2 em Comportamento/ Convidadas/ maternidade/ Sem categoria no dia 31.05.2018

Sobre ser mãe, ser mulher e ser tudo o que você quiser.

Durante os anos de prática que tenho em atendimento de puérperas, uma das frases mais frequentes que escuto se assemelha a frase citada pela Carla na campanha Como se amar mais, feita pela Unimed-Rio: Porque ninguém me falou sobre isso antes? Eu não sabia que ser mãe era assim.

Costumo usar como um método de avaliação psicológica uma técnica de desenho. Peço para que as puérperas desenhem uma mulher e uma mãe e me contem uma história sobre cada uma delas. Dentro desse contexto, é muito comum que esses papéis apareçam completamente diferentes. A mulher é vista como alguém com independência financeira, uma mulher que viaja, solteira e, principalmente, sem filhos. Em pleno turbilhão do puerpério, o ideal de mulher daquela pessoa é algo totalmente oposto do que ela vivencia naquele momento. Quando peço para me contarem uma história da mãe, elas logo dizem: “essa sou eu” e choram. E me contam o quanto a maternidade é difícil, o quanto o bebê demanda, o quanto estão cansadas. Me falam sobre o sentimento de culpa e sobre a falta de autonomia para exercer inclusive as funções básicas, como comer e fazer xixi.

E eu me questiono: quando foi que ser mãe se tornou algo tão distante daquilo que temos como o ideal da figura feminina na sociedade atual? Quando é que uma mãe deixa de ser e se sentir mulher para se tornar única e exclusivamente mãe? Isso é mesmo necessário? O que podemos fazer para mudar essa realidade?

Acontece que a maternidade causa muitos sentimentos ambivalentes desde o momento em que fazemos o teste e lá aparecem os dois risquinhos. Uma mistura de alegria com medo, ansiedade, a ficha demora a cair, demoramos para acreditar. É real, e agora? Qual é o próximo passo? E esses sentimentos ambivalentes independem de ser ou não uma gestação planejada e desejada.

E ai você pode estar se perguntando: Tá bom, Adriana, mas e o que isso tem a ver com o (f)utilidades ou com o #paposobreautoestima ? E eu respondo: TUDO!

Se a gente engravida na adolescência: não é um bom momento, pois atrapalha os estudos; aos 20 e poucos: logo agora que acabou de terminar a faculdade? Aos 30: poxa, mas você acabou de ser promovida no trabalho! Quando bate os 35: já está passando da hora, hein? Aos 40: você não vai ter disposição e tempo o suficiente para ver seu filho crescer. Aí você decide não engravidar e a sociedade te diz que você tem defeito, como é possível uma mulher que não quer ser mãe? “Mãe é instinto, maternidade é inata e não-existe-nada-no-mundo-igual-amor-de-mãe”.

A Joana e a Carla sempre debatem aqui com a gente sobre padrões ideais. Quando as puérperas me contam a história de uma mulher, elas me falam desses padrões. Elas me contam daquilo que a sociedade espera dela enquanto mulher. E elas me contam que não conseguiram atingir nenhum deles antes da maternidade chegar.

Falamos bastante aqui no futi sobre os aspectos de emagrecimento de “quando eu for magra, vou cortar o cabelo” ou fazer x, y, z. Com o planejamento da maternidade não é diferente: “antes de ser mãe quero casar; antes de ser mãe quero viajar; antes de ser mãe quero terminar a faculdade, me estabelecer financeiramente, (adicione aqui a sua condição). E a gente nunca consegue cumprir todas as metas quando a maternidade acontece.

E é aí que muitas vezes os sentimentos de culpa, impotência e inadequação tomam conta. Muitas vezes temos a sensação de que não estamos sendo 100% em nenhum dos papéis que ocupamos: mulher, profissional, esposa, filha, mãe… Você não se reconhece mais na mulher que vinha sendo até então e essa nova mulher não cabe mais nos planos que você havia feito antes.

No relacionamento, vocês não são mais “só um casal”, agora vocês “são uma família”, que se desfaz e se refaz com a chegada de um filho, que é cheia de vulnerabilidade e necessidades de cuidados. É necessário que os papéis se movimentem para encontrar um novo lugar o qual possam se sentir como parte de algo maior. E assim, a instabilidade e a impermanência são desafiadoras quando esses papéis já estão sólidos e definidos ao longo do tempo.

E aí, no meio desse turbilhão de não saber quem sou e qual o meu lugar no mundo, com frequência ouvimos de gerações passadas que “eu dava conta de tudo”, que as mães de hoje são “cheias de frescura”. Porém, a sociedade mudou, os papéis que hoje a mulher ocupa são outros, o acesso à informação é diferente e não temos mais o conceito de criar nossos filhos em tribos, em grupos, rodeadas por uma rede de suporte sólida e presente. Maternar se tornou, em geral, um ato solitário, com pouco ou nenhum apoio e vida social limitada. Para muitas de nós, há a possibilidade de grupos de apoios virtuais ou presenciais, que acabam sendo tudo que temos, sempre em contextos exclusivos para mães com os bebês. Mas e a vida além do bebê?

Acontece que a maternidade e o amor materno não são processos instintivos e inatos da mulher. Esse é um padrão que nos foi imposto em meados do século 19 (vejam bem, dois séculos atrás), com o patriarcado e a entrada medicina higienista, que depositou na mulher a responsabilidade pelos cuidados com o filho, tirando essa responsabilidade do estado, sacralizando a figura materna e tirando a sua autonomia social. Por outro lado, muitos autores da Psicologia Obstétrica e Perinatal nos dizem que a maternidade, assim como qualquer outra função, é uma construção social. Você não nasce sabendo ser profissional, você não nasce sabendo ser esposa, você não nasce sabendo ser mulher e você não nasce sabendo ser mãe.

Ao mesmo tempo que a maternidade é um processo de nascimento, é também um período de morte e de luto. Algumas coisas em nós morrem, para renascerem em outro lugar. Ali morreu tudo que você era até então e as coisas não serão mais como antes. Mas renascemos. Somos recém-nascidas para uma nova vida cheia de possibilidades de novos futuros, de novos papéis, de novos contextos. É um momento de realinhar o que fomos, o que somos, o que não conseguimos e o que ainda queremos ser. O nascimento de um filho é um convite para renascer para si mesma.

É uma transformação de identidade e pode ser vivida como um grande processo de empoderamento. O cuidado com o bebê é projetivo: quando cuidamos de um filho, também cuidamos de nós, da nossa nova identidade, das novas possibilidades que esse caminho nos apresenta. E isso também dói, pois o quanto de amor, cuidado e carinho que você dedica para si? É extremamente difícil cuidar de um filho quando não cuidamos primeiro de nós, das nossas dores, da nossa criança interior que vem à tona quando estamos com o bebê no colo. Encontramos em nós defeitos e qualidades que imaginávamos terem sido perdidos há tempos e com isso, podemos nos dar a opção de quebrar padrões, nos damos o direito de questionar a qualidade das relações familiares que estão em nossa volta e que tínhamos como corretas até então.

E isso tudo gera medo e insegurança, que fazem parte do processo, e está tudo bem. Você não é melhor ou pior por precisar (ou não) de ajuda. Você não é melhor ou pior por, em alguns momentos, se arrepender ou se perguntar o que é que você fez da vida. O importante é reconhecer os seus limites e saber que você pode até cair, mas você consegue levantar. E, quando não tiver forças o suficiente e por algum motivo não conseguir, estenda a mão e peça ajuda. Não precisa ter medo do tombo: vamos errar. Várias vezes. Não conseguimos ser perfeitas o tempo inteiro, mas temos o poder de nos transformar e de tentar de novo amanhã.

Precisamos aprender a respeitar as diferenças. As maternidades são muitas, as possibilidades são infinitas. Não existe uma única forma de ser mãe, de ser mulher. Qual é a sua?

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2 Comentários

  • RESPONDER
    Cibelle
    01.06.2018 às 13:59

    Um dos melhores textos sobre o assunto que li! Não sou mãe e nem tenho por costume comentar em blogs mas foi difícil resistir! Parabéns pela sensibilidade!

    • RESPONDER
      Adriana Navarro
      04.06.2018 às 19:59

      Obrigada, Cibelle! Fico feliz que tenha gostado.

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