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Convidadas

1 em Comportamento/ Convidadas/ Destaque/ Mayara Oksman no dia 08.03.2017

Às mulheres da minha vida

Eu tenho uma avó que foi dona de casa, criou quatro filhos e não tinha sua voz ouvida pelo marido. Minha mãe, talvez pelo que viu em casa, sonhava em criar asas, voar e construir a vida dela completamente diferente. Minhas três irmãs são muito diferentes entre si, mas cada uma delas é uma sobrevivente e lutadora de formas diferentes. Minhas tias, como eu amo minhas tias! Nada iguais entre si, mas sempre cuidando de mim como se eu fosse filha delas. Perdi uma delas para uma brava luta contra o câncer há onze anos e essa é a maior perda da minha vida, de longe. Minha prima postiça é uma das mulheres mais doces, queridas e pacientes (friso essa qualidade) que eu conheço no mundo. Minhas sobrinhas são minhas princesas, desde pequenas me mostrando, cada uma do seu jeitinho, que o futuro pode sim ser um lugar bem legal.

Tenho algumas boas amigas, daquelas que eu chamo de irmãs de coração. Cada uma delas tem uma história diferente, por óbvio, mas todas me enchem de orgulho todos os dias. Uma delas acabou de sair de uma parceria de trabalho abusiva. Ela foi e continua sendo forte nesse longo processo de compreender o que estava acontecendo e ver que ela não precisava daquilo para ser feliz. Uma outra amiga, assim como minha irmã, teve uma adolescência vida loka e não se arrepende nem um pouco: ela é quem ela é e hoje só se considera foda porque passou por coisas que muita gente não passou. Tenho amigas que viram noite em plantão para ajudar outras pessoas e fazem isso com sorrisos nos rostos. Outra amiga minha luta todos os dias para mostrar no trabalho que é capaz (senão mais) de fazer o que os advogados do escritório fazem. Amigas que voaram para longe para batalharem em outra língua e viver a vida que sempre sonharam. Diversas amigas passaram por cantadas agressivas na balada, foram criticadas por usarem as roupas que queriam. Criticadas porque queriam ser CEO e não donas de casa. Criticadas por quererem ser donas de casa e não CEO.

Duas das minhas amigas, conhecidas de vocês, são fortes, independentes e sem medo algum de ser feliz do jeito que elas bem entenderem. Uma delas me mostrou que eu não sou louca: que ser mãe não é não um conto de fadas. Ambas me ensinam demais sobre autoestima, sobre me aceitar, sobre me amar do jeito que sou. Acho que vocês sabem de quem eu to falando. :)

Tenho orgulho de ter trabalhado e trabalhar com mulheres incríveis. Mulheres casadas, solteiras, com ou sem filhos, que todos os dias saem de casa, chegam no escritório e batalham incansavelmente pelo que acreditam ser correto. Nem sempre o dia termina como esperado e mesmo assim elas não descem do salto (no sentido figurativo, porque quando dá dez da noite todo mundo já desencanou do sapato).

Todas elas têm histórias diferentes. Todas elas passaram por algum tipo de dificuldade. Todas já devem ter sofrido preconceito por serem simplesmente mulheres. Todas precisam provar para o mundo que são capazes, assim como os homens. Todas elas já foram silenciadas em algum momento da vida e nem todas puderam fazer algo para que isso não acontecesse. Todas elas são as pessoas mais fortes que eu conheço no mundo. E tenho certeza que você, mulher, que está lendo isso agora, é tão foda quanto todas as mulheres da minha vida.

0 em Autoconhecimento/ Convidadas/ Destaque/ Devaneios da Mari no dia 03.03.2017

Quando a gente muda o olhar pra gente e para o mundo

ilustração: Henn Kim

Depois de algum tempo já fazendo parte dessa história linda que o Futi vem contando reparei que o meu olhar mudou completamente. Não só estou me enxergando melhor como meu olhar para o mundo também está infinitamente mais benevolente. E essa é uma mudança tão inacreditável que não poderia deixar de compartilhar aqui.

Pois é, eu nunca imaginei que um dia enxergaria a vida como tenho enxergado nos últimos tempos. Admito que passei muitos anos focando nos defeitos – os meus e os dos outros – onde quer que fosse. Em fotos, em vídeos, nas redes sociais… E essa visão não se limitava apenas à questão física/visual. Também se estendia para opiniões, estilo de vida, decisões. Basicamente existia julgando o mundo à minha volta e ao mesmo tempo tendo uma visão completamente embaçada, turva, disforme, de mim mesma.

E vou te falar o que fez com que virasse a chavinha de uma vez por todas: a empatia. Falando parece bem simples; o conceito é óbvio. Se colocando no lugar do outro a gente entende melhor de onde vem aquela atitude e consegue pesar menos a mão no julgamento. Mas sabe com quem eu comecei a ser assim? Comigo mesma. Porque antes de me colocar no lugar de qualquer um eu precisava me colocar no meu lugar, precisava me achar, me enxergar, me amar, me conhecer e me ler melhor.

Estou me abrindo aqui para te incentivar a fazer o mesmo. Porque não tem um dia que eu não olhe pra trás e não sinta genuinamente como sou uma pessoa melhor, mais leve, dessa forma. Autoestima é se amar e tratar bem e também tratar bem o outro. A verdade é que mesmo quando conhecemos alguém muito bem, nem sempre vamos saber de onde partiu certa atitude. Afinal, a gente não sai contando por aí o que contamos, por exemplo, pra psicóloga. E tem coisas que nem pra ela conseguimos falar. Então se lembre sempre disso.

José Saramago diz que “todo homem é uma ilha”, o poeta inglês John Donne diz que “nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra”, pois eu acho que somos na verdade um arquipélago, uma reunião de ilhas que precisa uma da outra pra formar esse coletivo, mas que tem suas individualidades. E essas individualidades são tão particulares que algumas delas nem nós mesmos conhecemos – sobre nós mesmos. Se a maneira que eu ilustrei não faz tanto sentido pra você não tem problema, só tente se apegar ao conceito. Se você ainda está se conhecendo, por que o outro não pode estar também? Sei lá, só um devaneio…

6 em Autoconhecimento/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali/ maternidade no dia 22.02.2017

Esse é um texto sobre mãe

A Carla é a mamãe aqui do Futi, sempre escrevendo relatos sensíveis, admiráveis e honestos sobre sua relação com a maternidade. Hoje, vou pedir licença para a Carlota e, se ela me permitir, falar um pouco sobre esse assunto também. Amiga, posso?

Tenho dois filhos. Teodoro tem oito anos e Carmen tem dois. Não sou o tipo de pessoa que romantiza a maternidade. Como ela costuma ser mostrada pelo lado bom, levei um susto quando ela chegou pra mim. Descobri que vem um montão de coisas ruins, junto com o bom. Aliás, como com tudo na vida. Não tem bom sem ruim, e vice versa, não é mesmo?

No entanto, hoje, vou falar, sim, de algo bom sobre a maternidade (quem sabe um outro dia, conto meus perrengues. São montes. Não tem fim. Mas não hoje). Hoje, vou falar sobre o que a maternidade fez por MIM. Esse não é um texto sobre filho, é um texto sobre mãe.

( *DISCLAIMER: Antes de tudo, queria dizer que não sou uma dessas pessoas que acha que mulher tem que ter filho pra ser feliz. Que só conhece o amor quando tem filho, que mulher sem filho é frustrada, e esse monte de blablablá horroroso que só inventaram para limitar a vida de quem não tem a menor vontade de ser mãe. Tenho muito orgulho das mulheres que desafiaram a sociedade e disseram: Não, isso não é pra mim! Sou feliz assim! E também não acho que o que vou falar abaixo não possa ser alcançado de outra maneira que não seja através da maternidade. Só foi o jeito que eu, Juliana, consegui alcançar. <3)

Ok, então vamos.

Fiz quarenta anos no último domingo, e essa passagem de década, tão marcante, naturalmente me botou pra pensar em um monte de decisões que tomei durante minha vida. No que fiz certo, no que errei.

Concluí, entre montes de decisões que achei que arrasei e outros montes que achei que fui uma bela de uma anta, que ter filhos foi minha melhor decisão entre todas da vida.

Cheguei a essa conclusão ao pensar no quanto mudei desde que virei uma mamãe. O que ser uma mamãe fez por mim, para mim, como pessoa, como Ju.

A maternidade me fez abandonar o supérfluo. Me fez colocar a vida em perspectiva. Deixei pra lá muita bobagem, seja por agora ter outras prioridades, por ter que focar minha energia porque o tempo é mais curto, ou mesmo por puro cansaço. E isso foi um alívio.

A maternidade me fez forte. Parei de sofrer por muita coisa, que passaram a se tornar menores, sem sentido, bobas.

A maternidade me trouxe foco. Objetivo. Razão. “Vamo lá, levanta, é pelas crianças”.

A maternidade me fez humilde. A arrogância que me acompanhava até então – eu, que sempre me achei tão sabida – foi pro lixo. Olhar para uma criança e pensar desesperada “e agora, o que eu faço”, pode mesmo quebrar a cara de uma espertona.

A maternidade me aproximou da minha própria mãe. Eu, tão crítica dela, compreendi tudo. A angústia, o medo, a culpa, o esforço, as dificuldades, as tentativas diárias de fazer o seu melhor com todo o amor desse mundo, e mesmo assim errar, sem querer.

A maternidade me aproximou de todas as outras mães, e de todas as outras crianças. Hoje, vejo uma mãe na rua, com seu filho pendurado no pescoço, muitas vezes cansada, e minha vontade é ir lá dar um abraço. “Tamo junta, amiga. Força”. E quando vejo uma criança chorando? “Tá tudo bem meu amor, eu te acalmo”. Sou mãe de todas elas, um pouquinho.

Tem gente que sonha em, quando for embora desse mundo, deixar sua presença nos livros de história, talvez em um filme sobre si próprio, talvez em discos, livros, ou outra coisa que marque pra sempre sua passagem pela Terra. Eu não. Não ligo pra isso. Me enche de orgulho imaginar que talvez, um dia, muito tempo depois que eu morrer, Teodoro vai cantar “O Segundo Sol” da Cássia Eller para seus netos e dizer “minha mãe cantava essa música pra mim antes de dormir”. Ou então, daqui 30 anos, Carmen vai ver uma amiga triste e falar pra ela, “amiga, calma, minha mãe sempre diz que não tem ruim sem bom”. Esse é o meu legado. É o legado que eu quero. O que vai ficar de mim, neles.