2 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Destaque/ Moda no dia 20.03.2018

Papo Sobre Mulheres: o consumo que oprime

Quando a Carla e a Jô me chamaram pra estar aqui nesse Mês da Mulher, a primeira coisa que veio na minha cabeça foi:  Meu Deus, tanta mulher aí maravilhosa que tem tão mais a contribuir pra essa discussão do que eu.

Sempre que penso na luta feminista, lembro que falo de um lugar de privilégio. Sou branca, magra, heterossexual e cresci numa família de classe média, com pais presentes. E confesso que me encontrar dentro dessa caixinha muitas vezes me cegou para questões que estavam acontecendo ali, bem na minha frente.

Com isso em mente, aterrissei no Futi e qual não foi a minha surpresa quando dei de cara com todo tipo de história, todo tipo de mulher. Cada uma mostrava um ponto de vista diferente, mas foi aquele coletivo de experiências tão diversas que realmente me inspirou a contar a minha.

Porque a verdade é que toda história tem importância, seja pra gerar empatia em quem teve uma vivência diferente, seja pra dar conforto pra quem passa ou passou pela mesma coisa.

Então hoje cá estou eu pra compartilhar com vocês a minha história de superação.

joanna-moura-uasz

Há sete anos eu me dei conta de que tinha um problema e ele ia muito além da minha conta bancária no vermelho. Eu era emocionalmente dependente do consumo, mais especificamente do consumo de moda.

O que eu tinha no armário nunca era bom o suficiente. Cada ocasião pedia uma coisa nova. Cada TPM uma compensação material. Cada celebração um novo troféu em forma de blusinha.

Eu passei anos da minha vida me culpando por não saber lidar com isso. Com vergonha da minha falta de habilidades financeiras, com raiva da minha incompetência pra resistir às tentações das vitrines.

Como qualquer dependente, vivi os altos e baixos do meu vício em segredo. Comprando no impulso mesmo sabendo que a conta não fechava, vivendo aquele prazer fugaz da roupa nova e, logo em seguida, sendo corroída pela culpa. Escondendo até da minha família e amigos a real extensão do meu problema.

Por que que eu não contei pra ninguém? Por vergonha mesmo. Porque eu me sentia uma fracassada. Porque eu achava que só eu tinha me colocado naquele buraco e só eu tinha a responsabilidade de me tirar dele.

O dia em que resolvi que não dava mais, eu liguei pro meu pai. Eu tinha acabado de decidir que ia ficar um ano sem comprar. Liguei pra ele e, pela primeira vez, eu disse em voz alta que tinha um problema. E pela primeira vez eu pedi ajuda. E ele me ajudou. Me falou que me emprestava o dinheiro pra cobrir as minhas dívidas foi além. Me disse que se, ao final do ano, eu tivesse poupado o dobro do que ele do que ele tinha me emprestado, eu não precisaria pagá-lo de volta.

Depois de contar pro meu pai, eu resolvi contar pro mundo. E assim começou o Um ano sem Zara, um diário da superação do meu vício, aberto pra quem quisesse ler.

joanna-moura-2

Ao longo do meu ano sem compras eu entendi o poder enorme que reside em compartilhar um problema. Primeiro porque, quando a gente divide um problema com alguém, a gente dá uma oportunidade daquela pessoa nos ajudar. E é impressionante o tanto de gente disposta a fazer isso. No meu caso, a ajuda veio de onde eu menos esperava. Gente que eu nem conhecia veio me dar apoio e força pra não desistir.

Segundo porque, quando a gente joga o nosso problema no mundo, a gente descobre que ele não é só nosso. Por mais cabeludo que ele seja, tem um monte de gente que, invariavelmente, vai estar passando pela mesma coisa e a gente nem sabia.

E foi isso que aconteceu comigo. Quando eu me lancei o desafio de ficar sem comprar, eu nunca ia imaginar o tanto de mulher pelo mundo afora que estava vivendo exatamente a mesma coisa que eu. E isso me fez me sentir normal.

Mais do que isso, entender que tinha um batalhão de mulher por aí que vive ou viveu a mesma dependência que eu, me fez perceber que não ficamos coletivamente doentes por acaso.

O meu vício e o de tantas outras meninas e mulheres mundo afora não é uma predisposição genética ao consumo. Não é falta de vergonha na cara nem sintoma de uma personalidade fútil.

Uma força muito maior que a gente nos guiou até aquele momento de passar o cartão de crédito. Estou falando da pressão que o mercado de moda exerce na gente. Das marcas à mídia especializada, a moda vive de nos fazer vítimas. De nos inferiorizar, de nos dizer que somos incompletas, insuficientes em nós mesmas.

Mas o mais perverso é que, ao mesmo tempo que a moda vitimiza, ela apresenta a solução, a poção mágica que vai resolver todos os nossos problemas. Em cada peça nova, em cada blusinha, vestido e bolsa, a promessa de uma vida mais completa, mais bem sucedida, mais feliz.

Durante muito tempo, me senti uma idiota por ter caído nesse conto do vigário. Mas um dia a ficha caiu que eu sou apenas um serumaninho lutando contra um império. Um sistema bilionário que existe há mais de século e foi todo desenhado pra me seduzir.

A verdade é que passei a minha vida tendo um relacionamento abusivo com a moda. Deixando que ela fizesse de mim o que quisesse. Dando pra ela meu tempo, minha atenção e até o meu suado salário, em troca de algumas migalhas de “amor”. Tudo pra, logo em seguida, ela me maltratar novamente.

Mas finalmente entendi que, como em tudo na vida, a culpa não é da vítima. A culpa não é minha nem sua.

A moda é uma ferramenta de dominação e controle que explora nossas vulnerabilidades, especialmente de nós, mulheres. Como consumidoras, gastamos demais pra tentar tapar um buraco que não existe. Pior que isso? A moda explora milhões de mulheres ao redor do mundo em sua cadeia de produção cruel e injusta. 80% da força de trabalho empregada em condições deploráveis pela indústria da moda são mulheres.

Hoje eu luto diariamente pra que a moda não faça mais vítimas. Nem quem compra, nem quem produz. Luto pra gente se sentir feliz com o que tem, gastar menos e comprar melhor. Seja diminuindo a frequência do consumo e usando melhor o que a gente tem no armário, aprendendo mais sobre o nosso próprio estilo e exercitando a nossa criatividade, até escolhendo marcas que fazem o bem e ajudam a empoderar mulheres em todas as pontas da cadeia de produção.

Eu sou uma otimista e, apesar de ter sido uma vítima dela, acredito que a moda pode se transformar em uma força para o bem. Acredito na moda como uma forma de expressão, de individualidade, de arte. É o jeito que eu escolho me apresentar pro mundo. E, nesse sentido, acredito que ela pode empoderar sim.

Assim como o remédio que pode curar ou matar dependendo da dose, precisamos lidar com a moda com parcimônia. E ao invés de permitir que ela nos jogue pra baixo, precisamos garantir que ela nos ajude a contar pro mundo quão incríveis e completas cada uma de nós já é.

Gostou? Você pode gostar também desses!

2 Comentários

  • RESPONDER
    Erica Coelho
    21.03.2018 às 6:40

    Jojo arrasando, como sempre!!

  • RESPONDER
    Bruna
    21.03.2018 às 14:44

    Bellissimo texto da Jojo! Depois que saí do Brasil diminui muito meu armário. Estou fazendo faculdade de moda em NY (depois de ter sido bem infeliz no direito). Aqui, no paraíso das compras, é fácil se perder. É fácil precisar de só mais uma coisinha…Mas viver com um orçamento mais apertado e um armário MUITO menor te faz reconsiderar um monte de atitudes. Fazer faculdade de moda ajuda, entender o processo, o custo e o trabalho que dá pra fazer uma determinada peça te faz desistir se a relação custo x trabalho for discrepante. Brechós viram seus melhores amigos, e mesmo assim: só quando você se apaixona.

  • Deixe uma resposta