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3 em Comportamento/ séries no dia 10.05.2017

“Cara Gente Branca”, melhoremos

Nunca me considerei uma pessoa racista porque jurava que só pessoas que não querem conviver nos mesmos ambientes, que xingam e que diminuem negros poderiam ser chamados assim. Mas já taxei de vitimista quem estava apenas explicando suas dificuldades, crente que era questão de meritocracia. Já cantei músicas que, em retrospectiva, percebi que são ridículas de serem cantadas por quem não viveu isso. Maior exemplo? “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”- sendo que o máximo que cheguei perto de uma foi para ir em uma festa que não tinham moradores de lá (hoje quando ouço essa música, praticamente não consigo cantar). Já achei um absurdo as reclamações de apropriação cultural porque só entendia a parte mais óbvia, isso é, quando a Valentino bota modelos brancas posando no cenário africano ou quando a Vogue faz o Baile de Carnaval em homenagem à Africa mas em meio a dreads e quilos de bronzer, quase não tinham negros representando o continente homenageado.

Até que comecei a ouvir mais e ler mais mulheres negras e entendi que, por mais atenta que eu fique aos meus atos, eu sempre terei o privilégio de ser branca. Eu nunca entenderei, literalmente, na pele o que é sofrer racismo ou ser diminuída pela minha cor, nunca vou ouvir que meu cabelo é ruim. Por isso que achei tão importante ver e ler sobre “Cara Gente Branca”, série que foi lançada recentemente pela Netflix e que é mais uma daquelas séries que é necessária ser vista, principalmente nos dias atuais onde se fala tão abertamente sobre racismo.

Sendo bem sincera, provavelmente ela passaria batida por mim, não porque eu iria preferir ignorá-la mas sim porque eu sou bem maria vai com as outras na hora de escolher a série que quero assistir. Se tá todo mundo falando e comentando, bem capaz de eu começar. E foi por causa de várias indicações nas redes sociais e depois com esses textos (e um video) que eu resolvi ver:

– Dear White People, eu só quero que vocês assistam a série
Precisamos falar sobre Dear White People, mas não queremos
Por que “Cara Gente Branca” é ignorada enquanto “13 Reasons Why” viralizou?
DEAR WHITE PEOPLE (CARA GENTE BRANCA) O QUE EU ACHEI – SEM SPOILERSDear White People e o silêncio ensurdecedor da internet

E peço desculpas, não porque a série jogou na cara coisas que eu já fiz. Peço desculpas pela série não estar sendo tão falada quanto outros lançamentos recentes quando deveria estar no top junto com as outras. Eu nunca tinha percebido isso até conversar com amigas que me alertaram, mas já notaram que séries e filmes de maioria negra não costumam ganhar o mesmo destaque ? E sabiam que revistas com negras na capa vendem menos? É uma realidade que vem mudando, mas ainda acontece muito.

Também peço desculpas pelo trailer oficial ter sido alvo de gente ignorante que quis dizer que estavam sofrendo “racismo reverso” e se juntaram para negativar o vídeo no Youtube  em números absurdos. 57.847 gostaram para…..preparadas? 421.518 dedinhos para baixo! Peço desculpas por ter gente tão bitolada que se sentiu ofendida com um trailer de 30 segundos a ponto de cancelarem suas contas no serviço de streaming e xingarem muito nas redes sociais. 

Sendo que “Cara Gente Branca” é sobre racismo, mas não é só isso. Não é uma série que ofende, e sim que faz com que todos possam enxergar todas as nuances do movimento negro tendo como pano de fundo uma universidade majoritariamente branca. Com muita ironia e clareza ela toca em assuntos importantes como violência policial, colorismo, militância, homossexualidade, solidão da mulher negra, até mesmo autoestima e empoderamento estético (da estética negra, claro). E ter visto tantas negras se sentirem representadas por essa série e se emocionado com as questões envolvidas me mostrou que é uma série importante de se ver sim. E que, como diz o trailer do Netflix que deu tanta polêmica (desnecessária), é para negros e brancos.

Assim como eu não sofri bullying e não quis me matar na adolescência, assim como eu não sofri violência doméstica ou fui mãe solteira, eu achei que Cara Gente Branca é outra série essencial para exercer a empatia e repensar conceitos e estereótipos. Para entender como é uma realidade – ou melhor, várias – diferente da sua sem julgamentos. Entender que por mais que você não se considere racista, se você é branca, está em posição privilegiada e portanto terá um tratamento diferente. E que quanto mais a gente entender isso e assumir nossa responsabilidade, mais estaremos fazendo um pouco da nossa parte.

Vocês já viram? O que acharam?

Um agradecimento especial à Gabi Sena, que foi minha consultora nesse post e deu pitacos relevantes no texto! <3

0 em Comportamento/ entretenimento no dia 01.05.2017

Big Little Lies: Entre mentiras e julgamentos, empatia e sororidade

Há umas duas semanas meu feed do Facebook lotou de gente falando sobre a nova série da HBO, Big Little Lies, baseada no livro homônimo de Liane Moriarty. Acho que eu ainda estava meio envolvida com 13 Reasons Why e acabei não dando muita atenção, mas de alguma forma aquela indicação ficou na minha cabeça e semana passada eu comecei a ver.

No primeiro episódio eu estava achando que seria algo no estilo de Desperate Housewives. Cidade perfeita, famílias perfeitas, pessoas aparentemente perfeitas porém cheias de problemas e imperfeições da porta de casa para dentro…e um crime a ser desvendado.

Nem precisou terminar o primeiro episódio para eu entender que a série tinha um outro objetivo: falar sobre julgamentos. E sobre empatia e sororidade, por mais que essas duas últimas palavras não combinem com a primeira.

É de certa forma curioso ver o desenrolar da vida das protagonistas Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley), Renata (Laura Dern) e Bonnie (Zoe Kravitz) sob a ótica alheia. “Estavam ali provando quem era o mais rico”, “Elas são como atletas olímpicos de guardar rancor”, “devia de existir um limite de 5 anos para os casais poderem ser melosos”, “ele é muito mais novo que ela”, “estávamos muito preocupados com as filhas das duas na mesma sala”, “Jane não pertence à esse lugar, “elas sempre tiveram problemas”, “aquele vestido era vulgar”.

Mas não é assim que acontece mesmo? Não precisa um crime acontecer para pessoas falarem da vida alheia, fantasiarem em cima de tudo que lhes é exposto e julgar. Eu falo, tu falas, ela fala. Mesmo quando não tem maldade ou intuito de fofoca, nós falamos, nós deduzimos, nós ficamos curiosas. Diria mais, com as redes sociais expondo a perfeição da vida alheia, essa curiosidade cresce ainda mais – e a verdade é que não temos ideia do que acontece realmente.

O mais fantástico de Big Little Lies é a forma como a história vai sendo conduzida, que mostra para o espectador tanto a história vista de fora, cheia de fofocas e suposições, quanto os detalhes cheios de imperfeições de tudo que realmente acontece com as protagonistas. É uma bela crítica à essa cultura de julgamentos, principalmente depois que a gente percebe que as opiniões dos personagens secundários não mudam a nossa opinião sobre os protagonistas. Diria que isso deveria ser levado como uma espécie de ensinamento para a “vida real”, já que é muito comum a gente se deixar levar e influenciar pelos outros. Quem nunca pegou antipatia de alguém porque ouviu falarem mal (apesar desse alguém nunca ter te feito nada) que atire a primeira pedra.

E os julgamentos não acontecem apenas como fofocas. Eles acontecem toda hora, seja no depoimento para o delegado, seja na mesa de jantar ao dizer que acha que a menina nova na cidade é problemática ou que a mãe CEO de uma empresa grande e conhecida é uma vaca arrogante e se acha melhor que todo mundo.

 

Não importa se Big Little Lies é ambientada em um mundo de riqueza e casas com piscina infinita e vista para o mar, ela é uma série feita para gerar identificação, já que é impossível não se botar no lugar de alguns personagens – ou partes de suas personalidades ou problemas. Entre temas mais sérios como infidelidade, estupro e violência doméstica, também somos levadas a acompanhar suas inseguranças, arrependimentos e desejos de fazer o melhor para seus filhos, porque sim, BLL também é sobre maternidade.

 

Outro ponto importante da série se chama EMPATIA. Sim, essa palavrinha tão falada ultimamente é ilustrada dezenas de vezes durante os 7 episódios da série. Você vai vê-la escancarada na relação de Madeline, Celeste e Jane, mas dá para enxergar em diversos outros momentos, seja em um pedido de desculpas ou em uma consulta na terapia.

Por fim, a sororidade. Por mais que eu torça por ela, volta e meia sou levada a acreditar que esse é um pacto utópico, que no fim mulheres foram feitas e educadas para competirem entre si e se verem como potenciais inimigas e vai continuar desse jeito. Como é uma série onde o elenco feminino predomina, eu já nem alimentava esperanças. Mas quando a sororidade real aconteceu, foi lindo – e emocionante.

Poderia ser uma série sobre o mundo perfeito que na verdade é imperfeito. Poderia ser uma série sobre julgamento. Poderia ser uma série sobre um crime e quem matou. Mas Big Little Lies, na minha opinião, foi muito além.

Se você está de bobeira nesse feriado, pode embarcar nesse programa! São apenas 7 episódios, ou seja, dá para fazer uma (meia) maratona até o fim do dia! Eu já estou providenciando o livro, quem sabe volto a falar sobre o assunto em um Book do Dia? :)

 

5 em Comportamento/ entretenimento/ maternidade/ séries no dia 14.04.2017

Não diria todo mundo, mas quem tem filhos deveria assistir 13 Reasons Why

Não, esse não é um post onde eu digo empolgada que todo mundo precisa ver a série do momento, 13 Reasons Why (ou 13 Porquês). Aliás, por causa de todo auê em torno, quando eu dei play no primeiro episódio eu jurava que estaria aqui escrevendo algo do tipo, mas a medida que eu fui chegando mais perto do final, vi que não dava para fazer uma indicação tão leviana sobre a série.

Ela não é pra todo mundo. MESMO. Diria que quem tem um histórico de depressão e traumas de abuso sexual, bullying e slut shaming deveria passar longe. Não é pra ver só porque está na modinha, mas eu diria que muita gente precisa assistir, conversar, debater ou simplesmente parar pra pensar.

De semana passada pra cá eu li muitos textos e opiniões sobre a série. Ouvi críticos de tv dizerem que ela é péssima (não concordei), ouvi psicólogos chamando os idealizadores de 13 Reasons de irresponsáveis (concordei), li muita gente comentando que se sentiu mal (eu fui uma delas) e mais gente ainda alertando sobre os gatilhos – que são avisados antes dos episódios, mas não atenuam o desconforto na hora que as cenas acontecem.

Independente de tudo isso que está sendo dito, a única coisa que ficou na minha cabeça enquanto eu assistia os episódios foi: quem tem filho adolescente ou que passará pela adolescência precisa assistir.

Atenção, spoilers à frente.

Para quem, assim como eu, tem filho pequeno, provavelmente várias fichas vão cair enquanto você acompanha o fim da vida de Hannah Baker. Pelo menos comigo caíram várias muito difíceis. Eu me toquei que em algum momento o Arthur vai sofrer e não vai querer a minha ajuda. Ele vai esconder coisas de mim, talvez até mentir, não sei. Provavelmente ele vai cruzar com colegas que vão tentar convencê-lo a tomar atitudes que não são as ensinadas em casa – e ele precisará ter uma personalidade muito forte para não cair nessas armadilhas ou aceitar esse tipo de amizade. Que ele poderá magoar alguém e ser um porquê na vida de uma pessoa.

Doeu pra caramba assimilar isso tudo, deu até um certo medo do futuro, de não conseguir educá-lo do jeito que eu imagino. Tanto que o que mais mexeu comigo na série toda foi ver a relação dos adolescentes com os pais. Fiquei tentando analisar os erros e acertos de cada família, tentando aprender e pegar dicas do que fazer e do que não fazer também. Doido isso, né?

– o que aconteceu? / – já disse bicicleta, galho, pele / – só isso? / – Mãe, eu falo tudo sobre a minha vida porque é tão fascinante, eu prometo

Em algum momento, confesso que fiquei um pouco obcecada com o Clay. Eu fiquei impressionada com o seu jeito pouco influenciável, confiante e determinado. Depois fiquei feliz por ver que ele também era respeitador quando ele soube dar espaço à Hannah. Sei que ele fez o mínimo que uma pessoa decente deveria fazer, mas é tanto relato de homem que não sabe o significado da palavra NÃO e a série mostra tantos ângulos dessa falta de respeito, que acabei me contentando com esse pouco. Talvez só tenha ficado um pouco frustrada com a falta de iniciativa dele enquanto via a Hannah sofrendo na mão dos outros, iniciativa essa que ele só foi ter depois que começou a ouvir as fitas, mas acho que não dá para exigir tudo isso de um adolescente.

Se eu pudesse me espelhar em alguém da série, seria a mãe do Clay, personagem que mereceu minha atenção especial. Só sei que mesmo sendo uma pessoa legal, lá estava ele, tão cheio de segredos e mistérios, por mais que seus pais tentassem tirar alguma coisa dele e estivessem prestando atenção às suas mudanças de comportamento.

Outra familia que me abalou foi a da Hannah com seus pais, um casal amoroso e dedicado à filha, mas que estavam passando por problemas profissionais, o que deixou a relação familiar em segundo plano. Para mim, uma das cenas mais comoventes foi quando Olivia Baker disse que não entendia porquê a filha tinha feito aquilo, afinal, a imagem que ela tinha da menina não era essa.

E se vocês querem saber por quê, eu sugiro perguntarem para seus próprios filhos

Aquilo me fez cair a ficha como a relação com adolescentes precisa ser construída incansavelmente através do diálogo, apesar de nem sempre ser fácil, pois os pais também precisam respeitar o espaço dos seus filhos. E também fez com que eu valorizasse ainda mais meus pais. Mesmo eu não tendo sido uma adolescente cheia de questões e que raramente fazia algo errado ou escondido, não deve ter sido fácil para eles passar por essa fase em que eu passava horas trancada no meu quarto, entrando na internet para ver coisas que eles não tinham acesso e até mesmo sofrendo por boys que eles não tinham noção que existiam.

E por fim, também prestei muita atenção na família do Bryce, ou melhor na ausência dos seus pais e em como ela foi parcialmente responsável pelas atitudes do personagem ao longo da série. Porque ele não é apenas machista e mau caráter, ele tem a arrogância e a prepotência de uma pessoa extremamente privilegiada criada sem nenhum limite. Que acha que por ser popular, tem direito a tudo – e todas. Será que ele seria repugnante desse jeito se tivesse pais presentes e não pais que dão tudo de mão beijada para compensar a ausência? Eu acredito que não (e eu espero que esteja certa),

Não indico 13 Reasons Why para qualquer pessoa, mas se você é mãe (ou pai) de adolescentes ou futuros adolescentes, que tal usar a série para começar (ou aprofundar) a troca de ideias?