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Juliana Ali

6 em Autoconhecimento/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali/ maternidade no dia 22.02.2017

Esse é um texto sobre mãe

A Carla é a mamãe aqui do Futi, sempre escrevendo relatos sensíveis, admiráveis e honestos sobre sua relação com a maternidade. Hoje, vou pedir licença para a Carlota e, se ela me permitir, falar um pouco sobre esse assunto também. Amiga, posso?

Tenho dois filhos. Teodoro tem oito anos e Carmen tem dois. Não sou o tipo de pessoa que romantiza a maternidade. Como ela costuma ser mostrada pelo lado bom, levei um susto quando ela chegou pra mim. Descobri que vem um montão de coisas ruins, junto com o bom. Aliás, como com tudo na vida. Não tem bom sem ruim, e vice versa, não é mesmo?

No entanto, hoje, vou falar, sim, de algo bom sobre a maternidade (quem sabe um outro dia, conto meus perrengues. São montes. Não tem fim. Mas não hoje). Hoje, vou falar sobre o que a maternidade fez por MIM. Esse não é um texto sobre filho, é um texto sobre mãe.

( *DISCLAIMER: Antes de tudo, queria dizer que não sou uma dessas pessoas que acha que mulher tem que ter filho pra ser feliz. Que só conhece o amor quando tem filho, que mulher sem filho é frustrada, e esse monte de blablablá horroroso que só inventaram para limitar a vida de quem não tem a menor vontade de ser mãe. Tenho muito orgulho das mulheres que desafiaram a sociedade e disseram: Não, isso não é pra mim! Sou feliz assim! E também não acho que o que vou falar abaixo não possa ser alcançado de outra maneira que não seja através da maternidade. Só foi o jeito que eu, Juliana, consegui alcançar. <3)

Ok, então vamos.

Fiz quarenta anos no último domingo, e essa passagem de década, tão marcante, naturalmente me botou pra pensar em um monte de decisões que tomei durante minha vida. No que fiz certo, no que errei.

Concluí, entre montes de decisões que achei que arrasei e outros montes que achei que fui uma bela de uma anta, que ter filhos foi minha melhor decisão entre todas da vida.

Cheguei a essa conclusão ao pensar no quanto mudei desde que virei uma mamãe. O que ser uma mamãe fez por mim, para mim, como pessoa, como Ju.

A maternidade me fez abandonar o supérfluo. Me fez colocar a vida em perspectiva. Deixei pra lá muita bobagem, seja por agora ter outras prioridades, por ter que focar minha energia porque o tempo é mais curto, ou mesmo por puro cansaço. E isso foi um alívio.

A maternidade me fez forte. Parei de sofrer por muita coisa, que passaram a se tornar menores, sem sentido, bobas.

A maternidade me trouxe foco. Objetivo. Razão. “Vamo lá, levanta, é pelas crianças”.

A maternidade me fez humilde. A arrogância que me acompanhava até então – eu, que sempre me achei tão sabida – foi pro lixo. Olhar para uma criança e pensar desesperada “e agora, o que eu faço”, pode mesmo quebrar a cara de uma espertona.

A maternidade me aproximou da minha própria mãe. Eu, tão crítica dela, compreendi tudo. A angústia, o medo, a culpa, o esforço, as dificuldades, as tentativas diárias de fazer o seu melhor com todo o amor desse mundo, e mesmo assim errar, sem querer.

A maternidade me aproximou de todas as outras mães, e de todas as outras crianças. Hoje, vejo uma mãe na rua, com seu filho pendurado no pescoço, muitas vezes cansada, e minha vontade é ir lá dar um abraço. “Tamo junta, amiga. Força”. E quando vejo uma criança chorando? “Tá tudo bem meu amor, eu te acalmo”. Sou mãe de todas elas, um pouquinho.

Tem gente que sonha em, quando for embora desse mundo, deixar sua presença nos livros de história, talvez em um filme sobre si próprio, talvez em discos, livros, ou outra coisa que marque pra sempre sua passagem pela Terra. Eu não. Não ligo pra isso. Me enche de orgulho imaginar que talvez, um dia, muito tempo depois que eu morrer, Teodoro vai cantar “O Segundo Sol” da Cássia Eller para seus netos e dizer “minha mãe cantava essa música pra mim antes de dormir”. Ou então, daqui 30 anos, Carmen vai ver uma amiga triste e falar pra ela, “amiga, calma, minha mãe sempre diz que não tem ruim sem bom”. Esse é o meu legado. É o legado que eu quero. O que vai ficar de mim, neles.

22 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali no dia 31.01.2017

Com amor, Ju: Magrofobia existe?

Hoje eu queria conversar com as magrinhas que acompanham aqui o Futi. Sabe você, que é magra?

Parece uma resposta bem fácil mas talvez você não saiba, não. O conceito de magreza anda tão deturpado que o que mais tem é magra achando que é gorda. Então, antes de começar a conversar com as magras vou deixar claro com quem estou falando.

 

Se você acha que é gorda mas usa manequim 44, você não é gorda. Se você tem o corpo parecido com o da Miss Canadá (se não sabe quem é, a Carla fez um post sensacional a respeito) você não é gorda. Se você está se achando gorda apenas porque é um pouco maior que as modelos das revistas, você não é gorda.

Vou finalizar com o meu próprio exemplo. Tenho 1,60m, peso 56kg, uso manequim 40 ou 42 (dependendo da loja, porque né) e não sou gorda. Mesmo se você achar que sou – porque sei que algumas de vocês achariam.

Então dá pra notar que estou falando com mais gente do que parece, não é? Das magrinhas que usam 34 até as magrinhas como eu, das saradinhas que vivem na academia até você, que pode ter uma barriguinha ou umas celulites arrasando por aí, estou falando contigo.

Ok, magras. Vamos lá.

O que faz muitas de vocês enxergarem outras magras como “gordas” e, com isso, deixarem de perceber quem é realmente GORDA é o padrão de beleza vigente que normaliza corpos extremamente magrinhos. A revista te faz pensar que manequim 34 não apenas é comum como também é fácil de alcançar. Nenhum dos dois é verdade. É raro uma mulher que é naturalmente magra como as modelos. E muitas das que são magérrimas chegam nesse peso de maneira pouco saudável.

Mas esses dias uma moça bem magrinha (naturalmente magrinha) me disse: “Mas ser magra também é difícil. Sofri bullying na escola, me chamaram de Olivia Palito, foi horrível, sofro com isso, existe preconceito com as magras”.

Não, gente, não existe. Existe bullying com algumas magras? Existe. Com ALGUMAS. Existe exaltação do corpo de muitas magras? Existe. Da MAIORIA. Não quero fazer o sofrimento dessa menina parecer pouco, porque não é. Sei que é ruim, que abaixa a autoestima, que causa dor. E o bullying é traumatizante, não importa com quem nem por que motivo.

Mas magrofobia? Preconceito? Isso não tem gente.

Pensem comigo:

  1. Alguma de vocês já foi excluída de uma entrevista de emprego por ser magra?
  2. Alguma de vocês já deixou de ir à praia única e exclusivamente por não existir um biquíni/maiô do seu tamanho no universo?
  3. Alguém já quis trocar de lugar no ônibus por não querer sentar do seu lado e ser amassado por uma magra?
  4. Alguma de vocês já foi olhada feio pelas vendedoras de uma loja por ser magra?
  5. Alguma de vocês já foi barrada na porta de uma balada por ser magra?

Pois é. Esse é o mundo da gordofobia. E isso é seríssimo porque é o preconceito menos adereçado hoje em dia – e ainda é socialmente aceito. As pessoas não têm vergonha de ter preconceito com gordo. Muito pelo contrário, tem gente que tem ORGULHO desse preconceito.

 

E tem gente que disfarça dizendo “mas é que estou preocupada com sua saúde!”. Ok, vamos supor que todas, todas as gordas estejam com problemas de saúde (o que absolutamente não é verdade ok, muito pelo contrário, é só um exemplo para me fazer compreender), isso legitima humilhação? É ok humilhar uma pessoa doente?

E você, que se acha gorda sem ser, não perde o direito de se sentir inadequada nem de sofrer com a sua aparência por causa disso. Porque sofrer com a aparência, infelizmente, praticamente todas as mulheres sofrem em um momento ou outro da vida. Mas você precisa entender que o que você passa é seu, é pessoal, é íntimo. Não é algo generalizado, legitimado pela sociedade, e sofrido em público 24 horas por dia.

PS muito importante: Quero deixar claro que não sou gorda, nunca fui gorda, sei que não posso falar pelas gordas e muito menos roubar o lugar de fala delas. Mas estou aqui batendo um papo justamente com as magras como eu. Porque nós, as magras, sabemos o que a gente fala entre nós. A crueldade que rola quando as gordas não estão por perto. Magras, melhoremos.

6 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali no dia 16.01.2017

Com amor, Ju: A beleza está nos olhos de quem se vê bela

Ela é magra. Loira. Alta. Tem olhos azuis. Todo mundo acha ela linda. Você acha ela linda.

Ela pode ser uma atriz famosa, pode ser uma blogueira que todo mundo conhece, ou pode ser sua amiga, uma conhecida, ou aquela menina que trabalha no mesmo lugar que você.

Fato é que você olha pra ela e pensa: “Ah, ela tem sorte, vai vendo, com esse biotipo não tem os mesmos problemas de auto estima que eu, deve ser ótimo ser ela”.

A vida é muito mais fácil para quem está dentro dos padrões que a sociedade joga na nossa cara. Que as revistam enfiam na nossa goela.  Para o mundo, é mais “lindo” ser branca ou ser negra? Ser magra ou ser gorda? É mais “lindo” ter cabelo loiro ou cabelo roxo? É mais “lindo” ter olhos azuis ou pretos? Infelizmente, infelizmente mil vezes, é a primeira opção em todos os exemplos que citei. A diversidade não é bem vista pela maioria. Quase todo mundo gosta de uma “Barbie”.

Dito isso, e compreendido que o mundo é mil vezes mais cruel com quem não está no padrão, vamos lá.

Tem uma coisa que eu sempre digo e que entra na cabeça de pouca gente: quando você É A BARBIE, a mulher padrão, isso NÃO SIGNIFICA que você tem a auto estima alta e que sua vida é uma maravilha. Não se engane, amiga. Porque a loira, magra, alta, de olhos azuis também lê a revista, também recebe crítica da mãe, também é traída pelo namorado e também se sente inadequada. Ela também pode se sentir feia e errada.

Os padrões são tão rígidos que muitas vezes até quem está no padrão se sente fora dele. Ou então está dentro dele porque sofre que nem louca – de maneiras que você nem imagina – para se encaixar nele. Seja por meio de dietas que acabam com a saúde, seja por meio de plásticas que ela nem precisava, seja fazendo chapinha até o cabelo cair, seja gastando horas e horas e horas de cada dia na frente do espelho se arrumando para tentar ser perfeita.

E outras mulheres, talvez não tão aceitas pelos outros, estão mais felizes consigo mesmas. Talvez você esteja mais feliz que a Barbie. Talvez, até, você se sinta mais bonita do que a Barbie se sente. Já pensou?

Digo isso porque vivi a minha vida inteira, desde que nasci, no meio de gente “linda” (entre aspas porque estou usando esse linda para definir o linda padrão, que na real não é o meu linda, mas enfim).

Sou filha de uma jornalista de moda. Aos 5 anos, já estava dentro de um estúdio fotográfico em Nova Iorque vendo a Brooke Shields (na época, com uns 17 anos, talvez) sendo fotografada por um grande fotógrafo dos anos 80. Vi muitas modelos brasileiras, muitas famosas, no estúdio se trocando, falando das suas vidas, das suas dietas, tanto na infância enquanto acompanhava minha mãe quanto depois, adulta, no meu próprio trabalho – já que segui a mesma carreira por muitos anos. E vi elas falando as mesmas coisas que a gente, com vergonha das mesmas coisas que a gente, algumas com muito mais que a gente.

Vivi no meio da moda. Vi modelos de 17 anos contarem histórias que fariam qualquer um chorar. E me fizeram chorar.

Todas lindas. Todas magras. Todas loiras. Todas de olhos azuis.  Muitas sob intensa pressão, sofrendo muito para serem “lindas”.

Finalizo esse texto dizendo o seguinte.

 

Se você não está dentro dos padrões, por qualquer motivo, não pense que estar dentro deles é a solução de algum problema, porque não é. A solução está dentro de VOCÊ, não dentro dos padrões.

Se você é uma mulher padrão e se sente inadequada mesmo assim, ou feia, ou sei lá o que, não se sinta culpada por isso. Você também pode. Não tenha vergonha. Lute também para achar a sua beleza, a que você vê, porque a que os outros vêem não significa muita coisa.

E lembre-se. Você não precisa ser bonita para ser feliz. Você só precisa aceitar quem você é, do jeitinho que você é.