1 em Autoestima no dia 10.07.2018

Não era amor (próprio), era… cilada?!

Lembram quando a ex-BBB Fani reapareceu na mídia com um corpo diferente do que estávamos acostumados a ver? Pois ela foi notícia em todos os veículos que (ainda) se dedicam a falar sobre subcelebridades e deram um espaço enorme para ela, que se dizia musa Plus Size a partir de então, aceitando a sua nova aparência.

Foi bem rápido que ela partiu das matérias falando sobre seu corpo para vídeos no Youtube e levantando sempre a bandeira do amor próprio, falando dos benefícios que o novo corpo tinha feito para ela e até mesmo para o seu relacionamento, que ela seguia despertando o desejo dos homens como antes, enquanto seguia o padrão.

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Quando estávamos começando a achar que era isso mesmo, salvo um escorregão no discurso aqui e outro ali, totalmente compreensíveis para quem está começando a entender sobre autoaceitação depois de anos seguindo um padrão super rígido, Fani ressurge…magra e se justificando, agora pelo corpo padrão que voltou a ter. E agora?

É aqui que queremos trazer algumas reflexões que podem esclarecer um pensamento errado a respeito da autoaceitação. Não existe problema algum em emagrecer ou em querer emagrecer, desde que isso seja feito com responsabilidade e que as suas razões de fato não sejam apenas inconscientes para se encaixar em um padrão e, por ele, você cometa loucuras. Sempre lembramos aqui que somos livres para fazer o que quisermos com o nosso corpo.

Poderia ter sido um emagrecimento positivo, sem antes e depois ou notícias desse tipo como sugeriu essa leitora.

Poderia ter sido um emagrecimento positivo, sem antes e depois ou notícias desse tipo como sugeriu essa leitora.

Mas é problemático, sim, quando você usa a desculpa da saúde para justificar essa perda de peso. Claro que existem casos onde isso acontece, e não estamos achando que não seja verdade o que ela diz, porém, também sabemos que é uma das maiores desculpas aceitáveis para justificar a gordofobia na nossa sociedade. Por isso é importante olhar o discurso ao longo do tempo e as atitudes, porque ter referências é ótimo e importante pra nos ajudar nessa caminhada, mas saber selecionar quem nos influencia de forma sustentável é fundamental.

Fani estava vindo bem em seus passos, mesmo com alguns tropeços, até que divulgou o tratamento de saúde que teve como consequência seu emagrecimento. Despertou a curiosidade de muitas pessoas que querem se encaixar num padrão a consumirem, sem prescrição médica, um remédio que tem efeitos colaterais fortes e que pode ser prejudicial à saúde, como qualquer remédio que se toma sem indicação médica.

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Esse tipo de aspas faz parecer que é fácil emagrecer, levando muitos leitores a frustração. No entanto o mais grave é banalizar um medicamento e seu efeito colateral. Pode ter sido a escolha dela, até mesmo para se encaixar no padrão, mas uma influenciadora que diz falar de autoestima, autocuidado e um olhar de se gostar em qualquer corpo precisa estudar os riscos de endossar essas aspas gordofóbicas.

Esse tipo de aspas faz parecer que é fácil emagrecer, levando muitos leitores a frustração. No entanto o mais grave é banalizar um medicamento e seu efeito colateral. Pode ter sido a escolha dela, até mesmo para se encaixar no padrão, mas uma influenciadora que diz falar de amor próprio, que propõe um olhar de se gostar em qualquer corpo precisa estudar os riscos de sua fala.

Ao posar mostrando a nova silhueta, como num antes e depois, e dizendo se reconhecer mais nessa nova pele, citando seu novo tamanho de roupas e tudo isso que temos visto na mídia, ela reforça que, na verdade, ela se usou do discurso de autoaceitação apenas quando era conveniente, e, agora que voltou ao padrão, está novamente reforçando todo o discurso de quem está dentro do aceitável pela sociedade e oprimindo ainda que de forma inconsciente novamente as mulheres que estavam se inspirando nela.

Numa sociedade extremamente gordofóbica fazer apologia a emagrecimento como troféu e banalizar remédios de emagrecer é leviano. Todo mundo pode fazer o que quiser, mas não precisa divulgar ou banalizar métodos ou sacrifícios.

Numa sociedade extremamente gordofóbica fazer apologia a emagrecimento como troféu e banalizar remédios de emagrecer é leviano. Todo mundo pode fazer o que quiser, mas não precisa divulgar ou banalizar métodos ou sacrifícios.

Tínhamos esperança de que, em algum momento nessa caminhada nova para ela, de fato ela pudesse absorver alguns conceitos e os levasse consigo mesmo quando voltasse à sua forma física de antes mas, pelo visto, não era amor (próprio), era cilada mesmo. 

Agora nos resta aguardar e ver qual discurso ela vai sustentar na prática. Porque aqui a gente sempre fala que não está errado querer emagrecer ou mudar, mas para haver coerência nisso é preciso ter consciência da importância de suas falas. Ela surfou na onda da representatividade para crescer, mas na hora de mudar não pensou nos efeitos que suas falas teriam na causa que ela escolheu levantar. Ao estudar compulsão alimentar e outros transtornos é fácil notar que esse caminho escolhido por ela é contra indicado por muitos profissionais com currículo extenso no assunto. O tratamento da compulsão alimentar no longo prazo, de forma sustentável, não envolve modismos alimentares, restrições ou sacrifícios. Envolve tratar a forma como você come e balanceando a alimentação, sacrifícios e sofrimentos colocam a culpa na equação, isso sim é um fator de risco a saúde psicológica de quem tem essa doença.

Não existe milagre, tampouco deveria deveria existir juízo de valor de corpo melhor ou pior. Qual vai ser a verdade que ela vai sustentar nós não sabemos, mas sabemos que o caso dela é importante para a gente falar dos riscos nesse caso. Precisamos lembrar que fotos de antes e depois exibindo a magreza como troféu já foram inclusive proibidas pelo conselho de nutricionistas do nosso país, banalizar uso de remédios de emagrecer é um perigo para uma sociedade onde mais da metade das mulheres adolescentes sofrem de transtornos alimentares, associar saúde ao corpo magro só reforça um padrão de preconceito e segregação na nossa sociedade. Todo mundo pode mudar o quanto quiser, mas ainda é preciso tomar cuidado com o discurso que passamos para frente, ainda mais quando escolhemos nos associar a alguma causa.

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1 Comentário

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    Christy
    13.07.2018 às 10:49

    Foda… Dá pena.

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