19 em Autoestima/ Convidadas/ Juliana Ali no dia 09.11.2017

Será Kim Kardashian realmente empoderada? Eu acho que não.

Em uma conversa com um bando de mulheres incríveis (entre elas, Carla e Jo), eu disse que Kim Kardashian não pode ser considerada um símbolo de empoderamento feminino. Carlota disse: “Ju, por favor, faz esse texto, porque sempre achei Kim muito empoderada. Queria entender.”

Ok, amiga. Este não será um texto muito fácil. Ele me dá um pouco de medo, confesso, porque sei que Kim K tem muitas fãs incondicionais e não quero que pensem que estou aqui tecendo uma crítica. Pois não estou. Acho a Kim linda, divertida, inteligente, estilosa, uma mulher de negócios cheia de timing e talento. Mas antes de começar, vamos ao significado de empoderar: 

“Empoderar é um verbo que se refere ao ato de dar ou conceder poder para si próprio ou para outrem.

O ato de empoderar é considerado uma atitude social que consiste na conscientização dos variados grupos sociais, principalmente as minorias, sobre a importância do seu posicionamento e visibilidade como meio para lutar por seus direitos.

Um dos atos de empoderar mais conhecido é o empoderamento feminino, ou seja, quando há a conscientização das mulheres de reivindicarem socialmente por igualdades de direito entre os diferentes gêneros.

Entre alguns dos principais sinônimos de empoderar estão: dar poder, conceder poder, dar autoridade, investir autoridade, dar autonomia, habilitar, desenvolver capacidades, promover, promover influência, afirmação, entre outros.”*

Empoderamento feminino, então, é não apenas tomar o poder para si, como também ser um exemplo para as mulheres que cercam a gente, certo? E reivindicar por direitos iguais aos dos homens. Que, hoje em dia, estamos longe de ter ainda.

Outro dia aconteceu o concurso para eleger a Miss Peru 2017 e – tenho certeza de que você ouviu falar – as concorrentes citaram dados sobre feminicídio ao invés de suas medidas corporais. 

Pensa comigo: Estas candidatas a miss, por mais bem intencionadas que fossem, estavam tomando o poder para si? Estavam influenciando outras mulheres a serem empoderadas? Em um concurso onde competem para ver quem está MAIS DENTRO DO PADRÃO DE BELEZA imposto pela sociedade patriarcal?

Esses concursos costumam ser patrocinados por grandes empresas comandadas por homens que ganham dinheiro em cima de competição feminina, restrição alimentar, padrões de beleza difíceis de atingir. É uma contradição clara.

É como um cara que foi preso por roubar um carro gritar lá de dentro da cadeia: “Esses políticos brasileiros são uns corruptos safados!!!”. Bem, o ladrão na cadeia não está falando bobagem. Os políticos brasileiros são mesmo, em geral, corruptos safados. E o preso não roubou nossos impostos, roubou um carro. Mas, ainda assim, é um ladrão. Não faz muito sentido porque o cara não é um bom exemplo de honestidade, não é mesmo?

Aí entramos na Kim. Ela é como uma das misses. Apesar de ser uma mulher de sucesso (exemplo de empresária então, sem dúvida), é uma pessoa que está o tempo todo tentando se encaixar em um padrão. E isso é o oposto do empoderamento. Kim botou bunda, peito, afinou cintura, fez altas lipos, está sempre em cima do salto, roupas caríssimas, sensuais, cabelo alisado, etc etc.

Ei Ju, peraí! Feminismo não é meu corpo minhas regras?? Não é deixar a mulher fazer o que quiser?? Claro, mas precisamos refletir, pois é BEM mais que isso (talvez, em outro post, eu consiga falar mais sobre isso).

Não existe absolutamente nada de errado em se montar e em fazer plásticas e em alisar o cabelo e em querer parecer o mais gostosa possível. Nada.

No entanto, ao observar uma mulher fazendo isso – ou ao fazermos isso nós mesmas – temos que estar cientes de que o fazemos por pura influência de padrões impostos pela sociedade, que é PATRIARCAL. Não fomos nós que escolhemos essa montação toda.

“Ah, Ju, eu escolhi sim. AMO estar maquiada, linda e arrumada.” Entendo. Tudo certo em amar. Mas, embora pareça uma escolha consciente, não é. Quem te disse que tudo isso é lindo foram as revistas, os filmes, a televisão, sua mãe, suas amigas, sua escola e… a Kim Kardashian. Entre muitas outras mulheres famosas, claro.

Foto do ensaio Impression de Justin Bartels, que questiona o desconforto nas peças que usamos no dia a dia.

E isso desde que somos crianças, a vida toda, por isso pode parecer “uma escolha pessoal”, de tão condicionadas que estamos. E sabe quem sempre controlou a TV, o cinema, as revistas de moda, sua escola, e tudo o que nos cerca? Pois é. Os homens. Desde que mundo é mundo.

Então não, Kim não é um exemplo de empoderamento feminino. Ela é um exemplo de vítima da sociedade patriarcal, que coloca a BELEZA antes de muita, muita coisa. Mulher tem que ser bonita, eles dizem. E se não for? Que que tem? Eu não acho que mulher tem que ser bonita. Não acho que mulher TEM QUE SER. Ponto.

Só que estamos todas em estágios diferentes de desconstrução, e esse processo é bem longo e árduo. Tem meninas que conseguiram abrir mão da depilação. Eu ainda não cheguei nesse nível, não dou conta, nem sei se darei um dia, até porque esse processo de desconstruir-se não é uma competição para ver quem vai chegar primeiro na linha da “”””””desconstruidona”””””””.  Por outro lado, tem meninas que não conseguiram abrir mão nem dos cílios postiços. E TUDO BEM. Tranquilo. Estamos todas aprendendo. Eu, você, Kim Kardashian.

O importante é – mesmo que você ame a Kim e ame mais ainda um saltão daqueles (mas que você sente que te dexa liiiiiinda, então vale a pena) – saber de onde vem essas nossas “vontades”. Entender que são imposições sociais. Não são símbolos de empoderamento e, muito menos, de autoestima.

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19 Comentários

  • RESPONDER
    Michelle
    09.11.2017 às 13:18

    Texto maravilhoso!

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    Andréia
    09.11.2017 às 14:40

    Menina, arrasou! Ás vezes cansa viver em meio a tantos padrões impostos em uma sociedade onde que impões só está pensando em seus próprios interesses.

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    Nary
    09.11.2017 às 14:50

    Achei o texto interessante mas do ponto de vista de construção de argumento achei meio fraco. Veja bem, entendi o seu ponto de que a Kim é mais uma prisioneira dentro de um sistema, mas será que dentro dele ela não está de certa forma tentando fazer algo diferente? É complicado julgar e fazer elocubrações em cima de uma pessoa da mídia mas eu ainda acho que de certa forma ela traz algo de positivo.
    Espero ter me feito entender. :)

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      Ana Carolina
      14.11.2017 às 12:45

      Exatamente, Nary! Concordo.

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      Gi
      14.11.2017 às 14:15

      Concordo plenamente. Achei bem fraco. Não sou fã do estilo de vida de Kim, mas daí a analisar e concluir que ela não é empoderada (seja lá o que isso signifique) apenas com base em sua aparência…

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    Nathalia Feijó
    09.11.2017 às 16:37

    Sensacional!!
    Nunca tinha pensado por esse lado da moeda!

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    Marianna
    09.11.2017 às 18:55

    Olha, tentei entender o ponto de vista, mas não consegui. Sinceramente, não gostei do texto. Deu a entender que só tem personalidade quem gosta do que está fora do padrão. Se você gosta de algo padrão, você não é evoluída, você só é mais uma influenciada. E isso não seria a imposição de um novo padrão? Veja bem, não estou falando isso por ser fãããã da Kim, mas simplesmente não dá pra entender. Se ela quisesse simplesmente se encaixar num padrão, as intervenções que ela fez teriam sido com outros resultados. O estilo gostosona que ela segue não foi sempre bem aceito e mesmo assim ela insistiu. Mesmo com livros, revistas, filmes dizendo o tempo todo o que é e o que não é bonito (como você citou no texto), as pessoas continuam tendo opiniões diferentes e eu acho isso ok! Não é preciso que todo mundo goste do que está fora do padrão, não quer dizer que quem gosta do padrão não é empoderada! Diz que não é uma corrida para ver quem chega primeiro, mas propõe um julgamento a quem gosta de saltos e cílios, por exemplo. Sinceramente, eu me senti julgada por gostar de cílios postiços! Se essa não foi sua intenção, peço que reconsidere o texto, porque foi exatamente o que me transmitiu. Adoro o papo de empoderamento do blog, mas não me senti bem lendo esse texto.

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      Gi
      14.11.2017 às 14:16

      Marianna, concordo plenamente com seu ponto de vista.

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    Rita
    10.11.2017 às 9:21

    Boa reflexão. Ótimo texto. Normalmente “consumimos” as imposições e se quer nos damos conta disso. Ainda mais em tempos de redes sociais, qdo tudo parece tão próximo.

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    Marcia
    10.11.2017 às 9:42

    Se entendi o ponto da Marianna, concordo com ela. Não gostar do “padrão” está sendo imposto como um novo padrão e, como tal, como régua de julgamento. E quem aqui escreve é uma mulher que não faz manicure com frequência, usa pouquíssima maquiagem e sempre teve um estilo que só recentemente passou a ser valorizado, o tal do normcore (ou seja, não estou fazendo defesa própria de eventual gosto -inexistente – por cílios postiços, saltos altos ou procedimentos estéticos, que não fazem parte do meu universo, ainda que eu não tenha nada contra quem faz – só não funciona para mim). Por trás de quase todos os atos, há sempre uma ideologia e por trás de uma ideologia, sempre alguém que a “patrocina”. Vejo no argumento defendido uma certa inocência, visto que a mídia e as grandes marcas estão abraçando este discurso do empoderamento. E, certamente, não só por bondade ou por “iluminação”. Meu ponto de vista. Apenas um e não “o” ponto de vista.

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    Stella
    10.11.2017 às 12:37

    Li alguns comentários de pessoas que parecem não ter entendido a intenção da jornalista.
    Ela foi curta e simples, para passar uma ideia geral…

    Pessoalmente, concordo totalmente com o que foi dito.

    A Kim reproduz aquilo que sempre foi imposto ao gênero feminino, ela reproduz como se fosse algo que ela faz por ela e que “natural” ela deseja para ela.

    É exatamente ai que devemos refletir e tentar perceber o quanto que aquilo que desejamos para nós mesmas está relacionado a uma necessidade de atendermos às expectativas externas (fazer parte de um grupo, está linda em comparação a outro, de agradar a outros).

    O problema não é ser esse feminino, esse padrão, porque padrões sempre existirão. O problema é o quanto o padrão domina algumas decisão que deveriam ser mais livres.

    A Kim é uma baita empresária, que usa esses esterótipos para fazer dinheiro.. a reprodução de alguns comportamentos e expectativas machistas é lucrativa para ela. E nisso eu a admiro demais! Ela virou o jogo e está se dando bem com ele – não o contrário.

    Mas ainda assim, ela está dentro do sistema – coisa que ela mesmo já expôs.

    Lembro de um evento sobre tecnologia, no Estado Unidos, que ela foi uma das convidadas para palestrar e ser entrevistada. No seu programa, ela demonstrou muita apreensão em como seria recebida pelo público: homens e nerds. “Como eles vão me respeitar? Todos acham que eu sou só um rostinho bonito!”…. as palavras delas eram nesse sentido.

    Adorei esse texto, porque muitas vezes o sucesso de algumas mulheres mascara o caminho árduo que ainda temos que seguir para libertação total e respeito com iguais no convívio social.

    Abraços!

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    Monize
    10.11.2017 às 14:01

    Concordo plenamente com a Marianna, me senti mal com a leitura. Não sou fã da Kim, não estou defendendo por gostar ou algo assim, apenas vi esse texto como uma padronização ao contrário. A pessoa só é empoderada quando não segue o padrão machista?
    “Empoderar é um verbo que se refere ao ato de dar ou conceder poder para si próprio ou para outrem.” Repare que tem a palavra “ou” entre “para si próprio” e “para outrem”. Ou seja, para ser um empoderamento, não necessariamente tem que ser e conceder, um ou outro ja o classifica.
    Acho sim uma mulher muito empoderada, independente de julgamentos do ‘certo ou errado’, ela faz o que a deixa confortavel: ficar nua, loira, morena, engordar várias quilos em uma gestação, ser GOSTOSA… enfim, achei muito incoerente o texto e me senti super julgada, pois, mesmo não sendo um padrão de beleza, há mulheres que são porque se sentem felizes assim.

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      Gabriela
      13.11.2017 às 12:19

      Concordo ! Nao gostei do texto, tambem me senti julgada, achei preconceituoso … tanta coisa que nem consigo explicar rs .
      E nao me venham dizer que nao sou desconstruída o suficiente … bjo

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        Gi
        14.11.2017 às 14:24

        Também me senti assim em relação a este texto.

    • RESPONDER
      Nathália
      13.11.2017 às 18:27

      Concordo!

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    Margareth Andrade
    10.11.2017 às 17:48

    Se tá feliz, ok! O problema é viver infeliz em busca de padrões ditados pela mídia!

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    Anna Borba
    11.11.2017 às 10:23

    Não concordo. Especialmente com o último parágrafo. Me considero esclarecida o suficiente pra saber a origem das minhas vontades. É muito raro usar algo da moda, uso o que gosto, salto incluso.

    Kim é um padrão fora do padrão. Bem fora do padrão. E dizer que ela faz isso por imposição de qualquer coisa que seja, é julgar uma mulher sem conhecê-la.

    Entendo que, “no início dos tempos”, alguém impôs padrões e que eles são seguidos até hoje. Mas também entendo que nem 100% das mulheres seguem a massa. Usam coisas, depilam, maquiam, pelo motivo mais simples de todos: gostam.

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    Paula
    13.11.2017 às 9:12

    achei o texto extremamente superficial e algumas outras coisas que foram censuradas na minha primeira tentativa de comentar esse post….

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    Ana Carolina
    14.11.2017 às 13:10

    “…que coloca a BELEZA antes de muita, muita coisa.”

    Será? Como podemos afirmar isso com tanta convicção? Fica aí o questionamento.

    Se a Kim é “empoderada” eu não sei, o que eu sei é que indiretamente ela conseguiu que centenas e milhares de mulheres aceitassem e enxergassem a beleza de seus corpos curvilíneos. E isso pra mim conta mais, do que muitos textões escritos pelas ditas empoderadas, que pouco têm alcance e identificação com a realidade das mulheres em geral (e não somente para ganhar aplausos dos desconstruidões da internet).

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