8 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 20.09.2017

Desromantizar a maternidade não é demonizá-la

Quando estava grávida certamente um dos conselhos que eu mais odiava ouvir era aquele que falava para eu dormir bastante porque depois nunca mais teria uma noite de sono tranquila. O tipo de constatação que muita gente gosta de fazer com requintes de crueldade, com aquele sentimento de “eu já me ferrei, agora é sua vez”.

Aí Arthur nasceu e eu comecei a ter mais ódio ainda dessa frase. Não porque ela não era verdade, mas porque ela é 0,0001% dos perrengues da maternidade. Adoraria que tivessem me falado menos sobre minhas noites mal dormidas e mais sobre como é difícil lidar com tantas renúncias que a maternidade traz. Amaria ter cruzado com mais textos e vídeos contando como ser mãe te faz enxergar as melhores e piores coisas em você. Falando sobre vitórias e angústias na mesma proporção.

Foi por isso que comecei a escrever sobre maternidade da forma menos romantizada possível, expondo meus dias difíceis, outros que não deu para fazer tudo que eu queria, frustrações e momentos gostosos. Aí eu entendi por quê eu tenho tão poucas referências nesse assunto: porque o julgamento é forte.

um dos últimos perrengues (não foi o último porque o mais recente é tirar a fralda e fazer xixi pela casa inteira) – achar um batom e se pintar INTEIRO. Detalhe: era batom de longa duração, imaginaram o perrengue pra tirar? hahaha

Eu não gosto de dar muita bola para quem critica, principalmente quando é um caso isolada em meio a vários elogios (ainda bem :D), mas eu precisei trazer um exemplo pra cá porque ele me marcou. Marcou porque eu tive que ler que eu passava a impressão que achava meu filho um fardo. UM. FARDO.

Achei uma palavra bem pesada para ser usada, ainda mais por alguém que realmente não sabe nada da minha vida, e por um segundo pensei se eu estava errando em alguma coisa na minha comunicação. Que bom que essa sensação não durou muito porque eu tenho plena consciência que NADA – repito, N-A-D-A – vai mudar o sentimento que eu tenho pelo meu filho. Nada apaga ou diminui o amor que eu sinto cada vez que ele fala mamãe, que vem me dar um abraço, um beijo ou quando ele simplesmente para a bagunça para simplesmente olhar nos meus olhos e tentar entender por quê eu estou chorando. É incrível, é mágico, é tudo de clichê que aparece em comercial de dia das mães.

A questão é que sobre amor a gente já está cansada de saber. Mas e a parte pouco colorida? Não tenho a mínima vontade de negar ou esconder o quão desgastante, frustrante e cansativa a maternidade pode ser. Se você não tem pais morando perto ou nenhuma ajuda para as tarefas do dia a dia (welcome to America, babies), essa função fica 3 vezes mais intensa. Fardo não poderia definir melhor.

E é essa parte ainda menos falada que acontece com tooooodas as mães, mas muitas preferem não contar ou expor por medo do julgamento, por medo de ser vista como mãe imperfeita ou, como foi meu caso, ser vista como uma mãe que considera o filho um fardo. Aí, no fim, a maioria prefere apenas postar a foto linda que faz a roda da maternidade romantizada girar.

Não que eu ache que agora todas as mães do mundo precisam se reunir para expor todos os momentos ruins, mas acho sim que muita gente precisa entender que desromantizar a maternidade não significa que você está demonizando essa função. Eu recebo muitas mensagens diárias de amigas e leitoras agradecendo por eu estar dando voz à elas ou se reunindo em grupos de whatsapp e dizendo “só aqui eu me sinto livre pra dizer que hoje eu tive vontade de sumir”. E fico pensando, por que isso? Por que precisam de uma voz? Por que sentimos que precisamos de um M.A – mães anônimas – para expor cansaços e dificuldades que são inerentes da maternidade e acontecem com todas?

Não precisa ser influenciadora ou ter milhares de seguidores nas suas redes sociais, se você realmente sentiu vontade de fazer um textão desabafo no Facebook, alugar o ouvido das suas amigas ou simplesmente expor um dos momentos desafiadores de ser mãe, faça. Vai ter julgamento? Vai, porque infelizmente ele vai acontecer até se você não falar nada e independente da quantidade de pessoas que te seguem. Mas você não tem ideia de como pode estar ajudando outras mães no movimento do “tamo junta”. Sem contar que ainda pode se surpreender com a quantidade de apoio que você vai receber de volta. ;)

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8 Comentários

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    Jéssica Nascimento
    20.09.2017 às 13:01

    Carla, não sou mãe mas sou mulher e feminista e, mesmo não sendo minha vivência, aplaudo todas as mulheres que fazem o que você faz. Minha mãe sempre diz que ter filho é um esforço que a gente só tem noção depois que vive e eu nunca me senti menos amada por isso, muito pelo contrário. Posso apenas imaginar todas as renúncias e dificuldades que ela viveu para cuidar de mim da melhor maneira possível e essa é uma prova de amor da melhor qualidade.

    Beijos!

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    Tamy
    21.09.2017 às 10:18

    Sabe, Carla… eu já passei por esse tipo de julgamento mtas vezes e meio que desisti de discutir e me preocupar com isso. O que me dá impressão é que as pessoas que pintam a maternidade como um fardo caso vc reclame de qq coisa, precisam (e o caso é psicológico mesmo, não é nem questão de querer, de gostar) dessa imagem de mãe perfeita e feliz. E exercendo a empatia nesses casos, é triste o fato dessa mulher não conseguir assumir nem pra ela mesma que é foda, que ser mãe é uma coisa difícil. Muitas vezes são mães solo (e na maioria das vezes em um casamento mesmo) e não tem suporte da família, do marido, das “amigas” mães… Coloco entre aspas pq não sei realmente se podem ser consideradas amigas se se comportam como concorrentes. Vc, colocando a maternidade real, é um tapa na cara, é deixar em HD a vida delas. E isso machuca, faz as sentir mal. Pra mim, essa é a unica explicação pra tanto ataque sem motivo e palavras rudes (pq é de propósito sim. Toda mãe sabe como atingir outra mãe.)… releve e faça da sua maternidade a melhor possível. É assim que vejo as críticas e levo minha vida numa boa. Parabéns! Vc é a melhor mãe que o Arthur pode ser. Beijos!!

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    Maira
    22.09.2017 às 11:23

    Ei Carla, lembro desse comentário no insta quando foi deixado, achei na época e continuo achando de muito mal gosto.

    Não tenho filhos mas ajudei a criar meus sobrinhos e sei o quão cansativo e degastante é essa tarefa e sempre achei desnecessário essa romantização que a sociedade faz quanto a maternidade em todos os sentidos, sempre tenho a impressão de que querem provar e enfiar “guela” abaixo como gerar um filho é a tarefa mais agradável, fácil e deliciosa da vida e como criar um filho sozinha é igual propaganda da johnson e johnson… ou seja, perfeito.

    Acharia mais válido se mostrassem como é penoso para as futuras mães e já mães que todo esse processo é sofrido sim, que os 9 mêses tem períodos muito difíceis e que quando esses seres tão amados nascem, que nada é como vocês imaginavam e não há mal algum achar que é um fardo passar por esse processo tão desgastante.

    Parabéns pelos seus relatos tão claros e que você seja muito mais compreendida do que julgada e que as palavras deixadas, sejam de muito amor…mesmo não sendo mãe, tô contigo viu…rs

    Bjocas

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    Adriana
    25.09.2017 às 12:59

    Que preguiça né?Hj em dia ser mãe virou uma competição das mais chatas possíveis!Quem se veste melhor estando grávida,quem continua gostosa com uma barriga de 8 meses,que volta a forma de gostosa depois de 1 semana de “parida”,quem dá conta da casa,criança,cabelo,amigas e marido e acha tudo fácil…
    Realmente não é o mar de rosas que muitas pintam ou pior mentem que é,por trás de uma vidinha de mãe perfeita vc pode saber que tem muita frustração escondida,mas frustração não dá ibope nem likes não é verdade?
    Criança dá trabalho,criança muitas,muitas,muitas vezes são chatas,elas nos tiram do sério e nós tb temos o nosso dia de falta de paciência,e isso é pecado?Somos humanas caramba!

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    Izabella
    25.09.2017 às 16:48

    Pois é, nos julgam o tempo todo e querem enfiar na nossa cabeça que mãe tem que sentir culpa. Vamos parar com isso! Adoro seus textos e me identifico muito com as situações que vc vive, pois minha filha é um mês e meio mais nova que o Arthur. Ela começou a ir para a escolinha há três meses por meio período e acredita que muita gente vem me perguntar se eu não fico com dó? Aí eu digo que ficaria com dó se ela estivesse em um lugar horrível, mas que escola só faz bem para crianças. É cada coisa que a gente tem que ouvir!

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      Carla Paredes
      26.09.2017 às 11:10

      hahahaha, essa pergunta sobre dó eu já cheguei numa fase de morrer de rir.

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    Renata Castro
    08.10.2017 às 11:35

    Carla, ainda não sou mãe, mas adoro ler seus textos retratando a maternidade de forma real.

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      Carla Paredes
      10.10.2017 às 13:28

      Brigada, Re! <3

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