12 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento/ Destaque no dia 12.03.2018

Papo sobre mulheres: Representatividade feminina e o poder de se reconhecer em outra mulher!

Para quem não me conhece, sou Carolina Burgo, publicitária e empresária de moda e me senti muito honrada de ser convidada para escrever uma coluna especial aqui no Futi. Obrigada, Jo e Carla! <3

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No texto de hoje vou falar sobre a importância da representatividade feminina no ambiente de trabalho. O texto é longo e dolorido, um desabafo enorme, mas eu queria retratar algumas situações que vivi com detalhes, porque sei que muitas mulheres vão se identificar com alguns sentimentos.

Minha jornada para processar tudo que escrevi aqui e tirar alguma coisa boa das inúmeras frustrações foi tão longa quanto o próprio texto.

Meu primeiro exemplo de liderança feminina foi a minha mãe. Não tive figura masculina dentro de casa, portanto meu referencial de força e trabalho veio inteiramente da conduta feminina. Minha mãe era o grande exemplo da casa, era quem administrava não só a vida doméstica como seu próprio negócio.

As inúmeras dificuldades da vida engrossaram sua casca e como líder ela sempre foi muito exigente, trabalhadora, justa, ética, nem sempre delicada, mas disposta a tirar o melhor de cada pessoa e a primeira a dar o exemplo de compromisso com o trabalho. Para mamãe, quando você diz que “não pode ou não consegue” fazer algo, você está automaticamente se fechando para o aprendizado. Nada é impossível de ser feito ou melhorado.” 

Na adolescência comecei a ser sua parceira de trabalho, ajudando no que podia, e muito da minha conduta profissional hoje, eu devo aos anos de trabalho com mamãe.

Eis algumas coisas que aprendi com o exemplo de conduta dela:

  1. Valorize seu trabalho, seu tempo. Todo trabalho tem um valor e você tem que saber colocar preço no seu. Taí uma coisa que muitas meninas não são ensinadas, mas mamãe, desde sempre, fez questão de me ensinar que eu não deveria trabalhar de graça para ninguém que estivesse ganhando dinheiro à custa do meu trabalho.
  1. Seu trabalho não é um favor para o seu chefe, é uma troca e, do mesmo jeito que você valoriza seu salário, seu chefe tem que te valorizar, afinal, quem faz a empresa dele funcionar é você, mas trabalhar bem não é mais do que sua obrigação. :)
  1. Questione. É importante questionarmos e debatermos o porquê das coisas, das regras, das condutas, das hierarquias, das decisões, sejam elas de nossos pares no trabalho, professores, chefes, não importa. Pessoas não são deuses inquestionáveis e quando a gente questiona a gente entende, muda, transforma.
  1. Ninguém é superior a você só porque te paga por um serviço que você fornece. Mais uma vez: é um troca. Essa ideia de que o chefe pode fazer o que quiser com o funcionário é meio escravocrata, né? Então trate a todos como iguais e exija o mesmo. Respeite o trabalho, respeite a pessoa do chefe, mas mantenha-se no mesmo nível de tratamento independente de hierarquias. (Com o tempo eu aprendi que nem todo cargo é mérito.)
  1. Essa é possivelmente a lição mais valiosa e foi pautada num ditado que eu escutei muito minha mãe falar: “Quem cala, consente.” JAMAIS fique calada diante de injustiças, não deixe de reivindicar seus direitos, não jogue pra baixo do tapete algo que está te incomodando, não coloque panos quentes naquilo que te fere, não comprometa sua ética, honestidade e valores, não sorria com diplomacia quando você não quer sorrir. Nem mesmo chefes, devem te subjugar a situações, condutas, ideias que vão contra seus princípios.

Contudo eu jamais imaginei que todo esse aprendizado, todos os valores recebidos através do exemplo de liderança que tive, serviriam muito pouco para crescer na minha vida profissional adulta.

Me formei em publicidade e propaganda e resolvi que queria ser diretora de arte e depois diretora de criação. Consegui um estágio logo no primeiro período e de lá pra cá todos os meus chefes diretos foram homens.

Sim, tive chefes homens muito queridos, para os quais trabalhei feliz, que amo e são meus amigos até hoje (mas conto nos dedos essas pessoas) e trabalhei com muitas mulheres incríveis ao longo desses anos todos, mas nunca fui diretamente chefiada por uma mulher, porque a área criativa das agências é domínio masculino. Mudei de agência algumas vezes e em nenhuma delas eu encontrei uma diretora de criação na qual eu pudesse me espelhar, que me fizesse sentir representada e, principalmente, que me fizesse ver que era possível eu chegar lá também. Tive que encontrar essas representações em amigas de trabalho e me apoiei nelas na esperança de mudar um universo cuja participação feminina tem pouquíssima força.

Durante muito tempo eu não questionei o machismo estrutural das agências de publicidade como um reflexo claro da nossa sociedade e simplesmente parecia natural só ter chefes homens na criação. Essa visão mudou quando o feminismo entrou na minha vida, mas esse é outro longo papo.

Diante da percepção de realidade que eu tinha no momento, fui colocar em prática os ensinamentos de mamãe.

Nunca trabalhei de graça. Nem estágio. Sempre tentei negociar bons salários (tive sucesso em alguns) e via amigas minhas sofrendo pra colocar um preço no próprio trabalho, porque autoestima e valorização profissional são coisas que as mulheres não são ensinadas a ter, já que nossa criação e validação social é sempre pautada na beleza. Para minha surpresa, muitos dos meus colegas homens ganhavam mais que eu para desempenhar a mesma função.

Depois eu comecei a trabalhar incansavelmente. 19 horas por dia. Com febre. Doente. Tomando remédio pra estresse. Tendo vertigens em frente ao computador. Tudo isso pra contrariar a ideia de que mulher não aguenta trabalho pesado. Era questão de honra, eu ia aguentar, nem que isso custasse minha saúde. E custou.

Fiz o meu trabalho, fiz trabalho dos outros, fiz trabalho de muitos. Elevei à máxima potência o ensinamento de que nada é impossível e sempre podemos melhorar. Aí percebi que muitos dos homens à minha volta tinham trabalhos bem medianos, outros sequer faziam o próprio trabalho e que eu, como mulher sentia que precisava me provar mais do que todos, se quisesse algum tipo de reconhecimento. Ainda assim nunca fui realmente promovida.

Trabalhei numa agência que atendia uma marca feminina, então vi uma porta se abrindo para mim. Era o meu território de conforto e a vaga de direção de criação precisava de alguém. Essa poderia ser a minha chance, mas colocaram mais um homem pra ser meu chefe. Ele ganhou o cargo, um salário duas vezes maior que o meu, mas eu que fazia o trabalho dele.

Pensei: deve ser muito difícil mesmo ser diretora de criação. Com certeza eu ainda não estou preparada para o cargo. Talvez eu precise de mais anos de experiência, ficar mais velha, aprender mais coisas, entender de todas as áreas da agência, fazer algum curso de gerenciamento de equipes. Cheguei à conclusão que meu esforço ainda não tinha sido o suficiente, que eu não era excelente e era isso que faltava.

Então aprendi a escrever roteiros, a planejar campanhas, a entender minimamente um plano de mídia, a absorver tudo que eu podia.

Mudei de agência, mais uma que atendia uma conta exclusivamente feminina e pensei que talvez ali sim, eu poderia mostrar todo meu potencial e ser reconhecida.

[Percebam que um padrão se repete: a necessidade de reconhecimento. E isso era indício de que, apesar de me achar competente, minha autoestima já estava minada e a minha relação como trabalho já não era mais saudável.]

Todas as minhas colegas eram mulheres, cheias de força produtiva e criativa e trabalhávamos numa sinergia que eu jamais senti na vida. Parecia o céu!

Mas vou deixar vocês pensarem por 2 minutos sobre a chefia da agência.

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100% masculina.

Todos os chefes eram homens. Pessoas que sequer sabiam a diferença entre um condicionador e um finalizador, mas que estavam ali gerindo uma equipe de mulheres que não se sentiam representadas nem ouvidas por eles, criando para um público que eles não faziam a menor ideia dos seus anseios e lutas, porque nós éramos o público, eram os nossos anseios que não encontravam voz ali.

Eu não posso nem colocar em palavras o vazio que eu senti. A falta de conexão com tudo aquilo que eu estava fazendo e pior, sem saber por que eu estava fazendo, pra quê, pra quem.

É muito natural que, na falta de lideranças femininas dentro dos ambientes de trabalho, as mulheres se sintam desamparadas e expostas a algumas condutas masculinas que acabam nos ferindo. Em todas as agências que passei ouvi ideias machistas, piadinhas de mal gosto, um “ela tá de tpm”, observei abusos, mas em algum momento parei de sorrir e fingir que estava tudo bem e coloquei em prática o ensinamento do “nunca ficar calada diante de qualquer coisa que você ache injusta e lutar sempre” . Bati de frente, briguei, questionei chefias,  discursos e cargos com homens despreparados. Adivinhem só?

Uns tempos depois fui demitida sem maiores explicações, por um chefe muito mais novo que eu, mais inexperiente em diversas áreas, mas que estava num patamar de hierarquia profissional ao qual eu entendi que não teria acesso, porque eu simplesmente era uma mulher “muito difícil de engolir”. Eu não fazia o jogo da diplomacia. Eu não sorria todos os dias, da minha boca, afinal, não saíam só flores e arco-íris.

Eu queria mudar as coisas, mas fui solenemente calada.

O que invalidou minha incansável jornada? Quando foi que eu deixei de ser competente? Quantas coisas eu teria que silenciar para conseguir crescer? Quantos remédios eu teria que tomar para suportar competir num mercado onde não existe representatividade feminina nas lideranças? Quanto de mim eu teria que doar a mais, antes de me perder?

Além do mercado não estar preparado para dar oportunidades iguais às mulheres, muitos homens também não estão preparados para lidar com mulheres “não domesticadas”. O meu comportamento dito “agressivo”, bossy, impetuoso, “conflitante”, é tudo aquilo que os homens qualificam – em outros homens – como enérgico, afirmativo, decidido, questionador, PAU NA MESA. (E como eu odeio essa expressão!) Aquilo que minhas amigas mais admiravam em mim, toda a determinação, força e energia pra fazer as coisas darem certo para todas nós era, afinal, um grande desconforto para o ego masculino.

Eu, que achava que era forte e aguentava tudo, desabei feito um frágil castelo de cartas. Por muitos anos eu me culpei por não ter chegado na bendita direção de criação. Todos os lugares que trabalhei tive o reconhecimento das mulheres, fiz amigas pra vida inteira, conquistei e devolvi admiração e ali estava eu, no maior sentimento de desamparo do mundo.

Digerir uma demissão sabendo que você é competente é foda. (Desculpem o palavrão). Sua autoestima vai lá no chão, você se sente o pior ser humano. Chorei muito, não de tristeza, mas de revolta e cansaço. De lutar tanto pra ser reconhecida e não atingir a meta que coloquei pra mim mesma 14 anos atrás. Nesses anos todos eu apenas acumulei trabalho e noites em claro, tudo em troca do reconhecimento de um mercado que não está preparado para lidar com mulheres.

Nesses 14 anos de agência eu observei alguns tipos de liderança masculina: os inexperientes, os incompetentes, os abusivos, os egocêntricos, os grosseiros, os despreparados, os imaturos, os egoístas. Tudo que nenhuma mulher poderia ser eles foram e chegaram lá, e eu achava que eram essas pessoas que supostamente deveriam reconhecer o meu valor.

Porque eu queria ser validada por homens que nem eu mesma admirava? Não fazia sentido.

Minha mãe, sempre ela, recolheu meus caquinhos e me levantou. “Minha filha, você não perdeu nada. Eles perderam uma profissional dedicada e você não precisa de um chefe reconhecendo o seu valor, olha quanta gente admira teu trabalho, Carolina!”

Na maioria das profissões as mulheres tem dificuldade em crescer nas carreiras e nossos horizontes são limitados por questões de gênero mesmo. O mercado não quer saber das nossas demandas. Da nossa boca, só querem flores, batom vermelho e nada mais.

Por esse motivo é que ano após ano vem crescendo o número de novos empreendimentos liderados por mulheres, mais precisamente 34% dos novos negócios dos últimos 14 anos são administrados por mulheres, porque diante da falta de perspectivas profissionais que abracem nossas vidas e anseios, que respeitem nossas vontades, cada dia mais somos forçadas a abandonar carreiras para tentar algo novo, onde tenhamos espaço e autonomia para trabalhar bem e ser feliz.

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Hoje não me culpo mais pelo cargo não alcançado e vejo que todos os sacrifícios que fiz me tornaram uma profissional mais completa, mais eficiente. Entrei para a estatística de jovens empreendedoras que encontraram no negócio próprio uma forma mais significativa de viver.

Dedico 70% do meu tempo à Prosa, minha marca de roupas com foco em estamparia afetiva, onde tudo que eu crio tem um componente emocional especial pra mim e 30% do meu tempo eu faço alguns freelas.

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Só trabalho com mulheres e faço roupas para mulheres. Uso a minha energia a entender o que poderia fazer uma mulher se sentir bem consigo mesma, ainda que seja na frente do espelho. Crio para que mais mulheres se sintam confortáveis, especiais, confiantes e seguras de si, porque isso não pode ser um privilégio exclusivamente masculino.

Meus dias não são só flores. Meu trabalho continua sendo árduo, duro, desafiador, com dias de choro e desespero, mas eu sei que hoje eu consigo também inspirar outras mulheres a seguir em frente. Sei que muitas se sentem representadas pelo meu trabalho ou pelas minhas escassas palavras e cada vez mais entendo que todas nós temos o papel de alimentar essa corrente de representação feminina, força e apoio, porque quando uma de nós cai, uma de nós ajuda a levantar. Quando uma mulher representa, todas sabem que podem chegar lá.

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12 Comentários

  • RESPONDER
    Milena
    12.03.2018 às 9:53

    Eu me arrepio ao ler os textos da Carol, sério! Que MULHERÃO, gente!
    Infelizmente eu sou desse meio e é exatamente assim que funciona…mulher não tem oportunidade, sempre tem que provar seu valor e nunca é reconhecida.
    Ainda temos um árduo caminho pela frente, mas seguimos JUNTAS! <3

  • RESPONDER
    Adriana
    12.03.2018 às 10:40

    Textão da porra! Carol arrasa muitoooo!

  • RESPONDER
    Paula Roberta
    12.03.2018 às 13:04

    Nossa que tapa na cara da publicidade machista esse texto, não sou da área, mas deu pra sentir o quanto nós mulheres somos subestimadas e diminuídas, mas é aquilo que a Carol escreveu: ”porque quando uma de nós cai, temos a outra para levantar”. E sigamos nos fortalecendo e levantando umas às outras! <3

  • RESPONDER
    Liege
    12.03.2018 às 13:27

    Carol é incrível!
    Nos inspira demais <333

  • RESPONDER
    Syl
    12.03.2018 às 13:40

    Maravilhosa! Sou muito fã. É foda viver todos os desafios de ser mulher num mercado ainda tão machista. Dos homens, espero muito pouco, talvez por isso não me surpreendam as decepções. Tenso é quando vejo mulheres reforçando esse comportamento tipicamente masculino pra não perderem espaço. Precisamos muito falar sobre essas questões! 💙

  • RESPONDER
    Nati
    12.03.2018 às 15:46

    Lindíssima, falou tudo!!

  • RESPONDER
    Maiara
    12.03.2018 às 16:28

    Carol, que relato visceral! Texto incrível, como você domina bem as palavras! Me sinto representada por você! Obrigada por esse texto! Beijo grande!

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    Ingrid
    12.03.2018 às 16:55

    Maravilhosa! [PALMAS!]
    Falou o que muitas pensam, e lhe digo, infelizmente, isso não acontece apenas na publicidade.

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    Ma Stump
    12.03.2018 às 22:49

    Sou muito fã da garra e sensibilidade da Carol, nos textos, fotos e desenhos! Já tem tempo que a acompanho e tô feliz de vê-la aqui tbm!

  • RESPONDER
    Mônica
    13.03.2018 às 20:34

    QUE TEXTO! QUE MULHER!

  • RESPONDER
    Jéssica
    13.03.2018 às 22:28

    Você é incrível, Carol! Uma inspiração pra mim.
    Continue sendo mandona, agressiva, sem baixar a cabeça pra homem nenhum! Você nos representa.
    Admiro e aprecio seu trabalho, inclusive através de peças da Prosa.
    Que seu trabalho cresça cada vez mais!
    Beijao

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    Nary
    18.03.2018 às 18:49

    Obrigada Jo e Carla por abrirem esse espaço, os textos estão incríveis.
    Obrigada Carol por escrever o que eu precisava ouvir, fui demitida de uma agência em detrimento de um homem com 1/3 do meu potencial e conhecimento, e do meu tempo de trabalho dentro de mkt digital. Fiquei extremamente frustrada, chateada, stressada, mas espero que essa mudança me traga boas coisas.

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