0 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Comportamento/ Destaque no dia 28.03.2018

Papo sobre mulheres: “ah, ela é blogueira”

Quando a Carla me chamou para escrever para o Futi para o mês das mulheres, ela foi específica: “você que é toda envolvida no tema business, fala sobre isso”. Sem saber, ela me botou pra pensar. Fiquei dias pensando se o tema business seria comigo como protagonista ou sobre outras business woman que eu admiro. Resolvi falar sobre mim e encarar como uma sessão na terapia.

Há anos eu comecei a escrever e ouvia de todo mundo como eu escrevia bem, então resolvi ter um blog, porque eu adoro uma internet e sou autodidata em vários componentes que você precisa para ter um blog. Falava dos meu interesses, só que eu sempre me cobrei para que esses interesses não se limitassem “a dicas”. Meu blog falava de moda, mas muito mais sobre o bu siness da moda, eu lia o Business of Fashion, a coluna da Vanesssa Friedman no Valor, o Fashionista.com e assinava o WWD, escrevia sobre a indústria da moda, sobre as movimentações e transformações no jornalismo com os surgimento das blogueiras, eu amava esse tema. Nem me lembro porque parei de escrever, acho que foi porque arranjei um “emprego de verdade”. Fui trabalhar com ecommerce.

Aceitei uma vaga de “estágio” no extinto e-closet porque queria começar na área de qualquer jeito, meu CV foi selecionado pelo Twitter. Que saudades da época que o Twitter era meio que nosso, fiz amizades valiosas que cultivo até hoje por causa da plataforma, a Carlinha é uma delas.

Saindo do e-closet, montei um ecommerce meu, para vender coisas minhas que não usava mais. Em três meses vendi todo o meu estoque, deu tão certo que eu desisti, perdeu a graça. Tudo foi no meio de uma separação e fiquei atrapalhada. Logo depois fui parar na Dafiti. Foi um período curto, mas insano. Respondia direto para um dos sócios, era uma pressão louca, startup baseada em modelo financeiro focada 100% em revenue. Além de cuidar de todas as campanhas – trabalho que eu não curtia, eu era editora da revista da Dafiti – trabalho que eu adorava, mas que representava pouco em faturamento, então não conseguia praticar toda a minha capacidade criativa ali.

Depois de um ano resolvi sair e meio que por acaso, criei uma consultoria para ecommerce. Não que eu tivesse muita experiência na área, o que eu tinha era o diferencial de ser alguém totalmente inserida na moda que entendia de ecommerce, uma área bem masculina e dominada por programadores e gente de marketing de performance, com perfil bem analítico. Os meus clientes se sentiam seguros comigo porque eu falava as duas línguas, a da moda e do ecommerce. Fiquei três anos com a Indie, tive clientes incríveis tipo NK Store e Jack Vartanian – mas eu não tava feliz, aliás, vivia irritada. Eu odiava o que eu fazia.

Quando meu primeiro filho nasceu, eu parei um pouco. Ainda dei uma insistida com clientes pequenos só pra fazer alguma coisa, até que fiquei grávida de gêmeos, e foi depois disso que me vi saindo de casa e deixando três bebês para ir em uma reunião que não me inspirava em nada “só pra fazer alguma coisa” – como se cuidar dos meus mini filhos não fosse suficiente.

Eu estou tentando fazer o meu melhor

Eu estou tentando fazer o meu melhor

Larguei tudo e voltei a escrever. Criei o lolla, um site de lifestyle com bastante conteúdo e estou tendo um feedback muito bacana. Mas mesmo assim, continuo inquieta. Fico inventando coisas para que ele não seja apenas um blog, para que as pessoas não me vejam como uma blogueira. Mas o que tem de errado em ser blogueira? Nada, se você pensar na definição literal de blogueira: uma pessoa que escreve sobre um tema qualquer de seu interesse em um blog. O que é bem distante das atividades das pessoas que hoje chamamos de blogueiras.

O termo blogueira se tornou pejorativo, isso é um fato. E a minha ansiedade fica incontrolável só de imaginar as pessoas ao redor  se referindo a mim como “ah, ela é blogueira” com aquele tom sarcástico de desaprovação. E foi só agora, escrevendo esse texto, que me dei conta que a sensação que eu tinha quando tinha a consultoria ou quando eu era gerente de campanhas na Dafiti era a mesma. O pavor do julgamento dos outros perante o meu trabalho sempre vai existir, é um problema meu. Mesmo se eu estiver no conselho da ONU lutando por uma causa mundial, vou me sentir uma full time impostor, como se não merecesse estar lá.

Acho que meu caso é tão sério que eu não me atrevo a chamar meu problema de Síndrome do Impostor porque acho que só pessoas que já chegaram lá podem se sentir impostores e sinto que estou há anos desse acontecimento. Preciso arranjar um forma de parar de me boicotar e principalmente, parar de ignorar aquilo que eu sei que sou boa. Eu inspiro as pessoas de alguma forma, seja escrevendo, seja trazendo conteúdo diferente e interessante ou mostrando as coisas lindas da vida. Eu não preciso necessariamente estar na frente de um ecommerce com uma performance espetacular só porque eu “entendo de ecommerce”.

Todo mundo precisa de inspiração, muita gente precisa ser celebrada e o lolla é uma plataforma para isso. Eu que preciso mudar meu approach com o fato de ter um site – ou melhor, um blog – e sentir orgulho disso.

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