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Deu o Que Falar

7 em Autoestima/ Comportamento/ Deu o Que Falar no dia 22.06.2017

Legítimo ou oportunista, o movimento que a Anitta tem feito pode ser revolucionário

De semana passada para cá, uma notícia vem sendo muito compartilhada e comentada: as bailarinas da Anitta. Mais especificamente, as bailarinas gordas da Anitta. Não lembro de ter dado tanta polêmica no ano passado, quando ela se apresentou com 10 dançarinas plus size no palco do Criança Esperança, mas agora deu e eu resolvi falar um pouquinho sobre isso, relembrando os momentos do meu saudoso DQF.

Porque parte da polêmica é baseada em um argumento: “isso é oportunismo puro porque a Anitta mesmo tem pavor de engordar, vive fazendo plásticas, dietas malucas, ela quer pregar a autoestima e autoaceitação mas ela mesmo não tem nenhuma”. E esse tipo de argumento me revolta tanto, mas tanto, que resolvi aproveitar esse espaço para fazer textão.

De fato, quem acompanha a artista em suas redes sociais consegue perceber em poucos stories como ela se justifica pelo que come, pelo peso, pela academia, pela roupa marcando, pela dieta, pela coach que ela arrumou para definir seu corpo. Acho que a única coisa que eu diria que aparenta ser bem resolvida nela é sua relação com as plásticas, ela assume que gosta dos resultados, que se prefere com a boca maior, com o nariz mais afinado – e quem somos nós para dizer o que uma pessoa pode ou não gostar em si mesma, né?

Só que, ao contrário de quem está criticando, eu não consigo bater o martelo e afirmar que essa relação que ela aparenta ter com o próprio corpo é sinal de que ela não tem amor próprio. Aliás, pelo o que eu vejo, diria que ela nada mais é que uma grande vítima do padrão, que pega especialmente pesado com ela.

Imaginem só os feitos da Anitta, que saiu de uma comunidade carioca e com 24 anos administra sua própria carreira, é um sucesso nacional que arrasta multidões por onde passa e está trilhando uma carreira internacional que tem tudo para dar certo. Não tem um ano que ela lançou sua primeira música voltada para esse mercado e desde então lançou singles com Iggy Azalea, Maluma, Major Lazer, foi a única brasileira a se apresentar no Jimmy Fallon e já está em 15o. lugar na lista dos artistas mais populares do mundo pela Billboard. O impossível não parece tão impossível assim para ela, não é mesmo?

Porém, é só entrar em qualquer portal de fofoca que a maior parte das notícias relacionadas à cantora têm a ver com seu corpo e até mesmo quando a matéria não é sobre ele, algumas linhas são dedicadas para dizer se ela está magra, com quilinhos a mais, celulites ou com a boca mais preenchida. “…e a cantora usou um look que valorizou sua ótima forma física” aparece quase junto de “Anitta usou roupa no show que fez pular gordurinhas e mostrou celulite”, isso quando não nos deparamos com manchetes caça cliques como “veja aqui as mudanças que Anitta fez no seu rosto”.

Se para nós, meras mortais, que não somos tão cobradas assim já é difícil não se deixar seduzir pelo padrão, imaginem então uma pessoa que está dentro de uma indústria que mesmo com feitos impressionantes, prefere sempre fiscalizar seu corpo, na sua aparência e nas suas mudanças físicas? É avassalador.

Não sei vocês, mas eu só consigo ver benefícios na inclusão de dançarinas com todos os tipos físicos. Não importa se ela está abraçando a causa apenas para virar notícia, o importante é que está virando notícia. Vou além, acho super importante que ela queira quebrar esse padrão que é tão cruel com ela, ajudando o mercado e a outras mulheres.

Tudo bem que ainda tem muita estrada pela frente, mas olhem esses comentários que são facílimos de achar em qualquer post compartilhado sobre o assunto e me contem se a legitimidade desse ato realmente importa no fim das contas:

Por anos a gordofobia apareceu disfarçada de preocupação pela saúde alheia e o estereótipo da pessoa gorda e preguiçosa que não gosta de se exercitar sempre foi socialmente aceito. Quer maneira melhor de quebrar esses paradigmas do que jogar os holofotes para essas dançarinas? Ao meu ver, a discussão sobre ser oportunismo ou não é irrelevante quando está envolvendo tantos conceitos importantes como representatividade e inclusão.

E eu espero de verdade que esse movimento influencie em algum momento a própria Anitta, para que um dia ela consiga sentir a liberdade de não ter que ceder às pressões e expectativas que a mídia e as pessoas esperam dela, para que ela jamais tenha que se justificar de novo por ser a mulher incrível que ela é.

O que vocês acham sobre esse assunto?

11 em Deu o Que Falar/ maternidade no dia 02.02.2017

Quebrando padrões no ensaio gestante (ou obrigada, Beyoncé)

A essa altura do campeonato todo mundo já sabe que Beyoncé está grávida de gêmeos. Ela anunciou no instagram inesperadamente em uma foto cheia de referências artísticas e simbolismos, desde Pierre et Gilles, como o Modices bem apontou, até mesmo à carta de tarô da Imperatriz, que representa sensualidade, intuição materna, criatividade e realização. Em pouco tempo a foto passou a ser a mais curtida da história do instagram – e também recebeu uma chuva de críticas.

 

 

 

Gosto é gosto, eu sei, e cada um tem o seu. Eu, particularmente, achei uma foto poderosa, até mesmo icônica para o mundo pop, mas minha opinião não vem ao caso. É porque toda essa discussão que gerou me lembrou um assunto que me deixou de certa forma desconfortável na gravidez: ensaio gestante.

Eu não fiz. Ouvi de muita gente que eu iria me arrepender, que depois eu iria querer ter os registros disso para lembrar, mas nunca fiz questão. Quando eu me interessei a ponto de procurar o trabalho de fotógrafos especializados no assunto, nenhum encheu meus olhos. Por um certo momento até pensei em procurar fotógrafos com outros estilos mas quando fui pesquisar referências de ensaios, me deparei com temas muito parecidos – e nenhum me inspirou. O tempo foi passando e a vontade – que já não era muita – sumiu completamente.

Por causa disso, e por não curtir postar fotos segurando a barriga, fiquei sabendo que teve gente que se questionou se eu estava curtindo estar grávida – ou pior – se eu queria o bebê (nunca vou entender quem insinua uma coisa dessas, mesmo que não diretamente para a futura mãe). Juro que eu me senti mal quando fiquei sabendo disso. Eu gostei de estar grávida, não me senti plena mas também não me senti mal, curti ver a barriga crescer, amei elaborar looks com meu estilo para esse período (por mais que a barriga só tenha começado a aparecer lá com 7 meses e eu sempre tenha gostado de modelagens larguinhas, ou seja, a barriga quase não aparecia MESMO) mas eu simplesmente não curtia ficar exibindo o barrigão só por exibir. Porque não era eu, não tinha a ver comigo.

O mesmo aconteceu com o ensaio gestante. Acho lindo quem faz mas simplesmente não me via fazendo aquelas fotos de lingerie, ou então aquelas de top no quarto do bebê esperando placidamente a sua chegada, segurando sapatinhos em cima da barriga ou fazendo coramão com o umbigo no centro. Infelizmente só vi ensaios que realmente me inspiraram quando o Arthur já tinha nascido, mas por que eu faria essas fotos só porque as pessoas esperavam isso de mim? E por que eu não ter agido como esperavam gerou dúvidas quanto à minha felicidade na gravidez? 

Muitas mulheres que se descobrem grávidas não viram necessariamente pessoas românticas que gostam de lacinhos e querem postar fotos felizes e maternais segurando a barriga. Que precisam demonstrar todo dia por meio de fotos, frases ou textos como estão se sentindo preenchidas de amor. Muitas mulheres querem apenas ser elas mesmas nesse período já tão cheio de mudanças e ansiedade. E tá tudo bem com todas, pode ter certeza. O amor pelo bebê será o mesmo no final (salvo raras exceções, claro).

E aí voltamos à Beyoncé. Ela quis fazer uma foto super conceitual para postar nas suas redes sociais, fez e postou. Aliás, continua postando várias fotos artísticas. Claro que vai causar estranhamento e acho até natural que tanto questionamento e nariz virado para algo que está fugindo completamente dos padrões e propondo novos pensamentos, mas por favor, vamos procurar não julgar as escolhas dela nesse momento (ou de qualquer outra mãe)? Ainda mais de algo tão inofensivo e pessoal quanto um ensaio gestante?

Beijos!

PS: Obrigada pela inspiração nesse post, Lyanna. <3

8 em Autoestima/ Deu o Que Falar no dia 30.01.2017

Miss Canadá, você me representa

Ontem rolou o Miss Universo, e estava eu assistindo de boas quando vejo cruzar a minha TV a Miss Canadá, Siera Bearchell. Não vou negar que o corpo dela chamou a minha atenção de cara, peitos maiores do que as outras candidatas, curvas e um porte super atlético. Achei linda!

Qual não foi minha surpresa ao ver os comentaristas no intervalo debatendo sobre ela, mas de forma pejorativa! Um comentou que ela estava fora do padrão, e por isso, era feia. Também rolaram alguns comentários bem gordofóbicos dizendo que só pode usar cropped quem não tem uma gordurinha. Ah, e toda hora faziam questão de dizer que ela não tem corpo de miss. Um indivíduo, que não quero citar o nome, chegou a dizer que ela entrou por cotas. Eu fiquei em choque com tamanha grosseria. Cotas??

A Camilla Estima, nossa colunista nutricionista, levantou a questão no nosso grupo e todas as meninas estavam abismadas com a deselegância. Ela fez questão de lembrar como a comparação é tão ruim que faz com que uma mulher magra em um ambiente de corpos excessivamente magros se torne…gorda! O quão louco é isso??

Toda vez que me pego ouvindo que uma mulher do tipo físico da Siera é gorda, eu fico me perguntando seriamente o que a pessoa acha de mim. Aliás, se esse comentário é feito na minha frente, eu pergunto sem pudor e sempre ficam sem graça ao me responder “ah, mas você não é gorda..” Preferia que assumissem a régua que estão medindo logo de uma vez, mas isso dificilmente acontece. Pelo menos consigo pausar esse tipo de comentário e quem sabe faço a pessoa pensar sobre isso? Só acho muito triste eu confirmar em rede nacional e horário nobre que a régua continua sendo tão exclusiva (no sentido de excluir mesmo, não de ser algo único).

Os apresentadores não foram os únicos a deixarem claro que o corpo de Siera não estava dentro dos padrões para miss. Infelizmente ela tem ouvido isso há algum tempo nas redes sociais e também nas entrevistas para a imprensa, que fazem questão de frisar que ela é mais larga que as outras concorrentes. Tanto que recentemente Siera resolveu escrever em seu instagram sobre o assunto, e deu um banho de autoaceitação, virei fã!

Legenda: “Como você se sente sendo tão mais…..larga que as outras candidatas?” Um membro da mídia me fez essa pergunta em uma coletiva de imprensa. Eu fiquei quase sem palavras. Eu pensei “Como eu me sinto por ser eu mesma? Como eu me sinto por estar segura comigo mesma? Como eu me sinto por estar seguindo meu sonho de representar o Canadá no palco do Miss Universo? Como eu me sinto por ser um modelo para tantas meninas jovens que têm dificuldades de achar alguém que representem elas? Como eu me sinto por redefinir beleza?”- Minha resposta: Eu me sinto ótima. 

O Miss Universo existe desde 1952 e de lá pra cá, tem sido palco de diversas mudanças de padrões tanto de corpo quanto de cabelo e de moda. Vendo a Miss Canadá chegar até o top 9, eu fiquei pensando que talvez a gente esteja presenciando mais uma dessas mudanças, fiquei esperançosa de verdade. Até me deparar com comentários deselegantes de pessoas que estão ali falando sobre o concurso e de certa forma passando informação para os telespectadores.

Como assim a informação passada é de bullying, body shaming e desmerecimento por ela ser maior, mais larga ou mais curvilínea que as outras concorrentes? Se ela chegou ao ponto que chegou, estava claro que ela tinha corpo de miss e estava dentro dos padrões do concurso, não é mesmo? Por um momento fiquei achando tudo uma vergonha, um retrocesso.

Mas aí parei pra pensar melhor e resolvi olhar por um outro lado. Sei que é pedir muito de um Miss Universo ao desejar que ele traga discussões de empoderamento, amor próprio e autoaceitação, mas sabem que no fim das contas eu fiquei feliz? Feliz de ver uma mulher como a Siera ganhando voz e dando entrevistas contando como a vida dela mudou quando ela parou de tentar se adequar aos padrões. Feliz de ver muita gente questionando a emissora e criticando a postura preconceituosa dos apresentadores. Talvez, quem sabe, essa sementinha já esteja dando frutos?