17 em Autoconhecimento/ Convidadas no dia 30.08.2017

Um amor que pede eternidade

Este não é um texto somente sobre dor, é um texto, além de tudo, sobre o amor. Mas será possível existir amor sem dor?

Sempre fui muito apegada à minha mãe, tínhamos uma sincronia de, muitas vezes, gerar até inveja nos outros. Morávamos somente nós duas nos últimos tempos e, com isso, a convivência era intensa. Um misto de brigas, risadas e muita cumplicidade, afinal, não éramos perfeitas e, sim, nós mesmas.

Porém, há cerca de um ano, do dia para a noite, como num sopro de vento, eu me vi sem ela. Foram 15 dias de muita dor, com ela sedada. Nunca havia ficado tanto tempo sem ouvir sua voz, sem falar com ela e, do nada, eu e meu irmão tivemos que passar por tudo isso juntos sem poder lhe perguntar nada, nem ao menos questionar o que achava melhor. Tínhamos de decidir sozinhos qual a melhor maneira de lutar por ela e, principalmente, quando deixá-la ir.

Depois disso, a vida virou um turbilhão. Lembro que a passagem de uma música ficava entoando na minha cabeça sem parar ‘’ …é tão difícil, olhar o mundo e ver, que ainda existe, pois sem você, meu mundo é diferente, minha alegria é triste…’’.

Os primeiros dias foram cheios de altos e baixos, eu chorava de rir e de dor na mesma intensidade. Sim! Eu ria de tudo e chorava por tudo, como uma montanha russa de emoções que mudavam de um segundo para o outro. Era como se eu tivesse me vendo de fora, como se a vida fosse um filme e eu não soubesse muito bem o que fazer.

E o tempo todo eu vivia cheia de perguntas; Como devo sofrer? Devo chorar? É certo sorrir? Será que estou muito bem? Será que deveria estar pior? Qual a maneira certa de passar por isso tudo? Existe certo ou errado?

Todo mundo parecia ter uma opinião sobre como eu devia me sentir ou sobre o que devia fazer. Uns me diziam para chorar, outros para me distrair. Alguns diziam para eu voltar logo ao trabalho, outros para eu não me cobrar. Mandavam-me sair mais ou sair menos.

Havia quem achasse que eu deveria mexer nas coisas, alguns aconselhavam dar tempo ao tempo. Uns achavam que eu deveria permanecer no meu apartamento, pelas memórias, outros que eu deveria mudar, pois as memórias eram muito doloridas. Diziam-me: viva um dia após o outro, mas também que deveria fazer planos para o futuro. Tinham também aqueles que indicavam para eu rezar, ir à igreja, ao templo, centro espírita ou a terapia.

Aparentemente, todo mundo tinha uma opinião a respeito ou algo a dizer, a compartilhar. Sei que queriam ajudar, confortar, apoiar e eu entendia, mas ninguém, a não ser eu, sabia da dor e do quão perdida me sentia.

Mas… Essa não é somente uma história de dor é, também, uma história de amor! E, no meio de tanta aflição, ele se fez mais presente do que nunca, tamanho o apoio e carinho que senti nas semanas seguintes, a atenção era tanta que por instantes me sentia sufocada. Porém, a dor de cada um é diferente e a minha era só minha, não se podia medir ou comparar e, principalmente, ninguém mais poderia curar.

A vida seguiu o curso e, um mês depois, eu completei 30 anos. Confesso que todos os meus ‘’problemas’’ com a idade, meus receios e medos, perderam o foco e tudo que eu achava que seria a minha vida aos trinta havia desaparecido.

E com isso eu fui vivendo em fases: sair todos os dias e não pensar sobre o assunto; de me ocupar demais (cheguei a limpar a geladeira com uma escova de dentes), de agir como um robô fazendo somente o que achava certo fazer, independente de como me sentia; e principalmente sentir-me culpada por estar bem, gostar de morar sozinha, tendo em vista a maneira como ‘’conquistei’’ isso, me senti culpada por me sentir culpada e o ciclo continuava. Enfim, me boicotei, me culpei e me fechei. Foi então que a ansiedade apareceu.

Ela apareceu como uma forma de me fazer encarar o que havia colocado debaixo do tapete, tentando ignorar. Ela me fez ir atrás de ajuda e de respostas.

Com a terapia, a meditação e a filosofia estou aprendendo a encontrar algo de bom em tudo que aconteceu. Não consegui me apegar a nenhuma religião, apesar de acreditar que elas ajudam, sim, quem tem fé. Mas eu precisava seguir o meu caminho, em busca das minhas próprias respostas, pois descobri que muito do meu medo, da dor e angústia estão ligados às questões sobre a vida e a morte, que eu não consigo responder, as quais eu não tinha uma convicção formada.

A morte e a perda estão ligadas à maneira como as encaramos. Será que é mesmo o fim? Seria recomeço? É logico que dói, mas só dói onde se tem amor. E o amor, ah! O amor não morre, não vai embora, mesmo que a pessoa se vá, pois, o amor nasce dentro de nós e é eterno. 

Muitas vezes, não me permiti chorar, com medo que o choro não fosse parar nunca. No entanto, compreendi que existem dois tipos de choro: aquele angustiado, agoniante, meio desesperador (e esse confesso que evito até hoje, pois ele não me agrega, não me cura, não me ensina e, principalmente, não honra a vida que ela teve e nem o amor que tinha por mim), e existe aquele choro que é de saudade, por vezes, acompanhado de um sorriso, uma lembrança. Ele tem certa doçura, está repleto de sentimento. É o choro que cura, ensina, aquece a alma, é feito de amor.

Não posso dizer que superei tudo, nem dizer que existe uma receita certa para agir. Afirmo, porém, que a dor nos traz lições e aprendizados, é parte, imprescindível, da nossa jornada. Creio que muitos de nós vivemos o dia a dia evitando pensar na única coisa que é certa para todos: a morte.

Eu, particularmente, nunca tinha parado para pensar em como ela nos afeta e faz colocar em perspectiva vários outros aspectos da vida. Na verdade a morte me ensinou a valorizar a vida, a família e os amigos. Ensinou a me amar, me respeitar e, o mais importante de tudo, a me conhecer. Eu tenho, sim, muitas saudades e costumo meditar imaginando ela sentada ao meu lado, meditando comigo. Tento sentir sua energia, o calor do seu amor, pois energia e amor, esses sim são eternos!

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17 Comentários

  • RESPONDER
    mariana freitas
    30.08.2017 às 11:48

    não podia ter mais orgulho e carinho neste momento
    te admiro demais !

    • RESPONDER
      Amanda Negrão
      30.08.2017 às 11:58

      Obrigada, vocês sempre presentes em todas as etapas. :**

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    Gabi Andrade
    30.08.2017 às 17:56

    Lindo texto! Tenho certeza de que quando vc medita, ela está do seu ladinho! 😘

    • RESPONDER
      Amanda Negrão
      30.08.2017 às 17:58

      Com certeza, a energia do amor sempre fica, e é muito engraçada a maneira como isso começou, foi totalmente sem planejar.

  • RESPONDER
    Neuza
    30.08.2017 às 23:15

    Olá adorei o texto!
    Eu perdi a minha mãe em 27/06/2010, é como se fosse hoje. A dor da perda nunca passa, somente suaviza.

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    Karla emerick
    31.08.2017 às 2:24

    Li seu texto 1:22 da manhã…moro na Florida…me fez chorar…refletir sobre a vida., família longe, amor…e realmente o amor cura, fortalece e renova a alma!

    • RESPONDER
      Amanda Negrão
      31.08.2017 às 10:28

      Acho que como o amor verdadeiro não morre a saudade também não, mas creio que para as mães ver a gente vivendo bem seria a melhor coisa.

    • RESPONDER
      Amanda Negrão
      31.08.2017 às 10:35

      Como eu disse, se o amor é eterno a saudade tb será. Mas acho que viver bem , ou pelo menos tentar ser feliz é o que nossas mães iam querer para nós.

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    Ana Paula
    31.08.2017 às 12:06

    Os sentimentos são tão confusos, nunca os consegui colocar em palavras, você fez isso por mim. Obrigada! Elas estão vivas dentro de nós, no nosso amor e na nossa saudade.

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    Marina
    31.08.2017 às 12:37

    Nossa… meus olhos encheram de lágrimas só de pensar que um dia passarei por isso.

    • RESPONDER
      Amanda Negrão
      31.08.2017 às 12:41

      Sua mãe provavelmente te dirá que essa é a ordem natural das coisas, mães devem ir antes dos filhos, mas espero que demore muito muito tempo. Mas nd impede que a gente comece a pensar sobre essas grandes questões da vida. beijos

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    Maiara
    31.08.2017 às 21:21

    Lindo texto! Emocionada e reflexiva sobre essa questão da morte! Obrigada por isso

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    Juliana Rodrigues
    01.09.2017 às 12:11

    Que texto lindo Amanda! Me emocionei, pois também tenho um relacionamento muito amoroso com minha mãe, ela é realmente minha melhor amiga! Antes não pensava tanto em relação à morte, mas hoje tenho consciência que não sabemos o dia de amanhã. Valorizo e aproveito ao máximo meu relacionamento com ela, falo que a amo todos os dias.
    Doi só de pensar em perdê-la =/

    Parabéns pelo texto, e obrigada por compartilhar conosco!

    • RESPONDER
      Amanda Negrão Lemos Melo
      01.09.2017 às 17:08

      Eu também não cogitava que isso fosse acontecer por muito e muito tempo, e nunca tinha parado pra pensar sobre a morte, eu nunca tinha perdido ninguém, minha cachorra tem 14 anos, eu não sabia oq era o luto ou a perda e comecei com a pessoa mais importante da minha vida. A morte é algo que está presente na vida, mas eu sei que é mais fácil fingir que isso não é a realidade. Por isso essa nossa busca em encontrar sentido na vida, viver o amor, encontrar nossa fé dentro de nós é tão importante.

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    Renata Garcia
    01.09.2017 às 13:06

    Perdi minha mãe aos 17 anos – hoje tenho 47, portanto, muito mais tempo passado na ausência dela do que juntas. O que sentimos vai tendo nuances diferentes ao longo do tempo, há aquela fase de “estou esquecendo do rosto dela, da voz”, que dá um pavor, há os momentos de lembrar do carinho, das broncas, do dia-a-dia e vou te dizer, ainda há momentos de sentir uma saudade que dói no peito de tal forma, que vc acha que vai perder o ar. A verdade é que todos os dias vem uma lembrança, que as vezes cai doce, às vezes doi um pouco…

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      Renata Garcia
      01.09.2017 às 13:10

      Isso de todo dia lembramos é muito real, todo dia eu lembro dela, penso nela, as vezes falo com ela. e sabe que mesmo na minha mente ela me da bronca, nem assim eu consigo fazer ela dizer oq quero ouvir kkkk

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