0 em Autoestima/ Convidadas/ Destaque no dia 16.07.2018

Pressão estética x gordofobia

Quando começamos a desbravar o universo relacionado à autoestima, conhecemos alguns novos termos para atitudes antigas que acabaram ganhando força no cenário atual. Inclusive, graças a Deus ganharam essa força. Dentre os temas que eu mais busquei quando me entendi mulher, gorda e feminista, os que eu mais quis entender foram a pressão estética e a gordofobia. Demorou pra que eu entendesse a peculiaridade e importância de discutirmos esses dois em específico, especialmente pela minha condição de mulher, gorda e feminista. Mas antes de mais nada, precisamos definir o que é pressão estética e o que é gordofobia, para então conversarmos sobre o porquê desses temas serem tão importantes.

A pressão estética, como o próprio nome sugere, é aquela pressão social difundida, em suma, pela mídia. Ela nos leva a nos sentirmos insatisfeitas com nossa imagem, com nosso corpo, com nosso rosto e com nossas diferenças, nos fazendo procurar nos encaixar em um padrão. É tão sutil e presente nas nossas vidas que muita gente nem acha que sofre. Todo mundo sofre pressa estética, homens e mulheres, cada um com seu grau de cobrança, claro. Vivemos em um tempo onde nossa imagem é cada vez mais valorizada, antes mesmo de nos conhecermos. Essa imagem, segundo o que nos é imposto, precisa atingir padrões irreais e quase inatingíveis para nos causar insatisfação e nos levar a um consumo excessivo para tentar nos enquadrar.

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Por sua vez, a gordofobia está dentro da pressão estética, mas o buraco é mais embaixo. A gordofobia é um tipo de preconceito enraizado e estruturado dentro da sociedade, sendo ela disseminada em diversos contextos. É como se fosse uma grande perda de direitos de uma pessoa só por ela ser gorda. O gordo, nesse caso, é julgado como incapaz, como doente, como fracassado, como alguém que não tem o direito de freqüentar lugares públicos. A gordofobia vai além de não se sentir bonito, de não se encaixar no padrão. É uma pressão que afeta a forma como a sociedade funciona. Até porque essa sociedade foi arquitetada para pessoas magras. Não rodamos em catracas, não cabemos em bancos de aviões, não podemos frequentar certos ambientes.

Quando comecei a estudar esses temas, enxerguei muitas vezes comentários de pessoas que sofriam pressão estética relativizando quem sofre gordofobia. “Mas eu era chamada de magrela no colégio”, “sempre me zoavam por ser muito magra”, “minha família sempre me fala que estou doente por estar muito magra”. Aos ouvidos de quem sofre gordofobia, esses comentários podem soar como um grande silenciamento de uma dor já enraizada. Calma, eu posso explicar! A questão aqui é a gente pensar na sociedade, não apenas no indivíduo.

Eu entendo que o bullying que magras sofreram é real, machucou, deixou traumas. Nunca irei diminuir a dor de ninguém, todas as dores são legítimas. Mas não ouvi muitas histórias de pessoas magras que perderam o emprego ou uma oportunidade de emprego por serem magras. Também nunca vi histórias sobre não caber em lugares ou ser barrada em entrada de locais privados por serem magras. A discriminação de pessoas magras, ou não, acontece pela pressão estética, mas não é tirado delas o direito de ser ou estar apenas pelo tipo de corpo. Quando pensamos em uma pessoa gorda, acontece uma desumanização por meio da consideração do corpo gordo como automaticamente doente e incapaz de fazer parte da sociedade.

Eu entendo, por exemplo, que por ser uma gorda tamanho 50, é muito mais fácil para uma marca de moda plus size me contratar do que contratar uma mulher manequim 54. Entendo que eu tenho uma série de privilégios que me levam a estar presente em locais que pessoas maiores do que eu não podem, simplesmente pela diferença de tamanho de corpo. Por isso a importância de uma palavra: empatia! Sei que tem gente que não aguenta mais ouvir essa palavra, que acha que ela virou uma palavra da moda e que é impossível trazer essa palavra para nossos atos no dia a dia. Mas dá, acho que a gente só precisa entender algumas coisinhas. 

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A nossa vivência não mede a vivência de toda uma sociedade. Nós podemos ser regra ou ser exceção e isso não diminui a dor do outro. Por isso, independente do nosso tipo de corpo, é importante ouvir o que outra pessoa passou como experiência sem relativizar o caso, sem levar para o pessoal ou sem se colocar como pessoa digna de sofrimento maior ou menor. Assim nós conseguiremos seguir adiante, deixando cada vez mais a gordofobia e a pressão estética pra trás e nos sentindo melhor com nossa imagem pessoal.

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