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Comportamento

0 em Autoestima/ Destaque/ maternidade no dia 29.03.2017

Que tal devolver um pouquinho do protagonismo às mães?

“Ah, mas quando você tem filho é assim mesmo, Carla, ninguém pergunta pela mãe, só quer saber da criança”. Essa frase eu ouvi quando eu estava brincando com a minha avó quando ela disse que ia sentir muita falta do Arthur quando eu voltasse para NY. “Poxa, vó, mas e eu? Não vai sentir minha falta?”, e recebi essa resposta de uma mãe que estava ouvindo a conversa.

Aí me lembrei do Faustão. Sim, do Faustão. Não sei se vocês repararam, mas ele sempre apresenta os famosos dizendo em algum momento que eles são mães ou pais de alguém. Isso sempre me incomodou, muitos anos antes de ter filho. É simpático e dá um toque “pé no chão” e família, claro, mas eu sempre pensava que a pessoa estava sendo convidada por algum motivo nada relacionado à maternidade ou paternidade e não fazia sentido misturar isso justamente na hora de apresentar.

Fiquei pensando sobre o assunto, sobre esse fato ser comum entre mães e comecei a reproduzir essa história entre amigas que têm filhos e até mesmo no grupo do Face e acabei descobrindo que isso irrita a maioria. Por que?

Porque quando você vira mãe você assume toda uma nova identidade bem diferente de quem você era antes do bebê nascer. Nem pior, nem melhor, apenas diferente e muito de repente. Sua liberdade não é mais integralmente sua, seu tempo não é mais totalmente seu, seu corpo não é mais o mesmo e se achar no meio dessa confusão – que ninguém te prepara – não é tarefa das mais fáceis. Aí, enquanto a mãe está tentando se achar novamente, todo mundo que vem falar com ela começa a puxar assunto sobre filho e maternidade. E a mulher volta para a estaca zero na lição de achar quem ela era antes de virar mãe.

Claro que boa parte dessa redescoberta tem que partir de nós mesmas. Temos que descobrir como achar a pessoa que éramos antes dos filhos, temos que fazer coisas que nos deem prazer e nos tirem da rotina materna, temos que redescobrir interesses, até mesmo sermos um pouco egoístas. Mas é claro que se as pessoas ao nosso redor nos ajudarem, isso é uma baita ajuda!

Look do dia (que acontece entre 1 e 2 vezes na semana haha), um dos meios que eu arranjo para retomar o protagonismo – mesmo com o Arthur do lado, como a mochila dele não deixa mentir rs <3

Uma das conversas que mais me marcou foi com uma amiga que escolheu largar tudo para viver a maternidade e nunca duvidou que essa foi a melhor escolha que ela fez. Até que um dia ela desabafou para mim sobre o quanto ela se sente desatualizada, desinteressante e monotemática quando passa o dia e ela vê que só falou sobre a vida materna. Que ela ama poder ficar com a filha, mas que não aguenta quando esse vira o único assunto com seus pais, suas amigas e com outras mães.

Eu sei que é muito mais fácil falar sobre crianças, é muito mais tranquilo e agradável puxar esse tipo de assunto. Eu, inclusive, adoro quando querem falar sobre o Arthur só para eu poder puxar o celular sem culpa e começar a mostrar meu arsenal de vídeos e fotos (eu nunca faço isso de primeira porque morro de medo de acharem chato haha). Mas vamos praticar o exercício de querer saber como as mães estão antes de saber dos filhos?

Se você encontrou uma amiga na rua com um bebê recém nascido, depois do “oi, tudo bem” pergunte o que ela tem feito, elogie, bata um papo antes de passar a atenção para o bebê. Se aquela conhecida largou tudo para ser mãe em tempo integral, saiba que ela tem outros interesses e não é porque ela virou dona de casa que agora ela só quer saber do preço do mercado, técnicas de faxina ou como fazer uma papinha nutritiva. Duvido que ela não queira debater aquela série ou sobre política, sei lá. Se sua colega de trabalho acabou de chegar da licença maternidade, não a trate como alguém que agora só sabe falar sobre tamanho de fraldas e horários das mamadas. Claro que ela está com saudades e com o coração na mão de ter que deixar aquela criança tão importante, pequena e indefesa com outra pessoa que não ela, mas o trabalho é uma ótima forma dela se reconectar e enxergar que ela pode ser muitas coisas além de mãe.

Pode soar chatice, pode soar problematização – ou melhor, é – pode até mesmo parecer uma reclamação – o que não é. Mas vocês não têm ideia do bem que podem fazer à autoestima de uma mulher ao mostrar para elas que elas são mais do que mães – e que elas têm outros assuntos além da maternidade. E não é nada muito difícil ou trabalhoso de se fazer, é só por um momento, lhe devolver o protagonismo.

E para todas as amigas e pessoas que me deixam ser a Carla sem o Arthur – que são muitas, para a minha sorte – muito, muito obrigada! <3

0 em Book do dia/ Comportamento no dia 22.03.2017

Book do dia: Matéria Escura, de Blake Crouch

Na véspera de voltar para NY, eu sabia que teria muitas horas no avião e que dificilmente eu conseguiria dormir porque ficaria preocupada com o Arthur, então saí comprando vários livros, inclusive assinei para experimentar o Kindle Unlimited, que é um serviço de assinatura de livros da Amazon. Infelizmente não consegui ler praticamente nada no avião porque o Arthur deu trabalho (sabe aquele voo que tem um bebê chorando de meia em meia hora? Foi assim, e o filho era meu! Pra quem tem medo de incomodar, passei por uma prova de fogo, né).

Tudo bem, pelo menos eu estava com o celular recheado de livros novos e desde que voltei para cá, tentei fechar um compromisso comigo de pegar meia horinha (que acaba virando 1 hora e meia) antes de dormir só para adiantar minhas leituras. E foi assim que comecei a ler Matéria Escura, da Editora Intrínseca, e terminei em menos de uma semana, o que para mim, na minha situação, é um recorde!

Comprei o livro pela capa, não li a sinopse, mas quem gosta de saber o que está comprando: “Raptado por um homem mascarado, Jason é levado para uma usina abandonada e deixado inconsciente. Quando acorda, um estranho sorri para ele, dizendo: “Bem-vindo de volta, amigo.”Neste novo mundo, Jason leva outra vida. Sua esposa não é sua esposa, seu filho nunca nasceu e, em vez de professor numa universidade mediana, ele é um gênio da física quântica que conseguiu um feito inimaginável. Algo impossível. Será que é este seu mundo, e o outro é apenas um sonho? E, se esta não for a vida que ele sempre levou, como voltar para sua família e tudo que ele conhece por realidade?”

Fazia muito tempo que eu não lia um livro que me deixou tão envolvida, tão empolgada, daqueles que eu saio querendo contar a história para todo mundo porque amaria que todas as pessoas do mundo lessem (tadinha da Joana que teve que aturar uns 3 audios de 4 minutos cada, contando o livro inteiro hahaha).

Eu diria que a sensação que esse livro me causou foi muito parecida com a que eu tive no filme Interestelar. Em ambos eu passei dias meio anestesiada, pensando sobre o assunto abordado, refletindo sobre as possibilidades, imaginando o que seria se a realidade apresentada ali realmente fosse possível.

É um livro instigante, narrativa ágil e objetiva e de fácil compreensão mesmo envolvendo noções de física quântica. Jason é um personagem super fácil de se relacionar, tanto que eu me vi tensa, agoniada, torcendo, feliz, chocada…

Matéria Escura não é apenas um livro de ficção científica, não é apenas um romance, não é apenas um thriller, é tudo isso e mais um pouco porque é um livro sobre escolhas. E não vou falar mais sobre ele senão correrão riscos de spoilers. Só sei que se você procura um livro envolvente e reflexivo (mas não tão denso), pode apostar nesse!

E quem já leu, pode me dizer o que achou! :)

Beijos!

2 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali/ Reflexões/ Semanas da Moda no dia 17.03.2017

De camisola na fashion week

Ainda lembro bem da primeira vez que pisei em uma semana de moda. Eu tinha uns doze ou treze anos, era a virada dos anos 80 para os anos 90. Minha mãe trabalhava na Revista Nova na época (que hoje se chama Cosmopolitan) e conseguiu dois convites para que eu e minha irmã fôssemos assistir ao desfile da G (que hoje se chama Gloria Coelho) no Morumbi Fashion (que hoje se chama São Paulo Fashion Week).

Pois é. De lá para cá, passaram-se mais de 25 anos e a revista mudou de nome. A grife mudou de nome. A semana de moda mudou de nome. Só que a única coisa que realmente mudou no mundo da moda foram os nomes. O resto é bem parecido até hoje. Quem manteve o nome nessa história que vou te contar agora fui só eu, que continuo me chamando Juliana mesmo. Ah, mas eu mudei. Mudei muito desde então.

Eu estava empolgadíssima no dia em que fui ver meu primeiro desfile. Pensei muito naquele look que iria usar. Nenhuma das minhas roupas parecia ser digna de um momento tão incrível, que aliás era justamente sobre usar as roupas mais sensacionais, pensava eu na minha cabeça de criança. Então tive uma idéia. Peguei uma camisola de cetim que eu tinha. Ela era branca com bolinhas pretas. Ia até os joelhos, era assim meio soltinha, e tinha um decote combinação (até hoje meu tipo de decote preferido). Coloquei uma camiseta branca por baixo. Nos pés, sapatilhas pretas. E assim fui assistir ao desfile da G. Me achei linda quando olhei no espelho. Me senti um pouco contraventora, como sempre gostei de ser, aquariana que sou. Fui ao meu primeiro fashion week de camisola.

 

Por incrível que pareça, não lembro absolutamente nada sobre o desfile. Nada. Mas lembro que saí de lá com um gostinho estranho na boca. Vi tantas mulheres que me pareceram tão lindas, tão diferentes de mim, tão melhores do que eu. Elas eram enormes, altas, pernas gigantes, pareciam umas Barbies – eu ainda brincava de Barbie. Pareciam mulheres, enquanto eu era uma criança. Mal sabia eu que, na verdade, elas também eram crianças, meninas, talvez três ou quatro anos mais velhas que eu apenas. Me senti inadequada, eu tão baixinha, pequena, tão criança, tão sem maquiagem, com os cabelos cacheados supercompridos caindo de qualquer jeito. Elas tão montadas e maravilhosas e magras e altas.

Tive inveja. Muita inveja.

Mais tarde, já jornalista, fui trabalhar com moda. Passei a maior parte da minha vida indo a todos os SPFW. Duas vezes por ano, lá estava eu, trabalhando que nem doida. Se tinha Fashion Rio, lá estava eu também. E estive em muitas semanas de moda internacionais durante esses anos todos. Sempre, sempre, saí desses lugares com a sensação que a Ju de treze anos teve ali, de camisola: um gosto estranho na boca.

Inveja. Sensação de inadequação. A impressão de que eu nunca conseguiria atingir aquele padrão. E nunca consegui mesmo. Tenho 1,60m de altura. Sempre fui magra, mas padrão de modelo?

Eu queria ser assim, como elas, naquela época. O mundo estava me dizendo que assim que era o lindo! Que assim que as roupas ficariam boas em mim! Me sentia horrível com todas as minhas roupas. Sempre demorei horas e horas pra escolher um look. Porque tava tudo um lixo. Saía com a auto estima em frangalhos de todas as semanas de moda em que estive. Tanto aos 20 anos, quanto aos 30.

E não era só eu, minha amiga. A maioria das mulheres estava se sentindo assim todo esse tempo, mas ninguém dizia isso umas para as outras. Eu mesma não dizia para NINGUÉM. Até as modelos, muitas delas, também estavam se sentindo erradas, gordas (!!) e insuficientemente “perfeitas”.

Minha sorte foi que nunca pirei de verdade, por ter sido criada por uma mãe que passou a vida me dizendo que eu era linda, maravilhosa, essas mães que te botam pra cima desde o dia em que você nasce. Isso faz muita diferença. Conheci pessoas que desenvolveram anorexia, bulimia, tomavam remédios, passavam dias sem comer, ficavam completamente desesperadas tentando ser magras. Que gastavam todo o seu dinheiro suado comprando roupas e acessórios ricos para usar no SPFW, porque afinal tem que ter grife, tem que ter glamour. Tentando ser “lindas” para a semana de moda.

Há um ano, mais ou menos, confesso que peguei bode de tudo isso. Fui percebendo que o mundo foi mudando e a moda foi ficando parada. Enquando “aqui fora” a gente celebra a diversidade, todos os corpos, cores, estilos de vida, jeitos de ser, a moda ainda continua promovendo o padrão branco-loiro-cabelo liso-magro de 1989, quando estive no desfile da G.

Cansei. Pulei fora. Me sinto absolutamente maravilhada com o fato de que não faço a unha e nem compro roupa nova há mais de um ano. Parei de alisar o cabelo. Cortei curtinho. Não uso mais maquiagem, nem salto alto. Não faço regime há quase três anos. Não pretendo fazer mais no futuro, também. Nunca tive a autoestima tão alta. Tenho 40 anos, e me acho o máximo.

Nesse exato momento está acontecendo o SPFW. No último fim de semana meu marido disse, “amor, segunda começa o fashion week, né?”. Respondi: “Sei lá. Começa? Não tô sabendo.”

Enfim, é SPFW, como o Fernando me avisou outro dia, já sei. Estou aqui em casa, e não dentro de uma sala de desfile. Mas estou acompanhando o último SPFW, escrevendo esse texto e de camisola, assim como acompanhei o primeiro. E assim fecha-se um ciclo para a Juliana, a única que não mudou de nome.