5 em Comportamento/ Destaque/ maternidade/ Relacionamento no dia 15.11.2017

Poderia ter escrito: Parem de chamar mulheres de chatas – só estamos de saco cheio

Traduzido livremente por mim desse texto que a Marcela Andrade indicou e eu achei que tinha tudo a ver ser postado aqui. Na verdade, eu até já escrevi algo parecido para quem quiser ler. 

Para Dia das Mães eu pedi apenas uma coisa: um serviço de limpeza doméstica. Banheiros e chãos especificamente, janelas se o gasto extra fosse razoável. O presente, para mim, não era a limpeza em si e sim que pelo menos uma vez na vida eu não estaria a cargo do trabalho doméstico. Eu não teria que fazer ligações, fazer pesquisas, organizar pagamentos e agendar entrevistas. O presente que eu realmente queria era me ver livre do trabalho emocional que fica pentelhando a minha cabeça. A casa limpa seria apenas um bônus.

Meu marido esperou que eu mudasse de ideia para um presente mais fácil do que uma limpeza doméstica, algo que ele conseguisse comprar com um clique pela Amazon. Desapontado pelo meu desejo inabalável, no dia anterior do Dia das Mães ele ligou para um desses serviços, decidiu que era muito caro e resolveu que ele mesmo iria limpar os banheiros. Ele ainda me deu a opção, claro. Me contou o custo altíssimo desse serviço de limpeza que eu pedi e perguntou incrédulo se eu ainda gostaria que ele agendasse.

O que eu queria era que ele pedisse uma recomendação para seus amigos no Facebook, ligasse para mais quatro ou cinco lugares que oferecessem esse serviço, fizesse o trabalho emocional que eu faria caso isso caísse no meu colo. Eu estava querendo contratar um desses serviços há um tempo, especialmente depois que meu trabalho de freelance aumentou consideravelmente. A razão que eu ainda não tinha feito isso foi parte culpa por não ter feito meu “dever de casa”, e uma parte ainda maior de não querer ter que lidar com a parte de contratar esse tipo de serviço. Eu sabia exatamente quão exaustivo seria fazer isso. Foi por isso que eu pedi para meu marido me dar de presente.

De acordo com a Dra. Michele Ramsay, da Associate Professor of Communication Arts and Sciences at Penn State Berks, trabalho emocional é muitas vezes confundido com resolução de problemas. “A suposição de gênero é que “homens são mais resolvedores de problemas porque mulheres são mais emocionais”, ela explica. “Mas que realmente resolve a maior parte dos problemas em casa e no trabalho?” Como a gerente doméstica para o meu marido e três filhos, eu certamente sei a resposta. Eu ganhei de presente de Dia das Mães um colar enquanto meu marido resolveu lavar os banheiros, me deixando tomar conta dos nossos filhos enquanto o resto da casa se encontrava em total desordem.

Na sua cabeça, ele estava fazendo aquilo que eu realmente queria – me dando banheiros reluzentes sem que eu tivesse que botar a mão na massa. Por isso mesmo ele ficou frustrado quando eu não mostrei nenhuma gratidão, nem elogiei seu trabalho enquanto botava no lugar sapatos, camisa e meias que ele deixou no meio do chão. Eu tropecei em uma caixa de embrulhos de presente que ele tirou de uma prateleira há dois dias e deixou no meio do nosso closet. Para poder botar no lugar, eu tive que pegar uma cadeira lá da cozinha, levar para o closet para que eu pudesse colocar de volta na prateleira que ela estava.

“Tudo que você deveria fazer era pedir para eu botar de volta”, ele falou, enquanto olhava a minha batalha com a caixa. Era óbvio que a caixa estava no lugar errado, que deveria voltar para onde estava. Era fácil para ele pegá-la e botar de volta no lugar, mas ao invés disso ele passou por ela, ignorando-a por dois dias. Eu que tinha que pedir para ele colocar de volta algo que ele tirou do lugar.

“Essa é a questão” eu falei, agora em prantos “eu não quero ter que pedir”.

O choro, o desgaste – tudo isso precisava de um controle de danos. Eu tive que falar para ele o quanto eu apreciava a limpeza do banheiro, mas ele poderia ter feito isso em outro momento (quando nossos filhos já estivessem na cama, talvez). Então eu tentei explicar para ele o conceito de trabalho emocional: que eu era a gerente da nossa casa e que esse era um trabalho invisível. Delegar trabalho para outras pessoas – por exemplo, dizer a ele para fazer algo que ele deveria instintivamente saber fazer – é exaustivo. Eu tentei dizer para ele que eu notei a caixa pelo menos 20 vezes nesses últimos dois dias. Ele notou apenas quando eu estava me equilibrando para botá-la de volta na prateleira ao invés de pedir ajuda. Toda essa explicação gasta energia.

Andar por essa linha tênue entre manter a paz e não chatear o seu parceiro é algo que mulheres são ensinadas a aceitar como missão desde muito novas. “Em geral, nós associamos emoções a gêneros em nossa sociedade enquanto continuamos reforçando ideias falsas que mulheres são sempre, naturalmente e biologicamente capazes de sentir, expressar e gerenciar emoções de forma mais eficaz que os homens”, diz Dr. Lisa Huebner, uma socióloga de gênero, que publicou e ensina sobre trabalho emocional na West Chester University of Pennsylvania. “Isso não quer dizer que alguns indivíduos não gerenciam emoções melhor que outros como parte de suas personalidades, mas ainda não temos nenhuma evidência que essa habilidade é biologicamente determinada pelo sexo. Ao mesmo tempo nós achamos várias formas na nossa sociedade de assegurar que meninas e mulheres são responsáveis pelas emoções, e assim, homens têm uma folga”.

Meu marido é um homem bom, um bom aliado do feminismo. Eu vi, enquanto eu lidava com isso tudo, que ele estava tentando me entender. Mas não entendeu. Ele disse que tentaria fazer mais limpeza na casa para me ajudar. Ele reafirmou que tudo que eu precisasse era só pedir para que ele ajudasse, mas é aí que mora o problema. Eu não quero microgerenciar a casa. Eu quero um parceiro com iniciativa igual.

Não é fácil falar isso para ele. Meu marido, apesar de sua bondade e intenções admiráveis, ainda responde críticas de uma forma muito patriarcal. Forçá-lo a ver o trabalho emocional do jeito que ele realmente é parece um ataque pessoal ao seu caráter. Se eu tivesse que apontar trabalhos emocionais aleatórios que eu tive que segurar  – lembrá-lo dos aniversários de seus familiares, lembrar de todo o calendário escolar e as condutas nutricionais das crianças, atualizar o calendário para incluir a agenda de toda a família, pedir para minha sogra cuidar das crianças para a gente sair, ficar de olho na comida e utensílios domésticos que estão acabando, o inferno eterno que é lavar roupas – ele provavelmente encararia como “Olha pra tudo que estou fazendo e você não está.”

Segurar toda essa angústia de trabalho emocional doméstico é frustrante. É a palavra que eu mais escuto quando estou falando com amigas sobre esse assunto. É frustrante estar presa a todas essas responsabilidades, não ter ninguém para entender todo o trabalho que você está fazendo e não ter jeito de mudar isso sem um confronto de grandes proporções.

“O que me deixa mais chateada em ter qualquer conversa sobre trabalho emocional é ser vista como uma chata”, diz Kelly Burch, uma jornalista freelance que trabalha quase sempre de casa. “Meu parceiro fica irritado e defensivo pelo fato que eu estou sempre apontado o que ele não está fazendo. Eu entendo que é frustrante por sua perspectiva, mas eu ainda não descobri uma outra forma de fazê-lo enxergar toda a energia mental e emocional que estou gastando para manter a casa andando”.

Até ter uma conversa sobre o desequilíbrio do trabalho emocional se transforma em trabalho emocional. Chega em um ponto que eu tenho que pesar os benefícios de fazer meu marido entender minha frustração contra o trabalho emocional e fazer isso de um jeito que não termine com nós dois brigando. Quase sempre eu deixo passar, me lembrando como sou sortuda de ter um parceiro que topa, sem questionamentos, fazer qualquer tarefa que eu peço. Eu sei que comparada a muitas mulheres, incluindo membros da família e amigas, eu sou privilegiada. Meu marido faz muita coisa. Ele lava as louças toda noite. Ele quase sempre faz o jantar. Ele bota as crianças para dormir quando estou trabalhando. Se eu peço para ele segurar as pontas, ele segura sem reclamações. Eu me sinto quase gananciosa por querer mais dele, as vezes.

Ao mesmo tempo eu me vejo preocupada como essa exaustão mental que chateia quase que exclusivamente as mulheres traduz uma profunda desigualdade de gênero que é difícil de mudar em um nível pessoal. É difícil servir como modelo de uma casa igualitária para meus filhos quando claramente eu sou a gerente da casa, que tem como tarefa delegar qualquer e toda responsabilidade doméstica, e tomar tudo isso para mim. Eu posso ver meus filhos e filha vendo nossa dinâmica e assumindo seus papéis à medida que vão crescendo.

Quando eu penteio o cabelo da minha filha e faço uma trança elaborada, eu estou fazendo o que é esperado de mim. Quando meu marido desembaraça seu cabelo antes de dormir, ele precisa que seus esforços sejam notados e parabenizados – falando tanto na minha frente quando na frente dela como isso lhe tomou 15 minutos. Tem vários pequenos exemplos de como o trabalho que eu geralmente faço precisa ser reverenciado quando passado para o meu marido. Parece uma pequena chateação, mas seu significado é muito maior que isso.

Meu filho vai se vangloriar de seu quarto limpo e qualquer outro trabalho que ele fez; minha filha vai silenciosamente botar suas roupas no cesto de roupas sujas e se vestir todos os dias sem que a gente precise pedir. Eles têm 6 e 4 anos, respectivamente. A não ser que eu me empenhe nessa conversa de trabalho emocional e mude ativamente os papéis que temos, nossos filhos farão as mesmas coisas. Eles já estão seguindo nossos passos, e estamos levando eles para o mesmo desequilíbrio.

“Crianças aprendem seus padrões de comunicação e papéis de gênero (crianças conseguem reconhecer comportamentos de gênero “adequados” aos 3 anos) através de uma variedade de pessoas e instituições, mas seus pais são os que, na teoria, interagem mais” diz Dr. Ramsey. Então, se queremos mudar as expectativas de trabalho emocional nas próximas gerações, tem que começar em casa. “Para pais, isso significa ter certa que um parceiro não faz mais um trabalho que outro. Falando em termos de como o trabalho emocional é geralmente dividido, há esperanças de que meninas irão aprender a não serem obrigadas a ter esse trabalho e meninos irão aprender a não esperarem esse tipo de trabalho delas.”

Eu sei que não será fácil para nenhum de nós dividir o trabalho emocional, e eu nem espero que ele seja completamente igual (eu admito que provavelmente eu curto alguns tipos de trabalho emocional mais do que meu marido, como planejar nossas comidas e férias). Eu também sou mais habilidosa em lidar com o trabalho emocional porque eu tive minha vida inteira para praticar isso. Mas se eu for sortuda, eu ainda tenho uma vida inteira para que ele possa aprimorar suas habilidades no trabalho emocional, e juntos possamos mudar o rumo do futuro dos nossos filhos. Eles ainda podem aprender a carregar seus próprios pesos. E nossa filha pode aprender a não carregar o peso dos outros.

Por Gemma Hartley para a Harper’s Bazaar.

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5 Comentários

  • RESPONDER
    Valquiria
    15.11.2017 às 14:38

    Amei! Parece que fui eu quem escrevi! Ser mulher, mãe e lidar com a casa é exaustivo e ninguém fala sobre isso! É o que é esperado de nós!

  • RESPONDER
    Solange
    16.11.2017 às 8:50

    Acho que até se eu fosse homem concordaria com o texto. Ser mulher não é nada fácil. Nunca foi.

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    Carol
    19.11.2017 às 12:22

    A dúvida agora é: mostro isso para o meu marido ou ele vai me achar uma chata?

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      Carla Paredes
      20.11.2017 às 12:28

      Eu mostrei! Se ele me achou chata, não posso fazer nada hahaha

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    Brenda
    30.11.2017 às 17:36

    Como leitora frequente e com todo respeito, esse é um dos poucos posts cujo ponto de vista não concordo – pelo menos não totalmente. Apesar de ser mulher, acredito sim que se tomar certas atitudes, como não querer ter que pedir as coisas, se tornarás uma chata. Acho que não é justo cobrar dos outros uma atitude que é inteiramente sua (partiu de você).
    As pessoas encaram as tarefas de forma diferente, logo dão importância de forma diferente também. Se coloque no lugar da outra pessoa: não seria chato ver que não interessa o quanto você se esforce, nunca conseguirá deixar o outro satisfeito?
    Enfim, é só um ponto de vista.

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