0 em Autoestima/ Looks/ Moda no dia 19.02.2018

Looks da Jô: um carnaval sem esconder meu corpo.

Todo carnaval tem seu fim e com esse não foi diferente. No entanto dessa vez acabou a temporada de folia, mas algo ficou. Tomei pra mim de forma atemporal essa liberdade de me expressar com a moda praia da maneira que eu quiser, sem me preocupar em esconder meu corpo. Sabe aquela parte que a pessoa te dá uma dica de como esconder ou disfarçar? Então, eu abstrai esse tipo de informação e me vesti exatamente como senti vontade, sem pensar que para usar o maiô rosa eu precisava perder a gordura das costas ou para sair de biquini pela rua seria necessário perder não sei quantos quilos. Moda praia foi meu ponto de partida para os looks dos blocos do Rio, assim como eu vi acontecendo com tantas outras mulheres.

Em 2009 eu era bem mais magra, mas passei o carnaval me escondendo. Eu vinha num processo complicado que envolvia uns 3 tipos diferentes de transtornos alimentares. A meu ver, meu corpo não era perfeito o suficiente para ser colocado para jogo nunca, seja na praia ou no Carnaval. Quando tinha biquini, tinha uma blusa.

Em 2017, apesar de já estar no processo, meus looks ainda eram mais cobertos. Em 2018 tudo foi diferente, meu corpo era apenas meu corpo e ele poderia ser usado da maneira que eu quisesse.

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Em 2009: + de 16kg a menos, um carnaval com blusa por baixo no camarote, bloco escondendo tudo e o biquini só apareceu na hora que o sol ficou insustentável (com a camiseta na cintura, claro!). Tudo sem ter a real dimensão do tamanho do meu corpo. 

Minha meta nesse carnaval era curtir uma folia sem neurose! Isso eu fiz. Honrei cada palavra que digitei na carta aberta que escrevi para o meu corpo na minha coluna da Glamour.

Pode até ter acabado o tempo da fantasia, mas não da liberdade. Como bem disse o samba do Salgueiro: liberdade é resistência. Nesse Carnaval eu resisti ao padrão que tantas vezes nos oprime de forma impositiva e me joguei. Se ano passado eu fui conquistando um conforto maior em viver na minha própria pele como ela é, no carnaval desse ano eu acrescentei ao conforto essa sensação de indiferença ao que atende ou não a padrões. As dobras estão ali? Okay! Enquanto elas estão ali, também estão as minhas curvas, que eu aprendi a apreciar. Tudo que faz parte desse corpo ganhou meu respeito. Não é sobre beleza, é sobre eu me sentir confortável e poderosa comigo mesma.

fantasia

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biquini preto da Marcyn

Mais do que me divertir nos blocos, eu queria me expressar, usar fantasia de forma irreverente pela primeira vez, cortar um abadá sem me preocupar em esconder as gorduras localizadas. Eu queria que nenhuma crença limitante me prendesse, e agora que o Carnaval acabou, posso dizer que nesse ano eu consegui. 

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maiô rosa Marcyn + camiseta transparente da Três

Foi incrível a sensação de me vestir assim para a folia de rua. Foi libertador e engraçado, me senti mais divertida/ brincalhona do que de fato sou. Eu amei viver a experiência, recomendo! No entanto não posso mentir, usar a camisa do camarote com o nó na barriga foi mais difícil do que sair pelas ruas de biquini na fantasia de policial, na qual fiz o maior sucesso e depois de algumas brincadeiras, tive que encarnar o personagem em busca de justiça (tudo a ver com meu signo de libra, diga-se de passagem).

Só que enquanto na rua a liberdade era celebração coletiva das mulheres, em um camarote bombante ainda pode parecer uma semente recém plantada.  Entre tantas mulheres preocupadas em parecerem perfeitas, me vi resistindo ao sistema ao abrir mão desse disfarce de “defeitos ou imperfeições”.

Por um lado fiquei orgulhosa daquele simples nó. Há anos atrás ele seria impensado num corpo magro e aprisionado a padrões muito rígidos, nesse corpo livre ele era só um nó. Por outro lado, o ambiente ainda parecia cobrar uma perfeição maior de todos os presentes. Ambiente de paquera as vezes tem disso, né? No fim eu adorei, mas fiquei reflexiva. Será que eu conseguiria ir a uma semana de moda de barriga de fora? Quanto mais “opressor o ambiente” maior o nosso ato de resistência, definitivamente. 

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joana-camarote-2Antes que isso pareça muito utópico pra você, eu quero te falar uma coisa: não se engane! Isso não quer dizer que de todas as partes do meu corpo minha barriga é a preferida, tampouco que eu recito poemas de amor a ela antes de dormir toda noite, isso só quer dizer que seja lá como eu me sinto com relação a qualquer parte minha, isso não me aprisiona e não me limita. Não deixo de fazer nada por não ter o corpo que esperam de mim. 

Por mais que eu tenha conseguido um amor por esse corpo de hoje, não quer dizer que você precisa se amar a qualquer custo. Eu precisei de tempo, desconstrução e terapia pra chegar nesse ponto, mas ele sequer é necessário. Estou longe de criar uma nova doutrina de que vocês precisam amar seus corpos, ninguém TEM que amar nada. A vida pode ficar mais leve se você conseguir? Sim, mas você não precisa.

No entanto, o discurso de aceitação corporal não significa se acomodar, sentar no sofá para sempre comendo chocolate e que se dane. Autoaceitação muitas vezes é respeitar quem somos agora. Aceitar quem sou hoje pode significar ficar assim, ou mudar. Seja lá o que eu queira fazer, eu farei buscando me olhar com amorosidade e acolhimento. Tudo fica menos desgastante se a gente consegue parar de se odiar. Eu só acredito em mudanças definitivas quando elas são sustentáveis e graduais, com respeito a saúde como um todo (isso inclui saúde psicológica).  Sem metas inalcançáveis e efeitos sanfonas devido a impossibilidade de manter aquele corpo na rotina. Meu projeto carnaval (e ano todo) é ser feliz. 

Se eu vou mudar ou não o meu corpo um dia eu não sei dizer, no entanto, sei o que não quero: não mudar minha cabeça.

Mudar o corpo eu já mudei muitas vezes, mas isso nunca me levou aonde eu queria ir. Mudar a minha maneira de enxergar as coisas me trouxe tudo que eu buscava antes em dietas restritivas, remédios pesados, crises de transtornos alimentares e outras coisas que me levaram aos remédios mais fortes que tomei 10 anos atrás. Assim sendo, eu quero preservar minha saúde e sanidade. Cuidando do meu processo de autoconhecimento, que me proporciona essa sensação de segurança em ser quem sou agora, cada dia ligando menos para o julgamento externo (no que diz respeito ao meu corpo).

Em 2018 eu colhi o que venho plantando desde o final de 2016, não tem milagre, tudo precisa de tempo… Até mesmo no autoconhecimento. Para assim ter uma mudança de olhar verdadeira, que foi se transformando de forma gradual. Agora vocês imaginam 2019? Já quero pensar nas fantasias!

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