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Camilla Estima

1 em Autoestima/ Camilla Estima/ Comportamento/ Convidadas/ Destaque/ entretenimento/ Saúde no dia 18.07.2017

O Mínimo para Viver (ou To The Bone), filme que retrata a realidade dolorosa dos transtornos alimentares

Na última semana foi lançado no site Netflix o filme “O mínimo para viver” (To The Bone), que conta a história de uma personagem que sofre de anorexia nervosa. Em primeiro lugar gostaria de dizer que o filme é forte e que se você que está lendo esse post sofre de algum tipo de transtorno alimentar, está em tratamento ou em remissão da doença, converse com seu psicólogo ou psiquiatra sobre ver ou não o filme. Acho que essa decisão tem que ser tomada com bastante responsabilidade, pois pode remeter a situações, sentimentos ou questões que você já passou ou passa e é importante estar bem assessorado quanto a isso.

Em segundo lugar, o post pode conter alguns spoilers. Portanto, se você ainda não viu o filme, veja e depois leia o texto abaixo. Deixe também os seus comentários.

>>>>>  A PARTIR DAQUI CONTÉM SPOILERS <<<<<<

O filme conta a história de Ellen (vivida pela atriz Lily Collins), jovem que sofre de anorexia nervosa do tipo restritivo. Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, a Anorexia Nervosa do tipo restritivo tem os seguintes critérios diagnósticos:

1). Restrição da ingesta calórica em relação às necessidades, levando a um peso corporal significativamente baixo no contexto de idade, gênero, trajetória do desenvolvimento e saúde física. Peso significativamente baixo é definido como um peso inferior ao peso mínimo normal ou, no caso de crianças e adolescentes, menor do que o minimamente esperado. Ou seja, a pessoa impõe a si mesma uma restrição do consumo de calorias que deveria ser o normal para a sua idade, gênero ou fase da vida que se encontra. Isso promove uma perda de peso significativa, levando a valores menores do que o mínimo aceitável ou esperado para ela.

2) Medo intenso de ganhar peso ou de engordar, ou comportamento persistente que interfere no ganho de peso, mesmo estando com peso significativamente baixo. Ou seja, o indivíduo tem um pavor de ganhar peso e continua em busca por perda de peso mesmo que esteja no valor minimamente do aceitável.

3) Perturbação no modo como o próprio peso ou a forma corporal são vivenciados, influência indevida do peso ou da forma corporal na autoavaliação ou ausência persistente de reconhecimento da gravidade do baixo peso corporal atual. Ou seja, a imagem corporal do paciente é distorcida da realidade. O paciente, na maioria das vezes, se vê mais gordo do que é ou com uma forma corporal diferente. Isso muitas vezes prolonga o diagnóstico e tratamento pois mantém um estágio de negação da doença.

Sempre é importante lembrar que os transtornos alimentares são transtornos psiquiátricos, que têm um impacto psicológico e alimentar bastante grave:

– o paciente não escolheu ter esse transtorno

não é um estilo de vida (por mais que muitas pacientes digam que seja – muito movido pela negação da doença), modismo ou comportamento passageiro

– não deve ser glamourizado ou romantizado, pois ele promove muito sofrimento e dor para o paciente e sua família

Na minha opinião, não acho que o filme faça nada disso. Não romantiza nem glamouriza nenhum diagnóstico de transtornos alimentares ali retratados –  e nem a personagem principal ou seus coadjuvantes.

Por conta do impacto psicológico e alimentar é fundamental que haja uma equipe multidisciplinar no atendimento deste paciente. O psiquiatra, psicólogo e o nutricionista compõem basicamente essa equipe. Uma crítica do filme é essa, não há esse tipo de abordagem, mesmo que a paciente seja admitida em um tipo de terapia “alternativa”. Não há discussão sobre a questão nutricional do tratamento. As pacientes escolhem livremente o que querem comer e a cuidadora da casa providencia. O acompanhamento nutricional especializado, com profissionais que foram capacitados nessa área, é fundamental. A alimentação desordenada é um sintoma super importante das questões psicológicas envolvidas nesses transtornos e deve ser dada a devida importância à isso, ainda mais na proposta que se tem no filme de alertar, e quem sabe, prevenir transtornos alimentares.

O modelo terapêutico escolhido basicamente pela madrasta da Ellen – que a meu ver, apesar de se meter demais em tudo, foi a única “adulta” e “responsável” por ela que toma algum tipo de decisão acerca de seu tratamento – não retrata a realidade dos centros de atendimento de transtornos alimentares. No modelo de imersão da personagem em uma casa comandada pelo médico Dr. Beckham (interpretado pelo ator Keanu Reeves), os pacientes de diferentes diagnósticos de transtornos alimentares convivem nessa casa, com sessões periódicas de terapia de grupo e também encontros individuais com ele.

Outro problema no modelo da internação eram os diferentes “furos” que a personagem Lobo, a cuidadora da casa, não via. Mesmo os quartos não tendo portas, ela não via as purgações frequentes das meninas e também desconhecia que a própria Ellen fazia abdominais na cama à noite. Internações totais de transtornos alimentares são completamente monitoradas e situações como essas dificilmente passam despercebidas.

Também podemos comentar sobre a desorganização da família da Ellen. O pai completamente ausente (nem ator teve para o papel), a mãe que mora em outro estado depois de ter se casado com a amiga e deixa Ellen sob os cuidados do pai porque “não conseguia mais cuidar da filha”, a madrasta que falamos acima e a irmã, que tem papel importante de afeto ali, formam uma estrutura diferente e até mesmo complicada. Porém, desorganização da estrutura familiar não é causa para transtorno alimentar. Inúmeras são as causas para um indivíduo desenvolver um transtorno, não exclusivamente um fator como a família.

Mas não se pode negar que essa desorganização leva a uma piora de um componente psicológico da personagem, tanto que no final quando ela permite que a mãe a alimente, em uma cena muito forte (para mim a mais impactante de todo o filme), me deu a sensação do início da trilha dela em busca do tratamento. Uma nova conexão com a mãe e o fato dela ter a alimentado foram questões de vínculo e afeto importantes. O insight que ela teve logo após essa cena, onde ela percorre aquele “deserto” e cai no sono (ou desmaiada) e ela se vê deitada nua e completamente emagrecida, acho que foi o dado de realidade para ela “se ver de fora” e entender a gravidade de seu quadro. Em seguida, após acordar, a cena corta para ela retornando à casa do pai – ou melhor, da madrasta – e em seguida voltando à internação do Dr. Beckham.

Outras cenas bastante impactantes são: a contagem de calorias – comparadas ao autismo – feita por ela. Os momentos de sofrimento dos pacientes com as pesagens na clínica também são bastante angustiantes, com eles naquela fila do lado de fora do banheiro.

Um cuidado que sempre devemos ter ao abordar esse assunto tão delicado, sério mas que provoca curiosidade nas pessoas, é de que ao se traçar planos de prevenção de transtornos alimentares tenhamos cuidado em não estar ensinando estratégias ou dando ideia para novos comportamentos em jovens, que são o grande grupo de risco. Acho que a realidade mostrada e não romantizada garantiu que isso não aconteça no filme.

Não, nada está sob controle enquanto não procurar ajuda

Por fim, o alerta feito pelo filme foi lançado. Às meninas, às suas famílias e aos profissionais de saúde. O acolhimento, a humanização e a multidisciplinariedade são pilares fundamentais no tratamento desses casos. Procure profissionais que sejam especializados e formados no tratamento de transtornos alimentares. Pode-se buscar ajuda também nos centros de referência de tratamento no país também são peça fundamental que podem ajudar diversas pessoas.

Alguns centros de tratamento ou links interessantes de apoio aos Transtornos Alimentares:

Ambulim – Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo  www.ambulim.org.br

GATDA – Grupo de Apoio dos Distúrbios Alimentares – www.gatda.com.br

GEATA – Grupo de estudos e assistência em Transtornos Alimentares – www.geata.med.br

GENTA – Grupo especializado em nutrição, transtornos alimentares e obesidade – www.genta.com.br

GOTA – Grupo de obesidade e transtornos alimentares – www.gota.org.br

PROATA – Programa de atenção aos transtornos alimentares 

http://www.dpsiq.sites.unifesp.br/d/proata/

Canal “Eu Vejo” da jornalista Daiana Garbin – https://www.youtube.com/channel/UCg-pv0HJbbmob5dtzRDdtXw

Canal “Precisamos falar” da Mirian Bottan – https://www.youtube.com/user/mbottan

1 em Camilla Estima/ Comportamento/ Convidadas no dia 07.06.2017

Dia do lixo?

DIA-DO-LIXO….pare e pense nessa expressão. Friamente. Por acaso isso lhe remete a alguma coisa boa? Por acaso isso pode ser uma coisa boa? Pois é, acho que não.

Quem é calejado em dietas já deve ter ouvido bastante esse termo. Mas o que seria o “dia do lixo”? Pois bem, o dia do lixo é um dia ou uma refeição que a pessoa usa como “recompensa” ou “compensação” por ter ficado dias seguidos em uma restrição alimentar, muitas vezes auto imposta. Ou seja, você se coloca de dieta e dias depois, provavelmente no final de semana, você se libera para comer todos os alimentos tidos como proibidos no plano alimentar da semana. E qual o problema disso?

  1. O nome é P-A-V-O-R-O-S-O. Por que estamos tratando comida como lixo? Por que essa denominação? Provavelmente se eu trato a comida dessa forma, eu também estou tratando o meu corpo dessa forma, de forma pejorativa e auto depreciativa. Por que estou permitindo comer uma comida que eu considero lixo? Veja, independente da qualidade nutricional de qualquer alimento que seja, jamais devemos nos referir à comida dessa forma. 
  2. Essa crença é incorporada pois você, mesmo que inconscientemente, ainda trata o final de semana como recompensa. É bastante comum as pessoas restringirem a sua alimentação durante os dias da semana e a partir do jantar de 6ª feira elas se recompensarem por diferentes motivos: por ter conseguido fazer a dieta, por ter tido uma semana estressante, por poder relaxar nesses dois dias. E aí, passado o final de semana vem a temida 2ª feira. Também conhecida como o dia internacional da dieta, onde você se culpa loucamente por ter “jacado” no final de semana, precisa voltar ao #focodasemana (junto com a #força e #fé, ai que preguiça) e ai volta às restrições até a próxima sexta feira, e por aí segue o ciclo. Veja, a semana tem S-E-T-E D-I-A-S. Eles têm que ser distribuídos igualmente.
  3. Comida não é recompensa e nunca deve ser tratada dessa forma. E pior, a comida considerada como recompensa acaba sendo aquelas que entram nas listas de “proibidos” versus a dos “permitidos” durante a sua “dieta regrada”. O problema de considerar comida proibida como recompensa é que transforma as comidas “que você pode comer” em obrigação e penitência, por sua vez, não tão atraentes assim. 
  4. Por favor, profissionais de saúde, apenas parem de recomendar o dia do lixo a seus pacientes e a segregar alimentos em permitidos e proibidos. Como sempre falamos, tudo cabe na alimentação das pessoas, depende sempre da relação positiva ou negativa que a pessoa tem com esse alimento e como podemos melhorar isso. A frequência e harmonia alimentar são fundamentais nesse processo.

Que tal a gente começar a respeitar mais os alimentos, nosso corpo e nossa mente?

0 em Camilla Estima/ Convidadas/ Saúde no dia 13.04.2017

Coitado do chocolate…

Chega a Páscoa e todo ano é a mesma coisa. Uma enorme oferta de chocolates, que nos remete à diversas memórias afetivas e lembranças mas também uma carga emocional que traz pensamentos obsessivos de culpa em comer chocolate e doces em geral, sensação de perda de controle, de incapacidade de controlar seus impulsos, de que a qualquer momento você pode desembestar em comer todo o chocolate do mundo.

Como adoro o exercício, vamos desconstruir isso? Vamos começar por essa piadinha:

Por que ela é muito perigosa e me assusta demais?

As pessoas tem essa crença que se comerem demais na Páscoa ou em qualquer feriado, elas terão uma mudança corporal brusca e imediata, de um dia para o outro. ISSO NÃO É VERDADE!!!! Além disso pense em pessoas que tem questões reais de distorção de imagem corporal. Esse meme é um verdadeiro perigo e que pode mexer muito com sua autoestima, pois elas vão achar que isso vai acontecer com elas. E a avalanche de emoções, sentimentos, ações e comportamentos que isso pode desencadear é devastador.

Para resolver esse problema, ideias mirabolantes são propostas para você “não cair em tentação”. Te dão dicas de como substituir o chocolate por frutas, por versões diet/light desse doce, receitas fitness, medicações sempre como estratégia para enganar o cérebro contra a “tentação” que é o chocolate. Vamos lá no exercício da desconstrução:

– Frutas: Não substituem chocolate….de forma nenhuma e em tempo algum! Há lugar na sua vida e na sua alimentação para qualquer tipo de alimento…..tem espaço para as frutas como tem para o chocolate e os doces em geral.

– Chocolate diet: Ele é indicado para quem é diabético. Ele não tem menor valor calórico. Muita gente por achar que ele não tem açúcar e por isso não engorda e não gera culpa. M-I-T-O! Ele tem gorduras iguais à versão normal e promove, sim, ganho de peso se consumido em grandes quantidades.

– Doces fitness: Você pode até partir para essa estratégia mas é bem provável que emocionalmente ela não vai te suprir a vontade do chocolate. Resultado disso: você vai acabar comendo o fitness, continuar a pensar obsessivamente no chocolate/doce comum, e acabar comendo também. Ou seja, você estará comendo calorias a mais.

Você acha que, honestamente, vai conseguir enganar o seu cérebro assim quando se tem vontade de comer doce? Pra falar a verdade, dificilmente a gente engana nosso cérebro…..em qualquer situação que seja na vida. Ele comanda a grande maioria de todos os nossos processos fisiológicos.

Além de memes de mau gosto, tenho visto inúmeras pessoas nas redes sociais (os chamados influenciadores digitais, como modelos, artistas, blogueiras) sugerindo estratégias para driblar o consumo de chocolate, como por exemplo, dar o ovo que ganhou para outras pessoas que estão presentes e pedir para que elas contem o que acharam, enquanto a presenteada filma para as redes sociais e nem encosta no doce. Já vi também pessoas dizendo que quando ganham um ovo de Páscoa e elas não podem comer “por que estão de dieta”, elas abrem a embalagem, cheiram o chocolate e não come.

Essa prática parece ser bastante inofensiva, mas é uma estratégia bastante usada por pacientes com diagnóstico de transtornos alimentares, como a Anorexia Nervosa. Veja, não estou afirmando que esses influenciadores digitais têm esse diagnóstico, mas isso mostra um comportamento inadequado quanto aos alimentos, pautado em muita culpa e angústia por consumi-los. Cheirar chocolate não diminui a sua vontade por ele, muito pelo contrário. Muitos estudos na linha do mindful eating, ou comer consciente, dizem que se você tem um desejo muito forte por um alimento e não se permite comê-lo por qualquer crença, pensamento ou sentimento que seja, você desenvolve pensamentos repetitivos a respeito daquele alimento e a sua mente só “sossega” quando você o consome. Essa privação auto-imposta pode ser tão importante que na hora que você finalmente se permitir comer, você acaba comendo uma quantidade muito maior do que teria comido se no primeiro momento do desejo em comer você tivesse se permitido. Isso pode ser um fator de risco importante para o acontecimento de episódios reais de compulsão alimentar.

Não vamos demonizar o chocolate, não é mesmo?

Algumas sugestões que podem te ajudar a comer o chocolate em paz nessa Páscoa:

– Que tal investir em um chocolate que você realmente ama e que te faz feliz?

– Escolha o chocolate que vai comer, e não coma qualquer um apenas por comer

Coma devagar, apreciando o sabor e os sentidos que o chocolate te traz

– Relembre memórias que você tem desta data, do chocolate. O que tudo isso lhe remete? Quais situações? Quais personagens da sua vida? Traga leveza à esse momento.

– Compre tamanhos menores de ovos de Páscoa.

– Não dê mais importância do que é. É apenas um chocolate. Um chocolate que você gosta. Um chocolate que te traz prazer. E ponto final.

Chocolate não tem super poderes…..nem poderes extraordinários. Ele não é um bicho papão engordador. É apenas chocolate! Em vários aspectos da vida temos que dar o real valor e importância que as coisas exigem da gente. Supervalorizar tudo pode ser uma armadilha pra te acessar a questão da culpa por ter comido. Além disso, não devemos usar a Páscoa como uma desculpa para comer chocolate desenfreadamente, assim como não é um momento de se privar por conta de crenças, culpas e modismos.

Temos que entender que essas datas comemorativas fazem parte da nossa cultura e que temos que saber lidar com a presença delas na nossa vida.

Coma seu chocolate e seja feliz!

Beijo e Boa Páscoa!