5 em Comportamento/ Deu o Que Falar/ maternidade no dia 22.08.2017

Child free e discurso de ódio não precisam andar juntos (é até burro, eu diria)

Duas histórias.

Primeira delas. Em Dezembro do ano passado fomos almoçar em um restaurante badaladinho aqui em NY. Lugar meio apertado, não dava para deixar o Arthur no carrinho. Chegando lá, perguntamos pela high chair, vulgo “cadeirão”, coisa que costuma ter em quase todos os restaurantes por aqui. Não tinha.

Ao entrar vi que era um lugar zero amigável para crianças, mesas pequenas com espaços entre elas bem apertados, enfim. Mesmo assim, eu não era a única com um bebê ali. A outra mãe ainda estava em uma situação ainda mais desconfortável que a minha, já que seu filho não devia ter nem 3 meses. Mesmo assim entramos, nos sentamos em um sofá e Arthur ficou revezando de colo para que todo mundo pudesse comer tranquilamente.

Foi meio desconfortável, mas para nossa surpresa, o atendimento foi tão atencioso conosco (os garçons perguntavam se a gente queria algo para o bebê, a hostess brincava e até o sommelier resolveu pegar ele no colo) que por mais que a falta de estrutura nos desse um sinal que aquele não era um lugar child friendly, nós ficamos super à vontade com o local. Mais do que isso, nós nos sentimos bem vindos, por mais que a impressão inicial fosse outra.

Segunda história. Saint Jean Cap Ferrat, Riviera Francesa. Resolvemos começar a viagem em grande estilo e planejamos passar o dia em um beach club na praia mais famosinha dessa área. Tom Cruise já foi visto por lá, Christian Grey & Anastasia Stelle já foram vistos nesse mesmo lugar (sim, teve gravação do filme ano passado rs), enfim, vocês entenderam.

Quando chegamos, me deparei com uma placa onde dizia que crianças menores de 12 anos tinham que pagar 16 euros para entrar no beach club. A gente até estava disposto a pagar, mas o problema é que era um sábado e estava já tudo reservado. Até hoje não sei se isso foi uma desculpa para não sentarmos ali com uma criança de 1 ano e meio, só sei que minha primeira reação foi ficar intimidada. No fim decidimos ir no restaurante, que ficava atrás do beach club.

Já tinha fechado o carrinho do Arthur e estava ajeitando ele no meu colo quando a hostess veio e perguntou: “vocês não querem uma high chair?”. E não só tinha high chair como botaram um pratinho com colher na frente dele, realmente uma terceira pessoa sendo considerada ali na mesa. O atendimento foi incrível e o staff nos deixou super confortáveis.

O que une essas duas histórias é que ambos os lugares não fazem questão de crianças. Não são preparados para elas ou então cobram para que a presença delas seja aceita. Mas não excluem os pais.

Recentemente chegou até mim a história da placa de um restaurante em SP que brincava que cachorros eram bem vindos e crianças tinham que ser amarradas em um poste. No começo eu achei engraçado e no primeiro momento achei um exagero a reclamação da mulher por causa de uma placa que claramente continha ironia. Até que eu comecei a ver os comentários e lembrei por que, por mais que não me incomode ver lugares que preferem manter distância de crianças, eu acabo sendo sempre contra o conceito child free.

Porque bradar que crianças não são aceitas reúne uma galera que se enche de orgulho pra dizer que odeia crianças, que as compara a peidos (vocês têm noção como essa comparação é agressiva??) e que tem sempre uma história de como seu sono no avião foi perturbado por alguém menor de 5 anos (se eu for contar a quantidade de vezes que não consegui dormir por causa de ronco alheio, coisa que me incomoda mais que choro, eu até perco as contas). E aí, nesse momento, você acaba lembrando como o mundo pode ser cruel com quem tem filhos. Como excluem pais e mães que decidem ter uma vida fora de casa.

Adivinhem só? Pais também acham que é muito mais fácil ficar trancado no apartamento do que sair e não poder curtir um almoço sem ter que se preocupar com talheres e guardanapos voando por aí em meio a olhares reprovadores. Mas se a gente fica em casa, as crianças não aprendem a viver em sociedade, não aprendem a se comportar nos lugares, e uma hora os pais se frustram porque é um saco ter que se contentar com delivery de comida.

A questão é que muitos pais vão ficando calejados dos olhares tortos, mas nunca é fácil achar normal ser excluído de algum lugar pelos próprios donos ou funcionários. Até de lugares que a gente olha e entende a proibição das crianças, é difícil dar meia volta sem a garganta entalar, porque antes de sermos pais, somos pessoas que nem sempre sabem lidar com rejeição e exclusão (aliás, taí mais uma coisa que ninguém fala muito quando entramos nesse mundo de maternidade).

O que muitos estabelecimentos sem motivos claros para adotarem a regra child free não entendem é que nem sempre a melhor estratégia para evitar as crianças é destratar os clientes que são pais ou pedir que eles deem meia volta e procurem outro lugar mais amigável.

Não tem nada melhor do que se sentir bem vindo e acolhido, e quando isso acontece em um ambiente onde não estamos nos sentindo tão confortáveis, é acalentador. E não, isso não vai fazer com que a gente queira voltar lá mais vezes com filhos, só vai nos dar vontade de voltar sem as crianças. Podem acreditar, não é preciso estimular discursos de ódio para se livrar da clientela com filhos.

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5 Comentários

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    Schaiane Jesus
    23.08.2017 às 0:16

    Não sou mãe e confesso que tava por fora disso, não sabia que tinha lugares que claramente ” evitam” crianças. Eu só me incomodo quando eu vejo que as crianças fazem o que querem e os pais não fazem nada, e não entendo porque levar uma criança para ver um filme que ela nem vai entender, daí obviamente ela vai ficar cansada e incomodar… , no caso dos bebes em aviões eles choram por algum motivo né, são bebes.

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    Livia
    23.08.2017 às 15:38

    Sinceramente a maioria dos adultos incomodam muito mais que qualquer criança. Fui essa semana num hotel (só para adultos- que ironia) sendo que tive q trocar de quarto pq de um lado havia um grupo histérico com algumas amigas que varavam a madrugada incomodando os outros hóspedes e em cima pré- adolescentes totalmente sem educação. Preferia mil vezes que o hotel estivesse tomado por crianças e bebês!

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    Tatiana
    23.08.2017 às 17:02

    Acompanho o blog há tempos, antes de passar pela mudança de foco, mas nunca comentei. Resolvi comentar porque sou mãe, e vivo uma realidade totalmente da sua, Carla. Entendo que o público alvo do blog são pessoas de maior poder aquisitivo, então espero poder contribuir com a minha visão de pessoa menos favorecida (rs) e não tão viajada. Minha filha já tem 10 anos então não passo mais por certas situações, mas é claramente desconfortável te olharem torto por entrar com uma criança pequena até numa lojinha xing ling, como se o ser humano fosse destruir tudo. Minha filha sempre pede sorvete quando saímos, e já enfrentei tantos olhares de pânico misturado com reprovação ao entrar em QUALQUER lugar com uma criança com sorvete na mão – mesmo no copinho, mesmo com ela maior , mesmo educando-a pra não por a mão melada em nada. Amo maquiagem e não me sentia bem em entrar com a minha filha nas lojas que não vou citar nomes , quando ela era menor, porque as vendedoras ficavam nos vigiando, com medo de ela passar a mão ou quebrar algum produto. No supermercado é outro sacrifício. Quando ouvem você negando algo pra criança te olham feio, se você deixa tudo te olham feio, se a criança chora te olham feio. No final das contas,as pessoas são muito chatas mesmo, com ou sem crianças por perto!

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    Denise
    27.08.2017 às 11:31

    Sempre adorei crianças e me dou muito bem com elas, apesar de não ter filhos.
    Também achei estranho esse movimento “anti-crianças”, e como faço sempre que surge algo assim, comecei a refletir sobre o assunto. Cheguei à conclusão que pode ser uma resposta às dificuldades que muitos pais tem em educar seus filhos, ensiná-los desde pequenos a conviver em sociedade.
    Oh, mas como ensinar bebes?
    Engana-se quem pensa que os bebes não entendem o que dizemos a eles; o que fazem é nos testar. Há alguns anos, ajudava uma vizinha com sua filhinha de 9 meses quando precisava sair e não tinha com quem deixá-la. Como tinha muitas coisas que ficavam ao seu alcance, fui ensinando o que podia, ou não pegar, e ela , aos poucos, já ia direto para “sua área”, para espanto de sua mãe!
    Sei que para os pais é mais difícil mas bebes precisam de atenção, crianças precisam ser ouvidas da primeira vez, e não na décima vez em que chamam “pai”ou “mãe”, aos gritos, correr entre mesas perturba mesmo, etc.
    Só que, por outro lado, TODAS as famílias tem crianças, precisamos entender que os pais nem sempre conseguem conter toda aquela energia, que um pouco de barulho não mata, etc.
    Difícil, né?
    É que restaurante zen, realmente não é lugar de muvuca, ninguém paga caro para ser perturbado, etc, etc, etc.
    Mas ainda prefiro crianças a cachorros, rsrsrsr

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    Lidy Alencar
    28.08.2017 às 17:01

    O mundo também é super cruel com quem não tem filhos, pessoas são excluídas de rodas de amigos e família por não terem filhos, se você opta por não ter filhos é certo que come criancinhas… enfim, parece que atualmente a vocação do “mundo” é mesmo para a crueldade. Só fico pensando onde isso vai parar.

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