1 em Autoconhecimento/ Autoestima/ Destaque no dia 08.02.2018

Liberdade não é criar novos rótulos…

Vocês já perceberam que muitas vezes confundimos liberdade com aprisionamento? Me peguei pensando nesse assunto enquanto analisava algumas crenças antigas que eu tinha. E eu sei que as palavras são antônimas por natureza e, no senso comum, elas não deveriam dar espaço para nenhum tipo de confusão. Mas na prática, o que é acontece é que a gente acredita que liberdade é sair de um aprisionamento e entrar em outro.

Nosso comportamento muitas vezes não segue nossa linha de raciocínio. As vezes, ao nos vermos livres de um padrão de pensamento ou comportamento, já começamos a construir uma nova jaula com a verdade oposta, mas se ela não for flexível e não estiver em construção, pode apenas ser outra prisão. Exercer a liberdade verdadeira é se livrar dessa imposição sem criar uma nova.

Somos seres em transição e por mais estáveis que nossas verdades possam parecer, nós estamos sempre nos transformando e, com sorte, nos permitindo mudar, inclusive, de opinião. Sermos flexíveis e nos considerarmos em processo de transição é o que nos tira da posição arrogante de donos das novas verdades.

Na minha experiência nos últimos 12 meses, experimentar a verdadeira liberdade significou estar aberta a mudar de opinião quantas vezes fosse necessário. Foi ouvir (com amor ou com raiva mesmo) diferentes opiniões e retirar de mim mesma rótulos que antes não pareciam opcionais. Ou você é de esquerda ou de direita. Ou você é feminista ou machista. Ou você é hetero ou homo. Ou você é gorda ou magra. Só que essas palavras soltas não te definem.

Experimentar essa liberdade é abrir mão das crenças que nos foram impostas. É permitir-se questionar quando todo mundo está apenas seguindo um fluxo de manada. Viver a sensação de ser livre não é postar sobre isso no Facebook, tampouco experimentar novos discursos de desconstrução que novamente resumem todo mundo a 100% certo ou 100% errado. Sentir-se livre é se questionar, e mesmo na hora mais angustiante, buscar um auto acolhimento e pensar que está tudo bem não saber qual palavra te define. Uma palavra que te define agora pode ser volátil como uma molécula que muda de estado e pode simplesmente não te definir amanhã.

Para mim, a liberdade no seu sentido mais puro é respeitar que em vários momentos não saberemos ao certo onde nos enquadrar e vai estar tudo bem. Mas não é fácil ser livre. Nós (da maneira que fomos criadas) somos as primeiras a não lidar bem com esse momento.  Nosso ego tem uma mania de querer separar tudo de forma etiquetada e organizada, para assim termos a falsa sensação de que tudo sobre nós é sabido e tudo pode ser controlado. Só que essa sensação de controle é uma ilusão antagônica à libertação.

Você não é magra ou gorda. Você não é capitalista ou comunista. Você não é feminista ou machista. Você é algumas dessas coisas em alguns momentos, outras em outros. Você pode inclusive ser uma mistura de coisas opostas em fase de transição. Você é o que você quiser ser. Você pode simplesmente estar em construção.

O dia em que eu descobri que eu não era gorda foi muito angustiante e libertador ao mesmo tempo. Angustiante pois me perguntei qual seria minha nova etiqueta afinal? Me vi procurando uma, minha terapeuta me tirou uma bigorna das costas quando me explicou que eu não precisava definir meu corpo. Nessa hora você pode estar se perguntando o motivo de ter sido libertador… Se você achou que eu me senti bem por causa da carga negativa da palavra gorda, se enganou. No meu vocabulário “gordura” não é mais demérito e “gorda não é palavrão”. Me senti livre por não precisar mais me amarrar a rótulos, pertencer a caixas.

Abri mão de me definir por gorda ou magra. Afinal, nunca houve consenso. Para uma mulher de fato gorda, eu muitas vezes fui lida como uma magra fora do padrão. Para as mulheres magras, eu variei entre o gordinha e o muito gorda, mas sempre inadequada. No meu mercado de trabalho, eu sempre fui acima do peso e fora do padrão, mas no mundo real eu sou só uma menina com umas dobras aqui, umas gordurinhas acolá, um peso considerado alto e pernas magras. Então PARAR  de tentar assumir como verdade PARA MIM um rótulo ou outro foi LIBERTADOR.

Quem é você? Não sei ao certo, mas estou tentando descobrir.

Quem é você? Não sei ao certo, mas estou tentando descobrir.

Eu não precisava mais ser magra ou gorda. Bem resolvida ou mal resolvida. Feliz ou triste. Boa moça de família ou o oposto disso. A super empresária ou a que não quer nada com o trabalho. A feminista perfeitamente desconstruída ou a machista aprisionada.

Nada é fixo na vida, entre pretos e brancos sempre existiram os tons de cinza. Se encontrar num processo de desconstrução sem muitos rótulos pode ser o ato mais corajoso e menos arrogante para que possamos exercer a coragem de experimentar e nos proporcionar descobrir o que de verdade nos faz sentir bem, genuinamente. Não para atender aos anseios dos outros, sim para se conectar com a verdade dos nossos sentimentos, dando ouvidos ao nosso coração.

foto: @eternize.jaki

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1 Comentário

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    Luciana
    13.02.2018 às 10:45

    Eu me peguei nessa com a transição capilar. Fiz progressiva desde nova e um dia me peguei pensando que eu não tinha certeza de como era o meu cabelo de fato, tinha esquecido… Aí comecei a seguir muitas meninas fazendo a transição capilar e resolvi fazer também! Aí quando o meu cabelo tinha perdido e crescido sem toda a quimica, descobri um cabelo ondulado (como imaginava), muuuito volumoso (não lembrava), e bem mais escuro do que eu achava que era na real… Usei ele natural por alguns meses, e sempre me inspirando em meninas que fizeram a transição e pensando que eu TINHA que ter sim o cabelo natural e gostar dele ASSIM, e não podia me render à quimica. E de fato eu tinha aprendido a gostar dele natural, gostei de “conhecer” ele de novo e sentir o quanto ele estava saudável, mas a verdade era que ele me dava muuuito mais trabalho, testei todo o tipo de finalização, mas o volume dele fazia com que eu perdesse muito tempo do meu dia super corrido para arruma-lo, e no fundo eu sentia falta dele menos volumoso e mais fácil no meu dia a dia… Estava sofrendo, pq queria entrar no novo padrão da transiçao capilar! quando me dei conta disso, não tive dúvidas… Fui pro salão e dessa vez optei por uma quimica mais leve, que preserva as ondas mas tira o volume, e agora estou bem mais feliz e com um cabelo que combina com minha rotina corrida, mais fácil de arrumar :)

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