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Deu o Que Falar

1 em Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ feminismo/ Juliana Ali/ Reflexões no dia 23.04.2018

O mundo é muito maior que o seu mundo

A foto era de uma influenciadora bem famosa, de short e biquini, o short aberto. Na legenda, a moça explicava que não dava pra fechar o short porque ela tinha comido demais e a barriga estava inchada. A foto contradizia a legenda, era bem óbvio que a barriga não estava nem um pouco inchada. O short largo, cabia outra dela lá dentro quase. Choveram críticas, com toda a razão e direito.

Mas não é esse meu ponto. Algumas pessoas – ás vezes sem mesmo a intenção de defender, ás vezes bem com esta intenção – disseram coisas como “Ah, não tô nem aí. Nem sei direito quem é essa influenciadora”, “Passei batido, não me afeta”, “Vocês se importam demais com essas coisas, ela é só uma tonta, nem pensou direito no que falou, quem nunca?”.

Esse sim, é meu ponto. Esse argumento “não me afeta, então não é um problema” é extremamente perigoso. Leviano. EGOÍSTA. Pequeno. A foto da tal influenciadora também não me afetou em absolutamente nada. Eu, pessoalmente, não conheço muita coisa sobre ela a não ser o nome. Não sei nem que apito toca. Não tenho muito interesse em saber também – nada pessoal. E a foto? Bem, tenho 41 anos, não sou público alvo dessas pessoas, não me relaciono com o conteúdo delas, e uma barriga lisinha dançando em um short largo nada me diz. Beleza pra mim é outra coisa. E magreza não é qualidade que me toque, na verdade. Dou valor a outras paradas. Mas então, foda-se isso? Deixa pra lá? De jeito nenhum.

Veja, nunca passei fome. A fome não me afeta. Isso não significa que a fome não exista. Ela é uma realidade para uma parte importante da população brasileira. Também sou branca. Nunca sofri racismo. Por acaso isso quer dizer que o racismo não existe, só porque ele não ME afeta? Esse é justamente o argumento que muitos homens usam para dizer que feminismo é mimimi (a pior palavra já inventada no planeta). Porque pimenta no dos outros, né amigas.

Nunca passei fome, mas a fome me revolta e ME DIZ RESPEITO. O mesmo vale para o racismo, a LGBTfobia e outras questões problemáticas desse mundo. Uma delas, aliás, a gordofobia, os transtornos alimentares, o bullying e a distorção da auto imagem que as adolescentes estão fazendo de si mesmas. Pois são estes últimos que a tal influenciadora está incentivando com a foto da “barriga inchada”. O público dela é jovem, muito jovem. O que queremos para o nosso futuro? Como queremos que as crianças e adolescentes se sintam? Queremos que valorizem o que? Eu não quero que minha filha – nem nenhuma outra menina – priorize ser magra, bela e, caso não seja, sofra enormemente.

PRIVILEGIOS

“Privilégio é acreditar que algo não é um problema apenas por não ser um problema pessoal seu.” É um grande PRIVILÉGIO não ser afetada pelo racismo, ou pela miséria extrema, ou pela gordofobia. Há que se reconhecer isto e perceber que, para centenas de milhares de pessoas, esses problemas são capazes de destroçar vidas. Eu não serei parte do problema. Vou me revoltar. Vou apontar. Vou participar. Porque enquanto não fizermos isso, pensarmos fora do nosso mundo pessoal, tão pequeno, as chances do MUNDO REAL, do mundo grande, melhorar são muito, muito pequenas.

2 em Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ Relacionamento no dia 11.04.2018

Khloé Kardashian não merece ter culpa na traição (e nem você)

Essa semana o mundo teve provas de que Khloe Kardashian foi traída pelo namorado e pai da filha que ela está esperando. O jogador de basquete foi filmado saindo de uma noitada e chegando no seu hotel acompanhado de uma mulher. E o que eu mais tenho visto por aí?

khloe-kardashian

Ao que tudo indica – porque só estou acompanhando por alto mesmo – seu relacionamento com Khloé começou exatamente desse jeito: ele largando a ex grávida para ficar com ela. E aí, para muita gente vale o “aqui se faz, aqui se paga”.

Eu não estou aqui para defender Kardashian, também não quero discutir se ela não teve sororidade com a ex do cara porque eu não tenho como saber o que aconteceu entre os dois, não sei o quanto ela ficou sabendo antes ou depois, não sei de nada (e acho que nem quero saber, sinceramente). Do jeito que é o mundo das celebridades, também não duvido nada que foi uma estratégia pensada para atingir algum objetivo específico. Depois que fiquei sabendo que o Justin Bieber contratou um cara para mudar a percepção que o público tinha dele e, dentre as estratégias para isso, tinha até pixação em muro e saídas com prostitutas milimetricamente calculadas, nada mais me surpreende.

Mas vamos jogar luz ao verdadeiro problema dessa história toda?

Acho muito engraçado ver que toda vez que sai a notícia que uma celebridade foi traída, imediatamente as pessoas que gostam de acompanhar a vida dos famosos + a mídia + os fofoqueiros de plantão, todo mundo se organiza para criar times. E quem está sempre dos lados opostos? A traída versus a que estava envolvida na traição. O homem, que tinha o relacionamento e compromisso com as duas, sai como? Pela tangente, de fininho, como se nada tivesse acontecido e em poucos dias é esquecido da história.

E isso acontece na nossa vida também. Tirando casos mais extremos, onde a traição acontece de ambos os lados (tipo a amiga com o seu namorado), somos sempre levadas a acreditar que é a mulher que foi irresistivelmente atraente, que ela marcou muito em cima, que ela é a verdadeira responsável pela traição. Xingamos a outra e não resolvemos com quem de fato traiu nossa confiança. Somos levadas a acreditar que nós somos culpadas porque não demos atenção, porque não transamos o suficiente, porque estamos grávidas, porque não sabemos escolher (o que pode até acontecer de fato, problema pra ser resolvido na terapia mas que não exclui a responsabilidade de quem trai). E até quando vamos consolar nossas amigas em uma tarde onde a orelha do embuste chega a doer do tanto que a gente fala mal, acabamos dizendo em algum momento que a outra é vagabunda. Pode assumir, todo mundo em algum momento da vida já fez isso.

E foi isso que aconteceu com a Khloé: “Ah, ela está grávida e por isso o homem traiu”, “bem feito, ela ficou com ele enquanto a ex do cara estava grávida, só está tendo que merece”, “ela deveria saber o que a esperava quando ele trocou a ex por ela”. “Koko só escolhe homem errado mesmo, né”.

E A RESPONSABILIDADE DELE NISSO TUDO, GENTE?

Porque aparentemente é ele quem tem esse comportamento repetitivo de trair as futuras mães de seus filhos. Ele é que não está nem aí se é filmado ou fotografado saindo com outras mulheres. Ele que expôs a namorada. Por que o holofote está brilhando menos do lado dele?

Independente do que aconteça com esse casal, vamos usar esse episódio para deixar bem ilustrado, ao invés de arranjar motivos para jogar uma mulher contra a outra, vamos lembrar que a pessoa que devia respeito à mulher e à amante é que deveria levar o foco da culpa e da responsabilidade? Não estou dizendo para ficar amiga, só estou dizendo que enquanto a gente ficar botando a competição feminina acima do comportamento questionável ou do mau caratismo do homem (ou da mulher, tanto faz, apesar de eu ver menos casos de traição em relacionamentos lésbicos – faz sentido isso?), vamos continuar perpetuando comportamento machista e a sensação (que os homens já têm) de que eles são acima do bem ou do mal.

E termino aqui com a frase que a ex do namorado da Klhoé postou, uma posição bem sensata, inclusive. “Se você se respeita e respeita o próximo, você nunca faria piada da má sorte dos outros ou se sentiria justiçada às custas dessa pessoa. Desejando paz a todo mundo.”

0 em Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ Relacionamento no dia 09.04.2018

As vezes o término pode ser para o bem

Semana passada fui bombardeada de posts, memes e mensagens um tanto quanto desesperadas sobre o término de Channing Tatum com a Jenna Dewan Tatum. Aliás, é o tipo de coisa que eu leio toda vez que um casal que está há muito tempo junto e parece ser o casal perfeito, resolve separar.

“Não tem mais como acreditar no amor.”
“Acabou a esperança.”
“Eu amava esses dois juntos, eles não poderiam ter terminado.”

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Por anos, muitos, eu fui a pessoa que também encarava esse tipo de separação como uma bomba. Como assim esse casal aparentemente perfeito resolveu separar? O que será que aconteceu? Quem foi que traiu (como se traição fosse realmente a pior coisa que pode acontecer em um casamento)? Será mesmo que não é uma crise e eles não voltam? E não estou falando apenas de relacionamento entre celebridades.

Foi preciso que eu começasse a receber notícias de divórcios acontecendo perto de mim, com amigos próximos, para eu entender que muitas vezes a notícia que “o término foi amigável” pode ser realmente verdade.

Não é simples, todos os exemplos que me rodeiam me dão a certeza que é necessário um nível de maturidade muito grande para enxergar que um casamento que ainda tem amor e algum grau de parceria já não faz mais sentido para ambas as partes. Que talvez a relação fique mais saudável se ambos estiverem separados. E foi preciso muita conversa, onde eu precisei ser consolada pelo término de um casamento que não era o meu, para eu entender que nem sempre um divórcio é sinônimo de fracasso.

A cena foi ridícula inclusive. Eu ali, catatônica recebendo a notícia (com alguns meses de atraso porque nós somos dessas amizades que passam meses sem falar, mas quando fala, parece que foi ontem), e a minha amiga falando: “Carla, tá tudo bem. Eu to muito feliz com meu namorado novo, o fulano (o ex) está namorando também, estamos todos felizes com a decisão, tá tudo ótimo.”.

Demorei para entender que realmente existe o término amigável, algo que eu só acreditava que existia em nota de assessor de famoso. Eu sempre fui a pessoa que acredita em amor eterno, que acha lindo aquelas histórias de casamentos duradouros, inclusive tenho uma tatuagem que diz “o amor vence tudo”.

Continuo acreditando piamente que o amor vence tudo, mas esse amor que eu acredito hoje é um amor menos romântico e mais abrangente, que engloba desde o amor pelo filho até o amor pelos amigos, pelos pais e também o amor vindo de um relacionamento amoroso, claro. E isso me fez enxergar as coisas muito mais leves, inclusive consegui tirar de mim um pouco da pressão invisível que eu mesma colocava no meu casamento sem nem perceber, afinal, nós somos um dos exemplos de casais que estão juntos desde que o mundo é mundo (15 anos de namoro, quase 8 de casamento).

Só que aos poucos a gente entende que nem tudo é preto no branco. Que não existe perfeição. Que nem sempre término significa fracasso.  E que sucesso mesmo é quando ambas as partes estão felizes e satisfeitas de suas decisões, independente se estão juntas, separadas ou tentando dar a volta por cima.

Sei que é difícil a gente se desfazer dessa ideia romântica de amor eterno, mas imagina que lindo entendermos que a felicidade no “felizes para sempre” pode ser alcançada independente do status de relacionamento?