1 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento no dia 14.03.2018

Papo sobre mulheres: a eterna sensação de fraude e a síndrome do impostor no universo feminino

Se algumas dessas frases ou sentimentos já passaram pela sua cabeça, temos muito mais em comum do que você pode imaginar: “Um dia todos vão descobrir que não sou isso tudo que pensam que eu sou…”, “O que que eu estou fazendo aqui no meio dessa gente tão inteligente! Eu não sei nada.”, “Sinceramente, não sei como cheguei até aqui, foi pura sorte!”, “Dessa vez vão me desmascarar, tô perdida!” e “Eu sou uma fraude!!!”

Durante anos esses pensamentos em conjunto com emoções de medo, insegurança e ansiedade pairavam na minha cabeça cada vez que eu conquistava algo como um novo emprego, uma promoção ou algo que me destacasse. Aliado à uma baixa estima que invadia outras áreas da minha vida, esses pensamentos estavam enraizados na minha vida profissional. Comecei a trabalhar muito cedo, e sempre atribuía meu sucesso a sorte (como passar para uma faculdade de direito federal) ou à minha simpatia. Por ser uma pessoa extrovertida, sempre me relacionei bem com as pessoas e acreditava que não era minha competência e minha inteligência que me fez crescer de uma secretária à me tornar gerente de RH de uma grande multinacional, mas sim a minha capacidade de agradar e me relacionar com as pessoas. Quando eu olhava para trás ou lia meu currículo, revisitando minhas conquistas, racionalmente conseguia vê-las, mas no meu coração sempre achava que não era boa o suficiente e que a qualquer momento todos ao meu redor descobririam isso.

Em 2013, fiz uma formação em coaching para acrescentar em minha liderança e foi quando descobri nessa profissão um chamado, um propósito. Então quando eu decidi tocar minha carreira de coach, aí mesmo que a porca apertou. Porque todos os meus medos de julgamento, de não aceitação e principalmente o medo do sucesso se escancararam. Sim, minhas caras, muito maior que o medo de fracassar, o medo de ser bem sucedida era o que mais me paralisava. Porque quanto mais bem sucedida eu era, maior a inadequação e essa sensação de fraude se estabelecia, maior a pressão de ter que dar certo, e também maior o medo de ser “descoberta”. Então já que eu não queria isso tudo, o que fazia? Me sabotava, protelava. Começava a adiar projetos, a buscar parcerias erradas, a gastar dinheiro de maneira equivocada, ou seja, fazia de tudo para dar errado.

Como coach de carreira, estavam ali na minha frente, em muitas sessões, clientes que me relatavam o que vivenciavam, e era exatamente como eu me sentia também. Clientes incríveis, cheias de potencial, com um histórico impecável, batalhadoras, mas que não se achavam o bastante, se achavam verdadeiras fraudes e não merecedoras de suas conquistas. E foi a partir dai, em tentar entender o que acontecia com elas (e de tabela comigo) que descobri o nome desse conjunto de pensamentos e emoções que faziam as minhas clientes e eu, se sabotarem profissionalmente: a Síndrome do Impostor.

ilustra: Jenny Chang

ilustra: Jenny Chang

Em 1970, as pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes apresentaram o termo “fenômeno impostor” para descrever o comportamento que observaram em alguns de seus alunos. Parecia que, apesar de suas melhores notas e conquistas, eles se recusaram a tomar posse de seu sucesso. E essa tendência não se limitava aos estudantes de pós-graduação. Muitas pessoas se sentem como fraudes – como não são dignas de seu sucesso, não importa quantos troféus, certificados ou elogios tenham recebido. Eles diminuem o significado de suas realizações e os atribui à sorte ou a outras forças fora de seu controle, em vez de seu próprio esforço, dedicação e inteligência. Para pessoas com síndrome de impostor, seu maior medo é que as pessoas logo descobrirão que são fraudes e não são tão habilidosas, inteligentes ou competentes quanto a sua própria realização.

Muitas pessoas famosas já confessaram sofrer dessa síndrome, e de acordo com a escritora Valerie Young, ela é muito mais comum em mulheres, por alguns motivos que vai desde o julgamento das mulheres em uma sociedade machista, aos estereótipos psicológicos e emocionais que marcam nosso gênero. A atriz Kate Winslet já confessou que às vezes acordava pela manhã antes de sair para uma filmagem e achava que não conseguiria, que era uma fraude. Assim como Natalie Portman, Emma Watson, Jody Foster, Lady GagaLupita Nyongo disse que depois que ganhou o Oscar, isso deixou as coisas ainda piores do que eram antes. E essa lista se estende à profissionais incríveis em todas as áreas, não só artistas. Sheryl Sandberg, COO do Facebook, relatou em seu livro que toda vez que era chamada em sala de aula, tinha certeza de que estava prestes a se envergonhar. Toda vez que fazia um teste, tinha certeza de que tinha ido mal. E toda vez que não se envergonhava – ou mesmo se superava – ela acreditava que tinha enganado a todos novamente. Que um dia, em breve, a verdade viria à tona.

Na medida em que eu ia pesquisando sobre o assunto, me identificava com cada relato e ia ficando claro que eu realmente sofria dessa síndrome e que muitas das minhas clientes também. Mas beleza, e agora? O que fazer com isso?  Entender qual era o “monstro” por trás de todos esses sentimentos foi importante para entender como vencê-lo. E foram nesses mesmos relatos que encontrei a força para me superar. Pois essas mulheres eram maravilhosas e haviam feito coisas incríveis, apesar da síndrome. Elas não se deixaram paralisar. Eu deveria atacar então a fonte de onde brotava tanta insegurança que se revelava através de um perfeccionismo sufocante: minha autoestima. Foi um mergulho muito profundo e bem dolorido em resgatar eventos no qual eu ainda não havia me perdoado, e que eram gatilhos para me sentir insuficiente. Foi necessário também perdoar pessoas que, intencionalmente ou não, contribuíram para instalar no meu intimo a minha desvalorização.

De acordo com Valerie Young, essa Síndrome nunca vai embora e confesso que por enquanto, acredito nela. Escrever esse textoàa convite da Joana foi um desafio. “Será que vão gostar? Será que está bom o suficiente? E se não gostarem? Quem sou eu no meio de tantas mulheres muito mais inteligentes para falar sobre isso? E se descobrirem que, na verdade, eu não sei é nada? Agora sim vão descobrir que sou uma fraude” foram pensamentos que permearam minha cabeça antes, durante e depois de enfrentar esse desafio. Eu chamo esses pensamentos de “trituradores”, pois eles são capazes mesmo de acabar com sonhos e o amor próprio. Mas sabe o que mudou, na Bel de antes e na de agora? Que assim como as mulheres incríveis que eu citei nesse texto, eu agi, eu escrevi, apesar de todos os pensamentos. Eu superei minha auto sabotagem. E nesse caminho, me tratei com muito respeito e compaixão. Não neguei os pensamentos, mas o rebatia em cada frase, cada parágrafo escrito. 

Pode ser que eu carregue essa síndrome comigo pro resto da minha vida, mas a medida que me supero, eu calo essa voz interna. E na medida em que eu a calo, eu dou voz a coisas muito mais lindas e poderosas que habitam em mim. Pois eu mereço isso. E assim como eu, você também. Se convença disso, mesmo que no inicio soe como uma mentira. Mergulhe fundo no seu autoconhecimento, busque apoio se necessário, mas não desista dos seus sonhos por causa dessa sensação de fraude.

Nesse mês das Mulheres, peço para que se liberte dessa crença que você não é o suficiente. Seja um agente de superação, por você e por todas as mulheres que te cercam. Pois como disse Marianne Williamson “Nosso maior medo não é o de sermos incapazes. Nosso maior medo é descobrir que somos muito mais poderosos do que pensamos…Quanto mais livres formos, mais livres tornamos aqueles que nos cercam”.

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1 Comentário

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    Milena
    14.03.2018 às 10:46

    Nossa, sabe quando você lê um texto que parece ter sido feito pra você? Te agradeço de coração, Bel!
    Infelizmente as mulheres são criadas de forma inferiorizada e crescem se achando sempre incompletas, incompetentes e nunca boas o bastante…não tenho a menor dúvida que tenho essa síndrome e tenho que me cuidar pra não me auto depreciar (como tenho feito a vida inteira)…

    Muito obrigada Jô e Carla por esse blog maravilhoso e que tanto me preenche diariamente…seguimos na luta juntas, mulheres! <3

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