8 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Beleza/ Destaque/ feminismo no dia 07.06.2018

Nós esquecemos como são os peitos naturais…

Hoje escolhi trazer um assunto que nem consigo considerar polêmico: a necessidade de lembrarmos que existem peitos naturais e eles não são iguais aos que têm silicone. Parece óbvio não é mesmo? Mas como a Carla contou num post antigo, não é. Durante o carnaval Bruna Marquezine saiu numa fantasia linda e ousada durante o Bloco da Favorita. O assunto? Foi um só: seus peitos. Mais uma mulher resumida ao corpo, mais um corpo atacado por não ser suficientemente perfeito. O agravante? Ela ser uma mulher famosa, bonita e rica. Afinal, aos olhos de muitas, pareceu inadmissível uma mulher como ela não ter o “melhor peito”, leia-se o de silicone na opinião de muitas.

Nem vou perder meus dedos digitando sobre a importância de não comentarmos o corpo ou peso dos outros, tampouco vou explicar que isso pode ser um gatilho para anorexia, bulimia e outros transtornos alimentares que não são visíveis a olho nu. Também não vou perder o meu tempo explicando o machismo que é resumir mulheres de múltiplos talentos a sua aparência. Nem vou focar minha energia no quanto estamos equivocadas ao cobrar de uma celebridade a perfeição que odiamos que cobrem de nós.

bruna-marquezine

Quero perguntar outra coisa: Quando foi que esquecemos a referência de como são peitos naturais? 

Não estou aqui para falar do “body shamming” sofrido pela Bruna Marquezine, isso a Carla já fez muito bem. Estou aqui para falar sobre as nossas referências estarem se perdendo ao vermos apenas peitos com silicone na televisão, nas revistas, no instagram das celebridades, das influenciadoras e até mesmo com as nossas amigas. Nenhuma delas está errada de colocar silicone, nem isso quer dizer automaticamente que elas não se amam ou não tem autoestima. Não estou aqui pra julgar outras mulheres, estou só para lembrar a importância de reavaliarmos se temos hoje referências de peitos naturais a nossa volta.

Bruna ainda não casou, nunca teve filhos ou amamentou, olhando a foto está claro que seus peitos são naturais, não caídos. Só que isso me fez  parar pra pensar: os peitos de Bruna não são caídos, mas os meus são? Por que eu acredito nisso? Talvez meus peitos sejam naturais e não caídos, mas eu, com as referências que tenho, sempre achei que eles eram. Será? Já não sei.

Depois de questionar a falta de referências de peitos naturais comecei a pensar que tudo que me disseram sobre peitos pode não ser verdade. Será que todos os peitos que amamentaram de fato baixaram? Será que todos eles são caídos? Será que por “caídos” quer dizer feios? Aliás, será que deveria existir tamanho juízo de valor sobre peitos? Será que estamos todas loucas, educadas a buscar uma perfeição a qualquer custo? Será que todas nós teremos que botar silicone se um dia amamentarmos? Será que essa cultura de um tipo de peito idealizado representa todas as mulheres e corpos desse país? Será que isso define a beleza de alguém? Não sei, mas creio que não.

joana-n-c

Só sei que quando fui em defesa de não atacarmos Bruna por ter peitos naturais me dei conta de que estava defendendo ela, mas havia uma dose de “hipocrisia consciente” na minha fala. Sempre acreditei que eles eram caídos devido ao efeito sanfona, à genética ou seja lá qual for a razão deles não serem tão em pé quanto o das outras pessoas. De alguma forma eu estava me depreciando ao alimentar a crença de que meus peitos não eram suficientes, que eles precisavam ser mais perfeitos. Fazendo um juízo de valor negativo para algo que poderia ser natural. A falta de referência não me permitiu ver o óbvio.

Será que acreditei a vida inteira que eu tinha peitos inadequados e na verdade eles são comuns? Na dúvida, resolvi mudar o olhar. Me dei conta que eu não poderia mais me comparar com as outras mulheres idealizadas. Eu precisava criar um olhar pra mim, individual.

A verdade é que eu posso fazer o que quiser com esses peitos: posso mudar eles no momento em que eu decidir ou posso ficar com eles assim. A plástica pós amamentação em caso de filhos não é uma obrigação, é uma opção. Será que eu preciso? Será que eu quero? Vai resolver algum sofrimento? Hoje, definitivamente não. Amanhã, talvez sim. Não estou aqui pra julgar mulheres que optaram pela plástica por não gostarem de seus peitos, tampouco demonizo a cirurgia plástica, estou só dizendo que podemos repensar toda essa obrigatoriedade de peitos perfeitos.

Não precisamos ser perfeitas em nada. Pode haver beleza onde sequer imaginamos, precisamos aprender a tirar o filtro da rigidez e perder o vício de procurar defeitos em nós mesmas. Precisamos de representatividade de vários tipos de corpos para que nos projetemos menos em um único tipo de padrão, num único símbolo a ser copiado. 

Descobri que sei muito pouco sobre peitos e que, mesmo nunca tendo feito nada para isso, eu era refém da ditadura do peito em pé.

No mundo tudo é cíclico: um dia o que é estranho se torna comum, no outro o que é comum se torna estranho. Esse processo acontece cada vez mais rápido e, por isso, precisamos tomar consciência do que estamos absorvendo como verdade absoluta sem sequer perceber, pra mim isso acontece todo dia com relação a peitos ou qualquer outro padrão. Porque independente do juízo de valor de melhor ou pior, devemos preservar o senso crítico antes de julgarmos o outro ou de sermos tão rígidas conosco. Autocrítica é uma boa qualidade, mas se usarmos isso para sermos exageradamente cruéis conosco isso se transformará em defeito, o mesmo vale para quando somos exageradamente críticas com o outro. Isso diz mais sobre nós mesmas do que qualquer outra coisa.

No meu caso, ao me olhar com mais amor eu me dei conta de que não precisava odiar meus peitos só porque eles não são iguais aos das outras pessoas, eles são só naturais. Tenho consciência que pra mim talvez seja fácil falar, nunca sofri como muitas amigas minhas por não ter peitos ou por ter peitos demais. Meu incomodo se dava por eles não serem perfeitos, por serem caídos e por suas auréolas serem muito grandes. Nunca gostei, mas nada disso me limitou, nunca usei dois sutiãs ou deixei de tirar o sutiã na frente de alguém. Acredito que a plástica pode ser uma opção libertadora para quem viveu anos insatisfeita com o que olhava no espelho, no meu caso ela seria só mais uma opção automática, que não fiz até hoje justamente por não achar que era uma questão que me aprisionava. Nos momentos de maior insegurança quis operar, nos momentos mais tranquilos quis deixar para depois de ter filhos, hoje eu escolhi deixar pra lá até eu mudar de opinião.

Se a Joana do futuro se incomodar e quiser mudar seus peitos, tudo bem. Só quero que ela saiba que está tudo bem ter peitos naturais também, ela não precisa mudar. Eles existem, são macios e também tem beleza. Espero que minha versão que virá jamais mude para agradar alguém que não ela mesma, seja um amor ou a audiência, afinal a cobrança por perfeição pode vir de todo lado.

A Joana de hoje vai dormir tranquila, ela não precisou mudar nada nos seus seios, só precisou ajustar o olhar. Com um olhar amoroso e uma dose de referências se sentiu acolhida, re-descobriu que os peitos naturais existem e tirou mais um velho rótulo sem sentido do seu corpo. 

foto: Adriana Carolina

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8 Comentários

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    Gih
    07.06.2018 às 10:46

    Oi Jo! Concordo com suas palavras, hoje parece que todas nós temos que ter o “peito perfeito”, farto (mas não pode farto demais pq aí é feio), duro como pedra, auréolas rosinhas e apontando pra lua! Só que obviamente não são todas que nascem com eles assim, daí acham q tem a a obrigação de modificar os originais de fábrica para se adaptar ao padrão. Eu sempre tive os seios pequenos (pequeninos mesmo!) e NUNCA havia me incomodado com eles, pois apesar de pequenos eram firmes e bonitinhos haha. Porém, após amamentar 3 filhos, o pouco que já tinha sumiu e ficou bem flácido. Por este motivo vou colocar silicone, mas de APENAS 135ml pra que eles voltem a parecer com o que eram! Todas as minhas amigas falam: mas se vc vai colocar já coloca maior, e blá blá blá – mas não seria mais eu, entende?Sempre tive peitos pequenos e sempre fui feliz assim, ficaria ME achando esquisitérrima se colocasse próteses grandes!

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      Joana
      07.06.2018 às 14:14

      A gente pode colocar, mudar e fazer o que quiser, mas desde que seja pra nos trazer conforto né? Não pros outros.

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    thaila carolina
    07.06.2018 às 10:57

    Arrasou!

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    Luenne
    08.06.2018 às 10:00

    Fiz um post sobre peitos uma vez no grupo do papo onde só cai em mim de ter peitos naturais e lindos quando me expus fisicamente para um grupo de travestis na lapa. Por mais que o entendimento tenha vindo de fora pra dentro, ele veio e colou. Tudo isso pra dizer que por mais que o trabalho de auto estima seja prioritariamente solitário e interno, a opinião das pessoas valida demais nossas crenças e num mundo onde é vendida a perfeição, o que vocês fazem é de extrema importância na quebra desses paradigmas. Pois quando me conheço e me aceito, posso indicar o caminho para a aceitação do outro e também validar suas novas crenças, no caso fatos, sobre si mesmo. Amo demais vocês, meninas.

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    Viviane
    08.06.2018 às 12:55

    Esse post foi um sacode em mim rsrsr. Me orgulhava dos meus seios, era onde morava minha sensualidade depois que amamemtei eles caíram e muito. Até tava pensando em postar algo no grupo de como redescobrir minha sensualidade já que o que eu julgava ser sensual não é mais para mim. Sigo na busca

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    Rach
    08.06.2018 às 16:36

    Passei quase uma vida achando que meu peito era caído e por isso feio…mas faz um ano que tenho pensado que talvez não seja assim, talvez ele seja bonito sim e normal…seu texto fez muito sentido pra mim…me fez realmente enxergar de uma outra forma, queria ter lido há anos atrás…

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    Camilla
    08.06.2018 às 16:42

    Que reflexão maravilhosa! A vida inteira tive muito trauma dos meus peitos: extremamente grandes numa época em que o silicone ainda não era banalizado. As pessoas conversavam comigo olhando em direção a eles, e não nos meus olhos, principalmente os homens, e isso me incomodava demais! Tinha vergonha de usar biquíni, de me despir na frente de alguém e o espelho estava ali para jogar na minha cara o tamanho deles. Era um desconforto enorme quando vinha a ter relação sexual com um homem. Não sentia prazer. Estava muito mais preocupada com o que ele ia pensar dos meus seios a relaxar e curtir o momento. Com o tempo o peso começou a prejudicar minha coluna, os sutiãs marcavam profundamente meus ombros e nesta altura já haviam caído. Não vi outro caminho a não ser a mamoplastia redutora. Pedi ao médico para tirar tudo, queria ficar igual uma tábua, sem nada, mas ele me convenceu que iria ficar desproporcional, pois eu tinha quadril largo e que o ideal era tirar somente o excesso para ficar harmônico. Passei pela cirurgia, todos os cuidados do pós-operatório e enfim fiquei satisfeita com o tamanho. Mas me vi de frente a outro trauma: duas cicatrizes hipertróficas enormes! Sequer tive um corte na vida e não fazia a menor ideia que minha cicatrização era ruim. Tive que trabalhar muito esta questão internamente e hoje está tudo bem. Aprendi a gostar deles com as marcas que a cirurgia deixou. Hoje carrego cicatrizes muito mais pesadas que esses simples cortes na pele.

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