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Juliana Ali

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Juliana Ali no dia 04.09.2018

Empatia pra quem? A importância de olhar o mundo do outro!

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Essa é a minha microfábula preferida, de toda a vida. Me toca profundamente. Especialmente a imagem. O macaco, alheio, contente, imaginando que acabou de fazer algo tão bonito, abraçadinho com o peixe, tão bem intencionado. Mas matou o peixinho.

Entender o mundo do outro se traduz em empatia, essa palavra já cansada, enjoada, super exposta, usada á exaustão nos últimos tempos e que já se esvaziou pra tanta gente justamente por isso. Então pode trocar de nome, se preferir. Pode ser também solidariedade, compreensão, tem muitos sinônimos.

Além desse problema da palavra ter sido usada demais, existe também um pior: seu sentido foi largamente perdido, talvez até nunca compreendido por muitos. Tenho visto EMPATIA sendo usada como uma palavra chave que a pessoa grita em momentos estratégicos, justamente em momentos onde ouviu algo que não gostou ou que não concordaram com a sua opinião. “CADÊ SUA EMPATIA? ME RESPEITA!”

Empatia é justamente o OPOSTO. Ela não é pra pegar para si, é para oferecer aos outros. Você pode até usar quando alguém critica algo que você falou, mas use ao contrário: aponte para a pessoa, exerça você a empatia. Tente refletir sobre o porquê dela estar incomodada. Como será o mundo dela?

Tem uma página no Facebook que já me arrancou altas gargalhadas que chama White People Problems. Se você não conhece, ela faz graça com o “sofrimento” de ricos e famosos – ás vezes só ricos mesmo. Então tem a Ana Hickmann reclamando que tá frio em Paris ou o filho do Mick Jagger muito deprimido porque foi morar em Nova Iorque e sente saudades dos amigos do Brasil. Faço um paralelo com uma frase que vejo muita gente dizer: “Nenhum sofrimento é pequeno, todos são válidos, para você pode parecer bobagem, mas para a pessoa não é.”

Isso é verdade, mas também não é. Veja. Não tenho dúvidas de que Ana Hickmann ficou realmente frustrada com o frio inesperado em pleno verão parisiense, e que o Lucas Jagger estava morrendo de saudades dos seus amigos. Inclusive, é possível que naquele momento, aqueles fossem os MAIORES problemas das vidas deles. Porém, há que se ter noção do mundo do outro, e ainda há que se ter noção do mundo PONTO.

É um grande privilégio poder morar em Nova Iorque ou ver a chuva caindo sobre a torre Eiffel. Tem gente que daria um rim para viver esse momento. O que é seu azar pode ser a maior sorte da vida de outra pessoa e, quando você reclama de uma coisa dessas, você pode estar afrontando alguém. 

Sei que vai ter gente pensando: “mas peraí, agora não posso expor minhas dores só porque tem gente pior que eu? Porque eu sou privilegiada e outras pessoas não?” Acho que todo mundo pode expor qualquer dor, mas também acho que é bom se preparar para receber críticas ou até mesmo deboches (como é o caso da página que eu citei) porque faz parte da exposição. Do contrário, melhor evitar expor essa dor publicamente.

Mesmo assim, quando essa afronta é apontada, acho que vale a pena botar a mão na consciência e tentar EXERCER a empatia, e não PEDIR, pois o privilégio é TEU. No mundo do outro, talvez, Nova Iorque seja tão distante e impossível de chegar quanto a lua. A gente tem que ter uma parada chamada perspectiva, senão vamos:

  1. Sofrer á toa
  2. Passar a vida focando em “sofrimentos” menores, sem aproveitar grandes maravilhas que temos
  3. Matar um monte de peixe afogado, sem a menor necessidade

Vejo também um outro problema acontecendo com a tal da empatia: sobra empatia para quem é parecido, e falta muita para quem é diferente. Ou seja, a macacada tudo empatizando um com o outro, mas com o peixe, nada.

Magra empatiza com magra, mas a gorda é feia e preguiçosa. Branca empatiza com branca, mas a negra só serve pra ser empregada. Rica empatiza com rica, mas chega a pobre mostrando uma outra visão de mundo, Deus me livre, quem é essa ignorante.

Se o macaco desse uma chance pro peixe contar o que precisa, não é? Se desse tempo de ouvir o peixe. Ah, que importante é entender o mundo do outro. 

2 em Comportamento/ Destaque/ Juliana Ali/ maternidade no dia 14.08.2018

Mini me? Não. Big you.

Fico um pouco aflita com essa moda de mãe e filha que usam a mesma roupa. Sabe, que você já compra igual, o vestido já vem na versão grande e pequena, pra fazer conjuntinho? Tenho plena consciência que é só uma gracinha, que não tem problema nenhum e que não devo subentender nada além de uma coisa de união, mamãe e filhinha mostrando que tem algo em comum, e é fofo.

É que trago para a minha própria experiência pessoal, e não consigo ver graça. Na infância eu mesma escolhia minhas roupas, e gostava disso.

Eu ia brincar no parquinho com uma saia de bailarina rosa, uma jaqueta jeans oversized cheia de broches, uma boina medonha (não tenho explicação para a boina) e o cabelo todo grudado de gel porque a ideia era ficar zoado que nem o da Madonna. Cresci nos anos 80, a gente queria ser a Madonna no vídeo de Like a Virgin. E minha mãe me deixava sair assim, toda esquisita. Afinal, pra mim, aos sete anos, não tava esquisita, tava belíssima.

Tive umas fases que nem te conto. Cheguei em níveis bem piores, prometo, mais tarde. E ninguém disse nada em casa. “Ela tá se expressando, deixa”, minha mãe falava para os outros, quando questionavam se ela ia deixar eu sair assim, MESMO. E, pra mim, ela dizia “tá linda”.

Depois que fiquei mais velha e mais auto consciente, olhava aquelas fotos da infância e dava risada, dizia “mãe, você era maluca de me deixar pisar fora de casa desse jeito”. “Olha filha, eu realmente acreditava que você devia se expressar, e não me metia”. Hoje, como mãe, acho que ela tinha toda a razão.

Não é fácil entender que o filho da gente é OUTRO. Que talvez, inclusive, acabe se tornando uma pessoa absolutamente diferente, com visões de mundo opostas à nossa até. Nossos filhos e filhas crescem dentro da gente, literalmente, por um tempo. Fomos NÓS QUE FIZEMOS aquela criatura. É como se ela fosse nossa mesmo.

Por isso acho que é tão difícil lidar com o fato de que não apenas ela não é nossa, como ainda por cima pode ser completamente diferente de nós e agir de formas que não tem nada a ver com o que esperávamos ou mesmo torcíamos.

Meu filho mais velho é autista. Nem me fale sobre agir da forma que eu não esperava, disso eu entendo. Ele não é e nem nunca será como eu imaginava. Minha filha mais nova cismou que é um elefante, já há alguns meses. Ela dorme, acorda, vai pra escola, com uma touca cinza que tem orelha, tromba, tudo, que já está imunda e não consigo lavar porque ela não larga por tempo suficiente. Sinto falta de ver o cabelo da Carmen, já quase esqueci como é.

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E sabe? Tudo bem. Nossos filhos não são nossos “mini me” (se tem uma expressão que odeio, é essa). Nem nosso espelho. Nem nossas segundas chances de realizar sonhos frustrados na vida.

Eles são pessoas absolutamente independentes. E, quanto mais diferentes de nós eles forem, mais precisarão da nossa aceitação. Mais precisarão ouvir que “você tá linda”, quando a criança está de boina em um verão de 40 graus com gel de glitter escorrendo pela cara.

Pra mim, essa é a beleza da maternidade, no fim das contas. A surpresa diária de conhecer esse ser humano que era tão meu, tão meu, que morava aqui dentro. E, conforme o tempo passa, vai se tornando alguém com opinião própria, vontade própria, personalidade própria. Alguém que se expressa. E eu deixo se expressar. Pode ir pra escola com a touca de elefante sim, filha. Você tá linda.

4 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali no dia 18.07.2018

Envelhecer?

Tenho 41 anos. Quando minha mãe tinha mais ou menos essa idade, era diretora da revista Cosmopolitan e, da mesma maneira que hoje faz minha amiga maravilhosa Cris Naumovs (atual ocupante do cargo), todo mês escrevia a carta ao leitor – aquele textinho logo no começo da revista, meio que uma apresentação da edição. Ela fez isso por vinte anos.

Em uma dessas colunas, escrita quando tinha uns quarenta e poucos anos, minha mãe fala sobre estar ficando mais velha. O texto começa exatamente assim: “Branco. O cabelo está branco.”

Vou escrever sobre o mesmo assunto agora, e homenagear minha mãe começando do mesmo jeito: Contando que, recentemente, Carmen, minha filha, encontrou alguns fios de cabelo branco na minha cabeça, pela primeira vez.  Branco. O cabelo está branco.

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Noto os reflexos de ter passado dos quarenta. Adolescentes passam por mim com aquele jeito distante e desinteressado de quem não se identifica mais, recebo muito menos olhares masculinos em qualquer ambiente, “a senhora vai beber alguma coisa?”.  Outro dia fui fazer um exame de sangue e a moça do laboratório perguntou: “ainda menstrua?”. Pela primeira vez na vida não ouvi o familiar “qual a data da última menstruação?”.

Não me incomodo com nada disso, são apenas sinais naturais do momento em que estou e tudo bem. Me sinto confortável aqui, nesse lugar. Porém tem uma coisa que me incomoda sim, agora. Frases como “fulana tá acabada, cara de velha”. Ou “envelheceu mal aquela lá, hein?”.  Ou ainda “você não vai entender porque quando você era jovem não tinha isso”.

Envelhecer? Credo, não pode. É feio. Tem que ficar velha e ter cara de jovem. Se vira, faz plástica, que parecer a idade que tem é crime. Tem que mentir a idade também. Como se fosse uma vergonha, e não um orgulho, cada ano novo que a gente enfrenta, e ganha. Dizer que tem cinco, dez anos a menos. Não entendo a vantagem. No máximo, vão dizer “fulana tá acabada, cara de velha.” Porque, afinal, se eu disser agora que tenho 35 anos não vou magicamente ficar com cara de 35, né amore. Continuarei com cara de quarenta mesmo.

“Ah, no meu tempo…”. Não é assim que eles falam? Que tempo é esse? Meu tempo é hoje, é agora, é 2018, é onde estou. Aqui é MEU TEMPO. Mais do que nunca, inclusive.

Não sei se você viu o stand up da Hannah Gadsby que estreou há pouco no Netflix. Chama “Nanette”. Talvez tenha ouvido falar (recomendo). Hannah tem minha idade. Em dado momento, ela está falando sobre Picasso. Ele mesmo, o pintor. Hannah lembra que Picasso, aos 45 anos, notoriamente se envolveu com Marie-Thérèse, de 17. Foram amantes, ele era casado. Picasso disse certa vez que o relacionamento era perfeito pois ambos “estavam em seu melhor momento”. A isso, Hannah responde algo do tipo: “Que mulher está em seu melhor momento aos 17 anos? Melhor momento pra que? EU estou em meu melhor momento AGORA. Pode vir, você teria coragem de mexer comigo HOJE???”. 

Aos 17 anos, certamente Marie-Thérèse estava no melhor momento para cair no papo de um homem mais velho louco para usá-la como bem entendesse. E aos quarenta? Você tem coragem de enfrentar essa mulher? Ela ACABA com você. Porque ela sabe muito. Ela está NO SEU MELHOR MOMENTO.

Lembre disso, se você for ainda bem jovem. Com o tempo, você ficará melhor. Abrace isso, pois é real. Não minta sua idade, não tenha medo de quantos anos terá  no ano que vem. Tenha orgulho da mulher em constante evolução que você é. Cada ano vai te tornar mais autoconfiante, mais esperta, mais tranquila, mais FORTE, mais ligada no que realmente importa. Spoiler: não é a aparência física.

E não me chama de “velha”. Não repare se envelheci “bem ou mal”.  O que significa isso, no fim das contas? Inspire-se nas mulheres que estão mais á frente que você nesse processo de crescimento ao invés de dispensá-las. É crescimento, não envelhecimento.

Minha mãe hoje tem 75 anos. E o cabelo está branco, todinho. Ela não pinta, sabe? E segue linda, saudável, vivendo no seu tempo, que é hoje. Viu “Nanette” também. Só que mamãe viu no Netflix pelo laptop. Eu não sei acessar o Netflix no computador, nunca tentei, vejo na TV mesmo. Quem sabe um dia peço pra ela me ensinar como faz.

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Aliás, também me lembro exatamente da última frase do texto que mamãe escreveu há três décadas, aquele, do cabelo branco:

“Envelhecer? Não tenho tempo pra isso.”