4 em Autoconhecimento/ Autoestima no dia 27.04.2018

Quando o discurso da aceitação não é sólido ele incomoda…

Recentemente essa frase apareceu demais pra gente, seja em postagens do grupo, mandando por direct no insta e até mesmo em grupos dê whatsapp. A imagem em questão foi essa:

amor-proprio

Depois de tanto tempo falando sobre autoestima e seus desdobramentos, sei que quando o discurso da aceitação não é sólido ele incomoda, mas precisamos tomar cuidado pra não combater uma opressão com outra.

Pra mim a gente começa com o comum equivoco: não é porque uma pessoa posta sobre a importância do amor próprio ou da aceitação que essa pessoa consegue viver isso verdadeiramente, ainda mais em todos os segmentos da sua vida. Essa expectativa é sobre-humana. O discurso do amor próprio é muito além de frases feitas que viralizam nas redes sociais.

“A verdadeira beleza vem de dentro”, disse a menina que passa 5 dos 7 dias da semana lutando para se encaixar no padrão opressor. “O brilho interno ilumina a alma” escreve na legenda aquela que fala todo dia do sofrimento que é manter a dieta e da tentação que é comer o que ama, disseminando diariamente um comer sem paz. A que malha para pagar o jantar e se manter no corpo aceito socialmente fala em aceitar o corpo como ele é. A que faz todos os pontos de preenchimento no rosto fala em auto aceitação. A que faz massagem modeladora todo dia fala que todas temos celulites e devemos lidar isso. Tem muita hiprocrisia no discurso do amor próprio ou da aceitação nas redes sociais, entendo isso.

No entanto, precisamos entender que muita gente está interessado em receber a mensagem de forma mais superficial – talvez devido ao estágio de desconstrução em que se encontra ou ao seu universo de privilégio. Não adianta querermos doutrinar todo mundo, quem estiver procurando se olhar cada dia com mais amor, mais verdade e acolhimento vai estranhar mensagens desconexas.

Só que por mais que nós sejamos parte MUITO interessada de que a internet não saia se apropriando do discurso do amor próprio de forma leviana, não podemos sair de um extremo para outro. Sair de um padrão de opressão pra outro e, logo, nos tornando verdadeiras juízas do amor próprio alheio, não mesmo.

Acredito que o problema não está em um ou dois procedimentos estéticos, em um silicone isolado ou uma cirurgia de um nariz que incomodava a uma garota na sociedade em que ela cresceu. O incomodo vem do fato de que muitas influenciadoras são verdadeiras transformações de antes e depois, onde o antes era aprisionado e o depois liberto. Gente que se disse feliz mudando tudo em si em busca de atender a demanda do mercado de trabalho delas e da sua audiência. Não é coincidência que a turma que busca estar perfeita 24 horas por dia tenha muito mais like, seguidor e comentário, por mais que isso aos poucos esteja mudando. Muita gente quer ver essas mudanças e acreditar que é possível atingir o padrão de beleza. E precisamos respeitar essa busca por pertencer.

Não creio que demonizar quem deseja fazer um procedimento estético é o verdadeiro caminho, acredito pessoalmente que o feminismo não seja sobre sair de uma prisão ou padrão pra entrar em outro. Não há nada demais em querer mudar algo que te causou dor na sociedade na qual você foi criada, a questão é que precisamos jogar luz nas questões anteriores à isso: Essa mudança trará conforto ou virá na semana seguinte uma nova demanda em nome da perfeição? Essa mudança é pra atender uma questão sua ou das pessoas que te cercam? Não podemos sair atacando todas as mulheres que desejam atender a esse padrão de beleza super cruel e opressor, mas podemos – todas juntas – buscar nos questionar se precisamos mesmo fazer todas essas mudanças, nos tornando cada dia mais iguais a todos e menos parecidas conosco. 

No caso das influenciadoras acho que o mais importante é: não viu coesão? não gostou? acha o discurso de aceitação midiatico pra atender a modinha? Pula fora, deixa de seguir, manda um DM explicando o porquê você vê incoerência no discurso, mas não ache que jogar pedra vai solucionar, porque não vai. As pessoas não vão deixar de se transformar por isso, elas só vão parar de contar e no fim vamos voltar pro antigo argumento fake de que “acordei assim”. O que vai acabar causando a mesma frustração de inadequação de quem se compara. O que só me leva a crer que o problema segue na comparação.

Precisamos durante a verdadeira busca do amor próprio, desenvolver AUTOESTIMA na sua essência, para que tenhamos mais segurança de sermos quem somos, pra que NÃO PRECISEMOS MAIS de tantas crenças que limitam e aprisionam.

Esse exagero pela busca da beleza nos faz perder muito tempo com coisas superficiais e nos ensina que está tudo bem viver sofrendo pra atender ao que nos ensinaram que era certo pra uma mulher, e se libertar disso é um processo de tomada de consciência. Criar novas leis e proibições em nome de quem se ama verdadeiramente, ou não, só separa mais ainda as mulheres. A consciência vai ser a verdadeira forma de abandonar essas muletas em direção a um caminhar sozinha com menos dependência de tantos procedimentos.

Eu abri mão de dietas sofredoras em nome de um comer em paz, eu abri mão de massagens modeladoras e aparelhos para o corpo quando consegui aplicar um olhar genuinamente amoroso pra ele, eu consigo sair sem maquiagem ou postar stories com a acne em seu estágio mais critico e me orgulho muito de não superlativizar isso mais, mas está tudo bem eu gostar de usar a maquiagem pra também cobrir as marcas quando estou afim ou me sinto mais vulnerável. Está tudo em paz por eu usar a maquiagem pra brincar com minhas versões versáteis e me sentir mais bonita dentro desse padrão que me cerca. Eu escolhi viver em paz com um corpo nem sempre socialmente aceito, e cada dia que passa isso se torna mais sobre mim e menos sobre o outro. Se quiserem achar que o meu preenchimento de olheira ou minha micropigmentação invalidam meu discurso, tudo bem. É só o julgamento do outro.

Seguirei aqui todos os dias escrevendo sobre autoestima, autoconhecimento e um novo olhar sobre mim, cada dia com mais amor e cada dia com mais conquistas. Cada foto de biquini, lingerie ou barriga de fora foi um ato revolucionário da minha nova liberdade de falar desse amor que venho desenvolvendo por mim, mas eu não sou perfeita, ninguém é. Eu não sou. Elas não são. Se tirar minha cara de cansada for agressivo pra quem me segue, sinto muito, vou seguir fazendo isso, mas sem aprisionar ninguém em novas regras. Autoestima, amor próprio e aceitação é muito mais do que isso.

Estou aqui concordando que precisamos abrir os olhos para influenciadoras que mudam tudo, dizem que desenvolveram autoestima ao se transformar em outra pessoa e no fim ainda falam na importância da aceitação. Só não podemos sair julgando e aprisionando ao nos revoltar com essas mensagens desconexas. Todo mundo está no seu processo de desconstrução, algumas pessoas ainda vão levar um tempo pra entender que desenvolver estima verdadeira por si mesma não tem tanto a ver com mudar a aparência.

Acredito que buscar a beleza não pode ser um processo de sofrimento diário, se é, ele precisa ser reavaliado. No mais, precisamos olhar com empatia até para o que discordamos.

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4 Comentários

  • RESPONDER
    Aline Sardá
    28.04.2018 às 0:55

    Jô, lendo teu post identifiquei algo que vem me incomodando ultimamente, o discurso da “perfeição”, não é a perfeição estética é a perfeição de personalidade. Explico melhor dando exemplos: Você não está sendo negra real se vc alisa o cabelo; Vc não está aceitando o seu corpo se vc vai pra academia todos os dias; vc não aceita a sua beleza real se vc usa maquiagem até pra ir na padaria; vc não pode ser “do lar” se vc é feminista; vc não gosta dos animais se usa produtos que testam em animais… E por ai vai. Resumindo: Vc precisa ser perfeita, e isso tem me incomodado muito. Não era justamente essa “perfeição” que estávamos querendo derrubar? Esse tweet é só mais um exemplo de tudo que eu citei, e na real não vejo que estamos evoluindo, só vejo mudanças no tipo de cobrança que estamos sofrendo.

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      Fernanda
      30.04.2018 às 0:42

      Comentário muito pertinente! E texto ótimo, uma ótima colocação.

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    Marcela Mineiro
    29.04.2018 às 21:04

    Concordo demais com a aline e repito as palavras dela “só vejo mudanças no tipo de cobrança que estamos sofrendo”

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    Dani Vieira
    31.05.2018 às 22:20

    Jô texto mega pertinente, é importante coerência no que falamos e sobretudo é necessário humanidade. Somos imperfeitas e na busca de harmonizar o nosso mundo interior com o mundo exterior algumas vezes “dá ruim” e tudo bem a gente erra.
    Sair do padrão x para y, ainda assim estamos falando de padrão e perfeição, talvez nós faça bem perceber que já não estamos no mesmo lugar, que estamos caminhando e que o essencial em todo isso é a nossa evolução!

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