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crônicas

0 em crônicas/ maternidade no dia 05.11.2018

Ensinar a se amar é revolucionário. Ensinar a se impor também.

Ser mãe de menina é, ou ter que se acostumar a ouvir todo tipo de frase machista disfarçada em conselho, votos de felicidade e preocupação ou afiar sua língua para dar o repeteco tão julgado e, sinceramente, necessário. E faço mais, ensino a filha a fazer o mesmo!

Dia desses em uma conversa despretensiosa com a professora, ela me contou do dia que Luiza fez um discurso feminista digno de muita passeata por aí. O motivo foi um só: os meninos brincavam de carrinho e ela havia entendido que eles não iriam deixar que ela brincasse também por ser menina:

– Meninas também brincam de carrinho! Minha mãe falou que meninas podem fazer o que quiserem! Não existe “coisa de menina” e “coisa de menino”!   – E lá foi ela batendo o pé participar da brincadeira diante dos olhos curiosos e assustados dos coleguinhas que nada entendiam.

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Outro dia, ao ver da janela de casa a luz de um holofote em meio às nuvens, ela me disse:

– Eu acho que é um raio, mamãe.

– Não é não, Lulu. É um holofote.

– Mamãe, você acha que é um holofote, eu acho que é um raio. Eu gosto de rosa, você gosta de azul, lembra? – Disse, me lembrando da vez que a ensinei a respeitar a opinião que diverge da dela.

Bateu um orgulho daqueles.

Nunca me esforcei para moldar a Luiza. Nunca quis que ela se esforçasse ou mesmo almejasse se enquadrar em padrões tão cruéis de beleza e comportamento. Aliado ao gênio forte, tenho em casa uma pimentinha que apesar de ardida, dá cor e sabor a minha vida.

Ensinei a ser forte, ensinei a não ter medo de se expressar, ensinei a amar todos sem distinguir sexo, cor, religião e tenho treinado seus olhos a verem beleza em todos. Somos diariamente bombardeadas com propagandas exaltando belezas. E elas são quase sempre tão falsas, tão plasticamente tristes e inalcançáveis que vez ou outra abro o Google e lhes mostro mulheres de outros países.

Mulheres de outras culturas, com padrões completamente diferentes de beleza, negras, gordas, ruivas, morenas, de tribos e etnias, da cidade ou do campo, mostro tudo o que há para ser visto e incentivo a enxergarem a beleza em todos, inclusive neles mesmos.

Ensinei que além da beleza a ser vista, não nos resumimos a ela. Temos sonhos, sentimentos que às vezes nem sabemos nomear, coisas que vão muito além da aparência. Há felicidade no simples, no escuro, no silêncio das madrugadas que passamos a sós com nós mesmas e não há melhor companhia, não há maior amor no mundo do que o que temos ou devemos ter por quem somos e este amor salva, nos levanta todos os dias da cama, ensina a recomeçar do zero, não importa quantas vezes venhamos a cair. Nos amar é revolucionário, saber respeitar as opiniões diferentes e saber se impor também. Bem a cara dela, né?

0 em Comportamento/ crônicas no dia 19.10.2018

Comprei uma bicicleta e ganhei muito mais do que esperava

Compramos uma bicicleta. Eu sei que foi na estação mais errada do ano, afinal, faltam uns 2 meses para a temperatura chegar perto do 0 e começar o período de neve, mas isso era algo que a gente ameaçava fazer há algum tempo e sempre desistia. Sem nenhum motivo aparente. Era o tipo de coisa supérflua, “um dia a gente compra”. E esse dia nunca chegava. Até que chegou.

Pegamos um modelo bem básico, nada muito caro ou cheio de novidades. Uma bicicleta que fosse boa o suficiente pra gente sair andando por aí. E compramos uma cadeirinha de criança, já que a cidade permite que esse seja um meio de transporte viável, queremos mais é que o Arthur aproveite com a gente. No mesmo dia eu aluguei uma dessas bicicletas que você paga o dia e vai trocando de meia em meia hora e resolvemos explorar. Atravessamos a ponte, fomos parar lá do outro lado de Manhattan e foi uma experiência deliciosa, típica sensação de felicidade quando você está fazendo algo novo pela primeira vez, sabem?

bicicleta-experiencia

Só que eu queria mais. Desde o dia que trouxemos a bicicleta para casa eu estava pensando na possibilidade de começar a usá-la para levá-lo na escola, que fica há 1,1 km de distância da minha casa e confesso que nem sempre me dá ânimo de andar esse tanto, ida e volta. Só que surgiu um medo. Não foi medinho, não. Medão mesmo. Medo de mãe.

Será que vou conseguir me equilibrar com ele? Será que vamos cair? Será que eu vou conseguir? Enquanto isso, meu marido – que foi a pessoa que estreou a bicicleta no domingo – me dizia as particularidades. “Cuidado que quando ele está na cadeirinha, ele fica muito mais pesado que a bicicleta, então você vai ter que segurar muito mais firme”. E lá tava eu, sofrendo por antecedência. É impressionante o quanto eu sofro antes mesmo de experimentar. Eu penso em tudo que pode dar errado e fico remoendo isso, penando. A minha sorte é que eu já passei da fase de deixar isso me parar, meu novo lema da vida é justamente aquele “tá com medo? vai com medo mesmo” (que tem funcionado para tudo, menos para borboletários, que eu nem me atrevo) e como não deixei que o receio me parasse, hoje eu decidi que seria o dia.

Assim como compramos a bicicleta no meio do outono, escolhi também o dia mais frio da semana para estrear a minha carona pra escola. #bemapropriado Mas eu sei que quando eu boto algo na cabeça, essa é a minha deixa para não dar pra trás. E fui.

Arthur estava empolgadíssimo com a experiência. Enquanto eu pedalava rumo à escola, ouvindo gritinhos empolgados típicos de uma criança que está saindo da rotina e fazendo algo muito empolgante pela primeira vez, eu me deixei contagiar. O vento estava gelado (afinal, as 8:30 da manhã a temperatura era de 3 graus), as minhas mãos ficaram um pouco duras por causa do frio, mas eu não estava sentindo nada disso. Comprei uma bicicleta e veio de brinde felicidade, liberdade, empolgação e aquele tipo de independência que eu senti muitos anos atrás, quando tiraram as minhas rodinhas. Por quê eu demorei tanto?

 

0 em Autoestima/ crônicas/ Destaque/ Relacionamento no dia 17.11.2017

A melhor amiga do namorado

Eu lembro exatamente do dia que peguei antipatia de você. Você já era amiga do meu namorado há tempos, antes mesmo de eu entrar na equação. Mas nunca esqueço aquelas palavras ditas por uma pessoa que nem minha amiga era, justamente naquele momento em que vocês soltaram gargalhadas cheias de cumplicidade depois de alguma piada interna: “nossa, vocês são tão parecidas uma com a outra, né?

Foram ditas daquele jeito enigmático, onde você não consegue julgar se aquela informação está chegando para constatar, elogiar, alertar ou simplesmente jogar lenha na fogueira. Até hoje não sei o objetivo daquela pessoa ao apontar nossas semelhanças, mas se for considerar a expressão corporal e clima que senti na hora – duas coisas tão subjetivas que nunca vou conseguir transcrever – continuo apostando que meu instinto tava certo. “Nossa, como ele foi arranjar uma namorada que é a cara da melhor amiga dele, né?”

Ignorando a existência de uma verdadeira amizade entre homem e mulher – adolescentes, na verdade, tínhamos 17! – passei a te ver como inimiga, competição, o “clone” que queria o que era meu e que ocuparia o meu lugar sem que meu namorado percebesse no primeiro momento que eu desse mole (impressionante as idiotices que a gente pensa quando a competição feminina aflora, né?). E o pior? Passei a te ver como uma versão melhorada de mim.

Nossos cabelos eram muito parecidos, mesma cor, mesmo movimento, mesmo comprimento, mas o seu era sempre mais brilhante e definido. Você não era tão alta quanto eu, mas era bem mais magra, e toda a sua naturalidade ao ficar de biquini nos churrascos da turma ou nos fins de semana na praia destoava com a minha insegurança de fazer o mesmo. Você tirava notas melhores, apresentava trabalhos mais bem elaborados, tinha uma desenvoltura para falar que eu não tinha. Em certos momentos a insegurança era tanta que eu tinha certeza que meu namorado ia acordar um dia e perguntar: “o que eu estou fazendo com você? Me confundi, eu queria ela, vocês são parecidas mas ela é bem melhor”.

Até que meu namoro terminou por outros motivos que nada tiveram a ver com você e aconteceu justamente o que eu temi durante todos esses anos que te considerei meu clone ameaçador: vocês ficaram. Pelo o que eu fiquei sabendo, uma vez. Talvez aquele momento que os amigos confundem os sentimentos. “Com certeza ele fez isso porque ainda não te superou”, minhas amigas me disseram. Acreditei porque era muito conveniente. Acreditei porque fantasiar que você foi o plano B me fez ficar por cima pela primeira vez desde que passei a te encarar como ameaça.

Os anos passaram e outro dia vi uma foto sua no perfil de uma amiga. Fui te fuxicar, a curiosidade falou mais alto. Vi fotos da sua família, do seu filho recém nascido, do sorriso gigante dos pais de primeira viagem, dos amigos cultivados no colégio que estavam todos no seu chá de bebê. Descobri que você e meu ex continuaram tão amigos que ele virou padrinho do seu filho. Aquela cumplicidade que eu enxergava em vocês antes der te sido envenenada continuou, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de 3 anos onde eu tentei afastá-los um do outro. Pela primeira vez consegui te enxergar como você realmente é, e sempre pareceu ser.

ilustra: Marylou Faure (@maryloufaure)

Ah, insegurança, o que você não faz com uma pessoa… Vendo suas fotos eu só queria voltar no tempo, para o exato momento que eu resolvi ouvir aquela mensagem sobre a gente da forma errada e responder: “você acha? Que elogio, porque ela é mesmo um mulherão da porra”.

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.