito peculiar e perigosa, a meu ver.

Uma moça, que permanece anônima, relatou a um site americano (bem irresponsável, a meu ver), em detalhes, um encontro que teve com o ator/diretor/roteirista Aziz Ansari no segundo semestre do ano passado.

“Grace”, nome fictício, disse que o encontro foi um desastre. Que ele forçou uma situação. Apertou seu pescoço. Não leu os sinais verbais e não verbais que ela enviou. Foi agressivo. Ela não queria aquele sexo, estava desconfortável, se sentiu encurralada por estar na casa dele. Também de acordo com ela, Aziz não percebeu nada disso, achou que Grace estava curtindo pra xuxu e seguiu em frente.

A partir desse relato, as opiniões do público e da mídia imediatamente correram para dois pólos: os que começaram a gritar “abusador” e os que disseram “mano, foi só um date ruim”. Pior: muita gente usou o caso, leviana e oportunamente, para deslegitimizar o movimento de denúncias de assédio que tem acontecido ultimamente em Hollywood.

Pois bem. Pra mim, Aziz não é nem um estuprador e nem a história é um simples caso de “date ruim”. É mais complexo.

O que aconteceu aqui é o mesmo que aconteceu comigo nas situações que descrevi no início do texto. O mesmo que já deve ter acontecido com você alguma vez – ou algumas vezes – na sua vida.

O homem é mais forte que a mulher fisicamente. Em uma situação em que um casal está a sós, existe essa vantagem implícita. Além disso, por conta da sociedade patriarcal, o homem é sempre “o experiente”, “o protetor”, “o que ensina o sexo”, enquanto a mulher é “a submissa”, “a ingênua”, “a delicada”, “a recatada”. Isso está introjetado em todos nós. Mulheres e homens.

Aziz Ansari não é Harvey Weinstein nem Bill Cosby nem Kevin Spacey. Ele é o João, teu amiguinho da escola. Ele é o Paulo, teu primeiro namorado. Ele é o Eduardo, aquele gatinho que você sempre quis pegar. Um homem egoísta que não para um minuto para olhar para a mulher que está ali, na frente dele.

E Grace quem é? Uma tonta? Uma mulher que não sabe sair correndo de um date ruim? Uma abestada que não tem coragem de se impor? Não. Grace sou eu e você.

E, embora nem Aziz nem Paulo e nem João mereçam ir para a cadeia por isso, precisamos, sim, conversar a respeito desse assunto. Porque, mesmo hoje em dia, o que aconteceu com ela é tão normalizado e tão corriqueiro na nossa sociedade que aparentemente ela não tem nem o direito de reclamar. E enquanto isso, a maior parte dos homens continuam agindo no sexo como se não estivessem nem com um outro ser humano, e sim com um simples objeto que existe para a única finalidade de lhes dar prazer.

Precisamos ser respeitadas pelos homens que escolhemos para passar um tempo a nosso lado. É o mínimo. E enquanto chamarmos esse tipo de comportamento de “date ruim”, isso não vai mudar.