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crônicas

0 em Autoestima/ crônicas/ Destaque/ Relacionamento no dia 17.11.2017

A melhor amiga do namorado

Eu lembro exatamente do dia que peguei antipatia de você. Você já era amiga do meu namorado há tempos, antes mesmo de eu entrar na equação. Mas nunca esqueço aquelas palavras ditas por uma pessoa que nem minha amiga era, justamente naquele momento em que vocês soltaram gargalhadas cheias de cumplicidade depois de alguma piada interna: “nossa, vocês são tão parecidas uma com a outra, né?

Foram ditas daquele jeito enigmático, onde você não consegue julgar se aquela informação está chegando para constatar, elogiar, alertar ou simplesmente jogar lenha na fogueira. Até hoje não sei o objetivo daquela pessoa ao apontar nossas semelhanças, mas se for considerar a expressão corporal e clima que senti na hora – duas coisas tão subjetivas que nunca vou conseguir transcrever – continuo apostando que meu instinto tava certo. “Nossa, como ele foi arranjar uma namorada que é a cara da melhor amiga dele, né?”

Ignorando a existência de uma verdadeira amizade entre homem e mulher – adolescentes, na verdade, tínhamos 17! – passei a te ver como inimiga, competição, o “clone” que queria o que era meu e que ocuparia o meu lugar sem que meu namorado percebesse no primeiro momento que eu desse mole (impressionante as idiotices que a gente pensa quando a competição feminina aflora, né?). E o pior? Passei a te ver como uma versão melhorada de mim.

Nossos cabelos eram muito parecidos, mesma cor, mesmo movimento, mesmo comprimento, mas o seu era sempre mais brilhante e definido. Você não era tão alta quanto eu, mas era bem mais magra, e toda a sua naturalidade ao ficar de biquini nos churrascos da turma ou nos fins de semana na praia destoava com a minha insegurança de fazer o mesmo. Você tirava notas melhores, apresentava trabalhos mais bem elaborados, tinha uma desenvoltura para falar que eu não tinha. Em certos momentos a insegurança era tanta que eu tinha certeza que meu namorado ia acordar um dia e perguntar: “o que eu estou fazendo com você? Me confundi, eu queria ela, vocês são parecidas mas ela é bem melhor”.

Até que meu namoro terminou por outros motivos que nada tiveram a ver com você e aconteceu justamente o que eu temi durante todos esses anos que te considerei meu clone ameaçador: vocês ficaram. Pelo o que eu fiquei sabendo, uma vez. Talvez aquele momento que os amigos confundem os sentimentos. “Com certeza ele fez isso porque ainda não te superou”, minhas amigas me disseram. Acreditei porque era muito conveniente. Acreditei porque fantasiar que você foi o plano B me fez ficar por cima pela primeira vez desde que passei a te encarar como ameaça.

Os anos passaram e outro dia vi uma foto sua no perfil de uma amiga. Fui te fuxicar, a curiosidade falou mais alto. Vi fotos da sua família, do seu filho recém nascido, do sorriso gigante dos pais de primeira viagem, dos amigos cultivados no colégio que estavam todos no seu chá de bebê. Descobri que você e meu ex continuaram tão amigos que ele virou padrinho do seu filho. Aquela cumplicidade que eu enxergava em vocês antes der te sido envenenada continuou, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de 3 anos onde eu tentei afastá-los um do outro. Pela primeira vez consegui te enxergar como você realmente é, e sempre pareceu ser.

ilustra: Marylou Faure (@maryloufaure)

Ah, insegurança, o que você não faz com uma pessoa… Vendo suas fotos eu só queria voltar no tempo, para o exato momento que eu resolvi ouvir aquela mensagem sobre a gente da forma errada e responder: “você acha? Que elogio, porque ela é mesmo um mulherão da porra”.

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.
2 em Autoestima/ Comportamento/ crônicas no dia 03.11.2017

O dia do motorista nota 4.97

Eu jurava que não era uma pessoa que reparava na nota dos motoristas de Uber. Claro que se for uma nota muito baixa, talvez isso me faça desistir da viagem. Nesse dia a nota que apareceu me chamou a atenção por outro motivo: 4.97.

Nunca tinha aparecido para mim um motorista com nota tão alta. A maioria fica oscilando entre 4,7 e 4,8. Enquanto o carro não chegava, fiquei imaginando o que Joney tinha para receber uma média tão alta. Será que ele era daqueles tipos super simpáticos? Bom de papo? Será que ele oferecia água com e sem gás, Coca e Mate para quem quiser escolher? Chocolate Lindt?

Entrei no carro e finalmente conheci Joney. Aquelas figuras que sabem arrumar conversa até com quem não sabe falar ainda. Eu bem admiro esse tipo de gente, afinal, se tem algo que eu tenho dificuldade na vida, é puxar assunto com desconhecidos ou pessoas que não tenho tanta intimidade assim. Para Joney isso não parecia em um problema ou um empecilho para estabelecer uma comunicação. Acabamos engatilhando uma conversa, em uma viagem bem agradável.

O motivo do 4.97 chegou apenas no final. Quando estava quase saindo, ele pegou seu celular, abriu o aplicativo do Uber e falou: “adorei nossa conversa, você é muito legal, olha aqui, to te dando 5 estrelas”. Ele nem precisaria ter feito isso para garantir suas 5 estrelas, mas esse percurso está na minha cabeça por dias porque foi muito Black Mirror.

Por um lado admirei a motivação de Joney para garantir suas 5 estrelas. Ele precisa de uma nota alta para ter um diferencial no aplicativo, para não ter gente desistindo de pegar seu carro. Não tive dúvidas que ele sabe pegar deixas nas conversas para continuar com outros assuntos, além de ser simpático e um tanto quanto carismático, além de bom motorista, claro. Ter mostrado a nota que ele me deu foi a cereja do bolo de uma estratégia muito bem bolada.

Mas isso me fez pensar sobre a minha nota. Parcos 4.74. Não sei se motoristas cancelam viagens com passageiros que têm nota abaixo disso da mesma forma que o Uber corta quem tem nota abaixo de 4,7, mas não é das melhoras notas. Poxa, eu costumo entrar no carro, dar bom dia/boa tarde/boa noite, agradeço a corrida no final, sou educada mas não costumo puxar conversa. O que to fazendo de errado? O que será que pensam de mim quando eu chamo um carro pelo aplicativo? Será que, assim como Joney, eu deveria estar me esforçando para aumentar minha nota? Será que eu deveria ser mais simpática? Será que eu deveria arrumar assunto(sendo que isso não é natural para mim?)? Será que se existisse um sistema de notas como no 1o. episódio da 3a. temporada de Black Mirror, eu também seria uma pessoa com nota mais ou menos?

Sou totalmente a favor de ser sempre nossa melhor versão, trabalhar nossos pontos fracos e superar nossas dificuldades, mas defendo isso para que a gente se sinta melhor conosco.  Mudar para agradar os outros ou passar uma impressão de alguém que você não é na maior parte do tempo? Não, obrigada. Prefiro continuar sendo educada e mais fechada e deixar a popularidade para o Joney.

1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ crônicas/ Destaque no dia 28.09.2017

Te perdi porém me reencontrei

Quando tudo começou, eu te botei em um pedestal. Tudo culpa da minha admiração platônica que vinha de anos. Por muito tempo te acompanhei à distância, vendo tudo que era publicado em seu nome. Até que um belo dia uma amiga em comum nos apresentou e quando eu me vi, já estávamos batendo um papo aqui, outro ali. E o que eu só imaginava nos meus melhores sonhos aconteceu: eu conquistei sua atenção.

Te achava incrível, tinha a impressão que ser vista ao seu lado era símbolo de status e de respeito. Ser elogiada por você massageava meu ego e eu me sentia a pessoa mais incrível do mundo. Ter o seu aval era importante, te ter me endossando também. Até que eu descobri que eu podia te perder.

Não queria aceitar de primeira. Na verdade, quando meu cérebro registrou que seu histórico de relacionamentos nunca foi dos mais estáveis, eu tentei ignorar. Imagina, eu seria a pessoa que mudaria isso. Aliás, eu ERA a pessoa que te entendia tanto que me tornaria imprescindível.

ilustra: melody hansen

Só que aí eu fui mudando, tentando me adaptar à sua instabilidade para ver se eu me mantinha estável na sua vida. Começou com uma mudança de opinião aqui – imagina, eu já estava inclinada a achar isso mesmo – depois com um afastamento ali – claro que não, essa pessoa que eu me afastei já estava me dando bode à um tempo – e quando vi, estava presa em uma órbita que só funcionava se eu girasse em torno de você.

Ao contrário do que se imagina, não foi algo difícil de fazer. Não foi cansativo, não foi dolorido. Não sei se minha personalidade que era volúvel ou se os créditos devem ir todos à sua capacidade de seduzir quem você quer que te endeuse. Eu sabia que seu histórico era justamente esse, lembra? Eu só escolhia ignorar. Inclusive, a galáxia que você criou para desempenhar o papel de Sol não tinha apenas eu de planeta. Pelo menos mais umas 3 pessoas envolvidas por todo seu carisma e lábia estavam ali, girando ao seu redor. Foi aí que eu me desencantei.

Um belo dia me olhei no espelho e perguntei quem era aquela pessoa me olhando, que se afastou de pessoas tão legais sem motivos aparentes? Quem era aquela pessoa que mudou a forma de se vestir porque não queria ser alvo de chacota? Quem era aquela pessoa que se fechou porque achava que para agradar era melhor não emitir muitas opiniões? Quem era aquela??

Cheguei à conclusão que para não te perder, eu acabei perdendo a mim mesma. E quer saber? Hoje, 2 anos depois de tudo, vejo que ter te perdido, justamente o que eu tinha mais medo, foi essencial para eu me reencontrar (não que você mereça um ‘obrigado’ por alguma coisa).

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Carla Paredes

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.