5 em Looks/ Moda no dia 05.03.2018

Look da Jô: resolvendo a inadequação… Comprar no masculino foi a solução!

O post de hoje é sobre um look normal, comum, desses que você pode ver em toda esquina. Nele só há um detalhe curioso, que foi o suficiente para que a gente pudesse transformar uma roupa comum em um texto do blog: a calça jeans.

Mas Joana, por que uma calça jeans tão bonitinha e básica será assunto? Explico: porque resolvi pela primeira vez na vida dar uma volta na ala masculina da Zara e logo de cara achei uma peça que poderia servir de forma apropriada e confortável no meu corpo.

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Eu abri os horizontes e descobri que existe uma possibilidade de um olhar mais neutro, independente dos gêneros na moda. Se meu short jeans preferido pode fazer referência a um modelo “roubado do namorado” e por isso se chama boyfriend, por que eu não poderia testar de forma mais literal essa experiência? Por que não entrar na Zara Man e buscar peças que podem, sim, vestir bem, sem precisar ter um namorado pra isso?

Eu sou apegada à peças com algum grau de cintura marcada, então creio que jaquetas ou camisas nem sempre poderão fazer meu estilo, mas shorts e calças jeans masculinos podem mesmo atender as minhas expectativas, a partir de agora ficarei de olho.

Esse post poderia acabar aqui, mas não vai…

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camiseta Miss Mano | calça Zara Man | bolsa Santa Lolla | bota Cavage | óculos Euro

Não acaba aqui  porque o que rendeu muitas trocas de comentários e mensagens diretas no meu instagram não foi o fato de eu ter comprado na sessão masculina de uma loja…. Foi o fato de eu ter contado que não é simples comprar calça jeans para o meu tamanho quando levamos em conta as lojas convencionais do shopping. Isso sim impressionou uma galera.

Bom, no quesito tamanho me sinto pouco incluída justamente por estar em um limbo. Diferente da maioria das minhas amigas mais magras e mais gordas, eu não vejo muitas opções em lojas brasileiras, ainda mais nas mais descoladas ou com um custo benefício mais bacana. Muitas vezes vocês me perguntam de onde é uma peça mais estilosa, quase sempre cito que é de alguma marca de Londres, o lugar que eu acho mais democrático em termos de tamanho. 

Não conseguir comprar em lojas tradicionais e nacionais não é um problema que só enfrentei agora, com mais de 85 quilos. Para ser bem honesta, mesmo quando pesava uns 70 eu tinha muita dificuldade em encontrar peças que não pulassem ou apertassem o meu corpo. Elas cabiam, mas estavam sempre espremendo algo aqui ou ali.

Até hoje não sei se o problema eram as marcas ou a falta de referências, afinal, todas as minhas amigas vestiam calça baixa e eu queria vestir também, mas até no meu peso mais magro elas faziam tudo pular. Nessa hora eu poderia ter mudado de modelo ou comprado uma maior, mas o que ficava bom na perna, fazia pular na cintura e, nesse dilema, calças sempre foram uma questão. Até que aceitei o óbvio – não tão óbvio na adolescência: eu deveria usar calças altas, que favoreciam mais o meu corpo, independente da boca ou do modelo. Elas precisavam abraçar minhas curvas, não quebrá-las no meio. Foi assim que em 2013, eu comecei a empreitada de comprar calças altas e nunca mais parei.

No entanto, quando eu estou num manequim GG ou 44 fico no tal limbo: ou compro em lojas cuja grade termina aí (e na maioria das vezes o 44 na verdade veste um 42) ou preciso procurar marcas que ainda não conheço e que começam do 44 em diante para atender ao público plus size. Simplesmente ter uma grade que vai do 34 ao 48 é uma tarefa que parece inviável para as marcas que operam no Brasil. Eu particularmente acho triste, parece que segrega as mulheres ao invés de apostar em uma moda inclusiva para muitas.

No entanto toda a reflexão da calça masculina não ficou apenas no entorno de “encontrar ou não uma peça de moda na sessão do masculino”. Parece que causou algum incômodo eu afirmar que eu não conseguia comprar calça jeans na parte de mulheres.

Bom, para começo de conversa… Hoje, ontem e há alguns anos, independente do estágio do meu (ex para sempre, assim eu espero) efeito sanfona eu visto “extra large” na Zara. Sou larga, sou alta, sou grande, sou bem mais pesada do que a maioria das mulheres com quem convivo e tá tudo bem. Ainda assim sou uma privilegiada de pelo menos uns 60% da coleção caber em mim no maior tamanho. Muitas outras mulheres não têm essa mesma oportunidade. Têm o dinheiro, vão naquele shopping, mas não compram porque não conseguem. Então, tudo que eu disser a partir daqui, inclui o fato de que tenho consciência do meu lugar de privilégio que nem sempre preciso ir em lojas especializadas e o último tamanho de várias marcas pode funcionar pra mim – ainda que essas não sejam a maioria ou até mesmo com um bom custo benefício.

Segundo ponto, o jeans feminino da ZARA nunca coube bem em mim, sempre ficava baixa, o bumbum mal cabia e mesmo na minha versão mais magra, todas as vezes que resolvi dar uma chance, percebi que eles nunca abraçaram meu corpo bem. Ou seja, nesse caso não perdi muito, mas muitas outras vezes deixei de levar pra casa algo que realmente queria, para levar algo que simplesmente cabia, mesmo muitas vezes não vestindo bem. Quem passa por isso sabe tanto quanto eu que é uma experiência péssima.

 

Um provador pode parecer inofensivo, mas muitas vezes é ali, ao não encontrar algo que nos veste bem, que ganhamos uma real noção do quanto estamos inadequadas para a moda. Você pode ter uma ótima relação consigo, mas é difícil sustentar isso quando você não consegue se vestir da maneira que gostaria. Fico imaginando os dilemas e desafios das mulheres que precisam recorrer à marcas que trabalhem bem o conceito de “plus size”. Porque sair sem se adequar a algo que você queria traz uma frustração que se você não estiver muito segura de quem você é, pode mexer com sua autoestima.

Apesar de muito debate sobre meu rótulo “correto”, o que eu gostei nesse episódio foi de resolver minha questão. Queria uma calça 44 que resolvesse uma demanda, achei, gostei e comprei. Tinham números menores e maiores, a cintura é alta, ela é confortável e bem bonita.

No entanto, o que realmente me impressionou no assunto foi a quantidade de gente preocupada em dizer que eu não era gorda, ou magra ou que não era tão difícil encontrar roupa pra mim. Doce ilusão… Meu armário cheio das mesmas marcas e com toques de peças gringas denuncia: não é fácil comprar roupa para esse corpo aqui. Nunca foi, independente do peso. Os números da moda sempre foram motivos de depreciação, sugestões de emagrecimento ou comentários sobre meu corpo.

Por que a grade masculina de jeans passa do 46 e a feminina não passa do 42? Não sei! Quero evitar os argumentos clichês que tenho em mente, infelizmente eles são todos sexistas. Começa com a pressão da magreza feminina e termina com permissividade dos homens serem mais “do que um padrão de beleza”.

Beijos

fotos Pedro Mena: @menaphotography

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5 Comentários

  • RESPONDER
    Luiza
    05.03.2018 às 20:25

    Que barra precisar falar que todas as suas calças maneiras são de Londres, né. História triste mesmo. Quase chorei.

    • RESPONDER
      Joana
      05.03.2018 às 21:03

      Não as maneiras, elas são bem sem graças a na real…
      Elas só vestem bem mesmo, mas não to podendo reclamar dessa da Zara Man não.
      Meus shorts que vestem bem são da Renner e vida que segue, o importante é achar o que fica bem na gente e a gente gosta.

    • RESPONDER
      Sílvia
      05.03.2018 às 22:05

      Eu acho que é uma barra a partir do momento em que ela não encontra algo confortável em lojas convencionais aqui, o que lá fora é mais fácil, e usa looks legais que inspiram outras pessoas que infelizmente não podem adquirir essas mesmas roupas por não terem à disposição. Nesse ponto que fica a empatia por todas essas pessoas que estão na mesma situação e que não podem ir pra Londres e encontrar roupas que ficam bem. Mas infelizmente é aquela coisa, algumas pessoas tem essa empatia e outras não…

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    KATHERINE GUIMARAES
    06.03.2018 às 10:27

    Jo os textos de vocês me fazem sempre pensar em quanto vivemos em uma cultura opressora e sexista, onde o homem pode tudo e a mulher não pode nada.
    Onde os padrões estéticos são aplicados as mulheres, mas jamais aos homens (ao menos não com o mesmo peso).
    Eu moro na Italia ha três anos, viajo realmente muito a trabalho por toda a Europa, e em TODOS os textos de vocês tento fazer um comparativo sobre como a visa aqui vem impactada pelos mesmo tópicos.
    Lembro que quando cheguei aqui e comecei a fazer amigos, achei MUITO estranho os caras sendo super legais comigo sem interesse aparente. Eu ficava esperando quando eles iam dar em cima de mim, ou me sentia incomodada com os namorados e maridos das minhas amigas sentados por horas conversando comigo, e todo mundo de boa.
    Depois de um tempo entendi e realizei que para eles eu nao era so um pedaço de carne que eventualmente eles iam querer pegar.
    Eu era uma pessoa, e essa foi a primeira vez que comecei a resignificar a minha relação com homens e como a mulher é vista fora do Brasil, ou pelo menos aqui na Europa.
    Outro comparativo, no escritório, na rua, no grupos de amigos não sinto pressão nenhuma para fazer as unhas, para alisar o cabelo, para estar maquiada ou bem arrumada.
    Senti o que é nao ter meu caráter ou minha personalidade pre-julgados pela minha aparência ou pelo meu tamanho. Simplesmente pq a aparência, o externo, a roupa é segundo plano aqui.
    Eu quero agradecer a voces pela militância, por me ajudar a ter consciência desses tópicos, que muitas vezes me passam despercebidos.
    Obrigada por ajudar essa mulher aqui!

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    Suelen
    26.08.2018 às 10:00

    Você conseguiu entrar no provador feminino com roupa masculina?

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