4 em Comportamento/ Destaque/ maternidade no dia 07.08.2017

Quando ser mãe te faz sentir inútil

Recentemente eu tenho conversado com muitas mulheres que largaram tudo para viverem a maternidade plenamente. Muitas fizeram essa escolha de forma consciente e preparada, algumas foram pegas de surpresa, tantas outras estão passando pelo mesmo que eu, isso é, mudaram de país para acompanharem seus maridos, muitas largaram seus trabalhos (e muitos vistos não permitem que as/os acompanhantes trabalhem) e se depararam com a vida no exterior.

A verdade é que não importa a escolha que você tenha feito, o que eu tenho percebido é que em 100% dos casos, nós não estamos preparadas psicologicamente para o que a maternidade 24 horas faz com as nossas cabeças.

Nos dias de hoje poder parar tudo (ou ter que se ver parando tudo) para cuidar de uma criança é um privilégio, todas sabemos. Mas existe um lado B que quase não se fala e que eu só descobri depois de alguma intimidade com outras mães. E hoje, toda vez que eu abordo o assunto com qualquer mulher que tem filho, todas admitem. Talvez isso fique meio escondido porque muitas sentem que expor essas questões vai fazer com que pareçam mal agradecidas? Não sei, mas resolvi abrir aqui.

O que nos une, independente da forma que chegamos na função de mãe em tempo integral, é que todas nos sentimos inúteis eventualmente. Emburrecidas. Desestimuladas. Exaustas.

Pode parecer contraditório sentir-se inútil depois de um dia fazendo mil coisas. Mas sabe aquele momento que você só quer botar os pés para cima e assistir uma serie na Netflix ou ler um livro na santa paz? Se você conseguir terminar um filme, um episódio ou um capítulo sem ouvir choro ou sem ter uma criança puxando seu cabelo, gritando nos seus ouvidos ou fazendo alguma besteira (porque silêncio na casa provavelmente é porque tá acontecendo algo potencialmente perigoso) considere-se uma sortuda. Aquele momento que você quer ir no banheiro e acaba ficando muito mais porque viu uma discussão super interessante no Facebook? Se seu filho já anda provavelmente você terá plateia – e terá que largar o celular de lado. Sua amiga te liga chorando porque levou um pé na bunda? Tudo o que você mais quer é ouvir tudo que ela tem para falar e, de quebra, xingar muito o indivíduo, mas sua conversa provavelmente vai ser interrompida muitas vezes porque você estará gritando para a criança não fazer isso ou não beber a água do cachorro (caso super real e recente esse, inclusive rs).

Caso você tenha um trabalho de home office, lembram o caso do correspondente da BBC?

a cara desse homem me define em tantos momentos..

 

Isso vai acontecer contigo, só que provavelmente não vai ter uma mãe desesperada tentando levar as crianças para fora do escritório porque você será a mãe desesperada pedindo desculpas pelo call cheio de barulho (e tendo que se desdobrar para conseguir prestar a mesma atenção de uma pessoa sem interrupções inesperadas).

E não importa o quanto seu marido ajude na criação dos filhos ou nos afazeres de casa. Ele pode ser praticamente o irmão perdido do Rodrigo Hilbert, mas você vai se sentir assim, nem que seja um pouquinho. Porque é normal no meio de troca de fraldas, choros, “ fulano saia daí”, “sicrana, não pode”, “vem sentar pra comer”, sentir que não tá dando conta de nada na verdade.

E aí você também vai sentir falta do ambiente de trabalho, de ter conversas com adultos cujo tema não envolva filhos ou crianças, de poder sair de casa livremente por aí, despreocupada, sem tralhas e sem preocupação de onde fica o banheiro mais próximo porque a criança precisa trocar a fralda ou fazer xixi, só para ver o que está acontecendo no mundo que não seja através de uma tela de televisão ou de celular (e sempre com barulhos interrompendo). Tudo para diminuir essa sensação de emburrecimento que a gente sente.

Você vai sentir inveja da mãe que está voltando da licença maternidade – provavelmente ela te inveja também, mas isso é outro papo – vai sentir inveja do seu marido e, por fim, você vai se sentir inútil novamente, mesmo passando o dia apagando mil incêndios.

Não me leve à mal, não estou falando isso em tom de reclamação, arrependimento ou até mesmo para desencorajar ninguém. Eu nunca vou me arrepender da minha escolha. Tampouco o amor que sinto pelo Arthur fica menor por eu não estar sentindo apenas coisas boas, mas eu acredito que boa parte desse dilema que mães vivem só acontece pois por muito tempo tivemos medo de falar sobre isso. Medo de soarmos ingratas, mal agradecidas, infelizes. Nananinanão. Eu não sou nada disso, e tenho certeza que você também não.

Inclusive, se eu tivesse que escolher de novo – e sabendo de tudo que vem pela frente – eu escolheria novamente. E novamente.

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4 Comentários

  • RESPONDER
    Renata Fernandes
    07.08.2017 às 14:18

    Cá do céu!
    Vc conseguiu descrever o que sinto!
    O amor pelos meus filhos não muda, ou minha decisão, mas esse sentimento de inutilidade bate sempre 😣
    Beijos em meio a “senta pra comer” e “lave as mãos” 😂

    • RESPONDER
      Carla Paredes
      08.08.2017 às 12:25

      <3 <3 hahaha Amei os beijos

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    Caroline®
    08.08.2017 às 13:29

    “Inclusive, se eu tivesse que escolher de novo – e sabendo de tudo que vem pela frente – eu escolheria novamente. E novamente.” Parabéns pela firmeza. Eu, que só conheço a experiência materna das outras, não sei se teria disposição para essa escolha. Lembrei de uma frase que li não sei onde, de uma mãe em modo desabafo: “amo meu filho, mas não amo ser mãe o tempo todo”. Parecer ser bem isso mesmo. Deve ser muito difícil renunciar completamente a si mesmo, ainda que por tempo determinado (as crianças crescem, né?).

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    Rita Durigan
    14.08.2017 às 19:03

    Poder estar presente e fazer parte da vidinha da minha filha é o melhor presente que a vida poderia dar pra nós duas. Mas a sensação do “mas o que vc fez o dia todo?” cai como uma bomba todo santo final de dia. Me faz sentir totalmente inútil. Eu sei, estou criando um ser humaninho pra esse mundão tão complicado e isso é nobre, toma tempo, energia e estou focada nisso. Mas diante das pilhas de roupa e louça sujas; dos emails, whats apps e messengers pra responder; dos banheiros pra lavar; da unha mal feita; dos livros e filmes na lista de “quero ler/ver antes de morrer” eu digo: não me ofereçam uma babá pq cuidar da minha pequena é o que eu mais amo. Eu preciso de ajuda pra todo o resto ;)

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