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3 em feminismo/ Reflexões no dia 04.10.2018

Somos mulheres, não somos enfeites e nem precisamos nos adequar ao padrão de feminilidade

A gente sabe que a aparência física das mulheres costuma ser uma faca de dois gumes. É a primeira coisa que todos usam para nos elogiar, e também a primeira a ser escolhida na hora de fazer uma crítica. Ou seja: está sempre no foco, antes de qualquer outra coisa. Reparou?

Sim. Nossa “apresentação” é fundamental e deus me livre ser feia. É o pior dos castigos. Isso é histórico, vem de muito tempo e é ensinado desde a infância por gerações e gerações. Ser bonita significa muito.

Mas ser bonita significa o que? Em geral significa chegar o mais perto possível de algo como o padrão Gisele Bundchen de feminilidade. Mulheres magras (mas com peito e bunda, claro), brancas, jovens, cabelo longo que se remexe todo no vento, atitudes delicadas, riso solto, sempre feliz, voz suave, pele lisinha, roupas glamourosas, salto, maquiagem (nem muita nem pouca, tem que parecer “natural”, e não vulgar), perfumada em todos os lugares possíveis (e quando eu falo todos os lugares, sim, até lá embaixo).

Então toca a mulherada toda sair correndo atrás desse padrão. Alisa, pinta cabelo, faz pé e mão. Passa creme, corretivo. Faz botox, bota peito. Depila perna, axila, ppk e muito mais. Dá-lhe academia. Compra roupa, compra sapato, compra sutiã push-up, compra cinta. Não perde o controle, é feio, sorria minha filha. 

Aí eu penso: Não posso ter cabelo curto, pelo no sovaco, meter uma chinela, sair de cara lavada, usar calcinha confortável, comer bolo de chocolate, ficar puta da vida? Porque quando eu faço isso me dizem que sou FEIA, suja e inadequada. Isso que estou falando não é um julgamento em relação a mulher nenhuma. Você pode ser qualquer tipo de mulher e você tem esse direito. E todos os tipos são ok.

Só que tem algumas coisas importantes dentro desse cenário que apresentei aí em cima, que precisam ser ditas.

  1. Quem inventou essa aparência padrão feminina foi a sociedade, que é patriarcal. Quem enfiou nas nossas cabeças essa necessidade enorme de ser linda, FEMININA, suave, como se existíssemos para sair bonita na foto e apenas para isso, foi essa mesma sociedade. Sim, a imensa maioria dos homens vai gostar mais de você se você for o mais próxima possível de Gisele. Pausa para um plot twist: os que realmente valem a pena não se preocupam com isso.
  2. Como estamos contaminadas por esse padrão, todas nós, julgamos outras mulheres baseadas nele. Nós mesmas. Temos que lutar contra isso! Se a gente quiser ser respeitada do jeito que a gente é, temos que respeitar as outras mulheres do jeito que elas são, não importa que jeito seja esse. Eu, Juliana, NÃO ACEITO ver qualquer pessoa criticando a aparência de uma mulher, tanto faz qual seja essa aparência. Isso é problema dela. E é só aparência.
  3. Ser bonita ou feia não deveria ser tão importante. Eu mesma aprendi a me desapegar desses conceitos. E se eu for feia? E se alguém me achar feia? Não tô nem aí. Feia e bonita são conceitos rasos, externos, bobos, que não dizem nada sobre alguém. Eu não estou aqui para embelezar o mundo. Pense nisso. Você é muito maior que sua aparência física.
  4. Mulher tem cheiro de mulher. Ppk tem cheiro de ppk. Celulite e estrias são comuns no corpo feminino. A gente transpira. A gente faz xixi e cocô. A gente nem sempre tem uma personalidade delicada. Se um cara não gosta do que faz parte da constituição da fêmea da espécie, as chances do problema estar com ele são infinitamente maiores do que estar com você. 
  5. As bonitas que me desculpem, mas beleza não é fundamental, já diz o velho ditado que eu acabei de inventar nesse minuto. Seja linda, seja feia, tanto faz. O importante é fazer a sua diferença no mundo, o que quer que isso signifique pra VOCÊ e pra mais ninguém.
1 em Comportamento/ feminismo no dia 08.08.2018

Vamos falar sobre a sororidade de Kate Middleton?

Muito se falou sobre Meghan Markle, inclusive apontamos alguns motivos que fazem ela ser inspiradora antes mesmo dela abalar as estruturas do Palácio de Buckingham com o casamento do ano. Porém, hoje quero falar de Kate Middleton, que agora, 7 anos depois de casada, está desenvolvendo um papel totalmente diferente – mas totalmente incrível – nessa história de realeza.

De acordo com os sites por aí (são muitos, só se fala sobre isso), Kate foi quem deu o aval de amiga para que Harry fosse adiante e pedisse a mão de Meghan. A Duquesa de Cambridge e o cunhado são super amigos e muito próximos, o que já mostra que ela de fato deve ter uma certa sensatez notada por ele ao longo de todos esses anos que ela está na família.

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Kate participou de eventos com Meghan coordenando cores de roupas, mostrando-se amigável, trazendo a futura cunhada pra perto. Essas mesmas fontes dizem que ela ajuda Meghan constantemente com os protocolos da família real, já que ambas eram plebéias antes de se casarem e têm experiências parecidas, embora suas histórias sejam diferentes.

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Kate, inclusive, sabe deixar Meghan brilhar em seu momento, não só porque já teve o dela, mas por ter a maturidade necessária para quem será um dia Rainha ao lado do marido e que já entende que é uma função de servitude muito mais do que ser servida (quem aí viu The Crown vai entender melhor. Inclusive, fica a dica!). Kate, além disso, vê vantagens em cima de todos estarem agora em cima de Meghan, e não apenas dela, pois agora ela tem com quem dividir os holofotes e, enquanto Meghan está fazendo isso, ela pode viver uma rotina discreta ao lado dos filhos, como ela gosta.

Se tudo isso de fato é verdadeiro, não saberemos. Se elas fazem boa parte disso a pedido da Coroa, muitas coisas, possivelmente. Porém, vamos ficar no lado bom e crer que isso seja verdade.

Se elas, que têm toda a exposição do mundo, o que poderia inflar seus egos e brigar por isso, não fazem, porque nós, simples plebéias, deveríamos fazer? Sim, estou vindo aqui com esse texto com um exemplo real (literalmente!) de sororidade para relembrar vocês de que temos que ser parceiras de outras mulheres sempre.

Em vez de brigarem por seu espaço – ou por mais espaço, já que no caso delas ele é claramente definido pela hierarquia da Coroa – elas escolheram se unir e se ajudar, dividindo essa tarefa que muitas vezes é mais árdua que prazeirosa. E isso pode acontecer com muitas de nós também, com nossos trabalhos e problemas pessoais.

Kate e Meghan escolheram se respeitar e entender o momento de cada uma aparecer e se retirar de cena, dividindo o peso da exposição, dividindo os questionamentos e o fardo dos cargos a elas atribuídos para tentarem viver uma vida dentro do normal para os padrões reais, claro.

Kate deu o primeiro passo abrindo a casa, a família e se colocando aberta para Meghan, como se esperaria de uma mulher segura de si, que sabe da sua importância como mulher, do seu papel na família. Elas são duas mulheres, batalhando pelo seu espaço socialmente, conciliando vida profissional e familiar, assim como todas nós.

Que elas possam servir de exemplo para que nos ajudemos mais, sejamos mais amigas de nossas amigas e possamos abrir espaço para sermos empáticas com outras mulheres.

1 em Autoconhecimento/ Comportamento/ feminismo no dia 02.08.2018

Hanna Gadsby: Nanette um stand up incomum e transformador 

Se tem uma coisa que pode ser extremamente específica é o que faz e o que não faz a gente rir. Minha mais recente descoberta – feita lá no grupo do Papo Sobre Autoestima no Facebook e depois desse post aqui – não me fez só rir. Me emocionou, me fez pensar sobre muitas questões e me fez reavaliar outras tantas. Em suas primeiras piadas, Hanna Gadsby: Nanette parece suave; mas bastam apenas 8 minutos de seu monólogo de pouco mais de uma hora para a gente entender que está diante de algo transformador. Principalmente por esse motivo, fiz questão de trazer o tema pra minha coluna.

ilustra: Juliana Ali

ilustra: Juliana Ali

A vida de Hanna, uma australiana nascida na Tasmânia e que se descobriu gay justamente na época em que a homossexualidade era considerada crime na ilha, pode não se parecer em absolutamente nada com a minha ou com a sua. Mas em seu texto verdadeiro, visceral e profundo, ela aproveita a própria trajetória para fazer reflexões que eu tenho certeza que vão mexer com você. Aliás, o nó no peito parece ser seu objetivo. Ela mesma, com precisão cirúrgica provoca o desconforto com comentário social certeiro, pra em seguida trazer algum alívio cômico igualmente cheio de verdade. Tudo isso às custas de histórias tiradas de sua própria vida.

No primeiro parágrafo escrevi que bastam 8 minutos para que a gente perceba que está diante de algo que vai mexer com a gente. Isso porque é nesse momento que ela faz um comentário que provoca um desvio de rota drástico. A partir daí, relatos de machismo, assédio, homofobia, entre outros temas mais do que importantes e urgentes, dividem espaço com reflexões sobre seu futuro como comediante. E ao nos levar nessa jornada ela traz ensinamentos poderosos. Contarei um pouco aqui, mas prometo que o que te adianto não é um décimo do tanto de conteúdo genial que ela transmite em seu show.

Hanna explica que construiu sua carreira em cima de um humor autodepreciativo no qual ela não quer mais se apoiar. Essa constatação por si só já nos ensina tanto, que não sei nem por onde começar a falar dela. Quando um dos maiores nomes da comédia de um país admite que não é tão saudável quanto parece construir a sua vida em torno de colocar a si mesma pra baixo antes que os outros o façam, é impossível não trazer a mesma reflexão pra si. O mesmo acontece quando ela conta sobre o dia em que, após um de seus shows onde ela conta que toma antidepressivos, um espectador chega para sugerir que era melhor não tomar nada, porque ela é uma artista e é importante sentir para ser criativa. Ele ainda diz que se Van Gogh tomasse remédios não teríamos seus girassóis.

Acontece que Hanna tem diploma de História da Arte e não só explicou em detalhes pro cara que Van Gogh tomava vários remédios como detalhou que era justamente um componente de um de seus remédios que o fazia perceber a cor amarela mais intensamente. Ou seja, se ele não se medicasse é que possivelmente não teríamos os girassóis. E mais uma vez ela arremata com um pensamento que vale pra inúmeras situações da nossa vida: “… pra ser criativo então [a pessoa] tem que sofrer? (…) Só pra que você possa aproveitar [os frutos disso]?”. Eu e você podemos não ser nem comediantes nem pintores impressionistas, mas nem eles nem nós devemos sofrer de nenhuma forma para que o outro tire qualquer proveito, não devemos nos machucar para o conforto de terceiros. E sabemos bem que em vários momentos, muitas de nós já se colocaram nessa situação.

Hanna é uma mulher sábia. É alguém que, como ela mesma diz, se reconstruiu após ser feita em pedacinhos. “E não há nada mais forte do que uma mulher que se reconstruiu”, diz, em uma das frases mais fortes de todo o seu monólogo. Se eu pudesse dizer só uma coisa pra cada uma das integrantes desse grupo lindo que é o Papo Sobre Autoestima hoje, eu diria: assista atentamente o monólogo de Hanna Gadsby. Não vai ser suave, mas tenho certeza que vai ser transformador. Depois conta nos comentários o que achou.