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1 em Comportamento/ Destaque/ feminismo/ maternidade no dia 28.05.2018

Será que aprendemos errado?

Recentemente comecei a ver um desses filmes estilo “Sessão da Tarde” que sempre que passa eu volto a ver. Posso ficar anos sem assistí-lo, mas quando passa sei praticamente todas as cenas. Só que dessa vez uma das cenas me deixou com bode.

A menina de uns 6, 7 anos apareceu muito chateada porque o amiguinho da escola a empurrou e xingou. A reação dos adultos foi bem natural para a época,  e acredito que toda mulher de 30 e poucos sabe exatamente o que aconteceu: “não fica chateada, ele fez isso porque na verdade gosta de você”. É claro que no filme é exatamente isso que acontece e no final, depois da menina crescer sendo empurrada, xingada e esnobada, o menino cresce e descobre que ele realmente amava ela.

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Pare de ensinar meninas que meninos são malvados porque gostam delas.

Eu juro para vocês que achava uma fofura. Até virar mãe. E até virar problematizadora (dica de amiga: se você virar problematizadora, lembre-se de não assistir mais filmes e séries que você amava quando era mais nova).

Eu não sei se existe alguma explicação psicológica para justificar tal relação, mas eu só c onseguia pensar que merda deve ser crescer sendo esnobada e diminuída de todas as formas e, mesmo assim, continuar alimentando a esperança que no fundo de todos os maus tratos, pode existir uma forma de amor. E aí parei para pensar e, opa…eu já vivi uma história parecida. Tenho certeza que você também. A minha sorte é que sempre fui muito impaciente, então não aguentei a sacanagem por muito tempo, caso contrário eu poderia estar até hoje esperando chegar a minha vez em um relacionamento que não me valorizava em nada.

Como mãe de menino, eu pensei em outra coisa: caramba, de onde essa criança (o menino, no caso) aprendeu a expressar seus sentimentos dessa forma tão torta? Sei que era só um filme, mas já cansei de ouvir essa expressão na vida real também. Fui perguntar para o meu marido e ele confirmou o que eu suspeitava, também ouviu para caramba isso na infância. Na escola, na família, tudo camuflado de “brincadeirinha”.

Fico me questionando se educar os meninos dessa forma, relacionando violência com sentimento, não é um dos pilares responsáveis por tantas histórias sobre abusos e violências diárias que ouvimos de tantas mulheres hoje em dia. Da cantada da rua até o tapa por ciúmes, tudo isso tem origem em um lugar, e esse lugar me parece ser justamente aquele em que meninos são educados (e levados) a desrespeitarem as meninas, e as meninas são convencidas a aceitarem esse desrespeito camuflado de demonstração de amor. Na verdade, acho que não me questiono, cada dia isso fica mais claro.

Quando vi a frase que ilustra o texto, até pensei que ela tinha todo o sentido, mas depois vi que concordava em termos. Sim, precisamos botar na cabeça das meninas que meninos malvados são apenas…meninos malvados (futuros embustes talvez?). Que elas precisam de amor próprio antes de tudo. Mas precisamos para ontem educar os meninos a não demonstrarem amor de forma tão equivocada, torta e desrespeitosa. Quem sabe assim, a gente cria uma geração onde as mulheres não precisem passar por tudo que já passamos?

3 em Destaque/ maternidade no dia 22.05.2018

Quem foi que disse que filho segura casamento?

Quem nunca viu algum filme ou novela onde a mulher resolve engravidar para segurar o homem? Quem nunca ouviu falar no “golpe da barriga”, expressão que pode ser usada tanto para aquele cenário em que a mulher engravida de um cara rico quanto da mulher que se vê em um relacionamento que está perigando e engravida para ficar com o cara?

Vou tentar ignorar o enorme grau de machismo presente em todos esses pensamentos para focar em outra coisa: QUEM FOI QUE INVENTOU ESSA IDEIA?

Juro, adoraria que alguém me apresentasse a pessoa que criou essas teorias (posso dizer com 99% de certeza que foi um homem, né?), ou queria conversar com quem falou pela primeira vez que “filho une o casal” só para entender a teoria, porque até o momento, a prática e a vida real zero romantizada foi me dizendo outras coisas.

Aliás, foi conversando com outras mães que eu tive certeza que no dia a dia, o que acontece é justamente o contrário. Assim como a maternidade intensifica todos os nossos sentimentos e joga na nossa cara todas as nossas qualidades e defeitos (mas como somos seres humanos, acabamos focando nos defeitos e esquecendo das qualidades, claro), a chegada de um filho também faz isso tudo no casal.

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O que era bom pode ficar ainda melhor, mas o que incomodava mais ou menos também pode tomar proporções gigantescas. Soma a isso a falta de tempo para o casal que naturalmente acontece quando temos uma criança em casa e bota nessa conta uma pitadinha do machismo nosso de cada dia – que pode acontecer até mesmo com o boy mais desconstruidão – e da carga mental que é consideravelmente maior na mulher e pronto, temos uma receita pronta para um casal potencialmente desgastado. Isso porque nem estou botando na conta homens com o mesmo nível de maturidade das crianças e que acham que estão perdendo a atenção da mulher para os filhos.

Segundo uma pesquisa do Relationship Research Institute, cerca de 25% dos casamentos terminam em divórcio depois dos filhos. Então se as coisas podem desandar com um casal que desejou, esperou e realizou o sonho de ter um filho, imagina só se engravidar para segurar alguém vai funcionar?

Mas calma, não estou aqui para aterrorizar ninguém. Filho pode unir o casal, sim. Principalmente aquelas duas pessoas que estão igualmente dispostas a entenderem suas novas funções e seus novos papeis dentro desse novo relacionamento.

Se estamos aqui batalhando para desromantizar a maternidade, acho que vale apontar também que não precisamos sonhar com a ideia da família de margarina, todos felizes, ensolarados e de muito bom humor às 7 da manhã.

Me contem, como vocês lidaram com o casamento depois dos filhos?

0 em Comportamento/ maternidade no dia 13.05.2018

Dia das mães não precisa ser dia da Mulher Maravilha

Essa semana pré Dia das Mães me desgasta um pouco. Não foi sempre assim, tá? Já teve época que eu via os anúncios voltados para essa data comemorativa e achava fofo, me emocionava. Hoje, em 2 minutos e meio de comerciais ou até mesmo abrindo meu e-mail, fico com vontade de jogar a televisão ou o computador pela janela.

Calma, gente, sei que parece mas eu não estou nem um pouco revoltada, foi só força de expressão. Mas é que quanto mais eu vivencio, converso, leio, troco e aprendo sobre maternidade, mais enxergo como o discurso em homenagem às mães – na maior parte das vezes ultra romantizado – me soa equivocado, por mais lindo e apelativo (no bom sentido) que seja.

A Bio Extratus pediu para que todas as embaixadoras fizessem um vídeo sobre mães naturalmente inspiradoras (quem quiser ver o meu, é só clicar) e confesso para vocês que enquanto pensava como abordaria esse assunto, por dois segundos quase decidi ir pelo caminho mais fácil. Ou seja, pelo caminho que a gente já ouviu tantas e tantas vezes que o discurso já sai praticamente automático. Resolvi mudar de ideia e saí perguntando para diversas pessoas, homens e mulheres, o que elas pensavam quando eu falava sobre mãe inspiradora.

BA-TA-TA.

Uma parte respondeu aquela imagem da mãe altruista, que se doou completamente, parou a vida para poder cuidar dos filhos. Outra trouxe a mãe equilibrista, que consegue dar conta de trabalho, rotina e ainda consegue estar sempre presente. A maior parte falou da própria mãe e deu exemplos de força e perseverança, como a mãe que educou os filhos sozinha pois o pai não era presente ou a mãe que trabalhava dois empregos para não deixar nada faltar.

Todas essas mães existem, eu sei. Mas achei curioso que em todos os casos a mãe foi alçada a um status quase de super mulher. E eu sei que esse é o objetivo de toda homenagem do Dia das Mães. Vocês precisam ver a quantidade de agradecimentos e reconhecimentos que já escrevi para a minha nessa data.

Só que depois que virei mãe eu descobri que esse papel de super heroína cansa, e cansa demais. Até porque muitas das coisas que os comerciais nos agradecem por termos feito, não foram feitas porque realmente viramos criaturas perfeitas, e sim porque era o que fazia sentido na hora. Era o caminho mais óbvio, mais sensato a se tomar – muitas vezes o único que tinha na época – não importa se muitas de nós largaram sonhos e desejos pelo meio do caminho.

Ou melhor, no fim das contas importa, porque por mais que a maioria nunca tenha se arrependido de suas escolhas, o que mais tem por aí é mãe sofrendo em silêncio por se sentir na dúvida se valia a pena ter aberto mão de suas coisas, e se sentindo culpada por isso. Mães que se culpam porque se acham hipócritas ao ouvirem esses agradecimentos por atitudes que vieram mais do cérebro do que do coração. Mães que não se identificam com todo esse heroísmo que sempre tentaram nos vender.

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Calma, não estou dizendo que quero que comerciais de dia das mães acabem, ou que não quero mais comemorar esse dia. Quero celebrar minha mãe, sim. Mas não quero celebrar o épico, quero celebrar o aqui e agora, as atitudes diárias e que passam quase despercebidas por serem tão usuais mas que na verdade são escolhas feitas genuinamente do coração. Quero celebrá-la longe do pedestal que colocam todas as mães justamente para olhá-la diretamente nos olhos, de igual para igual, de mãe para mãe, agradecendo todas as suas qualidades como mãe que me tornaram quem eu sou hoje e acolhendo defeitos, os meus e os dela, que também nos trouxeram para onde estamos agora.

Feliz dia das mães para todas!  <3