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Comportamento

0 em Autoestima/ Destaque/ entretenimento no dia 16.10.2018

O casamento da princesa Eugenie e uma verdadeira inspiração para vermos nossas cicatrizes com orgulho

Acredito que a maioria de vocês viu que na última sexta-feira (12), a princesa Eugenie, neta da Rainha Elizabeth II, se casou no Castelo de Windsor, em Londres. Muito se falou da sua fantástica tiara nunca antes exibida com esmeraldas avaliadas em muitos milhões, mas quero focar na segunda coisa que foi muito focada: seu vestido. Assinado por Peter Piloto, muita gente costuma olhar e analisar essas escolhas sob um viés fashion ou até mesmo sob as lentes românticas da realeza, mas para a princesa Eugenie havia muito mais que isso na escolha dele.

Mais importante que a cauda ou o tipo de decote foi a parte de trás, um corte em V profundo, que ia até a metade de suas costas, e que foi pensado estrategicamente para mostrar a cicatriz da cirurgia que se estende por toda a sua coluna vertebral. 

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Antes do evento, Eugenie compartilhou que ela especificamente selecionou um decote que não escondesse sua cicatriz. “Eu sou patrona do Royal National Orthopaedic Hospital Appeal e fiz uma operação quando tinha 12 anos de idade”, disse ela na ocasião. “É uma maneira adorável de homenagear as pessoas que cuidaram de mim e uma maneira de defender os jovens que também passam por isso.” Ela acrescentou: “Eu acho que você pode mudar a maneira como a beleza é, e você pode mostrar às pessoas suas cicatrizes e eu acho que é realmente especial defender isso.”

Muitas mulheres – e homens – começaram a compartilhar suas histórias e mostrar também suas cicatrizes – alguams iguais às da princesa, muitas bem diferentes – através do Twitter, o que foi um movimento sensacional.

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Eu tenho uma cicatriz no braço, e ela é bem grande. Eu operei o braço depois de quebrá-lo num acidente de carro. Apesar de muito grande, ela não me incomoda em nada e eu mesma só fui me dar conta que a tenho quando parei pra pensar em escrever esse texto. Só que justamente por ser muito grande, sempre aparece alguém para me perguntar, então fico imaginando o quanto muita gente deve esconder suas cicatrizes por aí. 

Há quem se incomode com a cicatriz da cesárea, de uma cirurgia feita de emergência, de um tombo grande quando criança, no rosto, enfim. Mas porque deveríamos nos incomodar com isso? Assim como a princesa Eugenie, eu entendo a minha cicatriz como algo que não afeta como eu me enxergo, mas afeta a minha vida diariamente. Graças à ela meu braço se restabeleceu e hoje tenho todos os movimentos perfeitos, portanto, eu deveria ter orgulho dela.

Entendo que muitas vezes a cicatriz pode trazer lembranças tristes, de momentos difíceis e sofridos, porém, estamos todas aqui para contar histórias. E ter uma cicatriz é a prova viva de que vencemos essa fase da nossa vida, certo? Apenas por isso já deveria ser um motivo para não ficarmos tão incomodados com isso.

Nos cobram tanta perfeição que nem mesmo podemos ter marcas de coisas que a vida vai nos deixando, e isso é muito ruim. Assim como cada história é única, nossos corpos e nossa pele também, e é claro que tá tudo bem em termos marcas e cicatrizes. São lembranças do que vivemos e, mais ainda, que sobrevivemos para contar ela história, ou para ao menos nos lembrarmos que mesmo os momentos difíceis passam.

Que possamos todas sermos orgulhosas de nossas marcas. Nós vencemos e estamos aqui pra dizer isso.

3 em feminismo/ Reflexões no dia 04.10.2018

Somos mulheres, não somos enfeites e nem precisamos nos adequar ao padrão de feminilidade

A gente sabe que a aparência física das mulheres costuma ser uma faca de dois gumes. É a primeira coisa que todos usam para nos elogiar, e também a primeira a ser escolhida na hora de fazer uma crítica. Ou seja: está sempre no foco, antes de qualquer outra coisa. Reparou?

Sim. Nossa “apresentação” é fundamental e deus me livre ser feia. É o pior dos castigos. Isso é histórico, vem de muito tempo e é ensinado desde a infância por gerações e gerações. Ser bonita significa muito.

Mas ser bonita significa o que? Em geral significa chegar o mais perto possível de algo como o padrão Gisele Bundchen de feminilidade. Mulheres magras (mas com peito e bunda, claro), brancas, jovens, cabelo longo que se remexe todo no vento, atitudes delicadas, riso solto, sempre feliz, voz suave, pele lisinha, roupas glamourosas, salto, maquiagem (nem muita nem pouca, tem que parecer “natural”, e não vulgar), perfumada em todos os lugares possíveis (e quando eu falo todos os lugares, sim, até lá embaixo).

Então toca a mulherada toda sair correndo atrás desse padrão. Alisa, pinta cabelo, faz pé e mão. Passa creme, corretivo. Faz botox, bota peito. Depila perna, axila, ppk e muito mais. Dá-lhe academia. Compra roupa, compra sapato, compra sutiã push-up, compra cinta. Não perde o controle, é feio, sorria minha filha. 

Aí eu penso: Não posso ter cabelo curto, pelo no sovaco, meter uma chinela, sair de cara lavada, usar calcinha confortável, comer bolo de chocolate, ficar puta da vida? Porque quando eu faço isso me dizem que sou FEIA, suja e inadequada. Isso que estou falando não é um julgamento em relação a mulher nenhuma. Você pode ser qualquer tipo de mulher e você tem esse direito. E todos os tipos são ok.

Só que tem algumas coisas importantes dentro desse cenário que apresentei aí em cima, que precisam ser ditas.

  1. Quem inventou essa aparência padrão feminina foi a sociedade, que é patriarcal. Quem enfiou nas nossas cabeças essa necessidade enorme de ser linda, FEMININA, suave, como se existíssemos para sair bonita na foto e apenas para isso, foi essa mesma sociedade. Sim, a imensa maioria dos homens vai gostar mais de você se você for o mais próxima possível de Gisele. Pausa para um plot twist: os que realmente valem a pena não se preocupam com isso.
  2. Como estamos contaminadas por esse padrão, todas nós, julgamos outras mulheres baseadas nele. Nós mesmas. Temos que lutar contra isso! Se a gente quiser ser respeitada do jeito que a gente é, temos que respeitar as outras mulheres do jeito que elas são, não importa que jeito seja esse. Eu, Juliana, NÃO ACEITO ver qualquer pessoa criticando a aparência de uma mulher, tanto faz qual seja essa aparência. Isso é problema dela. E é só aparência.
  3. Ser bonita ou feia não deveria ser tão importante. Eu mesma aprendi a me desapegar desses conceitos. E se eu for feia? E se alguém me achar feia? Não tô nem aí. Feia e bonita são conceitos rasos, externos, bobos, que não dizem nada sobre alguém. Eu não estou aqui para embelezar o mundo. Pense nisso. Você é muito maior que sua aparência física.
  4. Mulher tem cheiro de mulher. Ppk tem cheiro de ppk. Celulite e estrias são comuns no corpo feminino. A gente transpira. A gente faz xixi e cocô. A gente nem sempre tem uma personalidade delicada. Se um cara não gosta do que faz parte da constituição da fêmea da espécie, as chances do problema estar com ele são infinitamente maiores do que estar com você. 
  5. As bonitas que me desculpem, mas beleza não é fundamental, já diz o velho ditado que eu acabei de inventar nesse minuto. Seja linda, seja feia, tanto faz. O importante é fazer a sua diferença no mundo, o que quer que isso signifique pra VOCÊ e pra mais ninguém.
2 em casamento/ Comportamento no dia 03.10.2018

As noivas que não comiam macarrons – ou a gordofobia no mercado de casamentos

Quando comecei a trabalhar com casamentos, os macarrons – deliciosos doces de amêndoas de confeitaria francesa – eram o último grito da moda casamenteira.

Meu coraçãozinho de jovem empreendedora não resistia ao encanto daqueles disquinhos coloridos – porém caros e difíceis de achar – e vez ou outra eu me permitia ao luxo de encomendar alguns para servir às minhas clientes do cerimonial, afinal, toda noiva estava apaixonada por macarrons nessa época.

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Realmente faziam sucesso: elas queriam tirar fotos, saber onde encomendar, quanto custavam, como servir. Mas para a minha surpresa, poucas delas chegavam a prová-los. Ou quando provavam, logo se autocriticavam por aquilo que consideravam uma pequena transgressão.“Preciso caber no vestido”, “Se eu não perder peso vou adiar o casamento”, “Não estou comendo nada” eram algumas das frases que eu ouvia constantemente no meu escritório.

>>>>> Veja também: Não faça loucuras para caber em um vestido de noiva <<<<<

Quando a Carla postou um texto sobre emagrecer para caber no vestido de noiva, os relatos me doeram. Por mais que eu saiba que essa pressão estética é fruto de uma construção que permeia toda a sociedade e não só o mercado de casamentos, eu não poderia ficar calada sobre a responsabilidade dos profissionais dessa área na manutenção dessa cobrança que vêm adoecendo várias mulheres em um momento que deveria ser de alegria.

E de fato, os casos mais comentados de pressão estética e gordofobia no mercado de casamentos estão relacionados à escolha do vestido. Frequentemente, as visitas aos estilistas ou lojas de vestidos se tornam uma longa sessão de comentários sobre o corpo da noiva. “Quantos quilos você deseja perder até o grande dia?”, “Você não pode usar esse modelo porque vai ficar vulgar no seu corpo”, “Vamos esconder essa gordurinha debaixo do braço” “Vou criar um vestido com corselet que vai remodelar todo o seu corpo” foram alguns dos comentários que presenciei ao acompanhar minhas clientes. Diante disso eu sempre precisava reafirmar o que parecia óbvio: É o estilista que deve criar um vestido para o corpo que você tem e não você que deve criar um corpo para se adaptar ao vestido do estilista.

Tenho consciência de que algumas noivas chegam ao profissional com muitas questões sobre o próprio corpo, mas não isso não autoriza comentários sobre emagrecimento ou ganho de peso sobre determinado corpo ser ideal para “arrasar” no altar ou o comentário mais cruel de todos: “Não se preocupe, toda noiva emagrece durante os preparativos”.

Essa frase é repetida cotidianamente e sem muito pudor por fornecedores de todas as frentes: estilistas, fotógrafos, maquiadoras, cerimonialistas, confeiteiras como uma espécie de alento. Além de não ser uma afirmação real, não consigo compreender de que maneira um emagrecimento por ansiedade deva ser comentado, celebrado e até mesmo romantizado por aqueles que foram contratados para cooperar com a tranquilidade de um casal.

Tudo isso, agravado pela ausência de representação de corpos de outros tamanhos nas revistas, desfiles e até mesmo nos portfólios dos profissionais. Mulheres gordas casam, são produzidas, fotografadas e filmadas, mas eu não tive a oportunidade de ver uma noiva gorda como capa do portfólio de nenhum dos muitos profissionais que visitei ao longo de seis anos de profissão.

Mas o que eu mais preciso dizer é: O casamento não é sobre o corpo da noiva.

Não é nem mesmo sobre a figura da noiva; é um evento que faz parte de uma tradição maior que o mercado de casamentos, que envolve um casal que tem uma história e compartilha uma série de significados e promessas diante das pessoas mais importantes das vidas deles.

Reconhecer isso e conduzir a noiva de volta a esse contexto não apenas é um gesto de empatia, mas algo que pode fazer o trabalho do fornecedor brilhar no mercado.

Já não trabalho como cerimonialista, mas sigo na torcida por casamentos com mais macarrons e menos julgamentos.