4 em #paposobremulheres/ Autoconhecimento/ Comportamento no dia 08.03.2018

Papo sobre mulheres: Esquece, você não é bonita e vai ter que compensar no resto….

Eu devia ter uns 15 anos quando disse pra mim: esquece, você não é bonita e vai ter que compensar no resto. Analisando friamente, compensar foi o verbo que regeu a casa da beleza no céu da minha vida durante muitos anos, eu diria mais de uma década. Esse processo era inconsciente, eu não sabia que tinha me dado a tarefa de ser a mais legal das pessoas como medida de compensação de uma suposta ausência de beleza.

Você vai ter que ganhar no carisma! Era isso que eu repetia pra mim como um mantra, mas no fundo nem eu mesma acreditava que eu iria conseguir equilibrar a balança e de fato “vencer” a beleza com o carisma. Conteúdo e inteligência eram minhas armas, agradeço até hoje por ter desenvolvido bem essas habilidades, mas no fundo eu ouvia com pesar a musica sucesso da boy band do momento enquanto sofria apaixonada pelo cara que acabou virando um dos meus melhores amigos, óbvio!

Já que eu não conseguia ser magra, dona de um cabelo bonito (leia-se, liso e sedoso, como nos comerciais de tv) ou mesmo perfeita (dentro dos padrões estéticos socialmente esperados), de uma maneira geral, precisava fazer muita força para merecer o cargo que me restava: o meu papel seria o de melhor amiga, aquela que acompanhava a protagonista e não precisava viver suas próprias aventuras amorosas e desventuras em série. 

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registros de uma adolescência como outra qualquer

Na época eu entendia cada turma do colégio como uma peça de teatro, cheias de personagens enigmáticos, reviravoltas e confusões. Nessa obra os dramas duravam muitos meses, os personagens não mudavam e os papéis de protagonismo iam se alternando conforme a relevância do adolescente mais rebelde ou das confusões amorosas do casal mais comentado da sala. Se eu estava na ilusória galerinha popular do meu ano, eu precisava merecer aquele lugar e, pra isso, ainda que com a ausência de protagonismo, eu precisava de muita simpatia para compensar a falta de atributos físicos que me contemplassem com o rótulo ilusório que dizia: essa menina é parte das garotas bonitas.

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registros de uma adolescência como outra qualquer (2).

Beleza não põe mesa, diziam alguns. Não sei onde viviam essas pessoas, pois naquela fase quem não atendia ao padrão de beleza adolescente um tanto desengonçado do ensino médio, não fazia ideia de como era difícil abraçar a persona da menina mais legal de todas. Fazia falta um pouquinho de beleza que fosse. Não foi fácil ser adolescente, pior ainda foi ter que quebrar, já na vida adulta, esse filtro de ilusão que não me permitia olhar com amor para meu corpo, meu reflexo.

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17 anos e duas meninas normais numa foto… Pelo menos é o que enxergo hoje.

Eu não precisava compensar nada. Eu só precisava ser eu mesma, reconhecer meu valor e desenvolver estima por mim. Me vi incrível, inteligente, competente e bonita pela primeira vez aos 28 anos, resultado de uma longa jornada de reconexão comigo. Isso tudo sempre esteve lá, meu olhar só estava contaminado demais pra enxergar.

Só que essa história não é só minha e justamente por isso precisamos falar sobre tudo que constrói esse padrão de beleza que segrega, aprisiona, não diversifica, limita e adoece. Porque a beleza não é o melhor atributo de uma mulher, nem de longe! No entanto, eu acredito que ela pode ser encontrada de alguma forma, em quem quiser buscá-la.

Só que a gente não cria esses pensamentos sozinhos. A escola ajuda, mas é em casa que esse jogo começa. Quando a gente é jovem a gente acompanha os dramas dos nossos familiares e acreditamos que devemos ter as mesmas preocupações que os nossos pais. Uma mãe que sinaliza insatisfação com o próprio corpo em tempo integral pode acabar repassando este padrão de comportamento para a filha, sugestionando e contaminando suas referências. Um pai que comenta, incansavelmente, o peso da criança pode gerar um conflito, jamais imaginado. Uma família que não se alimenta de forma equilibrada e tem uma relação de amor e ódio com a comida pode, inconscientemente, passar adiante uma relação cheia de culpa com a alimentação. Colocar a criança no contexto da pressão estética é mais simples do que ensinar a escovar os dentes sozinho. Antes mesmo de entrarmos na escola da vida, podemos já ter sido bem doutrinados (ainda que através do exemplo) na escola da insatisfação. É muito fácil se tornar uma menina com questões de imagem se a pressão por ser bonita começar em casa e ao invés do reforço positivo, muitos pais acabam pressionando por sacrifícios na busca por uma beleza difícil de manter.

É muito fácil não ver beleza quando todas as referências que se apresentam faz com que a jovem se sinta massacrada com um padrão inatingível, seja em casa, na escola ou nas redes sociais. Muitos pagam muito caro para chegar nesse patamar do que julgam ser belo e quando alcançam o objetivo almejado, continuam a vivenciar o mesmo vazio, sentindo-se imperfeitos e focando no que ainda acreditam que precisa ser mudado. O foco fica preso fora, mas a solução está dentro.

A pressão por beleza causa confusão. Nos esquecemos que o que realmente importa está dentro de nós, e é no processo de autoconhecimento que o despertar da verdadeira essência chegará, trazendo um novo olhar, pra dentro e para fora, sem compensações, de modo que o indivíduo possa se enxergar como um todo, com inteligência singular, comportamento próprio e aparência única. Porque quando ajustamos o olhar, vemos o significado da beleza se multiplicar.

É muito fácil fugir do papel de protagonista da sua própria vida, ainda mais quando nos ensinam a ser uma mulher que precisa abraçar tantos papéis para , mas as vezes o mais importante é deixar as máscaras caírem para começarmos a nos interpretar de verdade, como realmente somos, sem precisar compensar nada. 

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4 Comentários

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    Tereza Luiza
    09.03.2018 às 8:29

    Parabéns pelo texto, Joana! Gostaria de ter lido quando era adolescente, mas fico feliz de agora, aos 33 anos e mãe de duas meninas, estar participando dessas reflexões que o papo sobre autoestima traz! Espero ser um exemplo positivo pra minhas filhas do olhar amoroso para comigo e para com os outros! Beijos! Que Deus ilumine sempre essa bela jornada de vocês!

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    Maiara
    09.03.2018 às 15:55

    Texto incrível! Fiz uma viagem no tempo aqui e ainda estou digerindo! Obrigada!

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    vanessa nascimento
    09.03.2018 às 17:11

    Texto incrível… Obrigada por ele!
    Durante toda a fase da adolescência eu passei por isso, mas eu não entendia o que estava acontecendo de fato. O fator “compensação” também bateu aqui.
    Meus dentes não eram alinhados, eu tinha acne, meu cabelo não era liso… mas como num passe de mágica eu passei por aquela fase que nossas mães costumam chamar de “ganhar corpo” e, acredite se quiser, isso quase me destruiu. Eu não me sentia bonita e de repente eu virei a “gostosa”, e pra mim eu me dei o título de Raimunda e isso foi tão brutal q nem consigo descrever aqui os problemas que isso ocasionou a longo prazo com relação à forma como eu enxergava meu corpo. Eu odiava meu corpo pq “sabia” que todo menino só se me via como um pedação de carne (na minha cabeça de adolescente em crise isso era muito claro).
    Aí veio a compensação, eu tinha que ser a mais inteligente não me importava as noites em claro ou a gastrite. Porque qdo alguém me chamasse de gostosa eu diria: eu sou inteligente, sabia?
    Minha crise se agravou pq qdo eu reclamava com as minhas amigas sobre o qto isso me incomodava, elas não conseguiam entender pq eu me sentia ofendia em ser chamada de gostosa (que pra mim era sinônimo de Raimunda pq me achava feia demais), que era o que toda garota queria… mas elas não sabiam que eu tentava a todo custo perder as curvas, que eu desenvolvi bulimia e o sonho de ser magra como um palito era minha meta de vida. Tudo isso pq eu queria ser vista como um todo… e não como uma bunda.

    Eu disse que a compensação bateu aqui também, pq mesmo que as situações tenham sido distintas, a não aceitação também fez parte da minha vida.

    Hoje estou com 35 anos, mas foi apenas aos 32 que eu me senti bonita de verdade, em paz com minha estrutura corporal, mudei o que quis mudar esteticamente pra me ver mais feliz e não pra agradar o outro, passei um tempo cultivando o amor por mim, e ele floresceu lindamente. Pq qdo eu consegui enxergar o todo, eu vi q era eu que me sentia apenas uma bunda e nada mais, então eu iniciei o processo de rever as fotos antigas e deixar que minha família incluísse as fotos que eu escondia pq tinha vergonha de aparecer nos álbuns. Comecei a listar tudo de bom que sabia que já tinha sim, eu era dedicada, parceira, leal e… LINDA! rsrs. Não sei o que acontece, mas qdo vc começa a se enxergar desse jeito uma corrente do bem se estabelece e as pessoas ao seu redor te notam diferente. Pq né, como exigir que o outro nos enxergue de uma forma caridosa qdo se é tão carrasco consigo mesmo?

    Enfi, obrigada por tudo Jô!

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    Cristiana Rebouças
    02.06.2018 às 1:02

    Nossa, estou aos prantos! Nunca tive uma boa relação com meu cabelo, que era crespo e não sabia como cuidar dele para que ficasse bonito como ele é, então ele vivia preso e sufocado e acho que por isso não crescia. Juro, não lembro do meu cabelo ter passado dos ombros por anos. Além de usar óculos “fundo de garrafa” por conta da minha glaucoma, desengonçada e absurdamente tímida, eu me sentia invisível na escola, só era eu mesma com minhas amigas, graças a Deus sempre tive sorte com as amizades que fiz. Hoje sou mais aberta, segura e comunicativa, como a sagitariana que sempre fui, mas que era sufocada na adolescência, com medo do julgamento alheio. Ler esse texto me fez lembrar o discurso da Barbra Streisand no filme O Espelho Tem Duas Faces (o discurso da aula dela, maravilhoso por sinal) e me lembrei também como chorei nos primeiros 5 minutos do filme O Extraordinário, porque me identifiquei com a narração do menino, sobre como ele se escondia das outras crianças, por causa da sua aparência. Esse texto mexeu comigo e se mexeu é porque ainda tenho muitas questões para trabalhar e por isso eu agraço muito, Jô!

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