1 em Autoconhecimento/ Comportamento/ feminismo no dia 02.08.2018

Hanna Gadsby: Nanette um stand up incomum e transformador 

Se tem uma coisa que pode ser extremamente específica é o que faz e o que não faz a gente rir. Minha mais recente descoberta – feita lá no grupo do Papo Sobre Autoestima no Facebook e depois desse post aqui – não me fez só rir. Me emocionou, me fez pensar sobre muitas questões e me fez reavaliar outras tantas. Em suas primeiras piadas, Hanna Gadsby: Nanette parece suave; mas bastam apenas 8 minutos de seu monólogo de pouco mais de uma hora para a gente entender que está diante de algo transformador. Principalmente por esse motivo, fiz questão de trazer o tema pra minha coluna.

ilustra: Juliana Ali

ilustra: Juliana Ali

A vida de Hanna, uma australiana nascida na Tasmânia e que se descobriu gay justamente na época em que a homossexualidade era considerada crime na ilha, pode não se parecer em absolutamente nada com a minha ou com a sua. Mas em seu texto verdadeiro, visceral e profundo, ela aproveita a própria trajetória para fazer reflexões que eu tenho certeza que vão mexer com você. Aliás, o nó no peito parece ser seu objetivo. Ela mesma, com precisão cirúrgica provoca o desconforto com comentário social certeiro, pra em seguida trazer algum alívio cômico igualmente cheio de verdade. Tudo isso às custas de histórias tiradas de sua própria vida.

No primeiro parágrafo escrevi que bastam 8 minutos para que a gente perceba que está diante de algo que vai mexer com a gente. Isso porque é nesse momento que ela faz um comentário que provoca um desvio de rota drástico. A partir daí, relatos de machismo, assédio, homofobia, entre outros temas mais do que importantes e urgentes, dividem espaço com reflexões sobre seu futuro como comediante. E ao nos levar nessa jornada ela traz ensinamentos poderosos. Contarei um pouco aqui, mas prometo que o que te adianto não é um décimo do tanto de conteúdo genial que ela transmite em seu show.

Hanna explica que construiu sua carreira em cima de um humor autodepreciativo no qual ela não quer mais se apoiar. Essa constatação por si só já nos ensina tanto, que não sei nem por onde começar a falar dela. Quando um dos maiores nomes da comédia de um país admite que não é tão saudável quanto parece construir a sua vida em torno de colocar a si mesma pra baixo antes que os outros o façam, é impossível não trazer a mesma reflexão pra si. O mesmo acontece quando ela conta sobre o dia em que, após um de seus shows onde ela conta que toma antidepressivos, um espectador chega para sugerir que era melhor não tomar nada, porque ela é uma artista e é importante sentir para ser criativa. Ele ainda diz que se Van Gogh tomasse remédios não teríamos seus girassóis.

Acontece que Hanna tem diploma de História da Arte e não só explicou em detalhes pro cara que Van Gogh tomava vários remédios como detalhou que era justamente um componente de um de seus remédios que o fazia perceber a cor amarela mais intensamente. Ou seja, se ele não se medicasse é que possivelmente não teríamos os girassóis. E mais uma vez ela arremata com um pensamento que vale pra inúmeras situações da nossa vida: “… pra ser criativo então [a pessoa] tem que sofrer? (…) Só pra que você possa aproveitar [os frutos disso]?”. Eu e você podemos não ser nem comediantes nem pintores impressionistas, mas nem eles nem nós devemos sofrer de nenhuma forma para que o outro tire qualquer proveito, não devemos nos machucar para o conforto de terceiros. E sabemos bem que em vários momentos, muitas de nós já se colocaram nessa situação.

Hanna é uma mulher sábia. É alguém que, como ela mesma diz, se reconstruiu após ser feita em pedacinhos. “E não há nada mais forte do que uma mulher que se reconstruiu”, diz, em uma das frases mais fortes de todo o seu monólogo. Se eu pudesse dizer só uma coisa pra cada uma das integrantes desse grupo lindo que é o Papo Sobre Autoestima hoje, eu diria: assista atentamente o monólogo de Hanna Gadsby. Não vai ser suave, mas tenho certeza que vai ser transformador. Depois conta nos comentários o que achou.

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1 Comentário

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    LIDIA MARTINS
    03.08.2018 às 10:47

    Eu assisti e amei. Muito bom, libertador e nos faz pensar em como nos depreciar pode estar ligada a aceitação.
    Outro filme que indico é um filme francês disponível netflix “não sou um homem fácil” que mostra como seria o mundo se fosse comandado por mulheres. Toda mulher deveria assistir.

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