0 em #paposobremulheres/ Autoestima/ Saúde no dia 22.03.2018

Papo Sobre Mulheres: Existe luz no fim do túnel

Era uma vez uma menina bonita, cheia de amigos, com um emprego bacana num lugar legal, e todos os outros predicativos que as pessoas costumam usar quando querem te consolar e mostrar como a sua vida é boa. Essa menina, mesmo com tantos motivos para ser feliz, tinha depressão. E essa menina era eu.

Depressão é uma palavra complicada, né? Mal surgiu no texto e fica logo aquele climão. Assunto tenso, meio tabu, que a gente não sabe lidar direito. É uma doença complicada e cada vez mais comum, mas que ainda gera uma boa dose de desconforto quando alguém chama pelo nome. Eu sei bem. Durante o período em que eu estive em depressão, achei que nunca mais voltaria a me sentir como uma pessoa normal. Chorava várias vezes por dia (muitas vezes sem saber o motivo), não comia, vivia apática, não conseguia reagir. Mas eu não vim escrever sobre como foi sofrido ter depressão. Eu queria contar que eu tive, e que eu superei. E eu tô muito melhor agora.

Não quero ser mais uma com aquele papo genérico de que tudo vai dar certo, sei que não é por aí. Mas como a minha psicóloga sempre me falou, às vezes a gente precisa ir mesmo lá embaixo no fundo do poço para botar o pezinho e dar impulso para voltar a subir. Isso faz parte do processo. Normalmente a depressão tem um gatilho emocional e por isso é uma coisa tão difícil de entender para quem está de fora.

Saúde mental é tão importante quanto saúde física

Saúde mental é tão importante quanto saúde física

Eu ouvi de pessoas da minha família que era “só tristeza”, para não ficar daquele jeito, para não me entregar. Também ouvi coisas cruéis sobre como eu era fraca e sofria por tudo, só sabia chorar. As pessoas não entendem direito depressão e não falam isso por mal (na maioria das vezes) mas é importante que comecem a entender que não é tão simples. A depressão é um desequilíbrio químico, que tem como resultado a interrupção no fluxo normal de alguns neurotransmissores. Então é uma doença sim, e tomar remédio é ok, assim como a gente toma para gripe ou dor de barriga. O acompanhamento adequado por um psicólogo em quem a gente confie é fundamental. Assim a pessoa consegue identificar os gatilhos emocionais que a levaram até ali e aprende a lidar melhor com algumas questões pessoais. Isso não vai ser rápido, mas é libertador.

Nesse processo de cura você muda. Muda sua atitude em relação aos seus problemas, começa a enfrentar mais algumas situações, entende que precisa desapegar de algumas pessoas, fica mais seletiva, mais forte, aprende a dizer não, começa a enxergar tudo com mais clareza e a tomar decisões mais conscientes para a própria vida. Só que até chegar lá tem chão, tem que ter paciência, pegar na mão do profissional que você escolheu e acreditar no processo. Tem luz no fim do túnel sim, só que nem sempre a gente enxerga essa luz quando tá no comecinho dele.

Até começar a melhorar, eu não tinha ânimo para nada nem ninguém e sentia que estava sendo carregada no fluxo, sem controle sobre a minha própria vida. Mas por incrível que pareça, a dança, que sempre foi uma coisa que eu amei, era aquele pontinho de alegria num emaranhado cinza de dias em que nada fazia sentido nem fazia sentir. Aquela aula de uma horinha me dava um alento, me fazia sentir que eu ainda tava ali. É muito importante manter alguma atividade que te ajude a manter o prumo e não se perder de quem você era antes da doença. Se for uma atividade que libera endorfinas, melhor ainda.

Não é do dia para a noite, mas um belo dia quando você dá por si, você se reconhece de novo no espelho e uma coisa boba te arranca um sorriso, até uma risada, mesmo você achando que isso nem era mais possível. Um sorriso aqui, um pouco mais de apetite ali, uma música que te move, e aos poucos seu corpo e seu emocional vão juntos respondendo ao tratamento. A neblina vai se dissolvendo, a luz no fim do túnel começa a brilhar com mais intensidade e você se sente você de novo. É um renascer de verdade. Pra mim, a ficha caiu o dia que eu acordei e decidi terminar um relacionamento que eu já sabia há muitos meses que não tava bom, que não fazia nem sentido, mas que até aquele momento eu não tinha tido forças para terminar porque sabia que não aguentaria me ver sozinha. Até que esse dia eu tive forças para fazer isso e o término foi o meu divisor de águas. 

Eu sei que algum dia a depressão pode voltar, sei que se acontecer alguma coisa que me desestabilize tanto emocionalmente isso pode voltar a bagunçar a química do meu corpo. Mas se ela voltar, eu já sei que eu consigo vencê-la de novo. Me conheço mais forte, sei quem são as pessoas que mesmo sem saber muito como ajudar foram a minha rede de apoio, e sei que eu brilho ainda mais forte lá do outro lado nesse túnel.

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