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maternidade

3 em Autoestima/ Destaque/ maternidade no dia 23.08.2017

A tatuagem sem significado mais significativa que eu fiz

Outro dia estava lendo o texto da Jô sobre a vontade de fazer tatuagens e ele me fez pensar sobre as minhas. Tenho 4, a primeira feita com uns 20 anos e a última, com 29. Nenhuma delas foi super planejada, idealizada ou pensada, foram frases ou símbolos que cruzaram meu caminho e me deram um estalo inexplicável que me convencia que precisava eternizá-las. Aí redesenhava ao meu gosto, achava o tatuador que melhor fazia o estilo que eu queria e ia. Todas tinham seus significados muito claros para mim na hora que a agulha entrava na pele. Todas menos a última, uma espécie de pulseira com um diamante meio art déco no meio.

Engraçado que eu sempre tive medo de tatuagens sem significados, apenas adornos. Achava maravilhoso nos outros, admirava a coragem, mas em mim era impensável. E se eu enjoar? E se eu me arrepender? E se eu ver um defeito no traço? E se eu achar que fiz besteira e essa besteira é pra sempre? Meu medo sempre foi tanto que as 3 primeiras são em lugares escondidos ou nas costas, justamente porque eu não queria encará-las todos os dias.

Só que desde 2011 estava salvo no meu computador um desenho de tatuagem estilo pulseira que eu salvei porque tinha achado maravilhoso. Ele nunca saiu da minha cabeça nesses 5 anos, mas eu não tinha motivo para tatuá-lo. Como assim vou botar no pulso um desenho sem significado nenhum?

Até que ano passado eu achei esse desenho perdido nos arquivos do meu computador, e dessa vez o tal estalo inexplicável apareceu. Ignorei a ausência de uma explicação racional para marcá-la eternamente no meu corpo e comecei a pesquisar traços, desenhos, tatuadores e em menos de 2 dias eu estava com a ideia pronta e com horário agendado com a tatuadora para a próxima semana. Estava crente que o significado era uma memória de SP (já que eu estava me mudando para NY em menos de 3 meses) que eu teria guardado.

Assim que cheguei em casa já com a pulseira tatuada eu não sabia o que achar. Passei dias estranhando, achando defeitos, pensando que dessa vez o estalo tinha me enganado e eu tinha feito besteira – por mais que eu tivesse amado o desenho. Até que o tempo passou e eu fui me acostumando a tal ponto que hoje eu nem lembro que ela está aqui, mesmo olhando para o local diversas vezes ao dia.

O motivo do estalo na verdade só me ocorreu no mês passado, quando vi o post da Joana e percebi que essa, na verdade, é tatuagem mais cheia de significados que eu tenho. Enquanto as minhas outras celebram o amor (sim, todas as outras têm significados mais românticos), a pulseira virou a minha tatuagem do poder, da rebeldia libertadora, do redescobrimento.

Hoje eu vejo que eu não fiz porque estava indo embora de SP, eu fiz porque tinha sido mãe há 3 meses e estava tentando entender quem eu era e em quem eu estava me transformando. Estava aprendendo a lidar com todas as questões da maternidade e a tatuagem foi a forma que eu encontrei para mostrar para mim mesma que a Carla a.A. (antes do Arthur) ainda existia. Foi o jeito que eu achei de me provar que eu ainda era dona do meu corpo. Foi a saída encontrada para reaver a minha autoestima, que ainda se reconstruindo e se readaptando.

Hoje em dia eu olho para ela quando meus pensamentos estão um caos, quando eu acho que estou me anulando ou que eu estou deixando a maternidade e o dia a dia me engolirem e me acalmo. Não tenho a mínima vontade de ser quem eu era antes de ter filho, mas é muito bom lembrar que essa parte de mim ainda existe, e tatuar foi a forma que eu encontrei para me reconectar com essa Carla antiga. E pelo jeito, acho que vou ter que deixar os planos de ter uma tatuagem sem significados para outra vez.

5 em Comportamento/ Deu o Que Falar/ maternidade no dia 22.08.2017

Child free e discurso de ódio não precisam andar juntos (é até burro, eu diria)

Duas histórias.

Primeira delas. Em Dezembro do ano passado fomos almoçar em um restaurante badaladinho aqui em NY. Lugar meio apertado, não dava para deixar o Arthur no carrinho. Chegando lá, perguntamos pela high chair, vulgo “cadeirão”, coisa que costuma ter em quase todos os restaurantes por aqui. Não tinha.

Ao entrar vi que era um lugar zero amigável para crianças, mesas pequenas com espaços entre elas bem apertados, enfim. Mesmo assim, eu não era a única com um bebê ali. A outra mãe ainda estava em uma situação ainda mais desconfortável que a minha, já que seu filho não devia ter nem 3 meses. Mesmo assim entramos, nos sentamos em um sofá e Arthur ficou revezando de colo para que todo mundo pudesse comer tranquilamente.

Foi meio desconfortável, mas para nossa surpresa, o atendimento foi tão atencioso conosco (os garçons perguntavam se a gente queria algo para o bebê, a hostess brincava e até o sommelier resolveu pegar ele no colo) que por mais que a falta de estrutura nos desse um sinal que aquele não era um lugar child friendly, nós ficamos super à vontade com o local. Mais do que isso, nós nos sentimos bem vindos, por mais que a impressão inicial fosse outra.

Segunda história. Saint Jean Cap Ferrat, Riviera Francesa. Resolvemos começar a viagem em grande estilo e planejamos passar o dia em um beach club na praia mais famosinha dessa área. Tom Cruise já foi visto por lá, Christian Grey & Anastasia Stelle já foram vistos nesse mesmo lugar (sim, teve gravação do filme ano passado rs), enfim, vocês entenderam.

Quando chegamos, me deparei com uma placa onde dizia que crianças menores de 12 anos tinham que pagar 16 euros para entrar no beach club. A gente até estava disposto a pagar, mas o problema é que era um sábado e estava já tudo reservado. Até hoje não sei se isso foi uma desculpa para não sentarmos ali com uma criança de 1 ano e meio, só sei que minha primeira reação foi ficar intimidada. No fim decidimos ir no restaurante, que ficava atrás do beach club.

Já tinha fechado o carrinho do Arthur e estava ajeitando ele no meu colo quando a hostess veio e perguntou: “vocês não querem uma high chair?”. E não só tinha high chair como botaram um pratinho com colher na frente dele, realmente uma terceira pessoa sendo considerada ali na mesa. O atendimento foi incrível e o staff nos deixou super confortáveis.

O que une essas duas histórias é que ambos os lugares não fazem questão de crianças. Não são preparados para elas ou então cobram para que a presença delas seja aceita. Mas não excluem os pais.

Recentemente chegou até mim a história da placa de um restaurante em SP que brincava que cachorros eram bem vindos e crianças tinham que ser amarradas em um poste. No começo eu achei engraçado e no primeiro momento achei um exagero a reclamação da mulher por causa de uma placa que claramente continha ironia. Até que eu comecei a ver os comentários e lembrei por que, por mais que não me incomode ver lugares que preferem manter distância de crianças, eu acabo sendo sempre contra o conceito child free.

Porque bradar que crianças não são aceitas reúne uma galera que se enche de orgulho pra dizer que odeia crianças, que as compara a peidos (vocês têm noção como essa comparação é agressiva??) e que tem sempre uma história de como seu sono no avião foi perturbado por alguém menor de 5 anos (se eu for contar a quantidade de vezes que não consegui dormir por causa de ronco alheio, coisa que me incomoda mais que choro, eu até perco as contas). E aí, nesse momento, você acaba lembrando como o mundo pode ser cruel com quem tem filhos. Como excluem pais e mães que decidem ter uma vida fora de casa.

Adivinhem só? Pais também acham que é muito mais fácil ficar trancado no apartamento do que sair e não poder curtir um almoço sem ter que se preocupar com talheres e guardanapos voando por aí em meio a olhares reprovadores. Mas se a gente fica em casa, as crianças não aprendem a viver em sociedade, não aprendem a se comportar nos lugares, e uma hora os pais se frustram porque é um saco ter que se contentar com delivery de comida.

A questão é que muitos pais vão ficando calejados dos olhares tortos, mas nunca é fácil achar normal ser excluído de algum lugar pelos próprios donos ou funcionários. Até de lugares que a gente olha e entende a proibição das crianças, é difícil dar meia volta sem a garganta entalar, porque antes de sermos pais, somos pessoas que nem sempre sabem lidar com rejeição e exclusão (aliás, taí mais uma coisa que ninguém fala muito quando entramos nesse mundo de maternidade).

O que muitos estabelecimentos sem motivos claros para adotarem a regra child free não entendem é que nem sempre a melhor estratégia para evitar as crianças é destratar os clientes que são pais ou pedir que eles deem meia volta e procurem outro lugar mais amigável.

Não tem nada melhor do que se sentir bem vindo e acolhido, e quando isso acontece em um ambiente onde não estamos nos sentindo tão confortáveis, é acalentador. E não, isso não vai fazer com que a gente queira voltar lá mais vezes com filhos, só vai nos dar vontade de voltar sem as crianças. Podem acreditar, não é preciso estimular discursos de ódio para se livrar da clientela com filhos.

1 em Comportamento/ maternidade/ Sem categoria no dia 16.08.2017

Quando a creche deixa de ser apenas um sinônimo de liberdade materna

Antes mesmo do Arthur nascer nossos planos eram de colocá-lo em uma creche só depois que ele completasse um ano. Naquela época eu e toda minha (falta de) experiência com bebês, já achava que ele estaria andando, falando e interagindo, por isso seria uma boa época para introduzir essa nova experiência na vida dele. Eu tinha toda a estrutura, inclusive de trabalho, para deixá-lo em casa e a convicção de que eu queria aproveitar o privilégio de poder acompanhar o primeiro ano dele bem de perto.

O que aconteceu é que assim que Arthur fez 1 ano a gente descobriu que creche em Nova York é um bicho caro pra caramba. E obviamente se a gente quisesse ter botado ele com 1 ano, deveríamos ter segurado sua vaga assim que chegamos, em Junho. Nada disso a gente levou em conta e por isso, entre organizações financeiras e operacionais, conseguimos que ele começasse em Setembro.

Só que demos uma sorte enorme nesse meio tempo e em Maio surgiu a oportunidade do Arthur começar em Julho. E hoje faz 1 mês e meio que ele está lá, 2 vezes por semana, meio período.

Jurava que a maior vantagem da creche seria o me time, aquele momento pra mim que eu não precisaria depender de marido ou de babá para acontecer. Aquelas 10 horas semanais só minhas que, depois de 1 ano e meio de criança em casa, eu ansiava mais do que tudo. É óbvio que é uma senhora vantagem, mas acabei descobrindo outro motivo que me deixou igualmente feliz: a creche estava dando oportunidades para o Arthur que eu não consigo dar.

Eu achei que eu iria sentir a tal culpa que tantas mães me falaram que sentiram. Eu estava preparada para ela. Mas a verdade é que a medida que as semanas foram passando e o Arthur começou a chegar em casa falando coisas que nunca tinha falado e gestos que nunca tinha feito, eu só consegui sentir felicidade. E me surpreendi ao ver que toda essa alegria não tinha a ver exclusivamente com a minha liberdade.

Está fora do meu alcance dedicar toda a minha atenção para atividades que desenvolvam aptidões, eu nem sei como começar a fazer isso. Como mãe eu dou amor e carinho, mas não tenho o tempo, a criatividade nem a didática para transformar tudo em experiências lúdicas para passarmos o tempo.

Como mãe eu providencio playdates e levo no parque mas não é a mesma coisa que estar várias vezes na semana brincando, tirando cochilos e comendo com as mesmas crianças de idades e compreensão de mundo parecidas. Como mãe eu acabo apelando para o Ipad e televisão depois de uma certa hora, enquanto na creche todas as atividades passam longe da tecnologia. Lá ele tem um lugar onde ele pode sujar as mãos, as roupas e até os sapatos, sem ter uma mãe estressada com a bagunça que está fazendo em casa.

E quer um bônus? O tempo que a gente tem junto depois da creche tem muito mais qualidade, mais atenção e mais felicidade. Ou seja, culpa? Não, eu to é muito feliz de ver meu filho desbravando o mundo :)