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Juliana Ali

3 em Autoconhecimento/ Convidadas/ Juliana Ali no dia 17.05.2017

Com amor, Ju: eu e a síndrome do pânico

Em geral, galera não gosta de falar em público. Eu adoro. Tirar foto ou gravar um vídeo também costuma “travar” muita gente. Eu amo, me sinto amiga da câmera. Vejo muita gente com medo de paquerar um cara/uma mina. Medo de serem rejeitadas ou de não saber direito o que fazer ou de parecer ridículo. Eu me jogo, confio e ainda por cima me dou bem. Não ligo de ser ridícula. Tenho uma autoconfiança da porra.

Legal, né?

Pois é.

Estou, neste exato momento, dentro de um avião. A caminho de Porto Alegre, uma cidade que nunca fui.

Legal, né?

Pois é.

Não pra mim. Odeio estar dentro do avião, e mais ainda, odeio sair da rotina. As pessoas gostam de viajar e gostam de sair da rotina, em geral. Não eu. As pessoas também costumam gostar de ir a uma boa festa, não? Quanto mais glamourosa, melhor. E se for a própria festa então? Melhor ainda! Deus me livre! Detesto. Gosto de ficar em casa, o máximo possível.

O que é gostoso pra ti, costuma me apavorar. O cinema. O táxi. O avião. O restaurante. A surpresa. O novo. O desconhecido. O que não posso controlar. Tenho síndrome do pânico crônica desde criança. Não lembro de mim de outro jeito. Não lembro de mim sem ela comigo. Sempre comigo.

Não é um episódio isolado, um momento da vida, uma crise de ansiedade que dura um tempo e depois você se livra dela, como é bem comum acontecer com muita gente. A síndrome do pânico anda comigo. A vida toda. Mas isso também não é incomum. Não sou diferentona, não. Muita gente é como eu.

Quando era criança, lá nos anos 80, ninguém ainda sabia o que era síndrome do pânico. Meus pais não sabiam, e são pessoas super informadas e esclarecidas. Meu pai é médico. Todo dia, antes de ir para a escola, eu vomitava. Vomitava de puro pavor. De pânico.

Passei a não comer na parte da manhã (eu estudava á tarde) para ver se passava. Não passava, vomitava água. Meu pai, preocupado, meu deu um remédio. “Ju, tenho aqui um remédio muito bom, chama PLUS, se você tomar antes de ir pra escola, NUNCA MAIS vai vomitar. Vai sarar!”. Parecia um milagre na minha frente, me dá aqui esse Plus! Tomei Plus por anos, e funcionou, depois quando cresci e fiquei menos ingênua descobri que Plus nada mais era que um complexo vitamínico inofensivo que meu pai usou como placebo pra me acalmar. Obrigada, pai. <3

Mas a verdade é que passei toda a infância e adolescência tendo crises de pânico diárias. Diárias mesmo. Todo dia, alguma hora, eu sabia que ia chegar. A crise dura de poucos segundos a poucos minutos, mas é a coisa mais desesperadora que você pode sentir na sua vida. Já tentei explicar algumas vezes, mas é uma mistura de pavor, confusão, e uma sensação de que a qualquer momento vai acontecer algo pior que a morte. O corpo formiga todo, você sua frio, não consegue respirar, sente um enjôo terrível e parece que o cérebro para. Tudo o que é racional em você, some. Durante uma crise de pânico, morrer parece um alívio. Mas a gente não morre porque sabe que vai passar já já, e de um segundo para o outro passa mesmo. Aprendi a conviver com isso e aprendi a disfarçar como uma expert. Se você conversar com qualquer pessoa que conviveu comigo a vida toda, ninguém nunca vai dizer que presenciou uma crise de pânico minha. E, na verdade, todo mundo presenciou.

Eu tinha muita vergonha do que eu tinha. Nem sabia o que era. Achava que eu era muito estranha e que aquilo não podia ser normal. Meus pais e meus irmãos sempre me cuidavam nessas horas, eram maravilhosos, mas fora eles, não tinha coragem de contar para ninguém no mundo. Aos 16 anos, comecei a fazer terapia. Lembro que entrei no consultório, relatei minhas crises e disse “a única coisa que quero na vida é que isso passe. mais nada. socorro.”.

Fui melhorando. As crises ficaram mais esparsas. Não era mais todo dia. Lá pelos 20 e poucos anos, finalmente descobri o nome disso, e que era não só normal, mas comum. Comecei a tomar remédio, além da terapia. E minha vida mudou. Mudou totalmente.

Passei a ter umas três crises por ano, apenas. Imagina o que é isso, para quem tinha 365 crises por ano???

Mas tem uma coisa que segue comigo, todo dia, até hoje, e segue me desafiando: a agorafobia. Agorafobia é o “medo do medo”, ou seja, o medo de ter uma crise de pânico. Basta eu estar no avião, como agora, que ela bate.

No táxi. No cinema. Na reunião. Só fico 100% tranquila na minha casa. E isso sempre vai ser assim. Já aprendi e já me entendi. E já sei lidar com isso. E essa jornada de uma vida – de lidar com isso, de perder a vergonha, de entender que vai passar, de saber que é normal, do autoconhecimento que obrigatoriamente acompanhou todo o processo, de ser uma expert em acalmar a mim mesma, e de sempre ter amado minha vida e ter sido e ser uma grande otimista – me tornou uma pessoa melhor, por incrivel que pareça.

A gente só valoriza o bom quando enfrenta o ruim.

E, se você se sente como eu, é como eu, te digo que só a terapia e os remédios me ajudaram de verdade. É tudo o que posso te dizer. Também posso te dizer que você é foda, porque você enfrenta uma parada que não é fácil, e está aí. Ah! E respira devagar, tá? Sempre lembra de respirar devagar, quando bater o pânico.

Tchau. Estou pousando em Porto Alegre. Foi um vôo tranquilo. Eu enfrentei. E assim sigo. Enfrentando. E feliz.

PS> Se você se identificou com minha história, e se sentir confortável para dividir alguma sua, se você lida ou já lidou com síndrome do pânico e ficou com vontade de falar algo a respeito, ou mesmo se quiser tirar qualquer dúvida comigo, por favor, me deixe uma mensagem. Vou amar ter companhia <3

5 em Comportamento/ Destaque/ feminismo/ Juliana Ali no dia 10.04.2017

José Mayer, o BBB e nós vamos em frente

José Mayer. Galã. Ator famoso. Bonito – sim, até hoje, cheio de charme. Um dos grandes tesouros das novelas da Globo. Sempre gostei do Zé Mayer. Assisto as novelas dele desde criancinha, que carisma, que graça, que simpatia, que delicinha. Descobre-se que assediou sistematicamente uma figurinista da emissora, com toda a cara de pau e falta de cuidado de quem entende que isso não tem nada demais, nem traz nenhuma consequência negativa.

Marcos. Galã. Médico. Bonito, jovem, todo mundo achava que ia ganhar o BBB 17. Eu achava. Gostei dele de cara. Primeira semana eu já tava: Ai que doutor mais fofo, ganha o BBB. Adoro BBB, vejo todos. Essa semana puxou o cabelo da menina. Agarrou o braço da menina. Gritou na cara da menina com o rosto grudado, dedo na cara, várias vezes. Deitou em cima dela, para a menina não conseguir escapar da “conversa”. O que mais faz, com qualquer mulher que se aproxima, é lançar os famosos mansplaining* e gaslighting**. Marcos, com a mesma cara de pau e falta de cuidado do José Mayer, já que está o tempo todo ciente de que milhões de pessoas estão vendo o que faz.

Coincidentemente, essas duas histórias foram se desenhando ao mesmo tempo. Interessante cada desfecho. E dizem muito sobre o que está acontecendo no mundo de hoje, na atualidade, em relação às mulheres, em relação à sociedade e em relação aos próprios homens.

Veja que temos aqui um homem de uma geração que certamente foi criada com valores extremamente machistas, e outro que deveria fazer parte de uma geração mais esclarecida, mais desconstruída. Será mesmo? Ambos entendem como tão natural o assédio e a violência, que nem se importam de escondê-los. Não se importam de serem vistos. Não sentiram medo ao tomarem essas atitudes. Medo de que? Tantas vezes esse comportamento foi visto por eles, por todo mundo, e daí? O que aconteceu? Pois é.

Só que no fim das contas, José Mayer se viu obrigado a escrever uma carta de desculpas, para tentar dar uma consertada no seu filme queimado (sem trocadilho). O barulho foi um pouco grande demais pra ele ter se saído com uma simples piadinha idiota, como tentou fazer no começo.

Há pouquíssimos anos, isso jamais teria acontecido. Prova disso é o caso Luana Piovani/Dado Dolabella. O boy bateu na CARA dela, imobilizou o braço da camareira que tentou intervir e menos de um ano depois estava milionário por ter ganhado o reality A Fazenda. E nem escreveu carta nem nada. Pelo contrário, na época se defendeu das maneiras mais sem sentido. Isso foi em 2008.

Avance nove anos e o Zé Mayer não vai perder o emprego, não vai perder a carreira – ainda não chegamos a esse ponto de maravilhosidade – mas ele não ganha A Fazenda esse ano, te garanto. E foi cortado da novela. Andamos um pouquinho.

Já Dr. (Hyde) Marcos, agressor de mulher, muito provavelmente vai para a final do Big Brother. Como eu disse, avançamos, mas nem tanto. Geral achou “deboas” ele amassar a Emilly toda. Nada. Demais. Mas não é bem assim.

O moço vai sair da casa e a coisa não vai ser fácil para ele não, e você sabe disso. Viva a Internet! As redes sociais são sim, uma revolução. Elas obrigaram José Mayer a escrever carta, obrigaram a Globo (que tava doida pra fechar essa caixa de Pandora) a se posicionar em favor da figurinista, e agora vão obrigar Dr. Marcos a repensar o que aprontou lá dentro da casa. É pouco, mas é mais do que conseguiu a pobre Luana Piovani.

E tem mais: noto que todo esse barulho mexe com os homens. Notei isso nos homens da minha vida. Enquanto os mais ignorantes ficam naquele eterno papo de “mimimi” e “feminista odeia homem”, alguns param para pensar. Alguns se analisam, e outros, pelo menos, calam a boca por pura vergonha, mesmo que por dentro continuem os mesmos. E isso, também, é um movimento positivo, ainda que pequeno. É um começo.

Por isso, sigo aqui. Insisto. Falo mesmo. Escrevo. Explico. Pra quem quiser ler/ouvir. Temos um longo caminho, mas vamos nele. Não é fácil, e é lento. Mas é como diz sempre minha mãe, de 73 anos: “Ah, filha, se você visse como era horrível no meu tempo. Você tem sorte.”

Quero, um dia, dizer isso para a minha filha também. E quero ter sido responsável pela mudança que virá para a geração dela, de alguma maneira.

E você?

Com amor, Ju.

*mansplaining: quando um homem fica todo o tempo interrompendo uma mulher e tentando explicar/ensinar algo a ela de uma maneira infantilizadora, como se ela não entendesse ou fosse burra.

**gaslighting: abuso psicológico onde o homem bombardeia a mulher com um eterno discurso, distorce os fatos a seu favor a tal ponto que a mulher se confunde, e no final tem a impressão que a culpa é sempre dela. Aquele cara que sempre chama as mulheres de “loucas”.

2 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Juliana Ali/ Reflexões/ Semanas da Moda no dia 17.03.2017

De camisola na fashion week

Ainda lembro bem da primeira vez que pisei em uma semana de moda. Eu tinha uns doze ou treze anos, era a virada dos anos 80 para os anos 90. Minha mãe trabalhava na Revista Nova na época (que hoje se chama Cosmopolitan) e conseguiu dois convites para que eu e minha irmã fôssemos assistir ao desfile da G (que hoje se chama Gloria Coelho) no Morumbi Fashion (que hoje se chama São Paulo Fashion Week).

Pois é. De lá para cá, passaram-se mais de 25 anos e a revista mudou de nome. A grife mudou de nome. A semana de moda mudou de nome. Só que a única coisa que realmente mudou no mundo da moda foram os nomes. O resto é bem parecido até hoje. Quem manteve o nome nessa história que vou te contar agora fui só eu, que continuo me chamando Juliana mesmo. Ah, mas eu mudei. Mudei muito desde então.

Eu estava empolgadíssima no dia em que fui ver meu primeiro desfile. Pensei muito naquele look que iria usar. Nenhuma das minhas roupas parecia ser digna de um momento tão incrível, que aliás era justamente sobre usar as roupas mais sensacionais, pensava eu na minha cabeça de criança. Então tive uma idéia. Peguei uma camisola de cetim que eu tinha. Ela era branca com bolinhas pretas. Ia até os joelhos, era assim meio soltinha, e tinha um decote combinação (até hoje meu tipo de decote preferido). Coloquei uma camiseta branca por baixo. Nos pés, sapatilhas pretas. E assim fui assistir ao desfile da G. Me achei linda quando olhei no espelho. Me senti um pouco contraventora, como sempre gostei de ser, aquariana que sou. Fui ao meu primeiro fashion week de camisola.

 

Por incrível que pareça, não lembro absolutamente nada sobre o desfile. Nada. Mas lembro que saí de lá com um gostinho estranho na boca. Vi tantas mulheres que me pareceram tão lindas, tão diferentes de mim, tão melhores do que eu. Elas eram enormes, altas, pernas gigantes, pareciam umas Barbies – eu ainda brincava de Barbie. Pareciam mulheres, enquanto eu era uma criança. Mal sabia eu que, na verdade, elas também eram crianças, meninas, talvez três ou quatro anos mais velhas que eu apenas. Me senti inadequada, eu tão baixinha, pequena, tão criança, tão sem maquiagem, com os cabelos cacheados supercompridos caindo de qualquer jeito. Elas tão montadas e maravilhosas e magras e altas.

Tive inveja. Muita inveja.

Mais tarde, já jornalista, fui trabalhar com moda. Passei a maior parte da minha vida indo a todos os SPFW. Duas vezes por ano, lá estava eu, trabalhando que nem doida. Se tinha Fashion Rio, lá estava eu também. E estive em muitas semanas de moda internacionais durante esses anos todos. Sempre, sempre, saí desses lugares com a sensação que a Ju de treze anos teve ali, de camisola: um gosto estranho na boca.

Inveja. Sensação de inadequação. A impressão de que eu nunca conseguiria atingir aquele padrão. E nunca consegui mesmo. Tenho 1,60m de altura. Sempre fui magra, mas padrão de modelo?

Eu queria ser assim, como elas, naquela época. O mundo estava me dizendo que assim que era o lindo! Que assim que as roupas ficariam boas em mim! Me sentia horrível com todas as minhas roupas. Sempre demorei horas e horas pra escolher um look. Porque tava tudo um lixo. Saía com a auto estima em frangalhos de todas as semanas de moda em que estive. Tanto aos 20 anos, quanto aos 30.

E não era só eu, minha amiga. A maioria das mulheres estava se sentindo assim todo esse tempo, mas ninguém dizia isso umas para as outras. Eu mesma não dizia para NINGUÉM. Até as modelos, muitas delas, também estavam se sentindo erradas, gordas (!!) e insuficientemente “perfeitas”.

Minha sorte foi que nunca pirei de verdade, por ter sido criada por uma mãe que passou a vida me dizendo que eu era linda, maravilhosa, essas mães que te botam pra cima desde o dia em que você nasce. Isso faz muita diferença. Conheci pessoas que desenvolveram anorexia, bulimia, tomavam remédios, passavam dias sem comer, ficavam completamente desesperadas tentando ser magras. Que gastavam todo o seu dinheiro suado comprando roupas e acessórios ricos para usar no SPFW, porque afinal tem que ter grife, tem que ter glamour. Tentando ser “lindas” para a semana de moda.

Há um ano, mais ou menos, confesso que peguei bode de tudo isso. Fui percebendo que o mundo foi mudando e a moda foi ficando parada. Enquando “aqui fora” a gente celebra a diversidade, todos os corpos, cores, estilos de vida, jeitos de ser, a moda ainda continua promovendo o padrão branco-loiro-cabelo liso-magro de 1989, quando estive no desfile da G.

Cansei. Pulei fora. Me sinto absolutamente maravilhada com o fato de que não faço a unha e nem compro roupa nova há mais de um ano. Parei de alisar o cabelo. Cortei curtinho. Não uso mais maquiagem, nem salto alto. Não faço regime há quase três anos. Não pretendo fazer mais no futuro, também. Nunca tive a autoestima tão alta. Tenho 40 anos, e me acho o máximo.

Nesse exato momento está acontecendo o SPFW. No último fim de semana meu marido disse, “amor, segunda começa o fashion week, né?”. Respondi: “Sei lá. Começa? Não tô sabendo.”

Enfim, é SPFW, como o Fernando me avisou outro dia, já sei. Estou aqui em casa, e não dentro de uma sala de desfile. Mas estou acompanhando o último SPFW, escrevendo esse texto e de camisola, assim como acompanhei o primeiro. E assim fecha-se um ciclo para a Juliana, a única que não mudou de nome.