1 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 03.07.2018

“Não adianta falar para eu me amar”

“Não adianta falar para me amar porque não tem nada de fácil nisso”. Essa frase eu extraí de algum comentário que vi no grupo, mas essa não é uma reclamação de uma pessoa só. Muita gente fala isso. Quando dizemos que falamos sobre autoestima e amor próprio, quase sempre aparece a seguinte pergunta: mas como você começou a se amar? Sinto informar, mas a resposta é bem menos interessante do que a audiência imagina.

Eu sei que a cena idealizada que se tem em mente quando falamos sobre autoaceitação é aquela da mulher se olhando no espelho e abraçando sua própria imagem. É a ideia de que se a gente repetir muito que a gente se ama, um dia isso vira verdade. É o primeiro conselho que muita gente dá quando vemos alguém que se encontra presa aos próprios padrões e insatisfeita com isso. Ninguém faz por mal, eu sei, mas acaba passando a impressão de que é muito fácil, um passe de mágica. Como se olhar para si mesma novamente e tentar botar um olhar mais carinhoso em cima da gente fosse algo automático.

do insta: michele and peach

do insta @michel_e_b

Não é, nem automático, nem simples e muito menos intuitivo. Na maior parte do tempo nós somos nossas piores inimigas. Muitas de nós fomos ensinadas a nos cobrar muito desde muito pequenas, aprendemos com os adultos a buscar perfeição e a ter um olhar exageradamente rígido para nossos erros e defeitos. Nos tratamos de uma forma que nunca trataríamos uma amiga. Na verdade, se a gente for parar para analisar bem direitinho, tem coisa que não faríamos nem para uma inimiga. E, sinto informar, mas comportamentos tão cruéis que estão conosco há anos não mudam apenas tentando se convencer que se amar é preciso.

Não é à toa que falam que amor próprio é um ato de revolução. Porque isso não acontece apenas olhando para as suas qualidades e tudo aquilo que você gosta em si mesma e ignorando o restoEssa é a fase fácil, é aquela que vemos estampadas em camisetas e em imagens bonitinhas para compartilhar nas redes sociais. É aquela que faz sentido superficialmente, mas não se sustenta por muito tempo e não transforma as coisas profundamente. Essa etapa alimenta a mente, mas não revoluciona os vícios de comportamento ou transforma a maneira de você se perceber no mundo.

O bicho pega quando você vai para a fase 2, o verdadeiro autoconhecimentoA hora de olhar seus defeitos e achar algum acolhimento neles. É difícil estar completamente despida (e não estou falando apenas fisicamente) e encarar tudo aquilo que você se esforça para esconder ou ignorar. É complicado porque não é fácil distinguir se o que nos desagrada em nós mesmas é genuinamente nosso ou se foi algo que aprendemos a não gostar. É desgastante porque nossa crítica interior está preparada com todas as armas que ela adquiriu em uma vida de treinamento intensivo com a sociedade para nos convencer do contrário. Ela sabe nossos pontos fracos e não vai poupar esforços para dizer que não somos suficientes, que não somos talentosas, que não somos competentes, que não somos dignas de conquistar o amor próprio. 

Tentar botar algum carinho em tudo aquilo que nos desagrada ou que preferimos ignorar é parecido com engolir um remédio amargo. Vai dar vontade de não tomar, vai dar vontade de tapar o nariz, vontade de cuspir e continuar do jeito que estava. O gosto ruim fica por algum tempo, mas depois que a digestão está feita e o remédio começa a fazer efeito, as coisas ficam um pouco mais fáceis e passa a ser um caminho sem volta. Claro que muitas vezes você vai achar que voltou para a estaca zero, mas é só uma parte delicada do processo, seja porque você teve uma reação do padrão antigo no primeiro momento ou porque você descobriu que as feridas eram ainda mais profundas e precisarão de uma nova dose do remédio. A verdade é que algumas coisas vão se resolver de um lado e outras vão continuar mal resolvidas de outro, você vai duvidar que pode dar certo. É difícil mesmo e acho que nessa experiência a gente descobre que a verdadeira coragem é aquela que nos estimula a não desistir de nós mesmas.

A frase que diz que amar a si mesma é uma forma de resistência não poderia ser mais verdade. E eu diria mais: de resiliência e até mesmo rebeldia. Mas experimenta tentar de outro jeito, sem frases prontas, sem a ilusão de que é algo fácil e sem achar que vai chegar a algum lugar e ali permanecer. Abra mão da ideia de ser um exemplo de pessoa bem resolvida, não se compare ou se cobre demais, olhe para você como você é agora. Busque se conhecer no seu melhor e pior, encarando quem você é com segurança, te prometo que vai ser uma consequência muito natural mudar seu julgamento sobre você. Você vai ver como tudo pode mudar e a frase “se ame e se aceite” deixa de ser algo vazio e sem sentido. Experimenta, depois conta pra gente. :)

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1 Comentário

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    Christy
    04.07.2018 às 10:20

    Nossa, nunca tinha pensado nisso. Agora entendo porque a ideia me parecia muito bonita, mas quando eu tentava colocar em prática não passava da página 3. Vou tentar novamente, dessa vez com o mergulho na segunda fase.

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