1 em Destaque/ maternidade no dia 03.10.2018

Para valorizar a maternidade, não precisamos agradecer as mães por se diminuirem

Nunca pensei que teria muitos insights sobre maternidade justamente lendo “Year of Yes” (o ano que disse sim), da Shonda Rhimes. Ele é um livro inspirador em diversos momentos e eu jurava que ele seria motivador em vários sentidos, nunca nesse. Recentemente passei por um trecho sobre o assunto que me fez pensar. Vou mostrar aqui para vocês.

“Eu não acho que nunca tinha percebido o quanto e o quão frequentemente mulheres são ovacionadas por atos que praticamente as invisibilizam. Quando eu paro para pensar nisso, eu percebo que a maior culpada é a linguagem usada para ovacionar as mulheres. Especialmente as mães.

Ela sacrificou tudo pelas suas crianças….Ela nunca pensou em si mesma….Ela abriu mão de tudo por nós….Ela trabalhou incansavelmente para nos dar de tudo….Ela permaneceu nas sombras, ela era o vento embaixo de nossas asas.

Empresas de cartões são construídas nessa ideia.

(…)

Eu não estou dizendo que maternidade não deveria ser ovacionada. Ela deveria. Maternidade é maravilhoso. Eu estou fazendo isso. Eu acho ótimo.

Mas tem várias outras formas e razões que mães podem e devem ser ovacionadas. Mas cultivar esse senso de invisibilidade, martírio e trabalho incansável que não é nem notado? Essas não são razões.”

maternidade-renuncia

Já tem um tempo que eu sabia que eu não me encaixava no papel da mãe que se doa por completo e bota os filhos constantemente na frente de si. Mas até o momento eu não conseguia admitir isso com toda a convicção. Porque bater no peito e assumir que eu preciso ser eu antes de ser mãe me fazia achar que estava escolhendo ser uma péssima mãe. E não era uma sensação fácil de ser ignorada ou fácil de deixar escondida. Isso ficava martelando na minha cabeça, como se uma coisa fosse sinônimo da outra.

Eu fui criada por uma mãe que largou tudo para ser mãe. E por mais que ela diga que nunca se arrependeu da decisão que tomou (e nem sempre eu acredito quando ela fala isso), eu me projeto nela e não me vejo sendo feliz se fizesse essa mesma escolha.

O ano que eu vivi a maternidade em tempo integral com pouquíssima rede de apoio (que basicamente consistia do meu marido, que trabalha fora diariamente) foi um dos mais difíceis da minha vida. Sei que foi a melhor coisa que poderia ter feito pelo Arthur, e também foi o ano que eu mais aprendi sobre mim mesma, mas também foi o ano que eu não sabia onde achar a minha felicidade, que eu passei me afogando e procurando por ar, e que eu descobri que quantidade e qualidade de tempo não eram necessariamente proporcionais. E que eu não era minha melhor versão de mãe quando eu passava o dia na função materna (que inclui aí a versão dona de casa, afinal, com filho pequeno os dois se misturam bastante).

E aí, quando eu li esse trecho da Shonda, eu percebi que eu não quero receber parabéns por ter me anulado ou por ter me doado completamente. Eu não quero ser vista como uma mulher – muito menos uma mãe – maravilha, infalível, incansável, idealizada. É muito difícil permanecer nessa posição. E eu não me vejo segurando esse papel por muito tempo. E vou contar pra vocês, é uma sensação de liberdade maravilhosa se dar conta que não precisamos dos elogios da “mãe perfeita” para nos sentirmos valorizadas.

Então, vou aproveitar esse post para trazer um exercício. Que tal elogiarmos as mães de forma que a gente tire o foco de tudo aquilo que as invisibiliza? Adianto que não vai ser fácil – estamos muito condicionadas a acreditar em tudo aquilo que os cartões de datas especiais nos contam – mas façam o teste. Tenho certeza que teremos muitas mães mais realizadas e menos pressionadas.

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1 Comentário

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    Lívia Nunes
    04.10.2018 às 11:58

    Carla,

    Eu tive uma mãe que renunciou de tudo por mim. Continuou trabalhando fora, mas só porque ela precisava do dinheiro pra me dar tudo de bom. Não teve amigas, hobbies, noites sozinha, viagens, nada. Tudo era por e para mim e pra minha irmã.

    Hoje tenho 27, ela 64. E ela continua sem hobbies, paixões, amigas e etc. E isso é um peso na minha vida que não consigo nem expressar. Sei que também é ruim pra ela, apesar de ela não reclamar. Mas quero destacar o quanto é ruim pro filho que está nessa posição.

    Quando alguém doa tudo de si pra você, vira um fardo ter que recompensar essa pessoa. Mas nem sempre você está disposto. Nem sempre você tem tempo, energia ou vontade de pagar essa dívida na mesma moeda. E isso vem acompanhado de uma culpa imensa, porque você se sente ingrato e abandonando alguém que fez tudo por você.

    Por isso, esteja certa de que sua decisão é a melhor que vc pode tomar. Como é bom pra um filho saber que não é tudo na vida da mãe. Como é bom saber que sua mãe tem outras fontes de alegria e ocupação na vida. Não seja uma mãe que se anula, não é bom pra ninguém, de verdade!

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