2 em Beleza/ corpo no dia 10.07.2018

Vá, gina! Vá ser livre na vida!

 Vá, Gina! Vá ser livre da pressão – ou opressão – estética. Seja você rosa ou marrom, sejam seus lábios simétricos ou não, seja você grande ou pequena, seja seu clitóris mais externo ou interno, grande ou pequeno. Seja livre, vagina. Não deixe tendências ditarem sua aparência, não deixe uma insegurança te transformar na imagem e semelhança de um único símbolo de adoração. Seja sua versão, livre de um padrão!

Parece uma poesia trans-vestida de piada, mas prefiro dizer que é um manifesto em busca da consciência. Revistas femininas, médicos, clínicas de estética ou até mesmo filmes pornôs podem te apresentar um padrão de vagina bonita. A gente entende que em tempos de crise é mesmo necessário criar mais inseguranças nas mulheres com relação a estética e nada mais “normal” do criar uma nova demanda de serviço em nome de gerar mais lucro! Afinal, quer caminho mais lucrativo do que a insegurança feminina? Em nome de buscar “autoestima”, mulheres se sacrificam financeiramente – as vezes fisicamente – para arcar com os altos custos de transformação que as permitem se sentir acolhidas e pertencentes a esse padrão tão excludente.

Eu entendo isso, mais do que ninguém eu entendo isso. Já achei que minha autoconfiança dependia do botox, do alisamento, de uma massagem ou emagrecimento. Precisei fazer tudo e perder tudo para entender que algumas dessas prisões não me pertecem. Hoje, com a consciência de que eu realmente me sinto mais confortável de botox porque me sinto parte de um padrão ao mesmo tempo que abri mão de sofrer em dietas restritivas que só me levavam à compulsão, sei que me libertei de algumas crenças enquanto ainda carrego outras comigo. E tá tudo bem. O feminismo me trouxe a consciência de que nada é automático e gosto é uma questão socialmente construída. Quando todo mundo tem um gosto parecido, precisamos nos questionar: onde aprendemos isso?

Quando algo nos incomoda, podemos mudar. Se algo nos faz sofrer na sociedade na qual fomos criadas, devemos avaliar a possibilidade de transformar a área de incômodo, mas é muito importante se perguntar: De onde veio essa vontade? Voltando ao assunto vaginas, vamos falar rapidinho de depilação. Achamos que nos depilamos por nós mesmas, mas desconsideramos que fomos ensinadas que pêlos eram sinais equivocados de sujeira ou desleixo. Podemos seguir nos depilando ao nos dar conta que esse foi mais um gosto construído – eu mudei muito pouco a minha depilação depois que me dei conta disso – mas antes de imputar mais uma tendência por aí, vamos questionar se precisamos mesmo de novos padrões impostos para gerar mais inadequação. E vocês pensam que depilação é a única mudança vaginal que estão nos vendendo? Olha essa imagem aqui que apareceu no grupo essa semana:

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Será que devemos abrir espaço para a tendência de clareamento e rejuvenescimento vaginal como um procedimento estético? Será que devemos ver essa demanda ser criada sem questionar? Sem trazer à tona a consciência de quem podemos fazer o que quisermos, mas isso não significa que precisamos fazer?

Minha mini tentativa de poema já diz: Não consigo ser a favor de criarmos essa demanda.

Me lembro de pensar que deveria operar meu canal vaginal quando dois caras com quem transei não conseguiram gozar. Automaticamente era culpa do meu corpo. Não levei o álcool em conta, não refleti que poderia ser um problema de encaixe, só presumi que a culpa era minha. Como tirei isso da cabeça? Conversando com parceiros seguintes com quem tive intimidade e que me mostraram que nada havia de errado comigo. Nós fomos educadas à procurar a culpa no nosso corpo, e isso é triste, precisamos ganhar autoestima e autoconfiança para sair desse lugar. Por que a gente precisa mudar? Você já viu algum homem questionar seu pênis depois de uma mulher não conseguir gozar? Pois é, até existe, mas é bem raro.

Não devemos objetificar os órgãos genitais dos caras, não devemos deixar nossas vaginas serem ainda mais objetificadas. Não precisamos mudar para agradar o outro, precisamos encontrar alguém que combine conosco, ou aprender novos caminhos com as mesmas pessoas. Não precisamos mutilar nossa vagina para que a indústria da beleza venda mais procedimentos.

Continuo achando que a liberdade é fundamental. O serviço sempre poderá existir, acredito que tenham mulheres que de fato precisem desse procedimento, mas nem por isso a moda precisa pegar. Nós podemos nos unir numa corrente de conscientização de que vaginas são diferentes, não tem certo nem errado e nada precisa mudar. Temos a oportunidade de agir antes desse gosto construído se edificar. Se ele está na planta, podemos lembrar que ninguém precisa começar a obra para agradar. Não devemos nos sentir obrigadas nem pressionadas à isso. Todo mundo que comenta nosso peso, nariz, rugas e/ou outras características tidas como imperfeições, não saberá como nossa vagina é para comentar. Então cabe a nós ter ou não um olhar rígido sobre nossas partes íntimas. E nos questionar sobre quem de fato está incomodado ou incomodada com ela.

Podemos considerar um desserviço oferecido de forma leviana na comunicação de clínicas de estética, podemos questionar os profissionais que, sem nenhum motivo aparente, fazem com que mulheres se sintam inadequadas a ponto de arrastá-las para mais um procedimento. Precisamos desincentivar essa demanda, para que não vire mais uma nova ditadura.

A indústria pode anunciar o que quiser? Claro! Mas nós também podemos questionar e sempre problematizar a normatização dessa nova demanda, questionar estabelecimentos por comunicações tendenciosas e explicar pra nossos médicos de confiança que alimentar mais esse padrão de beleza é alimentar a insegurança feminina. Se não, daqui a pouco a vagina natural vai ser como os peitos naturais, um fator surpresa ou vista como defeito, quando na verdade é só a coisa como ela é.

Acho que no tempo do feminismo podemos mesmo discutir o quanto fica feio pra uma clínica ditar como nossa vagina deve se parecer esteticamente, porque a ditadura da beleza não acontece do dia pra noite. Eu acredito que estamos em tempo de fazer a diferença. Já precisamos lidar com os desconfortos que estão aí, seja resistindo ou atendendo ao padrão socialmente aceito, mas precisamos criar novos?

Ninguém nasce achando vagina feia. Precisamos abrir mão dessa ideia de que a ppk certa é aquela que vemos nos filmes pornôs, rosa, sem pelos, infantilizada. Não existe padrão de beleza vaginal. Pelo menos não ainda (ufa). Podemos fazer o que quisermos? Podemos, mas como disse minha amiga Carol Burgo: é necessário sabermos reconhecer que um clareamento vaginal é sim, muito impregnado de uma cultura machista que objetifica e padroniza até a porra dos nossos lábios vaginais.

Carol também colocou outra fala que me impactou muito: “Sabe o que é mais terrível? Pensar que milhões de meninas em diversos países na África, no Iemen, na Indonésia e tantos outros lugares são mutiladas através da ablação genital e tem seus grandes lábios cortados para deleite masculino e a gente aqui, no Brasil, OPTANDO pela mutilação genital (to falando das plásticas genitais, ta?) pra se encaixar num padrão de Pepeka Miss Universo e achando que isso resolve nossa autoestima. Dá até um nó na garganta.”

Compartilho da sensação. Por mim, deveríamos deixar a opção de cirurgias para vaginas que precisam ser reconstruídas, para casos clínicos onde haja real indicação, mas não vamos normatizar a demanda do padrão estético onde uma vagina dita como todas as outras são. Elas não são iguais, nunca serão. Nenhum pênis é igual, nunca foram. A questão é: com a insegurança feminina tendemos a colocar a culpa de toda frustração no nosso corpo, nessa hora acontece o inimaginável: a vagina se torna responsável pelo cara que bebeu demais e não gozou, pelo rolo que não chupou a menina, pela traição do outro… A vagina ganha a menção honrosa de segurar a relação, o peito, a barriga, a perna também. Quando a culpa é do corpo de uma das partes, já não tem mais afeto ali.

Assistindo o filme “Sexy por Acidente” uma coisa me doeu o coração: tudo que era frustração na vida da personagem se resumia a ela não se achar bonita dentro de um padrão de beleza que exclui mais do que inclui. Nossa, que merda! Vocês não são de me ler escrever palavrão, mas não tenho uma palavra melhor. Sai do filme sentindo que eu renasci em 2015, quando senti uma virada de chave no meu caminho de autoconhecimento e expansão de consciência, quando me vi bonita pela primeira vez e pude descobrir que nem tudo era culpa da minha aparência ou do meu corpo tantas vezes apontado e calejado por ser fora do padrão.

Por isso que me perdoem as incomodadas, mas serei contra um padrão de beleza estético imposto à nossa vagina. Não tem bullying no colégio, não teve sofrimento com comentários negativos na família e ainda que haja uma crítica real feita sobre ela, provavelmente é sobre a falta de encaixe de quem fala, não sobre ela.

E me segurem que vou problematizar 500 vezes se necessário, o que não dá é para deixar o padrão chegar sem esse questionamento.

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2 Comentários

  • RESPONDER
    tati
    11.07.2018 às 2:19

    Adoro a forma como vc escreve Jo, despretensiosamente e com muitos critérios ao mesmo tempo! Acho que ia escrever uma coisa que nao devo. Penso, logo existo e….rs mas tentarei ser eloquente. Na boa, não acho que nem sempre a “culpa tá nos homens” e sim na educação sexual que muitas mulheres tiveram que as deixam travadas.

    • RESPONDER
      Joana
      11.07.2018 às 10:24

      Olha se te passei a ideia de que a culpa de tudo está nos homens falhei na comunicação, pode estar no MACHISMO que é uma das causas de recebermos uma educação sexual tão limitada e diferente por sermos mulher. Acho que muitas mulheres são tão machistas quanto qualquer homem quando o assunto é repreensão sexual. Meu pai é menos machista que minha mãe, principalmente quando o assunto é sexo, amo ambos, mas nenhum dos dois conversou sobre masturbação feminina comigo, já com o meu irmão isso era pauta. Isso não aconteceu só comigo, na primeira sexta do sexo que fiz no stories do futi a discrepância era enorme no quesito masturbação/ educação sexual.

      Esse padrão estético de vagina pode vir de algo feito pros homens consumirem com com um enfoque neles, mas infelizmente acho que ele se faz demanda pela mulher que consome o porno num olhar de se comparar com a outra. Não sei se estou sendo ingênua, mas vejo essa demanda sendo criada por mulheres e para mulheres, mas por causa de um conteúdo pautado num olhar objetificador machista pensado no homem. Ou seja, diretamente no meu raciocínio pessoal o homem nem se enquadra na equação.

      Numa amostragem totalmente leviana mostrei o assunto pros meus amigos e nenhum acha que as mulheres devem mudar a vagina. Acho que de forma alguma esse post é para culpar os homens, até porque se perguntar se eles querem mudar a cor ou clarear o pênis eles vão se apavorar com a ideia, então todo cara que se colocar no lugar da mulher vai repensar a necessidade. Claro que eles não representam todos os homens, mas não acho que sejam homens conscientemente oprimindo a mulher não. Digo mais, tirando os muito conservadores, os homens em geral apreciariam a liberdade sexual das mulheres. Acho que podem estranhar num primeiro momento, mas depois vai passar a ter um investimento de energia maior no sexo pros dois.

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