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Camilla Estima

0 em Autoestima/ Camilla Estima/ Destaque/ Saúde no dia 28.12.2017

O que é piada para você pode adoecer outra pessoa

Confesso que estou bem chocada. Passada a Ceia de Natal começa aquela enxurrada de piadas que fazem uma relação direta entre o que você comeu na ceia e o quanto você engordou….como se uma ou duas refeições tivessem esse poder – e acredite, elas não tem! Um dos muitos memes que eu recebi foi esse, que chegou a mim através de 3 pessoas diferentes.

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Para a minha surpresa, muita gente começou a compartilhar comigo memes com as mesmas categorias de piada: natal – ceia – comida – engordar. Amigos no whatsapp, grupos de família e inúmeras mensagens diretas no meu instagram – seja com os famigerados memes, seja compartilhando stories ou postagens de pessoas bem famosas e influentes que mostravam como estavam “queimando a rabanada”, “pagando a ceia de natal” ou como “agora só podia usar looks mais largos ou elásticos”. Até agora recebi mais de 35 imagens dessas. Isso, mais de 35!!!!

Mas antes de mostrar mais, deixa eu explicar por que memes podem ser tão problemáticos:

O que é piada para você, que não tem uma relação inadequada com o seu corpo ou com a sua comida, não é piada para quem tem essas relações conturbadas.

“Ah, Camilla, mas eu não tenho nenhum TA” Ok, que bom para você, mas é inegável que os memes mexem com a autoestima das pessoas. Muito. E muitas vezes essas pessoas não são desconhecidas. Na maior parte do tempo elas estão no seu grupo de família no whatsapp, pode ser aquela prima distante, a amiga que está no grupo de colégio ou até mesmo um irmão. Pessoas próximas que a gente nem sabe que sofre com essas mensagens. E se nós falamos tanto sobre empatia por aqui, faz sentido explicar um pouco por que eles podem ter tantos problemas.

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Nos transtornos alimentares (TAs) – Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa, Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica, Transtorno Alimentar Não Especificado – temos 3 categorias de fatores que são fundamentais para que essas doenças se estabeleçam:

FATORES PREDISPONENTES – são fatores que já nascem com a pessoa e estão ali guardadinhos, podendo ser ativados ou não. Exemplo: ter predisposição genética ou ter outras doenças psiquiátricas na família que servem como fator de risco para os TAs como depressão, transtorno bipolar e outros.

FATORES DESENCADEANTES – são os chamados gatilhos. Se a pessoa tem o fator predisponente e vive algo que desencadeia o transtorno, ele se torna “ativo”. Uma dieta, um comentário sobre o seu peso, morte na família, separação dos pais e…..a influência da mídia. E os memes entram exatamente ai! Eles podem ser gatilhos para desenvolver o transtorno em alguém.

FATORES MANTENEDORES – são os fatores que mantém os TAs ativos. Inclusive a mídia também entra aqui. A pessoa rodeada o tempo inteiro com informações sobre padrões de beleza, dietas vendidas a todo lugar ou prescritas por qualquer pessoa, podem ser fatores mantenedores. Assim como o meme!

Além disso, muitas das mensagens que eu recebi foram de mulheres que se sentem insatisfeitas com seus corpos, ficam com vontade de entrar em uma dieta restritiva maluca, se pesam toda hora e que a situação se agrava quando essa chuva de memes acontece de onde elas menos esperam. E por que justamente nessa hora?

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  1. Porque eles demonizam a comida – tanto a qualidade quanto a quantidade consumida.
  2. Demonizam um evento tão importante como a ceia de Natal. Já falamos disso no texto “É só uma rabanada”.
  3. Gera CULPA nas pessoas acerca do que elas comeram na ceia de Natal.
  4. Potencializa o medo que as pessoas têm do seu peso, da balança e de se pesar

Nós não sabemos que tipo de pessoa está recebendo essa mensagem, seja no inofensivo grupo de whatsapp ou como influenciadora em redes de comunicação de massa como o instagram. Uma coisa que me entristece de verdade – e que foi muito relatado – é que muitos dos memes são compartilhados em perfis de profissionais de saúde, inclusive de nutricionistas. Acho que muitos fazem isso achando que estão tendo um discurso motivacional mas o tiro sai completamente pela culatra. Triste e problemático ao extremo.

Os transtornos alimentares são condições que perduram a vida toda de uma pessoa, com remissão da doença e um bom controle. Mas quem disse que um meme desse não pode ser um gatilho para andar pra trás anos de tratamento?

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O lado bom disso tudo – se é que tem um – é que essa enxurrada de mensagens mostra que estamos começando a atingir as pessoas nesse trabalho de desconstrução dessas imagens e mensagens. Sempre há algo de positivo no caos, e esse ano consegui ver isso claramente.

Vamos continuar com essa desconstrução toda pois tem muita gente mudando a forma de ver as coisas. Que bom!

Grande beijo.

1 em Camilla Estima/ Saúde no dia 21.12.2017

É só uma rabanada…

Pronto! Dezembro começa a chegar ao fim e junto com isso começam a surgir muitas questões que envolvem a alimentação. Nós já falamos aqui de alguns dos problemas que o famoso “Projeto verão traz consigo. Ele mexe com a cabeça e autoestima das mulheres, e consequentemente com a alimentação das pessoas. Nessa época do ano os memes parecem variar entre o problema de se alimentar de forma restrita para estar  apta para colocar o biquíni  e o extremo oposto, isso é, o medo de comer de forma exagerada durante as festas de final de ano. 

Já viu a confusão interna que isso gera, né?

As comidas de fim de ano são totalmente carregadas de memórias afetivas. Pensa aí qual a comida que não pode faltar na sua ceia de Natal? Qual lembrança veio à tona? Lembrou?! Aposto que você acabou de lembrar dela na boca, provavelmente ficou salivando. Não se preocupe, é normal e tá tudo bem. Você precisa saber que comida também é isso! É memória afetiva, é representatividade e sabor. Sim, comida te alimenta e nutre, mas ela não tem apenas esse fim, ela pode e deve ser prazeirosa. A verdade é que entre tantos mitos esquecemos de uma verdade: ela não tem poderes extraordinários que vão te engordar ao comer apenas uma vez.

Mais uma vez quis ouvir vocês, então fiz uma enquete nas minhas redes sociais e no nosso grupo do #paposobreautoestima. Pedi que as pessoas me contassem quais alimentos não podiam faltar na ceia de Natal das suas casas. Sabe qual foi o prato campeão da nossa audiência?

Claro, a rabanada.

Sim, aquela que leva glúten e lactose (e tá tudo bem)! 

Um dos pratos natalinos mais presentes na nossa memória afetiva. Além de ter em sua receita um dos nutrientes mais demonizados dos últimos tempos, o carboidrato. Ela é feita de pão  também leva açúcar, leite, leite condensado e ainda por cima é frita. Ou seja, praticamente um prato que depõe contra toda a cartilha de quem está em uma dieta – restritiva ou nem tão rígida assim. Imagine só que absurdo um prato feito com glúten e lactose na mesma receita?

Mas vamos conversar, qual o problema de comer rabanada uma vez por ano?!?!?! 

Quero viver em um Brasil onde a gente consiga preservar nossas comidas regionais, nem que seja nas datas especiais. Precisamos tomar esse cuidado, é a nossa história e são as nossas tradições. 

Deixamos essas crenças de lado? Ótimo, vamos para outro ponto importante, uma pergunte que chove para mim essa época do ano:

Como faço para não comer exageradamente nas festas de fim de ano?

Vocês lembram que sempre explico que nós temos comer quando temos fome e temos que parar de comer quando estamos saciados? E que estar satisfeito é diferente de estar cheio?! Saber essa diferença também vai ser importante na noite de Natal. Estar cheio seria aquela sensação desagradável de que “não cabe nem mais uma uva passa!”. Isso é ruim pois você está ali basicamente para ter prazer comendo comidas que você gosta, e de tanto que você comeu, esse prazer nem está mais presente. Nessa hora fica apenas aquela sensação ruim. Não queremos isso. Queremos que você coma bem, que coma o que gosta, mas que ainda esteja sentindo a sensação do prazer.

Algumas dicas úteis para as festas de fim de ano:

  • As opções no Natal costumam ser muitas. Peru, chester, tender, bacalhau, arroz, farofa, salpicão, maionese de batata, rabanada, e por aí vai. Na ceia, veja os pratos servidos à mesa e pense: “qual comida dessas eu gosto muito?” Pois nem todos os pratos servidos ali você gosta muito, de verdade! Com certeza tem coisa ali que você gosta mais ou menos. Por isso, foque no gosto muito! É importante ressaltar que você não vai comer mais por isso, pelo contrário, você vai saciar seu apetite com aquilo que você realmente quer comer.
  • Muitas vezes as pessoas exageram nas comidas de Natal porque elas simplesmente estão disponíveis ali na mesa. Não coma “só porque está ali” e sim porque você está com fome e gosta muito daquilo.
  • Que tal optar por pratos que só tem nessa época? A rabanada e o panetone estão nessa lista.

Prestando atenção na fome x saciedade, criando seu prato com aquilo que você ama, você não vai sair da mesa se sentindo mal por estar cheio. O melhor? Ainda vai continuar sentindo o prazer daquela refeição que envolve tanta memória afetiva.

Um bom natal para todo mundo!

Só não se esqueça do mantra: é só uma rabanada!

Grande beijo.

4 em Autoestima/ Camilla Estima/ Convidadas/ Saúde no dia 29.11.2017

Projeto Verão – não, obrigada!

Não adianta, basta as temperaturas começarem a subir e a ansiedade das pessoas acompanha essa escalada em busca de um “corpo para o verão”. Começam a pipocar os “projetos” para a temporada mais quente do ano, ou seja, uma cruzada para uma modificação rápida do corpo, como que um passe de mágica, correndo contra o relógio para ter o tal corpo perfeito para exibir na praia.

Coloquei na busca do Google “corpo de verão” para ilustrar o post e as fotos que aparecem são essas:

Sempre o mesmo formato de corpo, em uma praia paradisíaca, um biquíni branco e uma modelo “sem cabeça”. Fiquei pensando o por que do biquíni branco.

A presença da fita métrica é constante nas imagens. Profissionais de saúde e educação física usam esse instrumento para realizar medidas corporais. O problema desse tipo de imagem é que a medida da fita métrica mal interpretada vira mais um número que gera insatisfação corporal.

o biquíni virou um inimigo para você ter que “encará-lo”?

A necessidade de ter um corpo aceito nos padrões atuais parece ser o passaporte ou uma condição para ir à praia livremente, sem culpa e julgamentos alheios. Se você não tem o “corpo do verão” parece que não tem direito de usufruir das atividades típicas dessa estação.

A quantidade de mulheres que já reproduziram tal discurso – “imagina que eu vou à praia no verão” – em grupos de amigas, nas redes sociais, no meu consultório é incontável. Elas simplesmente não se acham merecedoras de aproveitarem o sol, a praia, piscina ou cachoeira por um autojulgamento de que seus corpos não estão adequados para isso. E esse julgamento vem de onde? Além do óbvio – do padrão de beleza pautado na magreza excessiva – vem exatamente dessas fotos que ilustrei acima. I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L olhar para uma foto dessas e não se comparar imediatamente ou enaltecer alguma “imperfeição” que você afirma ter.

Agora vamos conversar sobre o quão problemático está o mundo que te manda fazer um projeto para aproveitar o verão e qual o PROBLEMA de se colocar em um “projeto” desses:

– eles são pautados em dietas extremamente restritivas. Já falamos por aqui do problema das dietas restritivas: dietas são imposições externas para comportamentos internos, pautadas em uma restrição calórica completamente exagerada e bem difícil de ser seguida. E como a maioria das pessoas simplesmente não consegue segui-las por muito tempo, acha que o problema é com elas e não com o método.

– atividade física em excesso e que não faz parte – especialmente quanto à frequência – da rotina natural das pessoas.

– palavras julgadoras envolvidas nesse processo “força, foco e fé”, “falta de força de vontade”, “só não faz quem não quer”. Recentemente consegui listar com meus alunos apenas 52 motivos que fazem as pessoas comerem o que elas comem. Sim, você não leu errado….C-I-N-Q-U-E-N-TA-E-D-O-I-S motivos, já falamos deles também por aqui. As pessoas realmente não têm força de vontade para mudar sua alimentação e sua relação com a comida ou é tudo muito mais profundo do que a gente realmente imagina?

Isso tudo gera MUITA INSATISFAÇÃO e sentimento de fracasso nas mulheres, gerando ansiedade e relação descontrolada com a comida.

Por fim, amo essa imagem para sempre.

Agora me diga, quais são os seus projetos reais para o verão:

– planejar uma viagem bacana
– conhecer uma praia ou cachoeira que você nunca foi
– aproveitar o sol com proteção
– encontrar seus amigos
– apreciar o pôr do sol
– participar de eventos ao ar livre
– curtir o reveillon e o carnaval

Bom verão para todas nós…..e que seja com liberdade e em paz com a gente mesma!