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Juliana Ali

22 em Comportamento/ Juliana Ali/ maternidade no dia 11.05.2018

Feliz dia das mães pra quem é de dia das mães

Este que se aproxima será meu décimo dia das mães, como mãe. Dez anos que o dia das mães me diz respeito diretamente. Dez anos de maternidade. Po, passou rápido – logo eu, que sempre evitei ao máximo me encaixar em algum cliché, acabei de proferir um dos maiores clichés da maternidade. Como passou rápido. Como as crianças estão grandes.

Porém não vim aqui falar sobre crianças hoje, não. MUITO MENOS sobre mães. Vim falar sobre bichos. Oi? Isso mesmo. Todo ano, quando chega perto desta data, começa a eterna discussão da (já adivinhou? Hein? Hein?): MÃE DE PET. E eu tinha prometido a mim mesma que nunca mais discutiria o assunto. Claro que falhei completamente e me vi, de novo, em 2018, tentando explicar por que este termo não é um termo legal. Aquariana, né mores.

É curioso como essa coisa da mãe de pet sempre dá confusão. Acho que nunca vi esse assunto ser discutido sem terminar em briga, ânimos alterados, treta real. Por que será?

Tenho um palpite.

Vamos falar da mãe de pet. Que não é aquela pessoa que adora seu cachorrinho, cuida com todo o carinho e dedicação do mundo, dá todo amor que tem no peito ou que chega em casa e fala “oi, filho, vem com a mamãe!”.

A mãe de pet é outra coisa. É aquela pessoa que realmente se enxerga como mãe de seu animal e que afirma que seu bicho dá trabalho igual filho, que ela gasta muito dinheiro, se priva de muita coisa. Eu não duvido que dê muito trabalho, que gaste muito dinheiro com veterinário, brinquedos e rações, que deixe de ir a lugares porque não tem com quem deixar o bicho. Só que a verdade é: por mais trabalho, dinheiro ou privações, NÃO É QUE NEM FILHO, nunca vai ser que nem filho.

Ainda tem algumas – e essas são as piores, preciso dizer – que enchem a boca para dizer que odeiam crianças e que “bicho é melhor que gente. Algumas exigem receber seu “feliz dia das mães” e, caso não recebam, se ofendem. Tem gente que briga porque tem lugar que pode entrar criança e não pode entrar animais, como se ambos fossem A MESMA COISA. Estou falando dessas pessoas.

Mãe é o que, então? Simples. Qualquer mulher que seja responsável por uma criança, seja porque gerou ou porque adotou.

ilustra: monnan-illustration

ilustra: monann-illustration

Se ofender com o termo mãe de pet não tem nada a ver com competição, muito menos com AMOR. Amor é subjetivo, se você disser que ama seu bicho como se fosse filho MESMO, que morreria agora pelo seu peludo da mesma maneira que eu, sem pestanejar, daria a vida para salvar o Teodoro ou a Carmen, vou acreditar em você. Mesmo porque existem mães que não amam seus filhos. Maternidade não é amor. São duas coisas separadas.

Então é sobre o que? É sobre carga social. É sobre invisibilidade de mães. É sobre opressão. É sobre ser estigmatizada profissionalmente a ponto de ter que esconder que tem filhos em uma entrevista de emprego, de ouvir que “é por isso que não gosto de contratar mulheres” quando conta no trabalho que está grávida. É sobre tentar o suicídio por se descobrir grávida na adolescência e se ver sem opções ou suporte (ninguém me contou, eu vi acontecer). É sobre a incerteza do futuro de um filho autista que sofre bullying (meu medo diario, sendo mãe de um). É sobre o julgamento diário em cima da tua maternidade. É sobre abandono paterno. É sobre a luta pela guarda dos teus filhos. É sobre a responsabilidade de ensinar outro ser humano a ser um adulto decente.

Por fim, é sobre a seguinte reflexão, importantíssima: Por que será que você, mãe de pet, não larga o osso (desculpe o trocadilho) e faz tanta questão de ser chamada de MÃE? Não seria talvez uma pressão da sociedade patriarcal, que impõe às mulheres uma realização que, dizem eles, só existe através da maternidade?

Dizem que para ser uma mulher completa você tem que ser mãe. Será que é isso? Pois isso não é verdade. É só mais um aprisionamento injusto, assim como ser bela, recatada e do lar.  A realização de uma mulher não precisa vir da maternidade unicamente. Se você não é mãe, por escolha ou por circunstância, será que é preciso se sentir mãe de alguma forma para se sentir completa, útil, para sentir que realmente está dando todo o seu amor para alguém? Não deveria ser.

Me sinto profundamente ofendida com o termo mãe de pet, sim. E o lugar de fala é nosso. Meu. Teu, se você for mãe. E o que a gente sente deveria importar. Embora, na maior parte do tempo, não importe quase nada. Exijo respeito pela enormidade de significado que o termo MÃE carrega. Fiz por merecer.

1 em Comportamento/ Destaque/ Deu o Que Falar/ feminismo/ Juliana Ali/ Reflexões no dia 23.04.2018

O mundo é muito maior que o seu mundo

A foto era de uma influenciadora bem famosa, de short e biquini, o short aberto. Na legenda, a moça explicava que não dava pra fechar o short porque ela tinha comido demais e a barriga estava inchada. A foto contradizia a legenda, era bem óbvio que a barriga não estava nem um pouco inchada. O short largo, cabia outra dela lá dentro quase. Choveram críticas, com toda a razão e direito.

Mas não é esse meu ponto. Algumas pessoas – ás vezes sem mesmo a intenção de defender, ás vezes bem com esta intenção – disseram coisas como “Ah, não tô nem aí. Nem sei direito quem é essa influenciadora”, “Passei batido, não me afeta”, “Vocês se importam demais com essas coisas, ela é só uma tonta, nem pensou direito no que falou, quem nunca?”.

Esse sim, é meu ponto. Esse argumento “não me afeta, então não é um problema” é extremamente perigoso. Leviano. EGOÍSTA. Pequeno. A foto da tal influenciadora também não me afetou em absolutamente nada. Eu, pessoalmente, não conheço muita coisa sobre ela a não ser o nome. Não sei nem que apito toca. Não tenho muito interesse em saber também – nada pessoal. E a foto? Bem, tenho 41 anos, não sou público alvo dessas pessoas, não me relaciono com o conteúdo delas, e uma barriga lisinha dançando em um short largo nada me diz. Beleza pra mim é outra coisa. E magreza não é qualidade que me toque, na verdade. Dou valor a outras paradas. Mas então, foda-se isso? Deixa pra lá? De jeito nenhum.

Veja, nunca passei fome. A fome não me afeta. Isso não significa que a fome não exista. Ela é uma realidade para uma parte importante da população brasileira. Também sou branca. Nunca sofri racismo. Por acaso isso quer dizer que o racismo não existe, só porque ele não ME afeta? Esse é justamente o argumento que muitos homens usam para dizer que feminismo é mimimi (a pior palavra já inventada no planeta). Porque pimenta no dos outros, né amigas.

Nunca passei fome, mas a fome me revolta e ME DIZ RESPEITO. O mesmo vale para o racismo, a LGBTfobia e outras questões problemáticas desse mundo. Uma delas, aliás, a gordofobia, os transtornos alimentares, o bullying e a distorção da auto imagem que as adolescentes estão fazendo de si mesmas. Pois são estes últimos que a tal influenciadora está incentivando com a foto da “barriga inchada”. O público dela é jovem, muito jovem. O que queremos para o nosso futuro? Como queremos que as crianças e adolescentes se sintam? Queremos que valorizem o que? Eu não quero que minha filha – nem nenhuma outra menina – priorize ser magra, bela e, caso não seja, sofra enormemente.

PRIVILEGIOS

“Privilégio é acreditar que algo não é um problema apenas por não ser um problema pessoal seu.” É um grande PRIVILÉGIO não ser afetada pelo racismo, ou pela miséria extrema, ou pela gordofobia. Há que se reconhecer isto e perceber que, para centenas de milhares de pessoas, esses problemas são capazes de destroçar vidas. Eu não serei parte do problema. Vou me revoltar. Vou apontar. Vou participar. Porque enquanto não fizermos isso, pensarmos fora do nosso mundo pessoal, tão pequeno, as chances do MUNDO REAL, do mundo grande, melhorar são muito, muito pequenas.

1 em #paposobremulheres/ Comportamento/ Juliana Ali/ maternidade no dia 15.03.2018

Papo sobre mulheres: Maternidade X Amizade

Um tempo atrás fui convidada para um casamento na praia. Para uma mãe de dois filhos pequenos (um com TEA*, ainda por cima), esse não costuma ser um programa muito agradável. A gente já sabe: as crianças brigam na estrada, chega lá você já está exausta, durante a festa eles ficam pendurados no nosso cangote, não dá pra fazer nada direito, nem conversar, beber e nem pensar, depois ficam com sono e começam a fazer manha, enfim, é um fuá. Mas fui, porque quem estava casando era uma amiga muito querida.

Nesse dia estava cercada de amigos. Mas foi uma moça que conheço superficialmente (mas que sempre me pareceu uma pessoa incrível), amiga de um amigo, que me observou ali, tentando controlar dois pequenos, e disse: “Você quer que eu brinque com seus filhos para você descansar um pouco? Eu teria o maior prazer em fazer isso.” Uma menina jovem, que não é mãe. Não vive a maternidade, não sente o que eu sinto. E já me disse, em outros momentos, que nunca quer ser mãe. Meus amores, apresento-lhes a empatia.

Quando ela falou aquilo, tive vontade de chorar. Pelo amparo que aquelas palavras, que tão raramente ouvi antes, me fizeram sentir. Queria responder: “Querida, posso arrancar a roupa do corpo e te dar? Posso ajoelhar no chão e dizer, aos gritos, o quanto você é especial? O que POSSO FAZER POR VOCÊ?”. Minha gratidão não tinha fim. Eu ali, solitária na minha maternidade, encontrei uma amiga. Recusei a oferta, no entanto. “Imagina, tá tudo bem, tô de boas, tô acostumada rs”. Queria que ela curtisse a festa, era o que eu podia dar de volta ali, naquela hora, imediatamente. Mas nunca vou esquecer aquele momento.

Tem uma micro fábula que diz assim: “O macaco passeava pela floresta e viu um peixe dentro do rio. Pensando que o peixe se afogava, retirou-o da água, acreditando que salvava sua vida. O peixe morreu. Como é importante entender o mundo do outro!”.

Não é fácil entender o mundo do outro. Quando você vive no mesmo mundo, a relação costuma fluir que é uma beleza. Mas e quando tudo muda?

Você é mãe? Perdeu amigas quando teve filhos? Elas só falam de balada e macho? Ficam virando o olho porque as crianças estão sempre com você e atrapalham os papos? Que saco, né.

E você, que não é mãe? Perdeu amigas depois que ELAS tiveram filhos? Elas ficaram meio chatas? Só falam das crianças? Não tem mais tempo para você? Nunca dá para se encontrar? Que saco, né.

Sou mãe. Tenho poucas amigas. Por incrível que pareça, as “mães” e “não mães” estão mais ou menos em igual número. Minhas amigas que tem filhos vivem no mesmo mundo que eu, suave, dividimos as mesmas alegrias e tristezas.

As que não tem filhos são pessoas empáticas e deliciosas. Não fazem a menor ideia do que eu passo. Sabem disso. Entendem que meu tempo é limitado. Tem uma, em particular, que quando vem me visitar ainda passa um tempão divertindo as crianças para eu respirar um pouco. E adora. E as crianças adoram. Ver uma amiga se divertindo com meus filhos ME FAZ sentir amada. Eles são parte de mim. Bixo, quando uma mulher dessas vem conversar de macho e balada comigo, ouço por horas com todo o prazer. Dar e receber, saca? Ela me dá amor, eu dou amor pra ela.

Esse é o segredo de manter a amizade com mulheres que amamos quando, de repente, a vida faz com que passemos a viver em “planetas diferentes”.

Cuidem das suas amigas. Entendam o mundo do outro. Presença física não é amor. Compreensão, empatia, troca, ah… Isso é amor. A única amizade que vale a pena.

*TEA: Transtorno do Espectro Austista