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Comportamento

0 em Autoestima/ Comportamento/ Experiência/ Futi em NYC no dia 12.04.2017

Clima e autoestima

Antes de eu me mudar, algumas amigas que moram (ou já moraram) em lugares cujo inverno é bem demarcado e intenso me alertaram: aproveita bem o verão porque quando esfria a coisa complica. E eu segui bem o conselho, bati muita perna, fui à piscina, à praia, curti parque e por do sol, aproveitei lugares ao ar livre e ficamos até tarde na rua.

Quando o termômetro foi caindo, eu fui encarando o frio com curiosidade. Já viajei para muitos lugares frios, inclusive para NY, mas estava empolgada com a experiência de morar em uma cidade com inverno de verdade, com neve e temperaturas abaixo de 0 grau, com comemoração de Natal com ugly sweaters e cujas músicas que falam “baby, it’s cold outside” ou “winter wonderland” fazem todo sentido para essa época do ano. E Nova York em Dezembro é especialmente mágica – mesmo escurecendo as 4:30 da tarde – o clima natalino por toda cidade realmente contagia e te faz sentir em filmes, uma sensação maravilhosa que eu nunca vou esquecer.

Só que aí chegou janeiro. E fevereiro (que eu passei no Brasil, e acho que nunca dei tanto valor ao nosso clima quanto agora). E março. E eu descobri que não estava tão bem assim. A curiosidade e empolgação de novembro deu espaço para um grande desânimo, para uma apatia fora do normal e até mesmo uma autoestima minada.

Em janeiro, com o casaco que me acompanhou o inverno inteiro (tadinho, merece um descanso)

Eu, que sempre me empolguei em fazer looks de frio, me vi de saco cheio do meu armário. Não aguentava mais olhar para os mesmos casacos, ter que botar várias camadas de roupas para ir na esquina e só ter uma parte do guarda roupas que realmente dava para usar no dia a dia. Fotografar look? Pra quê se eu só tava usando as mesmas coisas sempre? Fui perdendo a vontade até mesmo de alimentar o instagram, estava sem saco, sem olhar, sem inspiração.

A minha vaidade foi para o beleléu. Deixei de pintar as unhas do pé e a depilação começou a ser lembrada apenas quando a situação estava crítica. A única coisa que ganhou atenção foi a pele, especialmente das mãos, porque elas ficaram extra secas do aquecedor e gritavam por hidratação. E a bola de neve dentro de mim foi crescendo cada vez mais, porque eu fui perdendo a vontade de sair de casa. Deixei passar dias lindos só porque eles estavam congelantes. Poderia ter ido a museus, feito programas em lugares fechados, batido perna mas não, quando vi estava estagnada dentro de casa, totalmente entediada e usando o Arthur como desculpa para eu não sair. Em algum dado momento eu me senti incapaz.

Mas vocês sabem o que foi mais assustador?

Ter percebido o efeito devastador do inverno em mim só agora, na semana que fez mais de 20 graus e o sol brilhou e esquentou a minha pele de verdade. Quando senti o calor a minha energia voltou, a minha vontade de explorar a cidade também, de sair todo dia só para fazer os mais diferentes looks – e fotografar todos e tudo! Voltei a sentir vontade de depilar e deixar os pés bem cuidados, por fim me senti renovada, renascida e bonita novamente! E só aí eu percebi como eu operei o inverno todo com, sei lá, uns 40 % da minha capacidade.

Cor, leveza, iluminação e um sorriso maior no rosto. Ah, a primavera!

O engraçado é que eu também percebi que eu não fui a única, isso acontece até com quem já encarou inúmeros invernos. Nesse fim de semana que a temperatura chegou a 23 graus em um domingo ensolarado as ruas estavam lotadas, as pessoas nas ruas andavam sem casacos, sentadas nas varandas dos restaurantes, a felicidade no ar realmente era palpável e a vontade de recarregar a vitamina D também.

 

Antes eu acreditava naquela frase que as pessoas ficam mais bonitas e bem arrumadas no inverno, mas hoje eu tenho certeza que nada se compara à beleza e à leveza dos dias quentes e ensolarados!

9 em Comportamento/ crônicas/ Relacionamento no dia 11.04.2017

Emily, eu também não vi o meu abuso emocional

Emily é vítima, mas por muito do que ela disse e fez no programa não gostaria que ela ganhasse, apesar de achar que hoje ela já ganhou esse BBB. Infelizmente.

No entanto, queria aproveitar a situação pra dizer uma coisa: meu coração apertou horrores ao ver Emily “não entendendo” o que de fato estava acontecendo. Eu voltei no tempo. Toda pessoa que viveu um relacionamento de abuso emocional principalmente antes dos 20 sabe que dói tanto quanto levar um tapa, sem contar que o tapa pode chegar a acontecer.

O pior é que é verdade! A coisa é tão velada e insconsciente que você não vê! Eu mesma quase morri de desgosto quando meu relacionamento abusivo terminou, todo mundo via o que eu não via. Foi um favor aquele fim, mas eu não enxergava. Eu sofri como se fosse o fim, o meu fim, mas na verdade foi o meu começo.

Eu precisei de uns 6 meses para me recuperar, mas levaram ANOS pra eu ENTENDER tudo que havia acontecido, para eu compreender que emocionalmente eu havia sido destruída, que minha autoestima tinha sido dilacerada.

Eu não enxergava que a comparação com outras mulheres era uma forma de manipulação. Não me chocou o dia que ele falou por mim e contou pra todo mundo “o que tinha acontecido com a gente”. Ele mentiu, eu menti junto (por medo não sei do que). Eu cedi muita coisa porque “era assim que a menina antes de mim fazia”. Eu abri mão de pensar por mim pra não o perder, por medo. Eu achava normal ouvir que eu não era tão bonita, tão gostosa ou tão adequada quanto as outras garotas. Eu achava normal ser comparada a uma ex perfeita que fazia tudo que o cara queria. Era comum pra mim que se usasse da minha baixa autoestima pra me manipular. Eu achei normal dizer não pra uma viagem maravilhosa por medo de deixar ele sozinho, deixei de sair do país pela primeira vez. Tinha um padrão, eu fingia que não via. Eu não fazia terapia, eu escolhia o que contava pros outros e eu não enxergava, mas pior, eu não suspeitava! Até poucos anos atrás não sabia o que era o perigo do abuso emocional até que eu descobri vários esqueletos saindo do armário. Curioso como eu não lembro de várias coisas, mas minhas amigas de uns anos pra cá me contam histórias absurdas que meu cérebro recalcou. Hoje, quando falamos nisso, todas percebemos o que na época não fazia tanto sentido.

Eu era muito novinha, não tinha nenhuma segurança e nenhuma autoestima.

Recentemente uma grande amiga me revelou algo que esse cara me disse, na frente dela e foi como se eu tivesse ouvido aquele absurdo pela primeira vez; porque na época eu não entendi. Era um soco no estômago, destruidor. Falado em alto e bom som, na frente dos outros. Depois outra amiga de infância me lembrou uma outra história que eu esqueci e no fim, eu me sinto meio estranha de dizer que eu não via.

Um dia me perguntaram se eu apanhei dele. Eu enchi a boca pra falar que “em mim ele nunca encostou um dedo”. Eu não devia ter me preocupado em defender o cara. Talvez se eu tivesse levado um tapa eu tivesse entendido, talvez não. 

Eu não via da mesma forma que a Emily parece não ver. 

Eu acredito que ela não vê, mas que bom que viram por ela e que bom que tomaram uma atitude por ela.

O Brasil aprende hoje, na marra, que abuso não pode ser confundido com amor, com zelo ou carinho. O abuso precisa de intervenção, seja físico ou emocional.

“Se eu não quiser você, ninguém vai querer”.

É, meu caro Rodrigo, melhor que eu tivesse ficado sozinha do que levado comigo as cicatrizes que você deixou.

Eu achava normal ser punida – de diversas maneiras emocionais – por não me comportar da forma “certa”. Eu mudei tanta coisa em mim pra me adequar e eu não contava as coisas que me soavam estranhas pra ninguém, eu fingia pros outros – e principalmente pra mim – que tudo era normal.

Depois de um tempo eu levei o temido pé na bunda. Hoje vejo que foi graças ao bom Deus porque eu não sei o que aconteceria comigo se eu tivesse continuado naquela relação. Eu sofri muito sem entender que era um livramento. Eu hoje agradeço por todo aquele caos, por ele ter me deixado. Só não agradeço por ter deixado o abuso emocional funcionar como um vicio mesmo após o fim. Foram meses colada naquela situação que não acabava. Ele não me deixava ir, me confundia, mas não me queria. Ali meus pais começaram a ver, ali eles me ajudaram a ver. Foi assim até o dia que eu embarquei pra uma viagem longa, ele me pediu pra não ir, eu fui.

Lá eu conheci um cara, que em poucos dias mudou minha vida. Eu contei parte daquilo pra ele, aos prantos no nosso quarto de hotel na França. A janela estava aberta, era uma noite fria, estávamos deitados abraçados e eu chorei, meio sem sentido eu contei parte para ele. Sei que ele disse algo, o que eu não me lembro exatamente, mas o conceito me libertou. Naquele dia eu vi que eu merecia mais. Naquele dia eu comecei meu processo comigo.

Dali em diante eu cruzei com muita gente legal. Depois disso eu namorei muitos anos com um cara bem bacana, com quem eu tive uma relação mais tranquila, que respeitou todos os meus traumas e questões e nunca me fez muitas perguntas. Sou grata, com ele eu vi que existia coisa muito melhor no mundo, reestabeleci a fé nos relacionamentos.

Depois desses anos todos eu passei a ver rápido alguns sinais de abuso psicológico e disso eu CORRO! Quando eu começo a ver requintes de crueldade em alguma pessoa eu me apavoro. Corro rápido, afinal quando estamos dentro nós não vemos. Essa lição Rodrigo deixou na minha vida: quando estamos dentro nós temos muita dificuldade de ver. Precisamos confiar na nossa intuição.

Como Rodrigo existem vários. Tem Ricardos, Paulos, Gustavos… e Marcos. Tem muitos, assim como têm mulheres que fazem o mesmo. Existem seres humanos desequilibrados que abusam emocionalmente de outras pessoas.

Que o povo do twitter me perdoe, mas #forçaMarcos é triste.

Hoje o que realmente importa é que eu aprendi o meu valor e jamais me permiti viver ou permanecer em um relacionamento – amoroso – abusivo de novo.

Não foi só comigo, não foi só com a Emily, não é só com aquela sua amiga! É com muita gente, umas apanham, outras não podem usar batom vermelho ou são levadas a fazer sexo não consensual com seu parceiro. Umas mentem sobre o olho roxo, outras enganam a si mesmas por falta de amor próprio.

Físico ou emocional, não importa. Em 2017 abusos não passarão e nós criaremos mulheres que aprenderão a diferença entre ser amada e ser abusada. Porque acreditem, em muitos casos isso parece a mesma coisa. 

———————————– Esse texto pertence a tag de crônicas do blog ———————————–

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação. Hoje a história contada é de outra pessoa, mas poderia ser de muitas pessoas mais.
5 em Comportamento/ Destaque/ feminismo/ Juliana Ali no dia 10.04.2017

José Mayer, o BBB e nós vamos em frente

José Mayer. Galã. Ator famoso. Bonito – sim, até hoje, cheio de charme. Um dos grandes tesouros das novelas da Globo. Sempre gostei do Zé Mayer. Assisto as novelas dele desde criancinha, que carisma, que graça, que simpatia, que delicinha. Descobre-se que assediou sistematicamente uma figurinista da emissora, com toda a cara de pau e falta de cuidado de quem entende que isso não tem nada demais, nem traz nenhuma consequência negativa.

Marcos. Galã. Médico. Bonito, jovem, todo mundo achava que ia ganhar o BBB 17. Eu achava. Gostei dele de cara. Primeira semana eu já tava: Ai que doutor mais fofo, ganha o BBB. Adoro BBB, vejo todos. Essa semana puxou o cabelo da menina. Agarrou o braço da menina. Gritou na cara da menina com o rosto grudado, dedo na cara, várias vezes. Deitou em cima dela, para a menina não conseguir escapar da “conversa”. O que mais faz, com qualquer mulher que se aproxima, é lançar os famosos mansplaining* e gaslighting**. Marcos, com a mesma cara de pau e falta de cuidado do José Mayer, já que está o tempo todo ciente de que milhões de pessoas estão vendo o que faz.

Coincidentemente, essas duas histórias foram se desenhando ao mesmo tempo. Interessante cada desfecho. E dizem muito sobre o que está acontecendo no mundo de hoje, na atualidade, em relação às mulheres, em relação à sociedade e em relação aos próprios homens.

Veja que temos aqui um homem de uma geração que certamente foi criada com valores extremamente machistas, e outro que deveria fazer parte de uma geração mais esclarecida, mais desconstruída. Será mesmo? Ambos entendem como tão natural o assédio e a violência, que nem se importam de escondê-los. Não se importam de serem vistos. Não sentiram medo ao tomarem essas atitudes. Medo de que? Tantas vezes esse comportamento foi visto por eles, por todo mundo, e daí? O que aconteceu? Pois é.

Só que no fim das contas, José Mayer se viu obrigado a escrever uma carta de desculpas, para tentar dar uma consertada no seu filme queimado (sem trocadilho). O barulho foi um pouco grande demais pra ele ter se saído com uma simples piadinha idiota, como tentou fazer no começo.

Há pouquíssimos anos, isso jamais teria acontecido. Prova disso é o caso Luana Piovani/Dado Dolabella. O boy bateu na CARA dela, imobilizou o braço da camareira que tentou intervir e menos de um ano depois estava milionário por ter ganhado o reality A Fazenda. E nem escreveu carta nem nada. Pelo contrário, na época se defendeu das maneiras mais sem sentido. Isso foi em 2008.

Avance nove anos e o Zé Mayer não vai perder o emprego, não vai perder a carreira – ainda não chegamos a esse ponto de maravilhosidade – mas ele não ganha A Fazenda esse ano, te garanto. E foi cortado da novela. Andamos um pouquinho.

Já Dr. (Hyde) Marcos, agressor de mulher, muito provavelmente vai para a final do Big Brother. Como eu disse, avançamos, mas nem tanto. Geral achou “deboas” ele amassar a Emilly toda. Nada. Demais. Mas não é bem assim.

O moço vai sair da casa e a coisa não vai ser fácil para ele não, e você sabe disso. Viva a Internet! As redes sociais são sim, uma revolução. Elas obrigaram José Mayer a escrever carta, obrigaram a Globo (que tava doida pra fechar essa caixa de Pandora) a se posicionar em favor da figurinista, e agora vão obrigar Dr. Marcos a repensar o que aprontou lá dentro da casa. É pouco, mas é mais do que conseguiu a pobre Luana Piovani.

E tem mais: noto que todo esse barulho mexe com os homens. Notei isso nos homens da minha vida. Enquanto os mais ignorantes ficam naquele eterno papo de “mimimi” e “feminista odeia homem”, alguns param para pensar. Alguns se analisam, e outros, pelo menos, calam a boca por pura vergonha, mesmo que por dentro continuem os mesmos. E isso, também, é um movimento positivo, ainda que pequeno. É um começo.

Por isso, sigo aqui. Insisto. Falo mesmo. Escrevo. Explico. Pra quem quiser ler/ouvir. Temos um longo caminho, mas vamos nele. Não é fácil, e é lento. Mas é como diz sempre minha mãe, de 73 anos: “Ah, filha, se você visse como era horrível no meu tempo. Você tem sorte.”

Quero, um dia, dizer isso para a minha filha também. E quero ter sido responsável pela mudança que virá para a geração dela, de alguma maneira.

E você?

Com amor, Ju.

*mansplaining: quando um homem fica todo o tempo interrompendo uma mulher e tentando explicar/ensinar algo a ela de uma maneira infantilizadora, como se ela não entendesse ou fosse burra.

**gaslighting: abuso psicológico onde o homem bombardeia a mulher com um eterno discurso, distorce os fatos a seu favor a tal ponto que a mulher se confunde, e no final tem a impressão que a culpa é sempre dela. Aquele cara que sempre chama as mulheres de “loucas”.