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Convidadas

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Convidadas no dia 05.05.2017

Body positivity no Coachella

Aqui no Futi se fala muito sobre o processo de autoconhecimento e autoaceitação. O meu começou há alguns anos e se intensificou com a vinda para NY. Sempre fui muito tímida e me vestia de forma mais séria – tanto que na adolescência um amigo me apelidou de “mãe”, porque achava que eu me vestia como uma. Foto sozinha? Nem pensar! Até que há alguns anos comecei a entender que cada coisa tem seu tempo e conforme me descobria e soltava minha personalidade, meu estilo mudou em um reflexo direto disso. Minha mudança para Nova York me deixou ainda mais livre para explorar. Me vi em novas situações e absorvendo alguns costumes novaiorquinos. Cheguei aqui com um tênis de academia e um slipper. Vou embora com mais três pares de “tênis urbanos”, daqueles bonitinhos pra andar por aí. E um monte de fotos fazendo pose sozinha pela cidade.

Chegar aqui sozinha e fazer amizade aos poucos me tirou o “amiga, com que roupa você vai?” que, querendo ou não, nos padroniza. Ajuda a dar ideia e referência, mas pode ser também aprisionador. O meu grupo de amigas se vestia de forma bem similar e eu entrava nessa talvez por querer pertencer, talvez por não querer me destacar, ainda não descobri o real motivo. Mas aqui eu tenho que pensar sozinha o que me deixa confortável, que lado da minha personalidade eu quero ver representado na minha roupa.

Semana passada saí de férias e fui para o Coachella, Orange County e Los Angeles, na California. Fiz um post no grupo do futi comentando sobre minha experiência e minha irmã comentou como conseguia ver essa mudança e a aceitação do meu corpo; e olhando minhas fotos e a forma como curti esse momento vejo como é verdade. Tive três preocupações quando pensei nos looks do Coachella: estar confortável, evitar marcas de sol e explorar um pouco de fashionismo. Chegando lá, o primeiro look já foi diferente do que eu havia planejado. Fazia 38 graus no deserto, com o céu mais azul que eu já vi, sem uma manchinha branca sequer. Saí do banho e coloquei a parte de cima de um biquini porque não queria sujar a blusa que usaria.

Minhas amigas viram o look e a reação positiva delas foi imediata. Nunca que eu imaginaria usar apenas o biquini no lugar de uma blusa, mesmo com a saia sendo cintura altíssima. “Meu braço é grande”, “meu desvio na coluna evidencia minhas costas largas e as gordurinhas”, entre outros, foram argumentos que usei pra convencer minhas amigas de que não estava bom não. Até que parei e percebi quão confortável estava. Que minhas costas não estavam tão expostas assim. Que tava todo mundo se vestindo da forma que se sentia confortável – tinha gente quase pelada, tinha gente com tanta roupa que eu não entendia como estava suportando o calor; tinha menina sem um pingo de maquiagem, outras montadíssimas; tinha gente descalça, de tênis, rasteira e salto alto.

A gente vê fotos e lê sobre o  Coachella à distância e mesmo sabendo que é no deserto, que faz muito calor, que se anda muito, que festival de música é um ambiente de exploração de ideias, de estilos, de tentativas, de celebração… A gente julga os looks da galera a partir da nossa realidade. Mas estar lá além do festival (já que também acampei com minhas amigas por ali) me deu a oportunidade de reconhecer que é um dos lugares mais sem julgamento em que já estive – e olha que eu moro em NY. Ninguém liga pra o que você está vestindo, ou quem você é (a não ser que seja celebridade). Como num ambiente desses, numa vibe maravilhosa, eu ia ficar me preocupando se o biquini que resolvi usar ia marcar demais as gordurinhas nas minhas costas?! Não dava! Era perder tempo e energia demais numa situação com a qual eu sonhei por tantos anos. A realidade tava incrível demais para que eu deixasse algo tão pequeno interferir.

Então eu fui. Primeiro dia de Coachella e eu usei um biquini e uma saia com fendas vertiginosas. Não porque eu queria aparecer, mas porque eu estava fresca, leve e confortável num dia que exigiria energia para enfrentar a primeira maratona de cerca de 14h de calor, multidão e quilômetros de distância entre o camping, o festival e os palcos. Aceitei que esse é o corpo que eu tenho e que não preciso escondê-lo com medo do que vão pensar dele.

O processo de transformações que tenho passado nos últimos anos me trouxe até aqui. Passar três meses vendo o #paposobreautoestima ganhar vida com mulheres lindas se libertando de prisões e padrões ao postarem fotos usando biquini ou maiô e curtindo o verão me incentivou a me ajudou a entender que um corpo é um corpo, não importa a forma que tenha. Esse corpo é presente, é casa, é abrigo. O que ele carrega dentro é muito mais importante do que a aparência que tem por fora.

2 em Autoestima/ Convidadas/ Relacionamento no dia 03.05.2017

Não é questão de fraqueza, ou exagero

No dia 11 de abril, rolou um movimento nas redes sociais para falar sobre relacionamentos abusivos. A hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo esteve no facebook e no twitter, com relatos de mulheres das quais talvez você nunca tenha ouvido falar, mas provavelmente se identificou por conta da situação compartilhada. Aconteceu comigo. E, como em todas as outras vezes que algo assim surgiu, eu me encolhi e fingi que não fazia parte desse grupo.

ilustração: Harriet Lee-Merrion

Fingi porque escutei minha vida inteira que, como sou toda emoções e sentimentos, geralmente estou aumentando as coisas. Se todo mundo fala, deve ser verdade —abraço isso de um jeito que, em toda situação que vivo, perco um tempo tentando entender se estou aumentando ou se estou apenas sendo realista. Às vezes, essa linha fica meio turva e não consigo, sozinha, distinguir o que é o que.

Fingi que não fazia parte desse grupo porque nunca me deram um tapa ou um soco, nunca deixaram roxos. Já levantaram a mão para mim, sim, no meio de uma discussão acalorada — mas o tapa nunca veio, então não tem problema, não é? Vai ver a mão levantada foi só um reflexo, não quis dizer nada. Vai ver todas as coisas que ele me falou ao longo do tempo que passamos juntos foi uma brincadeira, no máximo estresse por causa do calor do momento. Vai ver estou tornando enorme uma coisa que é pequena. Vai ver é hora de parar.

Mas antes de deixar o assunto de lado mais uma vez, lembrei que uma vez escrevi sobre isso em um grupo de acolhimento feminino. Procurei o grupo, a minha mensagem e reli. Ela foi escrita em 2015, dois anos depois do término. Esperava encontrar frases que comprovassem que nunca tinha sido nada demais, que não foi isso que eu vivi. O que encontrei foi:

“Tava sobrecarregada em um zilhão de aspectos. Ele era um baita aspecto. No tempo que passamos juntos publiquei um livro, tive alguns sucessos profissionais, mas sabe quando nunca é ‘o momento certo’ para a outra pessoa? Uma amiga escritora me aconselhou a aceitar os leitores, para ser simpática e vender, e eu precisei ouvir dele: ‘aceita, espero que seja estuprada por um deles.’, porque ele considerava errado eu estar aceitando leitor no facebook. Chegou um momento que parecia que eu tinha que pedir aprovação dele (não ‘oi, posso fazer isso?’ mas pelo menos ser obrigada a comentar ‘oi, vou fazer isso’ porque se ele falasse ‘não’ era ‘não’ e pronto, era briga.). Em toda briga – toda – eu estava errada.”

E percebi que não aumentei nada. Admiti para mim mesma que todas as vezes que fui para a cama sem querer ir – porque senão eu ouvia que ele teria que achar isso em outra – deixou uma marca. Que todas as vezes que ele falava que eu tinha que ficar com ele, porque ninguém mais no mundo me aturaria, me fizeram crer que isso era real — e quantas, quantas vezes não repeti o discurso dele de que ele tinha mesmo aguentado tanta coisa, então era quase um santo?

Admiti que todas as vezes que o ouvi dizer que, se ele quisesse, ele me trairia e eu jamais ficaria sabendo, me deixou extremamente insegura e desconfiada. Que todas as vezes que ele fazia alguma coisa por mim e depois usava isso como chantagem para eu fazer exatamente o que ele queria, não era uma simples dinâmica de casal. Que ficar me fazendo rodar um shopping o procurando, enquanto ele ria e fazia piada de mim nas redes sociais, falando o quanto era bom apreciar a vingança, não era apenas justiça porque eu demorava para me arrumar.

Admiti que, todas as vezes que ele fingiu que ia pular do 11º andar da faculdade e me deixava tão tensa a ponto de ficar sentada no corredor com um medo surreal que não me permitia sequer me mover, não era uma brincadeira. Admiti que ter me afastado de todos os meus amigos para evitar confusão não foi normal. Assim como não era normal ouvir constantemente que meu peso determinava o quão bonita, desejável ou valorizada eu era ou deveria ser.

Admiti que não fui perfeita com ele e que isso nunca foi justificativa para tudo que ele fez, falou e como me fez sentir menor e desimportante. Que não é normal terminar um relacionamento e se sentir culpada, com nojo de si mesma. Nojo que durou anos.

“O problema é que, depois de tanto desgaste, não consigo confiar em ninguém. Em nenhum homem. Desde 2013, não namoro, não fico, não faço nada. Tenho vontade, mas sabe desespero? Desespero MESMO. Então, eu entro em desespero e desmarco todo e qualquer encontro. […] Só fico me sentindo ridícula. Sempre me pareceu que era meu exagero.”

E admitir tudo isso foi difícil, porque continuo minimizando tudo que aconteceu. Mas também foi o passo que faltava para eu finalmente deixar tudo isso no passado. Foi o ponto final, que eu sequer sabia que precisava, para entender que nada disso me faz mais fraca ou menor, como me falaram uma vez: “você não é quem eu achava que era. Não achei que você fosse o tipo de mulher que aceita esse tipo de relacionamento”.

Pedir ajuda faz parte. Ter isso na história não é vergonhoso. Mas é garantia de que dá para sair dessa e, com o tempo, com ajuda, reaprender a confiar — em si mesma, no outro. Reaprender a se entregar. E, eventualmente, quando você se sentir pronta, apostar as fichas em alguém que valha a pena.

7 em Autoconhecimento/ Convidadas/ Experiência no dia 26.04.2017

E quando você sempre foi workaholic e resolve largar tudo para morar em outro país?

A Mari Martines é muito amiga da nossa amiga Mayara Oksman (que já publicou uns textos ótimos aqui no Futi), e como amiga da amiga também é amiga, acabamos super interessadas pela história dela, que largou tudo para morar no Colorado. Morar em outro país nem sempre é fácil. Por mais que a gente saiba falar a língua, acabamos nos deparando com inúmeras dificuldades e questões que não pensaríamos se não saíssemos da nossa zona de conforto. E a Mari chegou para contar sobre isso! Vem ver o que ela tem para contar! :)

Eu sempre me orgulhei das minhas decisões. Mais ainda, eu sempre me orgulhei por ser uma pessoa  decidida.

Sempre soube que queria ser advogada. Sem nenhuma história romântica por trás, sem nenhum insight na adolescência ou uma família de advogados. Nada. Só a certeza de que queria ser um instrumento da justiça.

Na faculdade, sempre soube com o que queria trabalhar. Foram quatro estágios, todos voltados para a área que eu já havia me apaixonado desde meu primeiro contato: Direito Médico.

Depois de formada, a certeza de onde eu queria trabalhar e o que queria me tornar. Na pós graduaçao, a mesma coisa, a mesma certeza.

Relacionamentos, idem. Podia até não agir de acordo (afinal, quase nunca agimos), mas sabia exatamente onde estava, o que ia acontecer, e como ia acabar.

Quando conheci meu marido não foi diferente. Não queria namorar, não queria me envolver, mas depois daquele primeiro beijo eu tinha certeza que nós dois íamos além….muito além.

No segundo ano de namoro, logo após uma viagem e um pedido de casamento de conto de fadas (literalmente) o, na época noivo, foi chamado para um projeto nos EUA.

Aquariana que sou e maior defensora da liberdade, não pestanejei um segundo e fui a maior apoiadora dele. Mas eu não poderia ir. Eu, advogada, havia acabado de ser promovida, cuidava de uma equipe que me dava muito orgulho e, acima de tudo, JAMAIS jogaria tudo para o alto.

Um ano se passou e o noivo não se contentava mais em me ver a cada dois meses. Eu também não e algumas coisas pararam de fazer sentido. Então, em abril de 2016, decidimos que era hora de um passo a mais.

Entao imaginem minha surpresa quando exatos 3 anos após aquele primeiro beijo, a “senhora decidida”, a “advogada plena”, a “planejadora”, resolveu dizer sim para a maior loucura da sua vida: jogar absolutamente TUDO para o ar e ir morar nos Estados Unidos. Não foi fácil, não está sendo fácil, e sinceramente não sei se vai ser fácil algum dia.

Não se enganem: amo morar aqui, amo viver essa experiência e amo ter mudado tanto à ponto de amar essa incerteza…. mas não é facil.

Nunca achei que seria capaz de viver longe dos meus amigos, da minha família, do meu cachorro e, acima de tudo, da minha carreira.

Nunca achei que seria capaz de não exercer minha profissão, de ser uma dona de casa temporariamente, de pensar em novos meios de me manter financeiramente independente.

Nunca pensei que morar nos EUA seria tão difícil em alguns pontos, mas tão fácil em outros. Nunca imaginei que minha conexão com Deus e com as coisas que amo seria amplificada da maneira que tem sido, nem que sentiria tanto a falta de uma rotina de vida.

E acho que é por isso que quero comecar a compartilhar com vocês essa experiência. Porque eu ainda preciso muito de ajuda, mas também preciso gritar para o mundo que podemos fazer o que quisermos fazer, enfrentar o que quisermos enfrentar, ignnorar quem não consegue nos entender e começar do zero quantas vezes forem necessárias…. Porque no fim das contas, nós somos absolutamente livres e devemos satisfação apenas para nosso coração.