0 em Book do dia/ Comportamento/ Destaque no dia 07.12.2017

Book do Dia: O amor segundo Buenos Aires, Fernando Scheller

Era junho de 2016. Ao lado da cafeteria quase que improvisada da sala de imprensa do festival de publicidade Cannes Lions, na França, onde ambos trabalhávamos, troquei minutos de conversa com Fernando Scheller, repórter do Estadão. Ele me contou de seu recém-lançado livro “O amor segundo Buenos Aires”, sua estréia como autor de ficção. Fiquei curiosa, mas teria que esperar o final de ano, quando iria ao Brasil, pra comprar, já que moro nos Estados Unidos. “Tem a versão digital e você pode ler pelo iPhone”, ele lembrou. Óbvio, né?!

Comprei e me apaixonei já no primeiro capítulo. Mas para mim, foi se tornando muito ruim a experiência de ler pelo celular. Impossível. E aos poucos fui deixando esquecido aquele livro pelo qual tinha me apaixonado, como deixamos tantas de nossas paixões e descobertas abandonadas ao longo do caminho, por um motivo ou por outro.

Meses depois voltei ao Brasil e esqueci de comprar o livro. Tudo bem, um dia terminaria de ler no celular. Só esse, que valia muito ser lido. Um dia… Tanta gente lê, né?! Porque não eu. Quem sabe… um dia…

Outubro de 2017. Poucos dias antes de viajarmos ao Brasil, onde eu comemoraria meus 40 anos, meu marido antecipou meu presente pra que eu pudesse aproveitar na viagem. O Kindle me pouparia de levar um ou dois livros pesados na bolsa, como sempre faço. “Sei que você adora ler e não precisa deixar de ter livros por isso. Experimenta e tudo bem se não gostar e não quiser”, ele disse, diante da minha cara de quem não entendeu o presente. “Será que ele não vê como amo livros?”, pensei. Mas resolvi testar. 

Ainda me sentindo como quem trai uma tradição – essa mania de se prender aos hábitos -, baixei um livro de Laura Gutman, que amo, e algumas historinhas pra minha filha. Comprei uma capinha para protegê-lo e para, usando-a aberta, ter a sensação mais próxima de segurar um livro leve, muito leve. E embarquei.

Quando percebi, não só tinha virado adepta dessa nova maneira de ler como estava indicando pra outras pessoas. Com a facilidade de carregar o device pra todo lado, sempre ali, na bolsa, fui ganhando segundos extras e valiosos de leitura para uma mãe que trabalha em casa e em uma ONG, não tem empregada, e tenta dar o máximo de atenção e diversão pra filha de 4 anos e meio que só vai à escola 3 vezes por semana por meio período – opção mesmo, que fique claro.

Enquanto buscava a próxima leitura, e queria que fosse tão especial quanto a anterior, me lembrei de “O amor segundo Buenos Aires”, já “empoeirado” ali na minha “estante virtual” do celular. Baixei para o Kindle com a felicidade da criança que reencontra um brinquedo antigo. Reli algumas páginas iniciais pra re-contextualizar e não parei mais.

O livro é surpreendente do começo ao fim. Pra quem gosta de biografias e livros com fatos reais, como eu, mal percebi que estava sendo envolvida por um romance. Vivenciando a vida daqueles personagens. Às vezes começava a ler um capítulo sem saber de quem se tratava. Ou por desatenção minha, ou porque faz parte do suspense do livro mesmo, o que o torna mais interessante. Histórias que se entrelaçam e se complementam de forma inacreditável, pois são completamente diferentes. E qualquer semelhança com o que se vive do lado de fora daquelas páginas não deve ser mera coincidência. Acredito.

É vida real. Tem dores, tombos e angústias. Tem abandono, encontros verdadeiros, conflitos, feridas abertas que um dia parecem cicatrizadas, no outro não mais. Nem todos os finais são felizes. Aliás, não tem finais, pois a vida segue. Fechei o Kindle com a sensação de que se revisitar Buenos Aires hoje, vou procurar pelas ruas meus velhos conhecidos de “O amor segundo Buenos Aires”. Poderia tomar um café com cada um deles e discutir sobre a vida, sobre dores e amores, sonhos e frustrações, coisa que amo fazer. Adoraria conhecer Carol. Hugo, com certeza. Martín, seu Pedro, Eduardo e Daniel. Como estariam Victor e Manuel agora? Aliás, terminei com uma imensa vontade de revisitar a capital Argentina, seus cafés e praças, San Telmo…

Fico pensando onde Fernando Scheller cruzou com cada personagem em sua mente pra construí-los tão vividamente bem. Ouso dizer que só um jornalista com sua imensa capacidade e a paixão por observar, ouvir e anotar – mesmo que mentalmente – histórias humanas tão repletas da sinceridade da vida real seria capaz de criar um enredo assim. Certeza que é isso. E assim me despeço com saudades desse romance que me esperou um ano e meio para ser lido, como um amante adormecido que sabe que você vai voltar. No nosso caso, a paixão foi reacendida e arrebatadora, desde as primeiras páginas. Em “O amor segundo Buenos Aires”, nem sempre um reencontro reacende sentimentos e paixões ou termina entre os lençóis. E pra mim ficou a forte mensagem de que há sempre um novo caminho a ser seguido, desde que você descubra ou queira descobrir quem você realmente é. Desde que você permita-se seguir, sendo você.

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