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Juliana Ali

1 em Comportamento/ Convidadas/ Juliana Ali no dia 14.02.2018

Com amor, Ju: pode ficar mais chato, mundo

Hoje optei por uma ideia diferente aqui na minha coluninha do Futi. Decidi fazer uma lista. Todo mundo gosta de lista, não é mesmo? 

Vai ser assim. Vou te mostrar meu maravilhoso TOP 5 COMENTÁRIOS TOSCOS dos últimos tempos, e abaixo de cada um vou contar os motivos que me fazem acreditar que são grandes absurdos repetidos ad nauseum por pessoas que ainda não entenderam em que mundo estão realmente vivendo.   

Vai ser em ordem de frequência, não em ordem de absurdo, tá, porque não sei julgar qual é pior.

A gente faz contagem regressiva que é pra agregar suspense.

5. “Estou sofrendo preconceito por ser rico.”

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Ter dinheiro virou crime, eles dizem.

Vamos lá, pessoal. Ser rico deve ser uma delícia. Todo mundo quer ser rico. Aliás, a vontade de ser rico costuma ser inversamente proporcional á quantidade de dinheiro que a pessoa tem.

Não, não tem o menor problema ser rico. Só que quando você esbanja sua riqueza nas redes sociais, o que pode acontecer é sua atitude passar certa insensibilidade em relação a realidade da maioria, afinal mais de 90% da população brasileira é pobre, e não “mais ou menos” pobre. Não “classe média” pobre. Pobre mesmo. Sem água encanada em casa. Sem comida na mesa.

Então, a gente pode chegar em um meio termo: mostrar o que você tem de bom, de rico financeiramente, mas de uma maneira suave, agradável, humana, sem parecer que você está esfregando na cara. Demonstrando, sempre, que está ciente de que isso é um GRANDE PRIVILÉGIO.

4. “Sou obrigado a gostar de Pabllo Vittar, agora??”

top 4

Quanta gente brava com o sucesso de Pabllo Vittar, não é mesmo? Esse acima foi o meme mais “bonzinho” que encontrei sobre o assunto…

Claro que ninguém tem que gostar nem de Pabllo Vittar nem de ninguém. Só que é preciso analisar os motivos que levam tanta gente a criticá-lo, dizendo que “canta mal”.

Vinícius de Morais cantava bem? E Chico Buarque? E Kurt Cobain? E Madonna? Não vejo ninguém se revoltando contra a voz destes grandes artistas em nenhum momento da história da música… Ou seja: ficar nervoso com o sucesso da Pabllo também pode ser uma maneira de destilar seu preconceito, escondido sob a desculpa de que ele “canta mal”.

A música é subjetiva. E não é só uma voz de Whitney Houston que faz um cantor merecer sucesso.

3. “Não dá mais para paquerar, porque tudo é assédio.”

top 3

Essa é boa, não é? E tem muita mulher que apoia, vide a carta das francesas em defesa dos homens oprimidos, que não conseguem mais trabalhar sem ter medo de demissão pois aparentemente agora, só de cumprimentar uma colega, correm o risco de sofrer acusações de assédio.

É bastante incômodo, para mim, comprovar com tanta clareza o fato de que os homens em geral realmente não sabem diferenciar paquera de assédio. O que isso diz sobre nossa sociedade?

Uma reflexão importantíssima para todos…

Mas, deixando bem explicadinho para os homens: as mulheres gostam de ser paqueradas. Não estão de mal com a macharada. Só que, pra variar, agora exigem respeito.

2. “Daqui a pouco não vai mais poder rir porque vai ser ofensa com quem não tem dente…”

top 2

Meu Deus do céu, como eu vejo esse meme na nossa amada internet. Ele aparece com a cara da Malévola, com a cara da Giovanna Antonelli (?!?!), com a cara do Chapolin Sincero e até com a cara do Tio Patinhas (é sério). É o pensamento mais auto centrado, egoísta, sem perspectiva alguma, de que já ouvi falar.

Meu anjo, do jeito que o mundo anda, daqui a pouco até quem não tem dente vai poder sorrir em paz, pois não terá mais medo de sofrer preconceito. E olha que louco, você vai poder continuar sorrindo normalmente como sempre fez.

1. “O mundo está muito chato!!!”

top 1

Nem preciso dizer mais nada porque essa imagem explicou tudo com mais clareza e menos palavras. 

Grande beijo pra você, de uma Ju que tem esperança nesse mundo. Porque, apesar ainda de tantas falhas, tantos absurdos, tantas injustiças, segue caminhando em uma direção sempre, sempre melhor.

0 em Autoestima/ Deu o Que Falar/ Juliana Ali/ Relacionamento no dia 22.01.2018

A normalização do “date ruim” (e por que isso não pode acontecer)

Onze anos. Escola. Um menino quase desconhecido da mesma idade rouba um beijo na quadra de educação física. Susto. Ela nunca tinha beijado na boca.

Dezesseis anos. Virgem. Primeiro namorado quer transar. Ela também, mas ainda não, vamos esperar mais um pouquinho, pra ter certeza. Ele passa semanas e semanas insistindo. Muito. É chato. Fica climão. Ele fica bravinho, ela toda meiguinha, dizendo pera só mais um pouquinho, com cuidado pra não chatear o boy. Até que decide que vamos lá.

Dezenove anos, segundo boy da vida, mais velho, já quer transar logo de cara, no primeiro dia. “Não, não, pera, vamos sair mais algumas vezes, não é assim, tô na dúvida, nem sei se é assim que as coisas funcion… Será que é assim que as coisas funcionam???”. E ela transa mesmo sem estar a fim. Ele insistiu muito, fez cara de preguiça na hora que ela disse não. Ela não quer parecer uma tonta, vai ver que é assim que as coisas funcionam.

Vinte e quatro anos, já mais experiente, vai transar com um cara super bacana, lindo. Tudo indo bem até que ele pega a garota pela cabeça e empurra na direção da sua virilha, sinal claro e direto e obrigatório para “quero sexo oral, agora”. Que saco, se ela quisesse fazer ela faria, mas enfim, tá bom vai. E ela faz.

rindo de nervoso (e raiva)

rindo de nervoso (e raiva)

Algo similar ás situações acima já aconteceu com você? Aposto que, com algumas variações, já deve ter acontecido com a maioria das mulheres. Tudo o que falei foram casos reais que aconteceram comigo, na minha vida.

Por que estou contando essas coisas? Porque semana passada aconteceu algo que tem sido tratado de forma muito peculiar e perigosa, a meu ver.

Uma moça, que permanece anônima, relatou a um site americano (bem irresponsável, a meu ver), em detalhes, um encontro que teve com o ator/diretor/roteirista Aziz Ansari no segundo semestre do ano passado.

“Grace”, nome fictício, disse que o encontro foi um desastre. Que ele forçou uma situação. Apertou seu pescoço. Não leu os sinais verbais e não verbais que ela enviou. Foi agressivo. Ela não queria aquele sexo, estava desconfortável, se sentiu encurralada por estar na casa dele. Também de acordo com ela, Aziz não percebeu nada disso, achou que Grace estava curtindo pra xuxu e seguiu em frente.

A partir desse relato, as opiniões do público e da mídia imediatamente correram para dois pólos: os que começaram a gritar “abusador” e os que disseram “mano, foi só um date ruim”. Pior: muita gente usou o caso, leviana e oportunamente, para deslegitimizar o movimento de denúncias de assédio que tem acontecido ultimamente em Hollywood.

Pois bem. Pra mim, Aziz não é nem um estuprador e nem a história é um simples caso de “date ruim”. É mais complexo.

O que aconteceu aqui é o mesmo que aconteceu comigo nas situações que descrevi no início do texto. O mesmo que já deve ter acontecido com você alguma vez – ou algumas vezes – na sua vida.

O homem é mais forte que a mulher fisicamente. Em uma situação em que um casal está a sós, existe essa vantagem implícita. Além disso, por conta da sociedade patriarcal, o homem é sempre “o experiente”, “o protetor”, “o que ensina o sexo”, enquanto a mulher é “a submissa”, “a ingênua”, “a delicada”, “a recatada”. Isso está introjetado em todos nós. Mulheres e homens.

Aziz Ansari não é Harvey Weinstein nem Bill Cosby nem Kevin Spacey. Ele é o João, teu amiguinho da escola. Ele é o Paulo, teu primeiro namorado. Ele é o Eduardo, aquele gatinho que você sempre quis pegar. Um homem egoísta que não para um minuto para olhar para a mulher que está ali, na frente dele.

E Grace quem é? Uma tonta? Uma mulher que não sabe sair correndo de um date ruim? Uma abestada que não tem coragem de se impor? Não. Grace sou eu e você.

E, embora nem Aziz nem Paulo e nem João mereçam ir para a cadeia por isso, precisamos, sim, conversar a respeito desse assunto. Porque, mesmo hoje em dia, o que aconteceu com ela é tão normalizado e tão corriqueiro na nossa sociedade que aparentemente ela não tem nem o direito de reclamar. E enquanto isso, a maior parte dos homens continuam agindo no sexo como se não estivessem nem com um outro ser humano, e sim com um simples objeto que existe para a única finalidade de lhes dar prazer.

Precisamos ser respeitadas pelos homens que escolhemos para passar um tempo a nosso lado. É o mínimo. E enquanto chamarmos esse tipo de comportamento de “date ruim”, isso não vai mudar. 

4 em Autoestima/ Juliana Ali no dia 11.01.2018

Com amor, Ju: representatividade e autoestima

Quando eu ainda trabalhava em revistas como editora de moda, muitos anos atrás, se falava muito no “aspiracional da leitora”. Tínhamos meio que manter em mente um certo modelo de mulher o tempo todo, na hora de escrever as matérias, montar um editorial, criar uma capa, etc. Essa mulher imaginária era quem a chefia intuía que as leitoras gostariam de ser. Porque a ideia não era mostrar quem a leitora ERA, e sim quem ela QUERIA SER no futuro. O sonho da leitora.

Com pequenas variações de revista para revista, a “mulher sonho” era basicamente, por ordem de importância:

  1. magra
  2. rica
  3. sensual
  4. branca
  5. muito bem arrumada e maquiada o tempo todo
  6.  fitness
  7. tinha um boy maravilhoso ao lado
  8. bem sucedida profissionalmente

Já naquela época onde quase não se falava – ou nada se falava – em representatividade, eu tinha várias dúvidas em relação a essa “mulher sonho”, mas tinha vergonha de expressá-las para meus colegas de trabalho.

É que eu não me identificava com ela, sabe? Meu primeiro problema é que eu não tinha muita coisa em comum com essa mulher, e não estava nem um pouco a fim de ESPERAR para ser ela no futuro. Queria me ver na revista AGORA, do jeito que eu era AGORA. Por que eu tinha que ESPERAR para ser boa? Por que eu tinha que SOFRER para ser boa? Por que não dava para eu ser boa do jeito que eu era mesmo? E pensava: não é possível que não existam leitoras que se sentem do mesmo jeito. Não existe a “diferentona”, a gente nunca é “a única que…”.

O outro problema que eu via na tal “mulher aspiracional” era o seguinte: vamos supor que as leitoras não sejam como eu, não se importem em ficar tentando e tentando ser rica, magra, fitness, sensual, montada e etc. Mas E SE NÃO DER? E se ela não conseguir tudo isso? Ela não vai se achar um FRACASSO? Isso não é INJUSTO?

Enfim. O tempo passou. As coisas começaram a mudar, inclusive dentro dessas mesmas revistas (creio eu, pois não estou mais lá, só vejo de fora).

Hoje mais cedo passei pelo bairro dos Jardins, aqui em São Paulo, provavelmente o metro quadrado mais fashion e mais caro da cidade. Lá, entre as lojas mais chiques do Brasil, estava um vitrine onde vi a Joana e a Carla, donas do blog onde vocês lêem esse texto, de lingerie em um poster gigantesco. Uma foto enorme, duas vezes o tamanho real das meninas, e elas lá. De lingerie. Duas meninas fora do padrão de calcinha e sutiã. Os corpos delas parecem com o meu. Parecem com o seu. Parecem com o da maioria das mulheres. E são lindos. Nossa, que lindas, mais lindas que todas as “mulheres sonhos” que já vi antes.

marcyn2

Me vi na vitrine. Do jeito que sou AGORA. Não preciso fazer dieta, nem academia, nem porra nenhuma para me ver na vitrine de uma loja de calcinha nos Jardins.

joana

Segura essa mundão. A mulher sonho é a Carla, é a Jo,  sou eu e você. Imagina uma menina de 15 anos sofrendo que nem louca por puro sentimento de inadequação vendo isso? Representatividade importa.