0 em Saúde no dia 30.07.2018

Demi Lovato, a bulimia e o vício nas drogas

Semana passada a cantora Demi Lovato passou por mais um episódio triste relacionado à sua saúde: uma overdose. Não se sabe muito sobre o episódio, o tipo de droga e como ela está, e acho que também não cabe a nenhuma de nós ficar especulando sobre isso e nem criando fofoca sobre sua situação. No entanto, ao se falar da Demi, sempre vem à tona uma luta que ela trava há muito tempo: a do Transtorno Alimentar. E por isso que estou aqui. Ontem, por recomendação da Carla, colaborei para uma matéria sobre esse fato para o Fantástico e falei sobre a Bulimia da Demi, enquanto a Dra Fatima Vasconcellos falou sobre vício e drogas.

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O vício em álcool ou drogas, assim como os transtornos alimentares, têm uma raiz em comum: a psiquiátrica. Esses transtornos têm um componente genético, ou seja, já nascem com a pessoa e são desencadeados através de diversos gatilhos. No caso da Demi, ela vive rodeada de gatilhos – a meu ver, de forma mais exacerbada do que nós, pessoas comuns. Vamos falar deles:

  • O Bullying : Ela sempre disse que o bullying que sofria na infância foi um fator muito importante para iniciar o quadro do seu transtorno alimentar. Lembra que sempre falamos por aqui, que não devemos jamais e em hipótese alguma comentar sobre o corpo do outro pois não sabemos como isso chega a quem ouve a crítica, julgamento ou comentário? No caso da Demi, desencadeou seu TA. Isso é muito grave.

Primeiro foi a Anorexia nervosa e depois veio a Bulimia Nervosa. Como já falamos por aqui, ambas têm como base uma busca incessante pela magreza, muitas das vezes reforçado por esse padrão de beleza pautado por ela. Para atingir esse corpo, as pessoas – na maioria mulheres – começam a usar diversas estratégias como prática de dietas restritivas, uso de medicamentos para inibir apetite, realização de exercício físico de forma muito intensa, uso de laxantes ou diuréticos.

Na maioria das vezes isso começa com uma dieta tida como “inofensiva” e ninguém questiona isso, afinal de contas estar de dieta é super comum. Que mundo é esse que vivemos que estar de dieta é comum? Independente da idade que a pessoa tenha, ela tem que estar de dieta. Estranho é quem não está. Pois bem, essa restrição toda pode levar a casos de comer exagerado como resposta à privação alimentar e isso gera muita culpa e sensação de fracasso, tanto pela quantidade mas também pela qualidade do que ela comeu. A partir daí são desencadeados os mecanismos compensatórios para se livrar física e emocionalmente do que comeu.

  • O padrão de beleza e as redes sociais : esse padrão de beleza magérrimo se iniciou na década de 90 com a glamourização das modelos chamadas de heroin chic (modelos esquálidas, magérrimas, com cara de doente e…viciadas. Que padrão não é mesmo?). O padrão perdura até hoje em dia, a diferença é a velocidade que imagens de corpos magérrimos chegam até as pessoas. Antigamente tínhamos apenas em jornais e revistas, tanto de moda como as de dieta. Modelos e atrizes não tinham nenhuma proximidade com o público. Essa influência da mídia era importante mas não tão doentia como hoje. A quantidade de imagens que estamos dispostos diariamente nas redes sociais é imensa e gera muita insatisfação, sentimento de inadequação ou de não pertencimento. Essa avalanche de imagens é um gatilho super perigoso para se engajar nas práticas alimentares inadequadas em busca desse corpo.

Além disso, também temos uma geração de imagens retocadas por aplicativos ou programas de computador. O problema dessas imagens é que uma mulher magra que posta uma imagem retocada, imediatamente transforma aquele corpo em algo que não existe – pois foi manipulado – e a menina que recebe essa imagem eu seu feed de posts se compara àquela imagem, se sente diminuída e resolve fazer o que for preciso para chegar àquilo. Só que aquilo não existe! O quão grave isso é?

  • A pressão sobre a imagem que ela tem que passar : você já imaginou a pressão que essa moça deve sofrer a respeito do seu corpo? Da imagem que ela tem que passar? O exemplo e inspiração que ela tem que ser para para milhões de meninas? Imagine só a carga que tem isso. E obviamente, como falamos acima, vivemos em uma sociedade cuja magreza é sinônimo de sucesso, felicidade e conquistas, então ela deve se cobrar isso ao mesmo tempo que as pessoas também a cobram o tempo todo. Basta ver os comentários ultra violentos que ela recebe em suas redes sociais quando engorda. Esse cyber bullying é comum e sempre visto quando pessoas famosas mudam sua forma física de alguma forma, especialmente quando engordam. Parece que há uma patrulha constante sobre elas e, infelizmente, na maioria das vezes os comentários vêm de mulheres.
  • O acesso facilitado a álcool e drogas : no showbizz é mais do que sabido que esse acesso é super facilitado. Aí que começa o problema quando relacionado ao transtorno alimentar. Em diversas doenças emocionais – transtornos alimentares, depressão, transtorno bipolar – o paciente relata um vazio emocional muito grande. No caso, se há a Bulimia Nervosa esse vazio tenta ser preenchido com comida, em grandes quantidades, nos episódios que chamamos de compulsão alimentar. Há uma dor muito grande. Provavelmente o álcool e as drogas, além do vício que ela já pode ter desenvolvido, podem entrar nesse preenchimento.

Essa história é toda muito triste, parece que está distante de todas nós, mas na verdade não está. Está mais próximo do que você imagina. Convivemos com diversas pessoas com questões alimentares e corporais super graves sem nem sabermos. Mulheres com dores emocionais profundas e isso fica velado pois há muito julgamento e preconceito sobre os transtornos alimentares. Portanto, como não sabemos se a colega que trabalha ao seu lado, a sua prima, cunhada, mãe, tia, namorada ou irmã sofre algumas dessas questões, devemos pautar a nossa conduta de duas formas (com palavras que eu gosto muito): a primeira é a empatia e a segunda a compaixão.

Temos que ter empatia por todas as mulheres, independente de como seja o corpo delas. Empatia caso o corpo dela tenha mudado – na maioria das vezes não sabemos porque esse corpo mudou – e se ela engordou, emagreceu ou qualquer coisa que o valha, não comente. Não parabenize alguém por ela ter emagrecido e não faça cara de enterro caso ela tenha engordado. Sobre a compaixão, não é porque você não sofre de uma dor emocional como essas mulheres sofrem que você deve diminuir isso. Transtornos alimentares são doenças graves e merecem a nossa compaixão.

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Torço muito para que a Demi se recupere dessa recaída – algo muito comum nos transtornos alimentares e também no vício em álcool e drogas – e que ela volte a ter uma vida saudável. Que esse episódio triste ajude a termos mais empatia, compaixão e menos julgamento dos outros e de seus corpos.

Obrigada novamente ao Felipe Santana e à produção do Fantástico por abrirem o espaço para começarmos a falar com mais responsabilidades de temas tão densos e necessários. Ajuda muita gente nessa caminhada difícil que é um transtorno alimentar.

Não deixe de assistir a matéria do fantástico, ela lembra dos dá a real dimensão da necessidade das mudanças práticas que tanto pregamos por aqui.

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