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Comportamento

0 em Comportamento/ entretenimento no dia 01.05.2017

Big Little Lies: Entre mentiras e julgamentos, empatia e sororidade

Há umas duas semanas meu feed do Facebook lotou de gente falando sobre a nova série da HBO, Big Little Lies, baseada no livro homônimo de Liane Moriarty. Acho que eu ainda estava meio envolvida com 13 Reasons Why e acabei não dando muita atenção, mas de alguma forma aquela indicação ficou na minha cabeça e semana passada eu comecei a ver.

No primeiro episódio eu estava achando que seria algo no estilo de Desperate Housewives. Cidade perfeita, famílias perfeitas, pessoas aparentemente perfeitas porém cheias de problemas e imperfeições da porta de casa para dentro…e um crime a ser desvendado.

Nem precisou terminar o primeiro episódio para eu entender que a série tinha um outro objetivo: falar sobre julgamentos. E sobre empatia e sororidade, por mais que essas duas últimas palavras não combinem com a primeira.

É de certa forma curioso ver o desenrolar da vida das protagonistas Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley), Renata (Laura Dern) e Bonnie (Zoe Kravitz) sob a ótica alheia. “Estavam ali provando quem era o mais rico”, “Elas são como atletas olímpicos de guardar rancor”, “devia de existir um limite de 5 anos para os casais poderem ser melosos”, “ele é muito mais novo que ela”, “estávamos muito preocupados com as filhas das duas na mesma sala”, “Jane não pertence à esse lugar, “elas sempre tiveram problemas”, “aquele vestido era vulgar”.

Mas não é assim que acontece mesmo? Não precisa um crime acontecer para pessoas falarem da vida alheia, fantasiarem em cima de tudo que lhes é exposto e julgar. Eu falo, tu falas, ela fala. Mesmo quando não tem maldade ou intuito de fofoca, nós falamos, nós deduzimos, nós ficamos curiosas. Diria mais, com as redes sociais expondo a perfeição da vida alheia, essa curiosidade cresce ainda mais – e a verdade é que não temos ideia do que acontece realmente.

O mais fantástico de Big Little Lies é a forma como a história vai sendo conduzida, que mostra para o espectador tanto a história vista de fora, cheia de fofocas e suposições, quanto os detalhes cheios de imperfeições de tudo que realmente acontece com as protagonistas. É uma bela crítica à essa cultura de julgamentos, principalmente depois que a gente percebe que as opiniões dos personagens secundários não mudam a nossa opinião sobre os protagonistas. Diria que isso deveria ser levado como uma espécie de ensinamento para a “vida real”, já que é muito comum a gente se deixar levar e influenciar pelos outros. Quem nunca pegou antipatia de alguém porque ouviu falarem mal (apesar desse alguém nunca ter te feito nada) que atire a primeira pedra.

E os julgamentos não acontecem apenas como fofocas. Eles acontecem toda hora, seja no depoimento para o delegado, seja na mesa de jantar ao dizer que acha que a menina nova na cidade é problemática ou que a mãe CEO de uma empresa grande e conhecida é uma vaca arrogante e se acha melhor que todo mundo.

 

Não importa se Big Little Lies é ambientada em um mundo de riqueza e casas com piscina infinita e vista para o mar, ela é uma série feita para gerar identificação, já que é impossível não se botar no lugar de alguns personagens – ou partes de suas personalidades ou problemas. Entre temas mais sérios como infidelidade, estupro e violência doméstica, também somos levadas a acompanhar suas inseguranças, arrependimentos e desejos de fazer o melhor para seus filhos, porque sim, BLL também é sobre maternidade.

 

Outro ponto importante da série se chama EMPATIA. Sim, essa palavrinha tão falada ultimamente é ilustrada dezenas de vezes durante os 7 episódios da série. Você vai vê-la escancarada na relação de Madeline, Celeste e Jane, mas dá para enxergar em diversos outros momentos, seja em um pedido de desculpas ou em uma consulta na terapia.

Por fim, a sororidade. Por mais que eu torça por ela, volta e meia sou levada a acreditar que esse é um pacto utópico, que no fim mulheres foram feitas e educadas para competirem entre si e se verem como potenciais inimigas e vai continuar desse jeito. Como é uma série onde o elenco feminino predomina, eu já nem alimentava esperanças. Mas quando a sororidade real aconteceu, foi lindo – e emocionante.

Poderia ser uma série sobre o mundo perfeito que na verdade é imperfeito. Poderia ser uma série sobre julgamento. Poderia ser uma série sobre um crime e quem matou. Mas Big Little Lies, na minha opinião, foi muito além.

Se você está de bobeira nesse feriado, pode embarcar nesse programa! São apenas 7 episódios, ou seja, dá para fazer uma (meia) maratona até o fim do dia! Eu já estou providenciando o livro, quem sabe volto a falar sobre o assunto em um Book do Dia? :)

 

7 em Autoconhecimento/ Convidadas/ Experiência no dia 26.04.2017

E quando você sempre foi workaholic e resolve largar tudo para morar em outro país?

A Mari Martines é muito amiga da nossa amiga Mayara Oksman (que já publicou uns textos ótimos aqui no Futi), e como amiga da amiga também é amiga, acabamos super interessadas pela história dela, que largou tudo para morar no Colorado. Morar em outro país nem sempre é fácil. Por mais que a gente saiba falar a língua, acabamos nos deparando com inúmeras dificuldades e questões que não pensaríamos se não saíssemos da nossa zona de conforto. E a Mari chegou para contar sobre isso! Vem ver o que ela tem para contar! :)

Eu sempre me orgulhei das minhas decisões. Mais ainda, eu sempre me orgulhei por ser uma pessoa  decidida.

Sempre soube que queria ser advogada. Sem nenhuma história romântica por trás, sem nenhum insight na adolescência ou uma família de advogados. Nada. Só a certeza de que queria ser um instrumento da justiça.

Na faculdade, sempre soube com o que queria trabalhar. Foram quatro estágios, todos voltados para a área que eu já havia me apaixonado desde meu primeiro contato: Direito Médico.

Depois de formada, a certeza de onde eu queria trabalhar e o que queria me tornar. Na pós graduaçao, a mesma coisa, a mesma certeza.

Relacionamentos, idem. Podia até não agir de acordo (afinal, quase nunca agimos), mas sabia exatamente onde estava, o que ia acontecer, e como ia acabar.

Quando conheci meu marido não foi diferente. Não queria namorar, não queria me envolver, mas depois daquele primeiro beijo eu tinha certeza que nós dois íamos além….muito além.

No segundo ano de namoro, logo após uma viagem e um pedido de casamento de conto de fadas (literalmente) o, na época noivo, foi chamado para um projeto nos EUA.

Aquariana que sou e maior defensora da liberdade, não pestanejei um segundo e fui a maior apoiadora dele. Mas eu não poderia ir. Eu, advogada, havia acabado de ser promovida, cuidava de uma equipe que me dava muito orgulho e, acima de tudo, JAMAIS jogaria tudo para o alto.

Um ano se passou e o noivo não se contentava mais em me ver a cada dois meses. Eu também não e algumas coisas pararam de fazer sentido. Então, em abril de 2016, decidimos que era hora de um passo a mais.

Entao imaginem minha surpresa quando exatos 3 anos após aquele primeiro beijo, a “senhora decidida”, a “advogada plena”, a “planejadora”, resolveu dizer sim para a maior loucura da sua vida: jogar absolutamente TUDO para o ar e ir morar nos Estados Unidos. Não foi fácil, não está sendo fácil, e sinceramente não sei se vai ser fácil algum dia.

Não se enganem: amo morar aqui, amo viver essa experiência e amo ter mudado tanto à ponto de amar essa incerteza…. mas não é facil.

Nunca achei que seria capaz de viver longe dos meus amigos, da minha família, do meu cachorro e, acima de tudo, da minha carreira.

Nunca achei que seria capaz de não exercer minha profissão, de ser uma dona de casa temporariamente, de pensar em novos meios de me manter financeiramente independente.

Nunca pensei que morar nos EUA seria tão difícil em alguns pontos, mas tão fácil em outros. Nunca imaginei que minha conexão com Deus e com as coisas que amo seria amplificada da maneira que tem sido, nem que sentiria tanto a falta de uma rotina de vida.

E acho que é por isso que quero comecar a compartilhar com vocês essa experiência. Porque eu ainda preciso muito de ajuda, mas também preciso gritar para o mundo que podemos fazer o que quisermos fazer, enfrentar o que quisermos enfrentar, ignnorar quem não consegue nos entender e começar do zero quantas vezes forem necessárias…. Porque no fim das contas, nós somos absolutamente livres e devemos satisfação apenas para nosso coração.

4 em Convidadas/ maternidade no dia 26.04.2017

Sobre ser mãe de menina

Nunca sonhei em ser mãe. Adorava Barbie, detestava boneca que me chamava de mamãe e ficava no colo, coisa sem graça! Sempre adorei crianças, mas a dos outros. No fundo, me sentia incapaz de cuidar de um ser tão frágil e dependente. Acho que não confiava 100% em mim pra cuidar de mim mesma! E, se cogitava a maternidade, pedia um menino. 

Aos 34 anos, tive uma gravidez não planejada. Momento tão desorganizado na vida… mas decidi ter meu bebê, ainda que aquilo parecesse muito surreal na cabeça. Foi uma gravidez muito complicada, quase perdi o bebê e quase morri. Mas, com sete meses de gestação, em uma consulta de pré natal, me avisaram que teria que fazer uma cesariana. Ali, no susto! Tremia alucinadamente na hora de tomar a anestesia. Não tava pronta. Mas ela tava. E, quando a médica levantou minha neném e nos olhamos pela primeira vez, foi a sensação mais louca do mundo. Ela nasceu e eu nasci com ela.

Desde então, cuidei sozinha de uma neném extremamente frágil fisicamente, mas de uma força interna que me modificou por completo. A gente se sente meio leoa, né? De repente eu, que nunca tinha trocado fralda, virei mãe 24hs. E haver uma mulher em formação, totalmente dependente de você, te faz SER a mulher que você quer que ela se torne. Você precisa ser o espelho. E passa a não aceitar pra si tudo que não deseja pra ela. Passa a ter com você mesma as atitudes que quer que ela tenha no futuro. Passa a se amar como quer que ela se ame.

Você quer tanto que ela seja feliz, que entende que pra isso precisa ser feliz também, ou ela jamais entenderá o exemplo! Precisa se cuidar, se respeitar, se compreender. Precisa ter um relacionamento saudável ou mostrar pra ela que também pode ser feliz sozinha. Precisa conquistar e manter seu lugar e cobrar seus direitos pra que ela jamais aceite ser submetida a nada diferente disso.

Eu não me preocupava tanto com certas pautas e achava outras coisas exageradas. Hoje entendo que isso era não me amar o bastante. Mas quando você ama tanto um serzinho que você fez, esse amor acaba se estendendo também pra si mesma. Transborda.

Instintivamente, me vi criando a mim mesma. Me transformando na mulher que quero que minha Helena seja. Brigando pelo que quero que ela brigue. Me aceitando como quero que ela se aceite.

Hoje entendo o que Simone de Beauvoir disse. Não se nasce mulher. Se torna! E, tentando criar a minha, acabei dando à luz também à mulher que nunca tinha nascido em mim.