Browsing Category

crônicas

3 em Autoconhecimento/ crônicas no dia 14.09.2017

Eu estou fazendo algumas mudanças na minha vida

Tem épocas na nossa vida que dá vontade de pegar tudo que está atravancando nosso dia a dia e jogar tudo pela janela, sem olhar pra trás, sem pensar duas vezes. Eu estou nessa fase. Estou de mudança.

Desapeguei de metade do meu armário. Roupas que não viram a luz do dia nesse último ano? Pra fora, sem dó nem piedade. Apaguei incontáveis arquivos inúteis do meu computador. Quanta coisa inútil a gente guarda nele, né? Print de boleto do mês, de depósito que foi pago há 3 anos, pasta lotada de referências de moda que eu nem lembro quando foi tendência, músicas que, se bobear, foram baixadas quando ainda existia Napster. Joguei fora cartinhas da infância. Pode ser que eu me arrependa disso depois, mas elas estavam ocupando um espaço valioso no meu armário nesse apartamento que já não cabe tanta coisa.

Terminada a limpa material, veio a pessoal. Comecei pelo celular.

Saí do grupo de whatsapp da academia, que só sabia falar de receita low carb, whey protein e de exercícios. Nem sei porque eu entrei nele, em primeiro lugar. Saí do grupo da família, que só sabia compartilhar fotos de Bom Dia e áudios alertando sobre o novo golpe na praça. Saí também daquele grupo de amigos que virou competição sobre quem está melhor na vida. Resultado? Pelo menos umas 200 mensagens inúteis e não direcionadas à mim que eu não vou mais ler.

Saí de um aplicativo e fui para outro: Facebook. 547 amigos e constatei que só conhecia realmente umas 300 – o que já é muito. Desfiz a amizade com essas pessoas aleatórias e aproveitei para deixar de ser amiga de tantas outras. Aquele menino que estudou comigo na 3a. série do ensino fundamental e eu nunca mais falei? Rodou. O boy lixo que manda “oi, sumida” e depois some novamente? Tchau. A menina que era amiga na faculdade mas depois desapareceu e nunca mais deu notícias? Beijo, não me liga. Aproveitei também o recurso “deixar de seguir”. Vocês sabem, tem umas pessoas que não tem como desfazer amizade mesmo – mas não sou obrigada a receber o conteúdo na minha timeline. :)

No instagram, a limpa foi bem mais radical. Dei unfollow desde a menina que me fazia achar que eu não era determinada por odiar acordar de madrugada para malhar até aquela pessoa que eu só segui porque seria mal educado não segui-la de volta.

Chega. Agora que estou mais leve, estou definitivamente de mudança, indo para um lugar onde só fica quem (e o que) importa e acrescenta, quem eu quero genuinamente bem e que eu sei que é recíproco. Estou mudando, e se você não ouviu falar mais de mim, provavelmente é porque você faz parte da mudança que ficou pra trás. 

Esse texto pertence a tag de crônicas do blog | Carla Paredes

Conforme contamos aqui, a tag de crônicas não tem nenhuma obrigação de refletir histórias verdadeiras, nossas ou recentes. Ela é inspirada em sentimentos reais e muitas vezes floreada com a imaginação.
14 em Comportamento/ crônicas no dia 14.08.2017

Eu, peixe fora d’água

Eu devo ser muito louca mesmo. Os 30 já vão ficando pra trás e eu continuo me sentindo um peixe fora d’água. Um peixe feliz, meio doidão, que – quase – todo mundo gosta e que gosta de – quase – todo mundo, mas um peixe diferente. Daqueles que nadam no meio de espécies diferentes sabendo que não pertence, com plena consciência que quase não vê outro cardume meio compatível nadando na imensidão do mar.

Me vejo sendo um peixe meio colorido demais, grande demais, falante demais, extrovertido demais. Nossa, quantos advérbios de intensidade, né? Há algum tempo eu aceitei que eu sou intensa e por mais que isso me torne admirável pra muitas pessoas, também me faz uma pessoa “assustadora” para outros, principalmente com o crushes. Quem tem medo de sentir tem medo de pessoas intensas, aprendi isso a duras penas. No início tentei abrandar meu nado, depois vi que não adiantava, assim que eu mostrava a intensidade, a coragem sumia no outro.

Ilustra: Sveta Dorosheva

É, não adiantava fingir ser quem eu não era. Atualmente só acredito na força de ser quem eu realmente sou, com minhas qualidades e defeitos, isso não me dá o direito de passar por cima de ninguém mas me impede de insistir onde não devo. Preciso respeitar toda essa intensidade inerente da essência que veio de fábrica. Sou boa amiga, boa profissional e na maioria do tempo boa filha, mas é curioso como tantos recursos linguisticos pra transparecer intensidade fazem de mim alguém que muitas vezes ama demais, se entrega demais e acredita demais. O que não são coisas ruins, mas na situação errada podem se tornar grandes riscos.

Eu me sinto nadando num mar de caras frouxos. Parece que as mulheres que conheço vão lendo, estudando, compartilhando e mergulhando num mar de autoconhecimento. Sem medo de recorrer à terapia, grupos ou eventos que a tornam mais fortes. Boa parte das mulheres que vejo não têm medo de entrar em contato consigo mesma. Parece que essas mulheres fortes assustam. Elas sabem o que querem ou não, o que merecem e não estão mais aprisionadas naquela ideia de que é melhor ter alguém do que ser sozinha – se sozinha for mais feliz, fica no sozinha mesmo.

O novo não inclui cara que some, que tem medo de sentir ou dá defeito quando começa a se envolver. Quem vai ser o novo homem nessa sociedade em que a mulher vem ficando mais segura de si e se desconstruindo? Esperemos que essa resposta apareça e que não seja Rodrigo Hilbert, que sejam vários caras capazes de ter atitude novamente, capazes de sair da superficialidade da imagem ou do pavor dos rótulos.

Tem muito cara bacana comprometido com mulheres bacanas, tem muito cara gente boa na transição entre relações, mas no meu ponto de vista mais vale ser um peixe fora d’água tentando se agradar do que tentando atender as demandas da sociedade. Acredito que só o nadar brilhando já acaba emanando uma energia que se torna impossível ignorar. 

Quanto mais eu me conecto com minhas curvas, listras e cores, mais difícil se torna fingir que não vejo os padrões de comportamento repetidos todos os dias, inclusive os meus, mas não fujo deles, não. Falo sobre, enfrento e busco melhorar. É muita arrogância achar que vamos dar conta de tudo sozinhos, é preciso se relacionar com o outro para se conhecer (seja no amor, na família ou na terapia). O autoconhecimento é pra mim a chave de me tornar uma pessoa segura, segura de quem eu sou, mesmo com a minha intensidade. 

No fim eu me sinto mesmo um peixe fora d’água, nenhum rótulo me define perfeitamente e eu sempre me pego precisando me justificar por ser exatamente quem eu sou. Ninguém deveria fazer isso, uma coisa é eu justificar meus erros ou explicar minhas escolhas, outra coisa é enxergar a necessidade de uma justificativa para essa minha intensidade que me dá essa espontaneidade que me leva tão longe. 

Não acredito num pensamento pretencioso de que eu sou boa demais, não mesmo. Acho que sou peculiar – em larga escala – e para viver a dois precisarei encontrar alguém tão diferente quanto, ou que sua característica comum ou diferentona se encaixe na minha. Peixes podem ser diferentes mas precisam nadar na mesma corrente.

Nesse meu nadar pelo oceano sempre acho que acabo me encantando, amando mais do que devia quem não merece, me entregando mais do que gostaria para quem não está aberto a esse “pacote” ou lutando mais do que precisaria por pessoas que não querem tanto assim. Quando piscava já estava ajudando demais, me preocupando demais ou até me metendo demais com o intuito de ajudar o outro, hoje não quero mais ser assim.

Assim, mesmo peixe fora d’água, que não se sente pertencendo a “grupo” nenhum, vou cuidando de mim, nadando na minha velocidade e me permitindo descobrir qual é o peixe que eu quero ser, sem precisar a atender a espécie nenhuma.

2 em Comportamento/ crônicas/ Destaque no dia 28.07.2017

Independente do desfecho, o amor venceu

Em algum momento do final do ano passado eu sofri uma perda muito profunda no meu coração. Diria que de uma forma torta perdi alguém importante pra uma doença cretina. Eu sofri calada. Fiquei triste porque não consegui ser remédio, solução ou cura. Hoje vejo a minha arrogância inconsciente por acreditar que eu poderia ter sido algo do tipo. Ninguém cura ninguém, mas em alguns casos o amor é tão grande que você consegue ficar para dar a mão, esperar o destino trazer seu curso. 

Eu pessoalmente não consegui ficar, não consegui ficar por amor e nem mesmo por dor. Na encruzilhada da minha história precisei escolher me afogar junto ou nadar separado pra superfície. Eu precisava voltar a respirar. A verdade é que eu preferi não me afogar, para alguns fui egoísta, pra outros altruísta ou até mesmo apenas realista. Minha consciência devia estar limpa pois eu tinha tentado salvar a todos até a hora do maremoto chegar. Eu vinha nadando por dois já tinha um tempo, buscando acreditar na alegria de ver a ilha se aproximar.

Só que já tinha um mês que eu me sentia nadando pra morrer na praia, quando a confusão começou mesmo morrendo de culpa não consegui ficar. Precisei escolher entre nadar sozinha e me salvar, ou apenas me afogar. Não era justo comigo, nem com quem me ama que eu me afogasse ali, por mais que doesse deixar alguém importante sem as mãos dadas, mas de mãos atadas eu não fazia muita diferença também.

Eu acho que nunca senti tanto medo misturado com alivio. Segurei na boia sem olhar pra trás, fiquei parada, no mar revolto esperando tudo se acalmar.

No entanto na minha vida tempo é sempre um elemento complicado na equação. Antes mesmo de recuperar o fôlego precisei embarcar para uma nova jornada. Quase desisti, mas algo me dizia pra ir, ainda que debilitada eu embarquei para um destino novo. Pra renovar meu coração numa foz de grandes águas cristalinas.

Eu e minha culpa demos a mão e fomos. Perdi a fé no amor, mas não perdi a fé em viver. 

ilustração: Karolis Strautniekas

Em algum momento, entre vários salvamentos de minhas amigas, que não me deixaram afogar e me levaram para lavar a alma eu entendi os motivos pelos quais eu estava ali. Precisei reaprender a sorrir mesmo na dor, precisei chorar só que de rir. Precisei daqueles dias pra deixar a história do afogamento partir.

Lavei a alma, mas a culpa continuava ali. Me senti fraca, deixei o barco durante o naufrágio, a cada segundo que eu pensava nisso perdia mais um dedinho de fé.

Só que Deus mora nos detalhes e opera através daqueles que menos esperamos. Ao fim do pôr do sol do último dia, curiosamente em outro barco que não iria se afogar, ele falou comigo através de uma filha muito especial. Uma mulher forte, linda, inteligente, generosa, amiza, cheia de vida e carisma. Ela me ganhou desde o primeiro dia, mas foi no último que ela mudou minha vida.

Ele operou através da maneira como ela contou a sua história, ela me libertou da culpa e eu chorei. Chorei tanto que precisei de vários abraços amigos.

Ela teve a oportunidade de viver o maremoto de mãos dadas, sem se afogar. Ela me contou da cura, do amor, de vencer, da união e do casamento que seria em poucos dias. Ela estava vivendo na praia, após o maremoto. Ela me libertou quando eu entendi que se fosse pra ser, eu teria conseguido ficar, se eu precisei me soltar, é porque meu aprendizado não estava mais lá. Eu acreditei no amor e na união do amor verdadeiro, que venceria tudo, venceria até mesmo a vida. 

Ela lutou com ele, foi feliz com ele, ela mereceu felicidade e Deus entregou isso pra ela, o amor venceu. Infelizmente o tempo não foi dos mais favoráveis. Navegando por mares calmos o maremoto voltou e ela deu a mão novamente, lutou com unhas e dentes, mas dessa vez só ela se salvou. Mas independente do desfecho o amor venceu, porque é uma honra poder viver um amor desse. .

Hoje meu coração quebrou um pouquinho, hoje eu precisei chorar de novo, orar de novo, só que agora por ela. Dessa vez queria ser eu a libertá-la da dor, mas não poderei. Porque hoje o preço de ter vivido um amor vencedor não foi dos mais justos.

Por mais difícil que possa ser, ainda acredito que quem viveu um grande amor – capaz de vencer maremotos – conhece a verdadeira razão da existência.

Hoje meu coração quebrou um pouquinho, mas minha fé não. O amor ainda vai trazer grandes coisas pra quem quiser vencer com ele, de mãos dadas e sobreviver até mesmo a vida.