0 em Autoestima/ Moda no dia 01.11.2018

Uma dose de empatia, ou um relato de uma Menina Malvada regenerada

Quem aqui já riu/chorou/se identificou com a saga de Regina George e sua frenemies (amiga-inimigas em tradução livre) em Mean Girls?

Eu já.

Quando o filme foi lançado (2004) eu já era adulta. Recém-formada na faculdade de direito e de casamento marcado, o filme não era para pessoas da minha idade. A verdade é que em 2004 eu estava muito mais próxima de 1998 (ano em que me formei no colegial, atual ensino médio) do que dos dias de hoje. Por isso, ainda estava fresco na minha cabeça os dias de escola e o quão hostil esse ambiente pode ser.

Aliás, pausa para a resenha: se você nunca assistiu a esse filme, assista. Parece mais um filme bobo de high school gringo mas ele é cheio de críticas. Algumas sutis, outras bem escancaradas, mas todas super pertinentes. Ele já é meio antigo e talvez algumas piadas já não tenham tanta graça, mas vale a lição.

De todas as personagens do filme, eu me identifico mais com a Cady, personagem da Lindsay Lohan. Apesar de não ser nada ingênua e entender muito bem como aquele ecossistema funcionava, ela oscilava entre ser uma pessoa legal e uma menina malvada. Ao mesmo tempo que chamava a menina que ficava sempre sozinha pra fazer trabalho em grupo, também botava apelido em todo mundo. Mesmo quando isso não era parte de uma brincadeira consensual.

Ou seja, de uma forma ou de outra, eu já fiz parte do squad de Regina George, a personagem que define o que é uma menina malvada.

Os anos passaram e hoje eu sou a prima “””chata””” que alerta as pessoas sobre gordofobia. A amiga “””azeda””” que não ri das piadas que reforçam a pressão estética sobre as mulheres. A sobrinha feminista que corta o clima do almoço de domingo por não aceitar machismo disfarçado de carinho/preocupação. A mãe pentelha que não concorda com a máxima de que “criar filho homem é mais fácil”. A “politicamente correta”, terror da galera que diz que o mundo tá chato.

Enfim… e o que me fez mudar tanto?

Claro que a maturidade ajuda. A maternidade também. Mas isso, por si só, não te faz dormir de consciência tranquila.

O que me fez mudar foi a empatia.

"Ela parece uma ET" - Sim, provavelmente Regina George estaria falando isso de mim nessas horas

“Ela parece uma ET” – Sim, provavelmente Regina George estaria falando isso de mim nessas horas

Não a empatia de me colocar no lugar do outro, mas a empatia de olhar para o outro como eu gostaria de ser olhada. Saca a diferença?

Eu não gostaria de ter ninguém comentando meu corpo, minha roupa, meu corte de cabelo, meu jeito de falar/andar/sorrir/sei lá. Então, por que falar do corpo, da roupa, do corte de cabelo do outro?

Nesse meio tempo, eu acabei virando consultora de estilo. Aí você me pergunta: “E o que isso tem a ver?” Calma que eu vou chegar lá.

Bom, depois que passei a trabalhar como consultora de estilo, passei também a ser bombardeada com comentários do tipo: “Fulana se veste mal, né?” “E essa daí? Não se enxerga? Você devia dar uns toques pra ela…”E por aí vai.

E desde então faço um exercício diário de não julgamento do outro (confesso: nem sempre é fácil). Tento sempre mostrar para as pessoas que se não pediram minha opinião, qualquer “toque” que eu der vai ser apenas um julgamento disfarçado de dica, sabe?

>>>>>> Veja também: Trago verdades. Nem todo mundo quer parecer mais alta e mais magra <<<<<< 

Agora sim, vou falar o que isso tudo tem a ver com empatia e autoestima.

A consultoria de estilo é muito mais um trabalho sobre pessoas do que sobre roupas ou moda. O que a pessoa é, o que ela sente e o que ela quer sentir é muito mais importante do que o que eu acho bonito ou feio ou que está ou não na moda.

Ao fazer esse exercício diário de tentar não julgar os outros, percebi que minha autoestima melhorou. Exercer a empatia fez com que eu me tornasse mais consciente de mim. Explico melhor:

Quando eu paro de procurar defeito nos outros, eu paro de procurar defeito em mim. Quando eu valorizo a história de vida dos outros, eu consigo valorizar a minha própria história, ainda que elas sejam completamente diferentes. Quando eu entendo de onde vem a dificuldade do outro eu me sinto à vontade para admitir as minhas próprias dificuldades – e, com isso, fazer alguma coisa para superá-las e, portanto, crescer.

É aquela velha história de treinar o olhar, treinar o meu próprio foco – onde vou colocar atenção: no meu nariz que eu não gosto tanto ou nos meus olhos que eu acho lindos? E quando eu ajusto o foco para os meus olhos, eu nem percebo que o nariz não me agrada tanto. E aí eu consigo encontrar um primeiro passo pra começar a me sentir bem na minha própria pele.

Percebem a diferença?

Agora fala pra mim, onde você vai começar a prestar atenção? No que você gosta, no que você acha que deve ser valorizado, no que você jogaria um canhão de luz em cima, se pudesse (rs), ou no que você gostaria de mudar? (lembrando que tudo bem não gostar de tudo, tudo bem querer mudar algo).

E como sempre, é mais fácil começar a fazer isso com e para os outros. Quando você começa a ver beleza onde você não via antes, você naturalmente passar a ser mais tolerante, empática e acolhedora com você mesma. E aí, não tem Regina George que te faça achar que fazer parte das Mean Girls é uma coisa interessante.

Tenta! :-)

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