Browsing Category

Convidadas

1 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque/ Moda no dia 26.09.2018

Você é o número da sua roupa? Eu acho que não.

Conversando a Jô e com a Carla no whatsapp tive a ideia dessa coluna. A gente tava discorrendo sobre situações em que as mulheres se deixam definir por um número de roupa. Não necessariamente número da etiqueta, mas também número da balança, da circunferência de cintura…

Junto com isso, eu sei que existe a dificuldade de encontrarmos tamanhos reais aqui no Brasil. Por exemplo, a quantidade de clientes que têm roupas que variam em até 3 números é gigante. Tem marcas com modelagens maiores, outras menores, isso quando não varia dentro da grade da mesma loja. Soma-se à isso a total falta de noção de algumas pessoas que trabalham em lojas e pronto: temos um combo arrasador de autoestima.

>>>>> Veja também: autoestima, autocuidado, o padrão e a moda <<<<<

Afinal, se pra ser bonita tem de estar dentro do padrão (leia-se: magra), pra servir na roupa tem de estar dentro do padrão também, certo? E não, você não leu errado: eu falei “pra você servir na roupa” e não o contrário.

tamanho-roupa

Eu acredito piamente que é a roupa que deve servir em você, mas fato é que fizeram a gente acreditar a vida toda que a gente é quem deve servir na roupa. Que a tendência é que deve escolher a gente, que a gente tem de estar sempre dentro dessas expectativas. Perigoso isso, né? Perigoso pra nossa saúde mental e financeira, inclusive.

E o que eu quero com todo esse discurso? Quero provar pra vocês que não existe nada mais libertador do que não permitir que esses números te definam! Não coube no 42 e teve de pedir o 44? Peça e não fique com vergonha disso. 

Colocou o 44 e o caimento não ficou bacana? Devolva e agradeça a ajuda. Sei que parece óbvio, mas conheço muita gente que já comprou roupa cara que não serviu só por vergonha da pessoa que estava fazendo o atendimento. 

Por isso, se a vendedora ou vendedor fizer cara feia, ignore. Se rolar algum comentário do tipo “desculpa, aqui não tem tamanho pra você”, procure uma loja que tenha. Não é um caminho fácil, muitas vezes vai nos deixar inseguras, mas é possível. Aceite que muita coisa foge ao seu controle como a grade de tamanhos e o posicionamento da loja, a atitude da pessoa que está te ajudando (ou pelo menos deveria), a disponibilidade das peças… assim fica menos frustrante e mais fácil absorver toda essa experiência sem abalar suas estruturas emocionais. 

Fora isso, vale dizer que tem muita gente bacana trabalhando com moda hoje em dia. Muita gente preocupada em atender o maior número possível de corpos e pessoas. Muita gente preocupada com inclusão de verdade e não só pra inglês ver.

Essas pessoas ainda não são maioria, mas se a gente começar a recorrer a essas pessoas e suas marcas, um dia elas podem sim virar a maioria e, melhor ainda, puxar o bonde e trazer mais gente pra esse movimento.

Pesquise, procure, prestigie. Porque é essa a moda que vai te libertar das amarras que a moda antiga colocou na gente e nessa paranoia de estar sempre dentro dos padrões.

Sei que muita gente vai dizer que é mais fácil falar do que fazer – acredite, apesar de eu estar no limiar entre a grade regular e o plus size, nunca tive grandes dificuldades em encontrar coisas que me servissem porque essa minha situação é relativamente recente (justamente quando a moda começou a mostrar um lampejo de inclusão) – mas o poder e o alcance que a internet traz para as nossas mãos hoje em dia é poderoso demais. Se tem alguém fazendo o que eu procuro, o que serve no meu corpo e na minha vida, eu vou atrás. 

A gente (aqui incluo Jô e Carla) sempre fala que o autoconhecimento é muito poderoso. E é mesmo. Entender não só o seu tamanho, mas entender o que é realmente importante pra você. Por exemplo, vamos usar uma calça rosa. Você quer qualquer calça rosa ou “A” calça rosa de determinada loja?

Por que essa peça é tão importante pra você? O que ela representa? Essas perguntas faze toda a diferença. O que te faz desejar determinada peça pode ser o começo de uma viagem sem volta – e devo dizer, MUITO produtiva com toda a certeza – pra dentro de você mesma.

Porque se você só quiser uma calça rosa, te garanto que você tem algumas boas opções pra explorar – desde lojas fast fashion até boutiques, brechós e até mandar fazer numa costureira. Por isso, não dar certo com a calça rosa de determinada loja não deveria ser um problema – pois você tem outras opções.

No entanto, se o que você busca é um sentimento de aceitação e pertencimento que a tal calça rosa de determinada loja te traz, tente entender de onde vem essa necessidade. E nem compre a tal peça se você não encontrar um outro motivo pra fazer essa compra, pois te garanto que esse sentimento de pertencimento vai passar rapidinho e logo você vai buscar alguma outra coisa pra te trazer isso de novo.

Ou seja, ao invés de te libertar, isso vai seguir te aprisionando.

Por isso, meu conselho do dia é: um número não te define. Uma modelagem não te define. Uma marca ou uma cor que não tenha rolado pra você não te define.

O que te define é você mesma. O que você quer, o que você busca e o que você sonha. A vida que você leva, os seus sonhos e o que te leva a ter esses sonhos. Complexo, mas empoderador. Porque aí, só você pode fazer isso e mudar tudo quando você quiser – porque, advinha só: quem manda em você é você mesma!

2 em Autoestima/ Camilla Estima/ Saúde no dia 06.09.2018

“Não posso correr o risco de ser gorda”

Sei que a frase do título é impactante, mas é assim que pensa a pessoa gordofóbica. E não to falando em gordofobia com preconceito explícito, não.

Nos últimos dias, durante consultas com alguns pacientes onde a tônica sempre acabava no medo de engordar ou de tornar-se gordo, tive alguns insights que fiquei com vontade de dividir aqui no Futi. Quando, já estava enumerando os motivos que fui reunindo nessas consultas que me dessem uma ideia do que a sociedade acha das pessoas gordas.

As respostas foram das mais diversas, mas ao mesmo tempo bem homogêneas:

– gordos são fracassados
– gordos não têm força de vontade
– gordos são acomodados
– gordos não prezam pela sua saúde
– gordos não tem apreço pelo seu corpo
– gordos são gordos porque querem
– gordos são desleixados
– gordos são sem vergonha
– gordos não têm foco
– gordos não querem mudar seu comportamento

E aí,  já que a sociedade pensa isso dos gordos e muitas pessoas – com todos os tipos de peso – foram criadas em cima dessas verdades gordofóbicas, qual a linha de raciocínio mais comum? “Eu não posso correr o risco de que pensem isso de mim, pois se eu for gorda eu entro nesse pacote todo e tudo que eu não quero é ser incluída nesse grupo.” Para evitar esse risco, recebo no meu consultório regularmente pessoas que morrem de medo – e alguns casos, até mesmo pavor – de engordar, e por causa disso entram em uma espiral de dietas. Qualquer uma que seja.

A revista está dizendo que celebridade X emagreceu 20 quilos fazendo a dieta da água? Experimentam. A musa fitness do instagram está dizendo que passou a tomar um chá desintoxicante que fez ela desinchar e emagrecer 5 quilos em 3 dias? Opa, no dia seguinte o chá está na casa delas. Um site disse que a nova dieta que promete fazer você emagrecer sem riscos de efeito sanfona anunciou uma nova forma de se alimentar? Por quê não tentar, né?

Por conta dessa ótica, a perda de peso passa a ser considerada uma conquista justamente porque na cabeça de muita gente, emagrecer – 100g que seja – significa se afastar da ideia de ser vista como alguém preguiçoso, desinteressado, relaxado, sem força de vontade, perdedor, doente.

tess-holliday

Agora pensando friamente, de tudo acima que listamos sobre pessoas gordas, isso efetivamente acontece? Quando saiu a matéria de capa da Tess Holiday na Cosmopolitan – revista internacional de impacto global – a própria revista publicou uma matéria sobre a repercussão de sua capa e começa com uma frase espetacular: “ninguém está mais ciente do seu corpo do que uma pessoa gorda”. É isso.

Não, não estamos fazendo apologia à obesidade, não estamos glamourizando a obesidade (que sinceramente, nunca entendo quando tentam usar esse argumento), tampouco estamos pedindo para as pessoas serem gordas. Com esse papo, estou tentando estimular a EMPATIA com as pessoas, especialmente com as gordas que tanto sofrem esse bando de estigma e preconceito que fiz questão de enumerar no começo do texto.

Vira e mexe quando falamos isso vem a galera da higienização do corpo gordo: “Ah, mas estão doentes!” “Ah, mas achando essa gorda na capa, estamos propaganda doença”. E aí eu penso, caramba, se eles por acaso estiverem doentes, seria mais um motivo que deveria me fazer acolhê-los, não? De que adianta apontar o dedo a alguém doente? E mais, se a Tess Holiday está doente na capa da Cosmopolitan, ela não teria direito ao espaço por isso? Pessoas doentes devem ser marginalizadas? Que tipo de pensamento é esse, gente?

ju-ali-gordofobia

Enquanto não falarmos abertamente sobre gordofobia e ela não incomodar as pessoas, inclusive a você que está lendo esse texto e se identificou de alguma forma com ele, o mundo vai continuar do jeito que está.

Temos que ter EMPATIA e temos que ACOLHER as pessoas, qualquer que seja o seu corpo, peso ou aparência. Estando elas saudáveis ou não. Isso não é propagação de doença e sim de RESPEITO.

0 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque/ Juliana Ali no dia 04.09.2018

Empatia pra quem? A importância de olhar o mundo do outro!

macaco-peixe-fabula-empatia

Essa é a minha microfábula preferida, de toda a vida. Me toca profundamente. Especialmente a imagem. O macaco, alheio, contente, imaginando que acabou de fazer algo tão bonito, abraçadinho com o peixe, tão bem intencionado. Mas matou o peixinho.

Entender o mundo do outro se traduz em empatia, essa palavra já cansada, enjoada, super exposta, usada á exaustão nos últimos tempos e que já se esvaziou pra tanta gente justamente por isso. Então pode trocar de nome, se preferir. Pode ser também solidariedade, compreensão, tem muitos sinônimos.

Além desse problema da palavra ter sido usada demais, existe também um pior: seu sentido foi largamente perdido, talvez até nunca compreendido por muitos. Tenho visto EMPATIA sendo usada como uma palavra chave que a pessoa grita em momentos estratégicos, justamente em momentos onde ouviu algo que não gostou ou que não concordaram com a sua opinião. “CADÊ SUA EMPATIA? ME RESPEITA!”

Empatia é justamente o OPOSTO. Ela não é pra pegar para si, é para oferecer aos outros. Você pode até usar quando alguém critica algo que você falou, mas use ao contrário: aponte para a pessoa, exerça você a empatia. Tente refletir sobre o porquê dela estar incomodada. Como será o mundo dela?

Tem uma página no Facebook que já me arrancou altas gargalhadas que chama White People Problems. Se você não conhece, ela faz graça com o “sofrimento” de ricos e famosos – ás vezes só ricos mesmo. Então tem a Ana Hickmann reclamando que tá frio em Paris ou o filho do Mick Jagger muito deprimido porque foi morar em Nova Iorque e sente saudades dos amigos do Brasil. Faço um paralelo com uma frase que vejo muita gente dizer: “Nenhum sofrimento é pequeno, todos são válidos, para você pode parecer bobagem, mas para a pessoa não é.”

Isso é verdade, mas também não é. Veja. Não tenho dúvidas de que Ana Hickmann ficou realmente frustrada com o frio inesperado em pleno verão parisiense, e que o Lucas Jagger estava morrendo de saudades dos seus amigos. Inclusive, é possível que naquele momento, aqueles fossem os MAIORES problemas das vidas deles. Porém, há que se ter noção do mundo do outro, e ainda há que se ter noção do mundo PONTO.

É um grande privilégio poder morar em Nova Iorque ou ver a chuva caindo sobre a torre Eiffel. Tem gente que daria um rim para viver esse momento. O que é seu azar pode ser a maior sorte da vida de outra pessoa e, quando você reclama de uma coisa dessas, você pode estar afrontando alguém. 

Sei que vai ter gente pensando: “mas peraí, agora não posso expor minhas dores só porque tem gente pior que eu? Porque eu sou privilegiada e outras pessoas não?” Acho que todo mundo pode expor qualquer dor, mas também acho que é bom se preparar para receber críticas ou até mesmo deboches (como é o caso da página que eu citei) porque faz parte da exposição. Do contrário, melhor evitar expor essa dor publicamente.

Mesmo assim, quando essa afronta é apontada, acho que vale a pena botar a mão na consciência e tentar EXERCER a empatia, e não PEDIR, pois o privilégio é TEU. No mundo do outro, talvez, Nova Iorque seja tão distante e impossível de chegar quanto a lua. A gente tem que ter uma parada chamada perspectiva, senão vamos:

  1. Sofrer á toa
  2. Passar a vida focando em “sofrimentos” menores, sem aproveitar grandes maravilhas que temos
  3. Matar um monte de peixe afogado, sem a menor necessidade

Vejo também um outro problema acontecendo com a tal da empatia: sobra empatia para quem é parecido, e falta muita para quem é diferente. Ou seja, a macacada tudo empatizando um com o outro, mas com o peixe, nada.

Magra empatiza com magra, mas a gorda é feia e preguiçosa. Branca empatiza com branca, mas a negra só serve pra ser empregada. Rica empatiza com rica, mas chega a pobre mostrando uma outra visão de mundo, Deus me livre, quem é essa ignorante.

Se o macaco desse uma chance pro peixe contar o que precisa, não é? Se desse tempo de ouvir o peixe. Ah, que importante é entender o mundo do outro.