0 em Autoestima/ Deu o Que Falar/ Juliana Ali/ Relacionamento no dia 22.01.2018

A normalização do “date ruim” (e por que isso não pode acontecer)

Onze anos. Escola. Um menino quase desconhecido da mesma idade rouba um beijo na quadra de educação física. Susto. Ela nunca tinha beijado na boca.

Dezesseis anos. Virgem. Primeiro namorado quer transar. Ela também, mas ainda não, vamos esperar mais um pouquinho, pra ter certeza. Ele passa semanas e semanas insistindo. Muito. É chato. Fica climão. Ele fica bravinho, ela toda meiguinha, dizendo pera só mais um pouquinho, com cuidado pra não chatear o boy. Até que decide que vamos lá.

Dezenove anos, segundo boy da vida, mais velho, já quer transar logo de cara, no primeiro dia. “Não, não, pera, vamos sair mais algumas vezes, não é assim, tô na dúvida, nem sei se é assim que as coisas funcion… Será que é assim que as coisas funcionam???”. E ela transa mesmo sem estar a fim. Ele insistiu muito, fez cara de preguiça na hora que ela disse não. Ela não quer parecer uma tonta, vai ver que é assim que as coisas funcionam.

Vinte e quatro anos, já mais experiente, vai transar com um cara super bacana, lindo. Tudo indo bem até que ele pega a garota pela cabeça e empurra na direção da sua virilha, sinal claro e direto e obrigatório para “quero sexo oral, agora”. Que saco, se ela quisesse fazer ela faria, mas enfim, tá bom vai. E ela faz.

rindo de nervoso (e raiva)

rindo de nervoso (e raiva)

Algo similar ás situações acima já aconteceu com você? Aposto que, com algumas variações, já deve ter acontecido com a maioria das mulheres. Tudo o que falei foram casos reais que aconteceram comigo, na minha vida.

Por que estou contando essas coisas? Porque semana passada aconteceu algo que tem sido tratado de forma muito peculiar e perigosa, a meu ver.

Uma moça, que permanece anônima, relatou a um site americano (bem irresponsável, a meu ver), em detalhes, um encontro que teve com o ator/diretor/roteirista Aziz Ansari no segundo semestre do ano passado.

“Grace”, nome fictício, disse que o encontro foi um desastre. Que ele forçou uma situação. Apertou seu pescoço. Não leu os sinais verbais e não verbais que ela enviou. Foi agressivo. Ela não queria aquele sexo, estava desconfortável, se sentiu encurralada por estar na casa dele. Também de acordo com ela, Aziz não percebeu nada disso, achou que Grace estava curtindo pra xuxu e seguiu em frente.

A partir desse relato, as opiniões do público e da mídia imediatamente correram para dois pólos: os que começaram a gritar “abusador” e os que disseram “mano, foi só um date ruim”. Pior: muita gente usou o caso, leviana e oportunamente, para deslegitimizar o movimento de denúncias de assédio que tem acontecido ultimamente em Hollywood.

Pois bem. Pra mim, Aziz não é nem um estuprador e nem a história é um simples caso de “date ruim”. É mais complexo.

O que aconteceu aqui é o mesmo que aconteceu comigo nas situações que descrevi no início do texto. O mesmo que já deve ter acontecido com você alguma vez – ou algumas vezes – na sua vida.

O homem é mais forte que a mulher fisicamente. Em uma situação em que um casal está a sós, existe essa vantagem implícita. Além disso, por conta da sociedade patriarcal, o homem é sempre “o experiente”, “o protetor”, “o que ensina o sexo”, enquanto a mulher é “a submissa”, “a ingênua”, “a delicada”, “a recatada”. Isso está introjetado em todos nós. Mulheres e homens.

Aziz Ansari não é Harvey Weinstein nem Bill Cosby nem Kevin Spacey. Ele é o João, teu amiguinho da escola. Ele é o Paulo, teu primeiro namorado. Ele é o Eduardo, aquele gatinho que você sempre quis pegar. Um homem egoísta que não para um minuto para olhar para a mulher que está ali, na frente dele.

E Grace quem é? Uma tonta? Uma mulher que não sabe sair correndo de um date ruim? Uma abestada que não tem coragem de se impor? Não. Grace sou eu e você.

E, embora nem Aziz nem Paulo e nem João mereçam ir para a cadeia por isso, precisamos, sim, conversar a respeito desse assunto. Porque, mesmo hoje em dia, o que aconteceu com ela é tão normalizado e tão corriqueiro na nossa sociedade que aparentemente ela não tem nem o direito de reclamar. E enquanto isso, a maior parte dos homens continuam agindo no sexo como se não estivessem nem com um outro ser humano, e sim com um simples objeto que existe para a única finalidade de lhes dar prazer.

Precisamos ser respeitadas pelos homens que escolhemos para passar um tempo a nosso lado. É o mínimo. E enquanto chamarmos esse tipo de comportamento de “date ruim”, isso não vai mudar. 

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