5 em Sem categoria no dia 25.04.2018

O parto real vs. partos reais

O assunto que deu o que falar ontem foi só um: o parto “The Flash” de Kate Middleton, que deu à luz ao terceiro filho às 11 da manhã e às 17h já estava saindo do hospital, toda maquiada e arrumada, apresentando o novo príncipe ao mundo.

familia-real

Como parto costuma ser um assunto polêmico, não demorou muito para começar todo um debate sobre quais as chances de sair do hospital menos de 7 horas depois de parir. Esse debate foi lindo, inclusive, porque trouxe à tona todos os questionamentos e críticas aos procedimentos feitos no Brasil, onde mais da metade dos partos feitos são cesarianas, sendo que dessa porcentagem, poucas são as realmente necessárias.

Enquanto isso, matérias mostravam dados que diziam que o Reino Unido é um dos países com a taxa mais alta de partos normais e com internações mais curtas, que variam entre 6 horas a 1 dia e meio. Lendo os comentários no Facebook, comecei a ver milhões de relatos de mães que tiveram seus filhos no Reino Unido e que confirmaram o que as pesquisas mostra,  enquanto mães que desejaram partos normais e humanizados no Brasil, contaram a luta que foi para conseguir ter o parto da forma que sonhava.

Depois dessa discussão, comecei a ver que o assunto virou para comparações de plenitude pós parto. “Ah, também com uma equipe enorme de beleza, até eu”, “no meu, parecia que eu tinha sido atropelada, imagina que eu ia sair assim”, “até de salto ela saiu, fala sério!”, “ela tá sem barriga, isso só pode ser conspiração”.

Enquanto eu ia embalando junto e pensando que eu daria de tudo para sair do hospital só 6 horas depois de ter tido o Arthur (nem precisava de maquiagem e cabelo feito, não, só sair do hospital e respirar ar puro já era suficiente pra mim) ao invés de passar 3 longos dias – com um Natal no meio – resolvi pensar melhor sobre o assunto.

Primeiro pensei sobre a tradição. Tenho certeza que ela teve um parto ótimo, é possível sair andando logo depois de ter tido o filho – e ainda dizem que depois do segundo fica mais fácil – e também concordo com todas as matérias que dizem que para ela é muito mais confortável e privativo voltar para casa do que ficar no hospital, mas não entendo essa necessidade de apresentar a criança assim que nasce. Se eu já não entendia com o George, que demorou um dia e meio para vir à público, entendo menos ainda agora, com essa apresentação relâmpago. Acho muito cruel submeter à mulher que – literalmente – acabou de parir à uma sessão de embelezamento, só para suprir a curiosidade dos fãs da família real inglesa.

Depois pensei como odeio essa ideia de vender a imagem da mãe plena e descansada, como se trazer um filho ao mundo fosse algo tão fácil e descomplicado quanto ir ali na farmácia comprar um chiclete. Vejo por aí uma quantidade de mães insatisfeitas só porque não conseguem realizar tal feito, e se sentem cansadas e desarrumadas o tempo inteiro, que dirá no dia do parto.

Por fim, cheguei à conclusão que quero muito que a gente converse mais sobre parto normal, desmistifique o que significa parto humanizado, e mais do que tudo, quero muito parar de ler relatos de mulheres que dizem ter trocado de médico 3, 4 vezes porque nenhum queria respeitar seu desejo de evitar a cesárea. Então, independente de qualquer discussão sobre padrões de beleza pós parto, se o fato dela estar saindo do hospital 7 horas depois de parir gerou toda essa reflexão de como nosso sistema está equivocado, acho que estamos no caminho certo.

 

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5 Comentários

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    Aline Sardá
    25.04.2018 às 12:48

    Quando eu tava grávida eu queria muito parto normal e todo mundo me indicava assistir o Renascimento do parto. Lá fui eu bem contente achando que ia ser lindo. Não foi. Já no primeiro relato uma mãe que tinha tido uma filha por cesária contava como foi horrível a cesária, e ela chorava relembrando do parto da filha, na segunda gestação ela optou por ter o bebê em casa. Não sei como terminou a história pq simplesmente parei de assistir. Fiquei horrorizada com o relato dela da cesária e eu só conseguia pensa: E se eu precisar de uma cesária? Vou ter essa experiência tbem? Pois não deu outra. Com 31 semanas de gestação comecei a perder líquido e tive que ficar de repouso absoluto por 5 semanas, e ainda por cima meu filho estava sentado, com pouco líquido as chances eram mínimas de virar. Com 37 semanas meu líquido chegou no mínimo e fiz a cesária, com minha médica de confiança. Foi muito rápido, demorou uns 15 min no máximo e foi uma experiência legal. Nada do trauma que eu tava esperando… Acredito que assim como é um ruim aterrorizar o parto normal é horrível tbem aterrorizar a cesária, pq muitas mães assim como eu não tem outra opção.

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      Carla Paredes
      25.04.2018 às 18:16

      Aline, concordo muito contigo. Acho que tem que ter o respeito acima de tudo, independente da escolha da mulher de como quer trazer seu filho ao mundo. Só que é muito bom discutir o assunto cada vez mais.

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    Marcia
    25.04.2018 às 14:35

    Divido o sentimento da Aline. Pré natal com médico super adepto de parto normal. Toda a preparação para parto normal. Gravidez com acompanhamento de fisioterapeuta para preparar a musculatura para o parto normal. Na reta final, polidramnio, que pode implicar em parto com maior risco. Chegou na hora – pumba! Cesárea. Meu filho nasceu não programado numa madrugada de sábado, com equipe de plantonistas (só o meu médico chegou em tempo, o resto da equipe não). Quantos olhares tortos sofri. Quanto patrulhamento. Nossa, cesárea??? Ah, seu médico te enrolou. Ah, você podia ter esperado um pouco mais. Depois de ser alvo de dúvidas e julgamentos, passei a ver com muito mais simpatia as mulheres que escolhem fazer cesárea. Porque assumem suas escolhas independentemente do julgamento dos outros (outras, principalmente). Porque dentro de um determinado grupo social esses julgamentos existem. E como. Existem aquelas mulheres que fazem cesárea por necessidade, aquelas que fazem cesárea porque querem e aquelas que fazem cesárea porque não têm informação ou meios suficientes para escolher e fazer valer sua decisão. É este último grupo que, no meu entendimento, deve ser o foco de atenção das políticas públicas, é o único grupo realmente desatendido em todo esse debate.

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    Ana
    25.04.2018 às 16:38

    Minha cesárea não foi agendada mas foi porque eu quis, foi ótima, 10h depois (uma noite de sono) já tava em pé tomando banho sozinha (para aflição das enfermeiras), faça-me uma garapa. Só passei 5 dias andando meio encurvada rs, e o pior era levantar e deitar na cama. Mil vezes isso do que ficar horas berrando de dor pra parir normal. bjs

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    lia
    27.04.2018 às 8:30

    Só no mundo de quem tem dinheiro cesarea é uma imposição. Na rede pública só fazem nas últimas, mães e crianças sofrem horrores tentando forçar um parto normal.

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