4 em Autoestima no dia 31.07.2018

A gordofobia da sua mãe é sobre ela, não sobre você!

Em poucos meses completaremos dois anos de grupo de facebook e durante todo esse tempo poucas histórias se repetiram tanto quanto as de mulheres com problemas de autoestima por causa de mães – muito – gordofóbicas.

Como assim Jô, você tá louca? Minha mãe é a pessoa que mais me ama no mundo, ela não faria isso!

juliana-ali

Bom, em momento nenhum eu duvido dessa afirmativa do amor materno. Muito pelo contrário, isso só corrobora com a linha de raciocínio que eu pretendo defender ao longo desse texto. Justamente por sua mãe ser uma das pessoas que mais te ama em todo mundo, ela terá motivos redobrados para cuidar de você, se preocupar contigo e te proteger do mundo cruel. Só que ela levará em conta o conjunto de valores e crenças que ela acumulou durante sua própria vida. Levando as referências DELA para o SEU contexto. O que de cara já deixa claro que na maioria dos casos, o incômodo dela com o seu corpo é sobre ela, suas demandas e expectativas, não sobre você.

Não adianta você querer medir o SEU CORPO com a fita métrica de outra pessoa como base, nem mesmo essa pessoa sendo a sua mãe. A não ser que você opte de forma consciente por viver uma vida pautada em atender a demanda externa – dela ou de outros – isso não vai funcionar.

De cara eu poderia terminar o texto aqui, mas não vou. Primeiro vou falar que a idealização que temos sobre as nossas mães serem perfeitas é o primeiro véu de ilusão que precisamos tirar para prosseguir com a leitura das próximas linhas. Existem mães sensacionais e mães abusivas que comungam de hábitos parecidos quando o assunto é perpetuar o preconceito com as mulheres que são efetivamente gordas ou até mesmo que estão pouco acima do peso. Mesmo sem notar, elas geram uma pressão estética enorme em busca de uma imagem magra e perfeita. Isso não quer dizer que essas mães são maldosas, só quer dizer que elas são humanas, carregando consigo uma série de julgamentos e crenças enraizadas, muitas vezes inconscientes, sobre a forma como elas foram criadas nesse mundo onde o valor dado a beleza feminina é quase mais importante que tudo.

Se vamos começar pelas crenças enraizadas, vamos começar pelo machismo mesmo. Ainda não li o livro de Naomi Wolf, “O Mito da Beleza”, e sei pouco sobre a o quanto a procura por ser bela e perfeita é uma distração conveniente para as mulheres, que acabam perdendo muito tempo se preocupando com supérfluos e deixando muitas vezes de conseguir competir diretamente com os homens no mercado de trabalho. Do pouco que sei sobre essa teoria noto que enquanto nos distraímos em busca da beleza não disputamos tantas vagas no mercado de trabalho, não batalhamos por uma sociedade mais equilibrada. Como ainda preciso estudar sobre isso, vou deixar esse ponto aqui de forma mais superficial.

Fomos criadas para sermos bonitas, para termos um marido e assim criarmos uma família, mas ao mesmo tempo também fomos criadas para ir bem no colégio, escolhermos a carreira que desse vontade e para trabalhar de forma séria e comprometida… Talvez a ideia fosse cuidar da carreira até a hora de começar a família, mas nos dias de hoje poucas são as mulheres que podem se dar ao luxo de não trabalhar, por isso, a frustração com tantas expectativas é constante. Algum lado vai sobrecarregar.

Na teoria, nossas mães nos queriam independentes, poderosas, firmes e capazes de não abrir mão da nossa vida por causa de marido, mas bonitas e magras para ainda assim conseguir um. Como se uma mulher gorda ou que não atendesse ao estereótipo entendido como belo não pudesse ter um marido. “Conseguir” um marido por si só já é uma questão problemática. Afinal conquistar um amor é bem melhor, ainda mais quando falamos de mulheres autoconfiantes que roubam a cena com um brilho que independe da estética. Mas….como ter autoconfiança se fomos criadas para sermos inseguras quanto a nossa própria beleza ou capacidade?

A ideia era não depender financeiramente de homem nenhum, então por que nos preocupar tanto com a beleza para conseguir um casamento? Você nota no seu microuniverso o paradoxo desse discurso teórico e da prática ensinada através do exemplo? Por mais que se ensine o contrário, na prática, para muitas mães a realização das filhas está na construção de uma lar tido como tradicional, não nos projetos pessoais ou profissionais.

Ih Jô, odiei esse caminho feminista exagerado pelo qual você está indo…
– Bom, posso te pedir um voto de confiança? Vem comigo até o final.

Que atire a primeira pedra quem não conhece uma mulher infeliz ou sofrendo em um relacionamento que se sente presa à ele por motivos relacionados a essa demanda social. Que saia do texto agora quem não conhece uma mulher que se sentiu fracassando socialmente ao se separar. É disso que estou falando, sobre a pressão por magreza, por beleza, por família e por filhos. Tudo isso é uma delícia para quem gosta ou encontrou alguém com quem quer viver tais experiências, mas enquanto isso for algo que vem em formato de pressão, facilmente será confundido com uma prisão. Enquanto as mães colocarem todas as expectativas de felicidade de suas filhas nessas expectativas de família, a pressão por um único padrão de beleza não vai diminuir.

Até aqui nem falei de projeção. Tampouco expliquei o motivo literal de eu acreditar que o comentário gordofóbico da sua mãe diz mais sobre ela do que sobre você. Até aqui quis mergulhar mais profundamente na razão das mães acreditarem que suas filhas precisam ser bonitas como a sociedade exige, e por consequência, precisam ter um corpo magro para se realizar, mesmo que isso na prática não seja verdade. Desconstruir crenças como essas não é uma tarefa simples.

Com tantas demandas de padrões, uma mãe que topa de tudo para ser magra não quer ouvir sobre a filha ser feliz em todo tipo de corpo. Quando isso envolve uma vida de sacrifícios perseguindo a perfeição, é natural que a liberdade de escolha do outro soe dolorosa. De cara parece que isso “invalida” todo sofrimento e sacrifício que ela fez para chegar até aqui sendo magra. Para quem entendeu a pressão pela magreza como uma prisão, entender o olhar positivo sobre vários tipos de corpos é quase questionar se as barras que tanto apertavam não eram na verdade invisíveis ou opcionais.

Uma mãe que viveu em busca de perseguir a beleza “convencional” como linha de chegada tende a se sentir pessoalmente atacada por movimentos que falam de liberdade com relação à imagem. Nessa hora ou ela vai começar um processo pessoal de consciência e mudar seu comportamento ou ela vai disseminar mais e mais preconceito na sociedade, garantindo que a mulher gorda se sinta segregada para que ela não se sinta individualmente atacada ou mesmo invalidada. Só que nós não deveríamos ser validadas pelo nosso corpo, somos tão mais do que isso.

E não, nenhuma mãe faz isso por mal, é sobre elas e como elas se cobram como mulheres. O incomodo não é sobre você.

Você se engana de achar que apenas uma mãe magra pode ser gordofóbica. Uma mãe fora do padrão ou mesmo gorda pode também ter preconceito com gordos ou mesmo sofrer um verdadeiro pavor da filha engordar. Nesse caso, a projeção é mais clara, tudo gira em torno do medo da filha passar tudo que ela passou. O pavor da filha comer e engordar é tão surreal que faz com que ela não consiga enxergar que a prole é outro indivíduo e pode lidar com a sociedade de uma forma bem mais leve. Nesse caso, as consultas com nutricionistas, endocrinologistas, a briga com a balança, dietas restritivas e os remédios de emagrecer são velhos conhecidos da casa, algo que se aprende no exemplo. Nesse caso, a insatisfação com o corpo é uma dinâmica ensinada. Qualquer mãe que se sente inadequada com a própria aparência pode ensinar essa relação de insegurança com o corpo para as filhas, ainda que não sem intenção.

Acredite: Nenhuma criança nasce dizendo que não tem coragem de usar biquini ou não gosta de sair sem cobrir alguma parte do corpo, isso é ensinado. Seja através do exemplo ou do preconceito na sociedade. Uma mulher verdadeiramente em paz com seu corpo não passa pra frente a cultura da gordofobia, independentemente do tipo de corpo que ela tenha. Se ela não se sente insegura, inadequada ou presa, ela dificilmente sentirá a necessidade de aprisionar outras pessoas.

Com essas projeções e expectativas muitas mulheres acreditam que nunca são suficientes como profissionais,  mães, filhas e tudo mais. Nunca somos suficientes porque novamente estamos tentando nos comparar a um perfil idealizado de perfeição. Mais um ensinamento perpetuado. Estamos sempre olhando de maneira superficial pra vida de outra pessoa. Nos colocando numa posição relativa a de outra mulher. É sobre o que o mundo acha da gente ou espera de nós, não sobre eu ou você. Difícil ser feliz usando o referencial do outro. Difícil ter saúde mental sem se conhecer propriamente.

Não acredito que somos tão individuais quanto temos potencial pra ser. Passamos tanto tempo tentando parecer iguais que deixamos de valorizar o que nos torna singular. Estamos tão cegas buscando atender à demandas de comportamento e aparência coletivas que sequer temos tempo para descobrir quem somos verdadeiramente. Vejo tanta gente adoecendo psicológica e emocionalmente que só me resta torcer para que todas essas pessoas busquem o caminho de cura que é o autoconhecimento, autoestima, segurança e maturidade. Se enxergar como indivíduo único e buscar assim autoconfiança pra ser quem si é de verdade, independente do julgamento do outro.

A gordofobia da sua mãe é sobre ela, não sobre você! Por mais que doa muito lidar com o preconceito das nossas mães, ao entendermos que é mais sobre elas e não sobre nós tende a ficar mais fácil. Nos damos o presente da liberdade de pensar como indivíduo separado, entendendo que as dores e crenças delas não são nossas. Fica mais fácil não tomar um julgamento dela como verdade absoluta pra si se tivermos a consciência de tudo isso, que não é nada fácil de digerir.

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4 Comentários

  • RESPONDER
    Cassianne Campos
    31.07.2018 às 17:02

    Obrigada pelo texto, sintetiza muitas coisas que penso.

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    FABIANE OLIVEIRA DE ARAUJO GATELLI
    31.07.2018 às 17:41

    Nossa Jô, parece que você escreveu para mim… sabe, sempre vivi tudo isso na miha casa e somente hoje, com 34 anos vejo isso. eu sempre tinha que ser a melhor, a mais bonita, a mais bem vestida, anes dos 18 anos eu já tomava remédio para emagrecer e ia no médico que receitava esses remédios, sempre acompanhada pela minha mãe, que também tomava as mesmas medicações. Teve uma época que eu fazia academia todo dia, eu gostava, me sentia bem, emagreci, mas em um verão na praia, minha mãe mandou eu “encolher a barriga” num dia qualquer… como você disse… eu sei que ela não faz por mal… ele sempre foi gordinha, na verdade engordou depois que engravidou… talvez inconscientemente isto esteja ligo ao fato de ela não aceitar que hoje sou beemmm gosdinha. Enfim, depois que eu casei, engordei muito e ela não aceita, fala que sou nova demais, que preciso emagrecer, que os homens são muito pelo “visual”, querendo dizer que sou feia e que meu marido vai me deixar por uma magra. Essas coisas machucam… só que eu como mais ainda, acho que as críticas dela tem efeito diverso no meu cérebro! só pode! rsrsrsrs… Enfim, obrigada por escrever tão linda e claramente sobre uma questão que até hoje não estava tão clara pra mim…

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    Angelina
    31.07.2018 às 18:29

    Nossa, isso já foi muitas vezes pauta na terapia. Demorei MUITO pra entender que eu não ia ter a aprovação da minha mãe sempre, e isso não me faz uma pessoa pior. Esse texto foi tipo um abraço pra mim. ❤️

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    Haryni
    01.08.2018 às 7:53

    Que texto maravilhoso Jô… E pior q até nos conhecermos, vamos seguindo o mesmo padrão de pensamentos de nossos pais em relação às finanças, à religião, às nossas emoções! Foi muito bem colocada essa reflexão, da necessidade de entender que somos seres únicos… De fato deixamos de valorizar a nossa singularidade! Vejo isso perfeitamente em muitas de minhas pacientes (sou nutri) que sofrem de transtornos alimentares. Muito grata por todas essas palavras!

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