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Camilla Estima

0 em Autoestima/ Camilla Estima/ Convidadas/ Saúde no dia 22.01.2018

Parece que não estar de dieta é o comportamento estranho

Semana passada rolou na internet umas imagens de uma festa de aniversário de uma moça cujo tema era “35 anos tentando ser magra”. Cada um faz a festa que bem entende, mas esse exemplo gráfico pulando na tela do meu computador me fez lembrar da história que eu mais ouço no meu consultório: passei a minha vida de dieta. Não estou sendo exagerada ao afirmar que 90% das mulheres que se consultam comigo ou que me mandam mensagens nas redes sociais já me falou essa exata frase.

Mulheres na faixa dos 30 a 40 anos relatam que estão nesse processo desde adolescentes.  Fico imaginando essa vida narrada por elas….e com vontade real de dar um abraço carinhoso em cada uma.

Quem não conhece alguém que está sempre de dieta? Não estou falando de mulheres que têm uma alimentação saudável, balanceada e uma relação boa com sua comida e seu corpo. Estou falando de mulheres que passam a vida restringindo sua alimentação, presas em listas de “pode x não pode”, entrando e  saindo de dietas da moda, fazendo comentários magoados à respeito do que comem ou do que “não podem comer”, que se controlam o tempo todo e se frustram quando saem desse controle. 

Pensando friamente: É normal alguém passar a vida toda de dieta? Relatar isso às pessoas a sua volta e todas acharem normal é ok? Você pode dizer que é comum por ser frequente, mas não é normal.

da página Fazendo a Nossa Festa

da página Fazendo a Nossa Festa

E não, a culpa não é da mulher que vive de dieta! E sim do universo que ela está inserida. Não preciso nem voltar a falar do padrão de beleza pautado na magreza, isso todo mundo já está careca de saber. Mas acho que vale adicionar à essa discussão algo importante: o mundo que vivemos há muito tempo associa valores à aparência. Isso é grave e está ficando cada vez mais enraizado nas pessoas e na cultura. Está saindo do controle. Na cabeça de muita gente, não estar no tal do padrão implicitamente faz parecer que a pessoa não tem valores como ética e caráter (“gordo é sem vergonha”) ou que não tem a tal força de vontade (“gordo é preguiçoso”, “gordo não se cuida”), não é bem sucedido, não é bom suficiente e vive atrás das suas “desculpas” para não se cuidar. Essas ideias (estapafúrdias, a meu ver) viram crenças, e aí que vai ficando mais entranhado. Tudo isso somado leva ao medo de engordar, e o resultado disso? Passar a vida de dieta.

Quando penso nesse cenário todo, alguns questionamentos martelam a minha cabeça:

  1. Que mundo é esse que estética é mais importante que valores? Você gostaria que as pessoas lembrassem de você pelo que: “fulana é magra” ou “fulana é uma mulher incrível e super inspiradora”?
  2. Que mundo é esse que aquisições e conquistas são menos importantes que o corpo que você tem?Já falamos disso anteriormente por aqui, em um dos meus primeiros textos pro futi.
  3. Que mundo é esse que quer manter as pessoas nesse modo operante?

Como sempre digo, a jornalista Daiana Garbin tem um vídeo sensacional em seu canal chamado “A indústria do belo”, onde ela disserta sobre a infinidade de mercados que existem baseados em discursos que semeiam inadequação e insatisfação para que as pessoas possam continuar consumindo. Que mundo é esse que não questiona esse comportamento constante?

Por que será que não se questiona uma mulher que passa a vida de dieta? Que passa a vida contando isso? Presa nisso? Por que será? Se alguém tiver essa resposta, me conta….

Uma coisa que eu penso é que não há questionamentos pois quem ouve isso também está a vida toda de dieta. Ou tem alguma mulher próxima que passou a vida de dieta. E todo mundo acaba achando isso normal. Pois todo mundo está de dieta e parece que não estar de dieta é ser estranho.

Que mundo é esse que não abraça essas mulheres?

Essas mulheres têm que ser abraçadas. Temos que olhar e tratar delas com muita compaixão. Acho que uma forma de abraçar isso é desconstruir esses conceitos e crenças que estão entranhadas na nossa sociedade. Mas ao mesmo tempo, ouço de muitas mulheres que quando elas se libertam desses padrões ou modo operante, elas ficam sem assunto com suas amigas. E quando mostram sua nova forma de pensar continuam se sentindo inadequadas, pois começam a ser julgadas por isso. Por não estarem mais de dieta ou por estarem aceitando seus corpos. Que maluquice é essa!

Então, já que estamos trilhando o caminho da desconstrução, pra mim as pessoas só vão se sentir confortáveis de verdade nos seus corpos no dia que os valores não forem mais associados à forma física. Caráter, ética e valores nada têm a ver com o seu peso, o seu corpo, o seu cabelo, seus músculos ou sua altura. Nada. No dia que esse pensamento se tornar mais corriqueiro do que falar sobre dietas, talvez o mundo se torne um pouco mais gentil com nós mulheres. 

Grande beijo.

0 em Autoestima/ Camilla Estima/ Destaque/ Saúde no dia 28.12.2017

O que é piada para você pode adoecer outra pessoa

Confesso que estou bem chocada. Passada a Ceia de Natal começa aquela enxurrada de piadas que fazem uma relação direta entre o que você comeu na ceia e o quanto você engordou….como se uma ou duas refeições tivessem esse poder – e acredite, elas não tem! Um dos muitos memes que eu recebi foi esse, que chegou a mim através de 3 pessoas diferentes.

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Para a minha surpresa, muita gente começou a compartilhar comigo memes com as mesmas categorias de piada: natal – ceia – comida – engordar. Amigos no whatsapp, grupos de família e inúmeras mensagens diretas no meu instagram – seja com os famigerados memes, seja compartilhando stories ou postagens de pessoas bem famosas e influentes que mostravam como estavam “queimando a rabanada”, “pagando a ceia de natal” ou como “agora só podia usar looks mais largos ou elásticos”. Até agora recebi mais de 35 imagens dessas. Isso, mais de 35!!!!

Mas antes de mostrar mais, deixa eu explicar por que memes podem ser tão problemáticos:

O que é piada para você, que não tem uma relação inadequada com o seu corpo ou com a sua comida, não é piada para quem tem essas relações conturbadas.

“Ah, Camilla, mas eu não tenho nenhum TA” Ok, que bom para você, mas é inegável que os memes mexem com a autoestima das pessoas. Muito. E muitas vezes essas pessoas não são desconhecidas. Na maior parte do tempo elas estão no seu grupo de família no whatsapp, pode ser aquela prima distante, a amiga que está no grupo de colégio ou até mesmo um irmão. Pessoas próximas que a gente nem sabe que sofre com essas mensagens. E se nós falamos tanto sobre empatia por aqui, faz sentido explicar um pouco por que eles podem ter tantos problemas.

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Nos transtornos alimentares (TAs) – Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa, Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica, Transtorno Alimentar Não Especificado – temos 3 categorias de fatores que são fundamentais para que essas doenças se estabeleçam:

FATORES PREDISPONENTES – são fatores que já nascem com a pessoa e estão ali guardadinhos, podendo ser ativados ou não. Exemplo: ter predisposição genética ou ter outras doenças psiquiátricas na família que servem como fator de risco para os TAs como depressão, transtorno bipolar e outros.

FATORES DESENCADEANTES – são os chamados gatilhos. Se a pessoa tem o fator predisponente e vive algo que desencadeia o transtorno, ele se torna “ativo”. Uma dieta, um comentário sobre o seu peso, morte na família, separação dos pais e…..a influência da mídia. E os memes entram exatamente ai! Eles podem ser gatilhos para desenvolver o transtorno em alguém.

FATORES MANTENEDORES – são os fatores que mantém os TAs ativos. Inclusive a mídia também entra aqui. A pessoa rodeada o tempo inteiro com informações sobre padrões de beleza, dietas vendidas a todo lugar ou prescritas por qualquer pessoa, podem ser fatores mantenedores. Assim como o meme!

Além disso, muitas das mensagens que eu recebi foram de mulheres que se sentem insatisfeitas com seus corpos, ficam com vontade de entrar em uma dieta restritiva maluca, se pesam toda hora e que a situação se agrava quando essa chuva de memes acontece de onde elas menos esperam. E por que justamente nessa hora?

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  1. Porque eles demonizam a comida – tanto a qualidade quanto a quantidade consumida.
  2. Demonizam um evento tão importante como a ceia de Natal. Já falamos disso no texto “É só uma rabanada”.
  3. Gera CULPA nas pessoas acerca do que elas comeram na ceia de Natal.
  4. Potencializa o medo que as pessoas têm do seu peso, da balança e de se pesar

Nós não sabemos que tipo de pessoa está recebendo essa mensagem, seja no inofensivo grupo de whatsapp ou como influenciadora em redes de comunicação de massa como o instagram. Uma coisa que me entristece de verdade – e que foi muito relatado – é que muitos dos memes são compartilhados em perfis de profissionais de saúde, inclusive de nutricionistas. Acho que muitos fazem isso achando que estão tendo um discurso motivacional mas o tiro sai completamente pela culatra. Triste e problemático ao extremo.

Os transtornos alimentares são condições que perduram a vida toda de uma pessoa, com remissão da doença e um bom controle. Mas quem disse que um meme desse não pode ser um gatilho para andar pra trás anos de tratamento?

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O lado bom disso tudo – se é que tem um – é que essa enxurrada de mensagens mostra que estamos começando a atingir as pessoas nesse trabalho de desconstrução dessas imagens e mensagens. Sempre há algo de positivo no caos, e esse ano consegui ver isso claramente.

Vamos continuar com essa desconstrução toda pois tem muita gente mudando a forma de ver as coisas. Que bom!

Grande beijo.

1 em Camilla Estima/ Saúde no dia 21.12.2017

É só uma rabanada…

Pronto! Dezembro começa a chegar ao fim e junto com isso começam a surgir muitas questões que envolvem a alimentação. Nós já falamos aqui de alguns dos problemas que o famoso “Projeto verão traz consigo. Ele mexe com a cabeça e autoestima das mulheres, e consequentemente com a alimentação das pessoas. Nessa época do ano os memes parecem variar entre o problema de se alimentar de forma restrita para estar  apta para colocar o biquíni  e o extremo oposto, isso é, o medo de comer de forma exagerada durante as festas de final de ano. 

Já viu a confusão interna que isso gera, né?

As comidas de fim de ano são totalmente carregadas de memórias afetivas. Pensa aí qual a comida que não pode faltar na sua ceia de Natal? Qual lembrança veio à tona? Lembrou?! Aposto que você acabou de lembrar dela na boca, provavelmente ficou salivando. Não se preocupe, é normal e tá tudo bem. Você precisa saber que comida também é isso! É memória afetiva, é representatividade e sabor. Sim, comida te alimenta e nutre, mas ela não tem apenas esse fim, ela pode e deve ser prazeirosa. A verdade é que entre tantos mitos esquecemos de uma verdade: ela não tem poderes extraordinários que vão te engordar ao comer apenas uma vez.

Mais uma vez quis ouvir vocês, então fiz uma enquete nas minhas redes sociais e no nosso grupo do #paposobreautoestima. Pedi que as pessoas me contassem quais alimentos não podiam faltar na ceia de Natal das suas casas. Sabe qual foi o prato campeão da nossa audiência?

Claro, a rabanada.

Sim, aquela que leva glúten e lactose (e tá tudo bem)! 

Um dos pratos natalinos mais presentes na nossa memória afetiva. Além de ter em sua receita um dos nutrientes mais demonizados dos últimos tempos, o carboidrato. Ela é feita de pão  também leva açúcar, leite, leite condensado e ainda por cima é frita. Ou seja, praticamente um prato que depõe contra toda a cartilha de quem está em uma dieta – restritiva ou nem tão rígida assim. Imagine só que absurdo um prato feito com glúten e lactose na mesma receita?

Mas vamos conversar, qual o problema de comer rabanada uma vez por ano?!?!?! 

Quero viver em um Brasil onde a gente consiga preservar nossas comidas regionais, nem que seja nas datas especiais. Precisamos tomar esse cuidado, é a nossa história e são as nossas tradições. 

Deixamos essas crenças de lado? Ótimo, vamos para outro ponto importante, uma pergunte que chove para mim essa época do ano:

Como faço para não comer exageradamente nas festas de fim de ano?

Vocês lembram que sempre explico que nós temos comer quando temos fome e temos que parar de comer quando estamos saciados? E que estar satisfeito é diferente de estar cheio?! Saber essa diferença também vai ser importante na noite de Natal. Estar cheio seria aquela sensação desagradável de que “não cabe nem mais uma uva passa!”. Isso é ruim pois você está ali basicamente para ter prazer comendo comidas que você gosta, e de tanto que você comeu, esse prazer nem está mais presente. Nessa hora fica apenas aquela sensação ruim. Não queremos isso. Queremos que você coma bem, que coma o que gosta, mas que ainda esteja sentindo a sensação do prazer.

Algumas dicas úteis para as festas de fim de ano:

  • As opções no Natal costumam ser muitas. Peru, chester, tender, bacalhau, arroz, farofa, salpicão, maionese de batata, rabanada, e por aí vai. Na ceia, veja os pratos servidos à mesa e pense: “qual comida dessas eu gosto muito?” Pois nem todos os pratos servidos ali você gosta muito, de verdade! Com certeza tem coisa ali que você gosta mais ou menos. Por isso, foque no gosto muito! É importante ressaltar que você não vai comer mais por isso, pelo contrário, você vai saciar seu apetite com aquilo que você realmente quer comer.
  • Muitas vezes as pessoas exageram nas comidas de Natal porque elas simplesmente estão disponíveis ali na mesa. Não coma “só porque está ali” e sim porque você está com fome e gosta muito daquilo.
  • Que tal optar por pratos que só tem nessa época? A rabanada e o panetone estão nessa lista.

Prestando atenção na fome x saciedade, criando seu prato com aquilo que você ama, você não vai sair da mesa se sentindo mal por estar cheio. O melhor? Ainda vai continuar sentindo o prazer daquela refeição que envolve tanta memória afetiva.

Um bom natal para todo mundo!

Só não se esqueça do mantra: é só uma rabanada!

Grande beijo.