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feminismo

1 em Comportamento/ feminismo no dia 08.08.2018

Vamos falar sobre a sororidade de Kate Middleton?

Muito se falou sobre Meghan Markle, inclusive apontamos alguns motivos que fazem ela ser inspiradora antes mesmo dela abalar as estruturas do Palácio de Buckingham com o casamento do ano. Porém, hoje quero falar de Kate Middleton, que agora, 7 anos depois de casada, está desenvolvendo um papel totalmente diferente – mas totalmente incrível – nessa história de realeza.

De acordo com os sites por aí (são muitos, só se fala sobre isso), Kate foi quem deu o aval de amiga para que Harry fosse adiante e pedisse a mão de Meghan. A Duquesa de Cambridge e o cunhado são super amigos e muito próximos, o que já mostra que ela de fato deve ter uma certa sensatez notada por ele ao longo de todos esses anos que ela está na família.

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Kate participou de eventos com Meghan coordenando cores de roupas, mostrando-se amigável, trazendo a futura cunhada pra perto. Essas mesmas fontes dizem que ela ajuda Meghan constantemente com os protocolos da família real, já que ambas eram plebéias antes de se casarem e têm experiências parecidas, embora suas histórias sejam diferentes.

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Kate, inclusive, sabe deixar Meghan brilhar em seu momento, não só porque já teve o dela, mas por ter a maturidade necessária para quem será um dia Rainha ao lado do marido e que já entende que é uma função de servitude muito mais do que ser servida (quem aí viu The Crown vai entender melhor. Inclusive, fica a dica!). Kate, além disso, vê vantagens em cima de todos estarem agora em cima de Meghan, e não apenas dela, pois agora ela tem com quem dividir os holofotes e, enquanto Meghan está fazendo isso, ela pode viver uma rotina discreta ao lado dos filhos, como ela gosta.

Se tudo isso de fato é verdadeiro, não saberemos. Se elas fazem boa parte disso a pedido da Coroa, muitas coisas, possivelmente. Porém, vamos ficar no lado bom e crer que isso seja verdade.

Se elas, que têm toda a exposição do mundo, o que poderia inflar seus egos e brigar por isso, não fazem, porque nós, simples plebéias, deveríamos fazer? Sim, estou vindo aqui com esse texto com um exemplo real (literalmente!) de sororidade para relembrar vocês de que temos que ser parceiras de outras mulheres sempre.

Em vez de brigarem por seu espaço – ou por mais espaço, já que no caso delas ele é claramente definido pela hierarquia da Coroa – elas escolheram se unir e se ajudar, dividindo essa tarefa que muitas vezes é mais árdua que prazeirosa. E isso pode acontecer com muitas de nós também, com nossos trabalhos e problemas pessoais.

Kate e Meghan escolheram se respeitar e entender o momento de cada uma aparecer e se retirar de cena, dividindo o peso da exposição, dividindo os questionamentos e o fardo dos cargos a elas atribuídos para tentarem viver uma vida dentro do normal para os padrões reais, claro.

Kate deu o primeiro passo abrindo a casa, a família e se colocando aberta para Meghan, como se esperaria de uma mulher segura de si, que sabe da sua importância como mulher, do seu papel na família. Elas são duas mulheres, batalhando pelo seu espaço socialmente, conciliando vida profissional e familiar, assim como todas nós.

Que elas possam servir de exemplo para que nos ajudemos mais, sejamos mais amigas de nossas amigas e possamos abrir espaço para sermos empáticas com outras mulheres.

1 em Autoconhecimento/ Comportamento/ feminismo no dia 02.08.2018

Hanna Gadsby: Nanette um stand up incomum e transformador 

Se tem uma coisa que pode ser extremamente específica é o que faz e o que não faz a gente rir. Minha mais recente descoberta – feita lá no grupo do Papo Sobre Autoestima no Facebook e depois desse post aqui – não me fez só rir. Me emocionou, me fez pensar sobre muitas questões e me fez reavaliar outras tantas. Em suas primeiras piadas, Hanna Gadsby: Nanette parece suave; mas bastam apenas 8 minutos de seu monólogo de pouco mais de uma hora para a gente entender que está diante de algo transformador. Principalmente por esse motivo, fiz questão de trazer o tema pra minha coluna.

ilustra: Juliana Ali

ilustra: Juliana Ali

A vida de Hanna, uma australiana nascida na Tasmânia e que se descobriu gay justamente na época em que a homossexualidade era considerada crime na ilha, pode não se parecer em absolutamente nada com a minha ou com a sua. Mas em seu texto verdadeiro, visceral e profundo, ela aproveita a própria trajetória para fazer reflexões que eu tenho certeza que vão mexer com você. Aliás, o nó no peito parece ser seu objetivo. Ela mesma, com precisão cirúrgica provoca o desconforto com comentário social certeiro, pra em seguida trazer algum alívio cômico igualmente cheio de verdade. Tudo isso às custas de histórias tiradas de sua própria vida.

No primeiro parágrafo escrevi que bastam 8 minutos para que a gente perceba que está diante de algo que vai mexer com a gente. Isso porque é nesse momento que ela faz um comentário que provoca um desvio de rota drástico. A partir daí, relatos de machismo, assédio, homofobia, entre outros temas mais do que importantes e urgentes, dividem espaço com reflexões sobre seu futuro como comediante. E ao nos levar nessa jornada ela traz ensinamentos poderosos. Contarei um pouco aqui, mas prometo que o que te adianto não é um décimo do tanto de conteúdo genial que ela transmite em seu show.

Hanna explica que construiu sua carreira em cima de um humor autodepreciativo no qual ela não quer mais se apoiar. Essa constatação por si só já nos ensina tanto, que não sei nem por onde começar a falar dela. Quando um dos maiores nomes da comédia de um país admite que não é tão saudável quanto parece construir a sua vida em torno de colocar a si mesma pra baixo antes que os outros o façam, é impossível não trazer a mesma reflexão pra si. O mesmo acontece quando ela conta sobre o dia em que, após um de seus shows onde ela conta que toma antidepressivos, um espectador chega para sugerir que era melhor não tomar nada, porque ela é uma artista e é importante sentir para ser criativa. Ele ainda diz que se Van Gogh tomasse remédios não teríamos seus girassóis.

Acontece que Hanna tem diploma de História da Arte e não só explicou em detalhes pro cara que Van Gogh tomava vários remédios como detalhou que era justamente um componente de um de seus remédios que o fazia perceber a cor amarela mais intensamente. Ou seja, se ele não se medicasse é que possivelmente não teríamos os girassóis. E mais uma vez ela arremata com um pensamento que vale pra inúmeras situações da nossa vida: “… pra ser criativo então [a pessoa] tem que sofrer? (…) Só pra que você possa aproveitar [os frutos disso]?”. Eu e você podemos não ser nem comediantes nem pintores impressionistas, mas nem eles nem nós devemos sofrer de nenhuma forma para que o outro tire qualquer proveito, não devemos nos machucar para o conforto de terceiros. E sabemos bem que em vários momentos, muitas de nós já se colocaram nessa situação.

Hanna é uma mulher sábia. É alguém que, como ela mesma diz, se reconstruiu após ser feita em pedacinhos. “E não há nada mais forte do que uma mulher que se reconstruiu”, diz, em uma das frases mais fortes de todo o seu monólogo. Se eu pudesse dizer só uma coisa pra cada uma das integrantes desse grupo lindo que é o Papo Sobre Autoestima hoje, eu diria: assista atentamente o monólogo de Hanna Gadsby. Não vai ser suave, mas tenho certeza que vai ser transformador. Depois conta nos comentários o que achou.

2 em Autoestima/ feminismo/ maternidade no dia 20.07.2018

A modelo que amamentou no meio do desfile e a importância de naturalizar a amamentação

Imaginem a cena: você é amiga de uma modelo acabou de desfilar para a linha de biquini da Sports Illustrated e recebe a mensagem “amiga, você não vai acreditar no que aconteceu, mas acabei de entrar com minha filha mamando no meu colo no meio do desfile!”

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Tradução: Para todos com comentários negativos: Mara é minha melhor amiga na vida real. Ela passou 12 horas no casting, em cima do salto e com seu bebê de 9kg durante cada dia de eliminação. A equipe toda amou a bebê e até sugeriu que ela fizesse uma de suas entradas com ela no colo. Quando chegou a hora dela desfilar, assim que o show começou, a bebê estava mamando. O produtor sugeriu que ela desfilasse com o bebê no colo e mandasse ver. Não foi planejado; ela inclusive me ligou logo depois para contar o que aconteceu. Não tem nada de errado nessa história. O bebê estava com fome. Final da história. / É necessário ter uma mulher sem uma perna no desfile? Não, mas eles colocaram uma e foi lindo. O motivo da Sports Illustrated ter feito um casting aberto foi justamente para celebrar todo tipo de mulher, incluindo mães. E eles deixaram claro sua posição: mães têm que poder alimentar seu filhos QUANDO, ONDE e COMO elas quiserem, sem aturar comentários de um monte de guerreiros do teclado sem nada melhor para fazer que preferem criticar alguém que eles nem conhecem. Mara é uma mãe incrível, mulher e amiga. Ela não merece nada mais do que suporte.

No momento seguinte, a tal amiga, cujo nome é Mara Martin, aparece em manchetes ao redor do mundo como a modelo que andou uma passarela com um dos lados do biquini pra baixo, amamentando enquanto desfilava.

Foi uma imagem forte, impactante, marcante. E tudo isso no sentido mais positivo do mundo, pelos mais diversos motivos.

Eu não me considero uma militante do aleitamento materno, inclusive eu não consegui amamentar por uma série de questões físicas e psicológicas (que inclusive eu demorei muito para entender isso, e hoje desconfio que tais questões foram mais psicológicas do que físicas) e lembro que no auge das minhas tentativas e frustrações, eu me sentia bem mal a cada mensagem que me passava a mensagem que a amamentação, além de fácil, linda, criadora de vínculos e amor, era absolutamente necessária.

Lembro quando fui comprar a primeira mamadeira do Arthur. Me deparei com umas linhas pequenas que, naquele momento, pareciam ter um alto falante que praticamente gritava pra loja inteira ouvir que se eu optasse pela mamadeira, eu iria expor meu filho a doenças e não estaria dando todo o amor que eu poderia dar. Demorou para eu deixar de me culpar e achar uma tranquilidade nessa página da minha história como mãe.

Quando eu fiz as pazes com esse capítulo da minha vida e comecei a entender o tamanho dos milhares de sapos que mães têm que engolir para conseguir alimentar seus filhos em público, finalmente caiu a ficha da importância de cada campanha e cada post feito falando sobre amamentação. Eu tinha minhas questões e encarava cada incentivo como atestado da minha incompetência, mas essa não é uma discussão sobre mim, então eu não deveria ter levado para o pessoal. Mesmo assim, achava que algo ainda estava faltando.

Até que vi essa história da Mara Martin, e fiquei maravilhada com cada decisão tomada para que essa cena tenha acontecido. Em tempos onde as regulamentações da OMS sobre amamentação estão sendo questionadas, essa imagem é um verdadeiro ato político.

Achei corajoso e maravilhoso as pessoas que estavam comandando o desfile terem incentivado Mara a entrar amamentando. Não importa se foi de caso pensado ou não, mas em uma sociedade onde mulheres perdem vagas de emprego (quando não perdem seu trabalho) porque têm (ou estão na idade de ter) filhos, ver um lugar onde a mulher pode ser mãe e profissional ao mesmo tempo é maravilhoso. E amamentar faz parte da maternidade, por isso, nada mais natural.

Aliás, naturalizar esse ato e tirar a sexualização do seio da mulher é urgente e necessário. E acabei percebendo que para mim, esse era o ponto que faltava. Não adianta fazer mil campanhas falando sobre a importância do leite materno e como só a amamentação cria vínculos insubstituíveis com seus filhos se quando a mulher resolve amamentar em público ou posta uma foto amamentando, chovem comentários chamando de desnecessário, de exposição ou surgem sugestões de aparatos para esconder o peito. Será que ninguém percebe que é mais uma forma de cercear a liberdade da mãe? Talvez, se eu tivesse crescido com mais imagens tipo essa, minha história com a amamentação (e até mesmo com meus peitos) teria sido diferente.