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Juliana Ali

6 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali no dia 16.01.2017

Com amor, Ju: A beleza está nos olhos de quem se vê bela

Ela é magra. Loira. Alta. Tem olhos azuis. Todo mundo acha ela linda. Você acha ela linda.

Ela pode ser uma atriz famosa, pode ser uma blogueira que todo mundo conhece, ou pode ser sua amiga, uma conhecida, ou aquela menina que trabalha no mesmo lugar que você.

Fato é que você olha pra ela e pensa: “Ah, ela tem sorte, vai vendo, com esse biotipo não tem os mesmos problemas de auto estima que eu, deve ser ótimo ser ela”.

A vida é muito mais fácil para quem está dentro dos padrões que a sociedade joga na nossa cara. Que as revistam enfiam na nossa goela.  Para o mundo, é mais “lindo” ser branca ou ser negra? Ser magra ou ser gorda? É mais “lindo” ter cabelo loiro ou cabelo roxo? É mais “lindo” ter olhos azuis ou pretos? Infelizmente, infelizmente mil vezes, é a primeira opção em todos os exemplos que citei. A diversidade não é bem vista pela maioria. Quase todo mundo gosta de uma “Barbie”.

Dito isso, e compreendido que o mundo é mil vezes mais cruel com quem não está no padrão, vamos lá.

Tem uma coisa que eu sempre digo e que entra na cabeça de pouca gente: quando você É A BARBIE, a mulher padrão, isso NÃO SIGNIFICA que você tem a auto estima alta e que sua vida é uma maravilha. Não se engane, amiga. Porque a loira, magra, alta, de olhos azuis também lê a revista, também recebe crítica da mãe, também é traída pelo namorado e também se sente inadequada. Ela também pode se sentir feia e errada.

Os padrões são tão rígidos que muitas vezes até quem está no padrão se sente fora dele. Ou então está dentro dele porque sofre que nem louca – de maneiras que você nem imagina – para se encaixar nele. Seja por meio de dietas que acabam com a saúde, seja por meio de plásticas que ela nem precisava, seja fazendo chapinha até o cabelo cair, seja gastando horas e horas e horas de cada dia na frente do espelho se arrumando para tentar ser perfeita.

E outras mulheres, talvez não tão aceitas pelos outros, estão mais felizes consigo mesmas. Talvez você esteja mais feliz que a Barbie. Talvez, até, você se sinta mais bonita do que a Barbie se sente. Já pensou?

Digo isso porque vivi a minha vida inteira, desde que nasci, no meio de gente “linda” (entre aspas porque estou usando esse linda para definir o linda padrão, que na real não é o meu linda, mas enfim).

Sou filha de uma jornalista de moda. Aos 5 anos, já estava dentro de um estúdio fotográfico em Nova Iorque vendo a Brooke Shields (na época, com uns 17 anos, talvez) sendo fotografada por um grande fotógrafo dos anos 80. Vi muitas modelos brasileiras, muitas famosas, no estúdio se trocando, falando das suas vidas, das suas dietas, tanto na infância enquanto acompanhava minha mãe quanto depois, adulta, no meu próprio trabalho – já que segui a mesma carreira por muitos anos. E vi elas falando as mesmas coisas que a gente, com vergonha das mesmas coisas que a gente, algumas com muito mais que a gente.

Vivi no meio da moda. Vi modelos de 17 anos contarem histórias que fariam qualquer um chorar. E me fizeram chorar.

Todas lindas. Todas magras. Todas loiras. Todas de olhos azuis.  Muitas sob intensa pressão, sofrendo muito para serem “lindas”.

Finalizo esse texto dizendo o seguinte.

 

Se você não está dentro dos padrões, por qualquer motivo, não pense que estar dentro deles é a solução de algum problema, porque não é. A solução está dentro de VOCÊ, não dentro dos padrões.

Se você é uma mulher padrão e se sente inadequada mesmo assim, ou feia, ou sei lá o que, não se sinta culpada por isso. Você também pode. Não tenha vergonha. Lute também para achar a sua beleza, a que você vê, porque a que os outros vêem não significa muita coisa.

E lembre-se. Você não precisa ser bonita para ser feliz. Você só precisa aceitar quem você é, do jeitinho que você é.

5 em Comportamento/ Convidadas/ feminismo/ Juliana Ali no dia 21.12.2016

Por que diminuir outra mulher? Vamos falar sobre sororidade!

Quando eu era mais jovem, lá pelos meus 18, 20 anos, a maioria dos meus amigos eram homens. Eu me sentia mais confortável sendo amiga de homens do que de mulheres. Hoje sei que isso acontecia por dois motivos – e nenhum deles era legal.

O primeiro era o fato de que, quando eu estava perto de homens héteros, e eu sou uma mulher hétero, existia uma sedução implícita e velada dentro da relação que levantava minha autoestima. Isso não significa que eu ia ter nada com esses caras, eles eram apenas meus amigos mesmo. Mas havia essa sedução. Um jeito erradíssimo de levantar a autoestima, já que ela não pode depender da aprovação de outrem, certo? Muito menos da aprovação dos boys. Enfim.  

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O outro motivo era que eu sentia que entre as mulheres havia muita competição. Pra ver quem era mais bonita, quem era mais magra, quem era mais esperta, quem ficava com o boy mais bacana. E isso me incomodava. Eu achava que entre os homens isso não acontecia e invejava o tipo de amizade que homens construíam. Achava que dificilmente mulheres construíam o mesmo tipo de amizade, então eu tentava ser amiga de homens porque imaginava que, talvez, com eles, eu podia ter uma amizade mais sincera.

Bobagem de novo. Mas isso me leva ao tema do texto que escrevo hoje para vocês, meninas lindas leitoras do Futi.

(Mantenham em mente que faço 40 anos em fevereiro e tudo isso que estou contando acontecia há 20 anos, portanto. Mudei muito desde então. O MUNDO mudou muito desde então. Naquela época, não se falava de feminismo, de sororidade, de cultura do estupro. A gente não sabia de nada, mas sentia as mesmas coisas de que se fala tanto hoje. Sentia, mas não sabia direito o que estava sentindo. E nem tinha com quem falar a respeito.)

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Agora vamos lá. Percebo que, ainda hoje, infelizmente, muitas mulheres ainda sentem, vivem e acreditam nessa competição entre elas mesmas. Gente, essa competição é uma ilusão, sabiam? Porque os homens não competem entre si e a gente compete? Porque o patriarcado impôs isso para nós. Sabiam? Nós estamos seguindo uma regra que meteram na nossa cuca.

Vejo mulheres fazendo fofoca para diminuir as outras, para detonar as outras, e isso as faz se sentir melhor. “Ah, mas todo mundo sabe que mulher é fofoqueira”. Quem falou??? Ninguém. Isso não precisa ser verdade. É algo INSTITUCIONALIZADO. Como o preconceito, como a objetificação da mulher, como a obrigação de ser magra. Não precisa ser assim. E não sei vocês, mas eu não quero ser objeto, eu não quero ter que ser magra, e eu não quero ser fofoqueira. E não sou. Nada disso.

Descobri a SORORIDADE junto com o feminismo. E sei que mesmo entre as feministas, nem sempre a sororidade é uma realidade. Muitas mulheres ainda não conseguem realmente apoiar umas às outras e deixar essa competição enraizada pra lá. Mas TEM MUITAS QUE CONSEGUEM SIM. Conseguem de verdade. Eu sou o tipo de pessoa que só de ver uma mina na rua já tenho vontade de falar “tamo junta”. Porque nós estamos, percebe? A gente passa pelos mesmo perrengues, pelas mesmas dificuldades, pelo mesmo preconceito. Enfrenta as mesmas piadinhas toscas, tem o mesmo medo de ser assediada no ponto de ônibus de noite. A gente se ferra junta, mulherada. A gente tá junta, quer vocês queiram ou não, esse barco é só nosso. Então porque não remar na mesma direção?

 

Quando eu vejo uma mulher que acho bonita, na farmácia, na padoca, no facebook, em qualquer canto, eu imediatamente digo isso pra ela. De verdade, digo mesmo. E gente, vocês precisam ver que legal que é a reação da maioria. Mulheres não estão acostumadas a serem elogiadas por mulheres. Só por homens, já notou? E, nesse caso, muitas vezes é uma cantada desagradável. Por outra mina, não. Precisa ver como eu faço amigas. E precisa ver como é gostoso.

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Hoje em dia, 99% das minhas amizades são femininas. Eu tento compreender as mulheres. Não luto contra elas. Luto COM elas. Acolho as mulheres. E sabe o que acontece de volta? Você não acredita. Elas me acolhem de volta. Elas me ajudam na minha auto estima (quem vê pensa que preciso de boy pra isso). Elas dizem que sou linda. Elas dizem “vai mana, você consegue”. E eu digo o mesmo pra elas.

A sororidade não precisa ser uma utopia. Na minha vida, ela é real. Porque eu faço ela ser real. E é super fácil. Amiga, olhe para as mulheres com carinho. Elas merecem. Você merece. Nós merecemos.

Empatia. Sororidade. A revolução pode ser, deve ser e será feminina. Pense nisso.

Com amor, Ju.

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2 em Comportamento/ feminismo/ Juliana Ali no dia 30.11.2016

feminismo: apoio, opinião e protagonismo

< A nossa amiga Ju Ali fez aquele texto sobre pessoas com medo de se dizerem feministas. Ela explicou com muito cuidado como a coisa funciona e hoje voltou aqui pra falar de um tema bem polêmico pra gente. Justamente por isso pedimos pra ela vir explicar pra nós (e pra vocês) como funcionam essas 3 palavras na atualidade. Vamos ver como ela define apoio, opinião e protagonismo? >>

Foi uma discussão muito produtiva com as duas criaturas maravilindas que criaram esse blog amado que me inspirou a escrever o texto a seguir para vocês, leitoras do Futi.

Eu e Jo, conversando, notamos que existe uma grande dúvida sobre os conceitos de APOIO, OPINIÃO e PROTAGONISMO rolando por aí. E não é pra menos, porque afinal são assuntos que tem sido discutidos pra caramba ultimamente nesse mundão. E são assuntos bacanas e importantíssimos.
Então bora falar a respeito? <3

O que iniciou tudo foi que eu disse que acho que quem não é mãe não pode OPINAR na minha maternidade. Sou mãe de dois filhos (lindos, claro ahaah). Afirmei categoricamente que não quero pitaco de quem não sabe o que é estar na minha pele.  E ainda completei dizendo que acho que isso vale para boy falando de feminismo, para branco falando de negro, para hétero falando de LGBT, pra magro falando de gordo e assim por diante. Existe algo chamado lugar de fala (também conhecido como protagonismo) que deve ser respeitado, nunca roubado.

A princípio as meninas me acharam radical, “calma Ju, mas um conselho é bom e tals, não vamos excluir as amigas que não tem filhos”. E ainda, outro comentário que faz todo o sentido: “Mas Ju, eu apoio a luta dos negros, não posso expressar isso? Tenho que me calar e não dizer minha opinião?”. Foi aí que entrou a questão do apoio X opinião X protagonismo.

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Todo mundo quer APOIO, e qualquer um pode dar esse apoio. Apoio é completamente diferente de opinião e de protagonismo. O apoio é uma palavra amiga, é um incentivo, é aquela coisa “vai que vai, tamo junto, tô do seu lado, você é o máximo, força miga”. Isso qualquer um pode – e deve – expressar em prol de qualquer outro. E ninguém precisa pedir: faça isso quando sentir vontade. Quem não é mãe pode dar às mães, os manos podem dar às minas, os brancos podem dar aos negros, os héteros podem dar aos LGBTs. Apoiar é legal, sempre.

Aí vem a OPINIÃO, que é beeeem diferente. Porque opinião implica em juízo de valor. Opinião é aquela coisa “ai amiga, mas como teu filho é malcriado”. Ou aquele macho que diz “ai, mulé, mas você é muito radical com esse feminismo, até parece que existe cultura do estupro”. Sacou? Claro que a opinião também pode ser positiva, mas AINDA ASSIM é perigosa. Porque como você vai opinar sobre algo que não é de sua vivência? Como você pode saber? “Ah, mas eu vi minha mãe criar meu irmão mais novo”. “Ah, mas eu sou babá há 20 anos”. “Ah, mas meu irmão é gay”. Não importa. Observar não é vivenciar. É muito fácil falar quando não é com você. É aquele velho ditado ‘Falar de mim é fácil, difícil é ser eu’. Então, cuidado. Opinião tem uma regra básica: Só dar quando for solicitada. Ou, claro, quando você vive o que está falando.

Porque é aí que entra o tal do PROTAGONISMO. Veja, em geral, quem pede protagonismo (que nada mais é do que estar no papel principal) dentro de determinado assunto é justamente quem nunca o tem. Mulheres dificilmente conseguiram ser protagonistas na história delas mesmas. Mães, menos ainda. Negros, nem se fala. E LGBTs, deficientes, gordos… Não dá para tirarmos o protagonismo de quem não apenas nunca o teve, como ainda por cima SEMPRE FOI DONO DELE pra começar. Ou seja: deixe o negro falar pelo negro, a mãe falar pela mãe, a mulher falar pela mulher e assim vai. Escute. Preste atenção. Se coloque na posição de quem aprende. Acima de tudo, nunca julgue, nunca diga “no seu lugar eu faria…”. Porque, afinal, se você não é um deles, você não sabe, realmente, o que é ser eles e o que faria no lugar deles. 

E não se sinta “abandonado”, “de lado”, “de fora”, “silenciado”, porque isso é uma bobagem. Você está dentro do que pode estar dentro, e fora do que tem que estar fora mesmo, e isso vale pra geral. Te garanto que o aprendizado que vem desse observar é maravilhoso. Pratico ele todo dia. Adoro. Recomendo. É rico, é feliz, é respeitoso e contribui para um mundo mais justo.

Beijo com amor, da Ju Ali <3

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A gente fica feliz que a Ju veio aqui contribuir no futi, temos bastante coisa em que pensar sobre o tema né?