4 em Autoestima/ Juliana Ali no dia 11.01.2018

Com amor, Ju: representatividade e autoestima

Quando eu ainda trabalhava em revistas como editora de moda, muitos anos atrás, se falava muito no “aspiracional da leitora”. Tínhamos meio que manter em mente um certo modelo de mulher o tempo todo, na hora de escrever as matérias, montar um editorial, criar uma capa, etc. Essa mulher imaginária era quem a chefia intuía que as leitoras gostariam de ser. Porque a ideia não era mostrar quem a leitora ERA, e sim quem ela QUERIA SER no futuro. O sonho da leitora.

Com pequenas variações de revista para revista, a “mulher sonho” era basicamente, por ordem de importância:

  1. magra
  2. rica
  3. sensual
  4. branca
  5. muito bem arrumada e maquiada o tempo todo
  6.  fitness
  7. tinha um boy maravilhoso ao lado
  8. bem sucedida profissionalmente

Já naquela época onde quase não se falava – ou nada se falava – em representatividade, eu tinha várias dúvidas em relação a essa “mulher sonho”, mas tinha vergonha de expressá-las para meus colegas de trabalho.

É que eu não me identificava com ela, sabe? Meu primeiro problema é que eu não tinha muita coisa em comum com essa mulher, e não estava nem um pouco a fim de ESPERAR para ser ela no futuro. Queria me ver na revista AGORA, do jeito que eu era AGORA. Por que eu tinha que ESPERAR para ser boa? Por que eu tinha que SOFRER para ser boa? Por que não dava para eu ser boa do jeito que eu era mesmo? E pensava: não é possível que não existam leitoras que se sentem do mesmo jeito. Não existe a “diferentona”, a gente nunca é “a única que…”.

O outro problema que eu via na tal “mulher aspiracional” era o seguinte: vamos supor que as leitoras não sejam como eu, não se importem em ficar tentando e tentando ser rica, magra, fitness, sensual, montada e etc. Mas E SE NÃO DER? E se ela não conseguir tudo isso? Ela não vai se achar um FRACASSO? Isso não é INJUSTO?

Enfim. O tempo passou. As coisas começaram a mudar, inclusive dentro dessas mesmas revistas (creio eu, pois não estou mais lá, só vejo de fora).

Hoje mais cedo passei pelo bairro dos Jardins, aqui em São Paulo, provavelmente o metro quadrado mais fashion e mais caro da cidade. Lá, entre as lojas mais chiques do Brasil, estava um vitrine onde vi a Joana e a Carla, donas do blog onde vocês lêem esse texto, de lingerie em um poster gigantesco. Uma foto enorme, duas vezes o tamanho real das meninas, e elas lá. De lingerie. Duas meninas fora do padrão de calcinha e sutiã. Os corpos delas parecem com o meu. Parecem com o seu. Parecem com o da maioria das mulheres. E são lindos. Nossa, que lindas, mais lindas que todas as “mulheres sonhos” que já vi antes.

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Me vi na vitrine. Do jeito que sou AGORA. Não preciso fazer dieta, nem academia, nem porra nenhuma para me ver na vitrine de uma loja de calcinha nos Jardins.

joana

Segura essa mundão. A mulher sonho é a Carla, é a Jo,  sou eu e você. Imagina uma menina de 15 anos sofrendo que nem louca por puro sentimento de inadequação vendo isso? Representatividade importa.

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4 Comentários

  • RESPONDER
    Camilla Gonçalves
    12.01.2018 às 8:37

    Adorei o texto!! Parabéns, Ju! E parabéns Carla e Jo pela papel que vocês estão desempenhando nessa mudança do mundo. Representativdade importa muito! Torna a aceitação muito mais fácil.

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    Natasha
    12.01.2018 às 10:30

    Não é exagero dizer que fiquei com olhos embaçados e me arrepiei lendo isso. O tipo de coisa que nem parece tão grande mas é ENORME. Principalmente para nós, de 30 anos, que crescemos em um mundo tão diferente deste que vocês estão ajudando a transformar. Obrigada, obrigada, obrigada!

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    Margareth Andrade
    12.01.2018 às 15:27

    Representatividade importa , e importa muito!
    Parabéns pelo texto Ju e parabéns para as meninas Carla e Joana que tiveram coragem de assumir que são mulheres reais.

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    Patricia
    12.01.2018 às 18:37

    Desculpe mas esta blogger está tão tocada nela mesma que não enxerga o mundo mais de outra forma. Este discurso de empoderamento está tão centrado nas mãos de pessoas semelhantes a ela que virou um massacre contra as pessoas que não se encaixam no padrão que não seja o que ela está. Não me representa! E por favor, chega deste discursinho de ditar regras e formas com que as pessoas agora tem que ser valorizadas … as mulheres já tem o suficiente disto. Menos! Deixa cada um ser do seu jeito e não ter que levantar bandeiras em cada ato.

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